domingo, 21 de agosto de 2022

Será que a morte chega com um afago ?

 

Será que a morte chega com um afago?

 

Será que a morte chega com um afago?

Um abraço afetuoso para dar boas-vindas,

Um olhar compreensivo de acolhida,

Uma mão estendida sem que aponte um dedo inquisidor,

Pois quem chega quer deixar o peso inútil de um corpo abandonado,

Que talvez sirva de remendo ou uma segunda chance,

Ou não mais que cinzas e mero alimento,

De volta à terra

 

Será que a morte chega com um sorriso?

Puro, sem malícia, sem falsas intenções

Uma luz guia, uma porta que se abre sem rangidos,

Um tapete macio onde os pés perceberão firmeza,

E um passo será mil,

E um salto cobrirá montanhas,

O caminho livre, sem obstáculos, sem atropelos

A estrada sem fim

 

Será que a morte vai ser justa?

No tempo certo, na hora exata,

Sem engano de identificação,

Sem que a escolha tenha sido adulterada,

Sem que se pretenda um atalho,

Que não se parta deixando dívidas nem dúvidas,

E que não sobrem cartas de despedida a serem escritas,

Nem o brinde final sem esvaziar todo o cálice.

 

Será que a morte chega de frente?

Sem surpresa, sem dor ou lamento,

Mais uma etapa, mais um capítulo,

Outra aula, infindáveis aulas, necessárias aulas

De uma graduação eterna,

Sem que se possa saber o momento em que o aluno vira o mestre,

Nem quando o carbono vira diamante,

E o fim volta ao começo.

 

Será a morte um prazer?

E as músicas que me escapam serão tocadas com arranjos perfeitos,

As imagens que inundam minha mente serão projetadas em telas planas colossais

As palavras soltas serão reunidas em longas frases,

Em discursos que adocem os ouvidos e tragam conforto e esperança,

Os sonhos estarão materializados e eu não precisarei esperar pelas noites jamais

Não quero choro, nem vela, nem uma fita púrpura, negra ou amarela,

Só quero me encontrar com todos novamente

 

Será?

 

                                                                            Ivan Henrique Roberto

                                                                                         21.agosto.2022

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Quando fecho os olhos

 Quando fecho os olhos


O grande medo
A grande angústia de perceber as praias de um grande continente desabitado
E eu, náufrago e argonauta, as marés me levando
Minhas cartas náuticas encharcadas de suores noturnos.
As estrelas mais me confundem e me infundem o terror da nostalgia,
Minha tripulação de línguas diferentes, objetivos divergentes, lassidão e cansaço.

Logo aportarei, se não for uma miragem
Percebo há muitos anos as praias do novo continente quando fecho os olhos
Eu, timoneiro abafando motins
Mergulhador das profundezas abissais,
Trago pérolas ignoradas
Relíquias trancafiadas para o momento oportuno

Retiros isolados guardados pelo sono dos justos
Semeado de pesadelos abissais
O grande medo, a velha angústia
Eu, o andarilho das trilhas tortuosas da razão,
Picadas na mata espessa, no caminho do túmulo ou do santuário.

Quem me segue? Não tenho tropel ou tropas
Apenas vontade
Estudo à sós as opções, vales movediços e planícies monótonas.
O caminho dos espinhos é mais excitante
Rasgariam minhas roupas comuns
Romperiam a grossa casca da contemplação.

Furos nos pés plantados, que estão criando raízes cada vez mais profundas.
E cada vez mais seiva me escoa.
Flores crescem ao redor das mãos como algemas,
nas trilhas desta mata espessa.
As flores de aroma inebriante quando fecho os olhos
O grande medo, a grande angústia

Uma ave noturna que sai a procura de sutilezas, de semitons e de matizes, Eu.
Que bato asas e parto quando farejo a ignorância.
Seu efeito é nocivo e destrutivo
Me afasto e me protejo
pois pretendo ouvir o canto dos oboés e das trompas por toda minha vida
e não vou perder meu tempo com quem só ouve, e se identifica
com pancadas, gritos e bombas.

Vou por meus ovos em profundo silêncio nos retiros isolados
Guardados pelos sons puros
Eu, uma ave noturna que descobre caminhos perfumados
bem distante do lixo e de seus negociantes
eu, que fecho os olhos e percebo as praias de um belo continente.

Ivan Henrique Roberto, 11 de novembro de 1988