domingo, 8 de outubro de 2017

Um dia inesquecível (parte 3)

                          O Executivo municipal meio tardiamente começou a se mover, mas a situação já se mostrava fora de controle. A articulação requerida para fazer frente à esta demanda gigantesca estava prejudicada pela demora, pela dificuldade de comunicação e pela dificuldade de locomoção. Centenas de ligações por celular já estavam sendo feitas, e dezenas de celulares dos mais altos escalões da prefeitura já estavam descarregados, sem bateria e sem possibilidade de serem recarregados. Muitas pessoas a esta altura até ficariam felizes de tomar um pequeno choque elétrico se encostassem numa tomada exposta, mas nada de energia. Quem por precaução mantinha um estoque de velas em casa muito que bem, estava garantido, porque com a maioria dos supermercados, mercados de bairro e padarias fechados se a situação se prolongasse pela noite adentro teríamos uma pequeníssima amostra da Idade das Trevas em plena Era da Informação, nossa era atual com todo o aparato tecnológico que enchia de orgulho toda uma geração de pessoas nascidas na bonança mantida por controle remoto.
      Dentro dos prédios com seus elevadores parados, as pessoas foram arrombando as portas automáticas e abrindo à força as portas dos andares e as saídas de emergência para libertar o número incalculável  de pessoas presas, muitas desmaiadas, muitas em estado de choque, descompostas, descabeladas, suadas, muitas brigas acontecidas pelo contato muito próximo entre os cidadãos polidos, educados e contidos até que a contrariedade vencesse a polidez e a educação, forçados é claro pela situação extrema a que foram levados. Um dia inesquecível, um dia para ficar na história.
        De volta ao marco zero, no estopim da confusão, Edgar tão desconcertado, que já nem se importava mais com nada, vendo o redemoinho ao seu redor. Depois de muito esforço, muito empurra-empurra, muita sirene os carros de bombeiros conseguiram chegar no local da explosão e do incêndio. Com este reforço muito bem-vindo o ataque às chamas agora começava a surtir efeito, e a situação finalmente começava a mudar. Um ânimo renovado dominava o ar. Até Edgar foi contagiado pelo entusiasmo que pairava agora ao redor. De repente ele lembrou de alguém que poderia reverter aquela situação: O Dr. Christallos Peidonides, seu professor na extensão universitária, um engenheiro-físico-enxadrista, entre outros atributos, grego de nascimento e viajante internacional, cujo conhecimento certamente traria uma solução rápida para interromper aquele efeito dominó de desligamento da energia. Edgar verificou seu celular que ainda tinha carga suficiente e ligou para o Dr. Peidonides.
- Alô Dr. Peidonides?
- Prronto, quem serrr?
- É o Edgar da Cia. de eletricidade, lembra de mim? É uma urgência!!!
-Sim, sim, lembrrei, o que está a acontecerr?
-Em resumo, houve uma explosão na central de distribuição de energia, toda a rede foi afetada, e que me lembre o senhor têm soluções rápidas para situações de crise como esta.
- Nom me digas! Sim, sim, por Téos, porrisso esta confusón que se escuta da janela?
-Sim, preciso de sua ajuda.
-Cerrto, diga-me, a estaçón foi parra burraco?
-Sim, está ardendo em chamas.
-Entón eu vou parra estaçón mais perrto de mim, e alterro programa e deixo estaçón como neo centralis de enérgon. Você poderria ir junto?
- Não creio que consiga chegar, porque o trânsito está uma calamidade.
- Nom serrr prroblemum, posso fazerrr sozinho, só avise segurrança que estoi a camino,si?
                     -Sim, é claro professor, muito obrigado pela sua ajuda.
    O prof. Peidonides largou seu bouzouki, onde aprendia uma velha melodia grega e foi imediatamente para uma das estações secundárias, que funcionava em rede. Dirigiu-se para a sala de controle, acessou o servidor, introduziu seu programa de contenção e gerenciamento para situações de crise e em poucos minutos a estação era religada. Num efeito dominó reverso as outras estações foram sendo religadas e a energia aos poucos ressuscitou naquela cidade imersa num colapso. O relógio marcava 18:18 h. À medida que a energia voltava e as lâmpadas acendiam ouviam-se gritos, assovios, palmas, uma sensação de alívio, pessoas choravam, outras se abraçavam, estava afastada a entrada naquela zona de trevas que traz no íntimo de cada um o medo ancestral do escuro com toda a insegurança e espectros imaginários embutidos nas células dos seres humanos. Apenas o perímetro em torno da estação acidentada continuou sem eletricidade. A cidade começou a voltar à sua normalidade, de milhões de pessoas apressadas, de milhões de veículos lutando por espaço no asfalto, de milhões em negócios feitos e desfeitos, de um sem número de encontros e desencontros de pessoas a procura de algo ou alguém, a rotina tão conhecida e tão confortadora.
      Edgar respirava compassadamente traçando um roteiro do que deveria ser dito para explicar o que havia acontecido e de seus infortúnios, e das sugestões que faria para evitar que algo semelhante acontecesse novamente, de como era estúpido e perigoso deixar tanta responsabilidade nas mãos de somente duas pessoas. Perto dali um ajudante de pedreiro sonhador e assustado decidiu calar para sempre sobre seu ato impensado e algo mecânico de testar a pontaria com cascas de frutas. Apesar de ser ajudante de pedreiro ele era esperto e inteligente o suficiente para perceber a sequência de fatos e a consequência destes fatos, e viu que poderia ser acusado de ter sido o causador daquela confusão monumental e dos prejuízos incalculáveis decorrentes daquele dia infernal. Ficou tão agastado que, num reflexo sutil e não percebido de pronto, jamais comeu outra banana em sua vida, assim como ficou bastante tempo sem olhar para o céu em contemplação.
      A noite chegara límpida, estrelada, inspirando calma; sem saber o que havia acontecido durante o dia, toda a balbúrdia, toda a consequência de uma rotina quando sai dos trilhos, a noite não precisa saber destas coisas. Uma cidade exausta foi dormir para acordar no dia seguinte e contabilizar seus prejuízos materiais e morais. Edgar chegou cedo a seu departamento pronto para assimilar todos os golpes que sabia que iria receber. Já um batalhão de repórteres se apossava do hall de entrada e da sala de imprensa e um diretor com cara de pouquíssimos amigos fuzilara-o com o olhar, o mesmo diretor que não fora localizado no dia anterior, pois saíra para almoçar com uma atraente lobista de uma empresa alemã de equipamentos elétricos e desligara seus celulares para não ser incomodado.
       O Dr. Cristallos Peidonides candidamente havia enviado para a Secretaria de Fazenda, com cópia para o gabinete do Prefeito, uma correspondência relatando como havia conseguido estancar o problema, usando de seus vastos conhecimentos e de sua presteza em atender ao pedido de seu atento aluno, e a título de gratificação pelo serviço prestado cobrava a módica quantia de Um milhão de euros, uma ninharia perto dos prejuízos ocorridos, finalizava ele em sua correspondência com alguns erros de português, fato este bastante desculpável pelo fato de sua origem, sua poliglossia e por ser o Português uma língua difícil.
     

                                                                                 Ivan Henrique Roberto   maio/2008

Um dia inesquecível (parte 2)

                                                                             Uma linha traçada desde o zênite até esta cabeça de homem em pé no meio-fio não serviria para nada, a não ser para, de alguma forma, traduzir o estado de desalento e impotência deste homem e levá-la de volta para lugar nenhum, pois mesmo que houvesse alguém ou algo para receber esta mensagem, de nada adiantaria, pois, nada nem ninguém poderia acudi-lo quando o estrondo da explosão foi ouvido pelos dois homens, assim como por milhares de pessoas que moravam num raio de três quilômetros.
      Um grande estrondo ressoava pelo ar, logo centenas de pássaros revoavam atordoados, os cachorros ganiam desesperados e se encolhiam procurando abrigo. O som da explosão foi sumindo e em seguida e por um breve instante pareceu ter havido um silêncio inédito naquela cidade que não silenciava nem durante a noite. Um momento em suspensão como um lapso de tempo. Mas logo voltou aquele ruído de fundo que nunca pára, aquele emaranhado de sons, alguns próximos, outros mais distantes. Os moradores das casas vizinhas começaram a aparecer, querendo entender o que havia acontecido, já aos celulares para saber dos vizinhos e moradores próximos o que estava acontecendo. Hipóteses começaram a brotar; uns dizendo que era um ataque terrorista, outro dizia que tinha ouvido um avião voando baixo, um terceiro achou que era um meteoro vindo do espaço sideral, uma senhora já rezava fervorosamente dizendo no intervalo das frases da oração que era castigo divino pelos pecados inumeráveis daquela vizinhança, não obstante serem pessoas comuns vivendo dentro das normas sociais aceitas. Um bêbado trôpego enrolando a língua dizia que havia passado da conta porque aquele último trago tinha dado um estrondo no seu ouvido.
     Com as mãos na cabeça e olhar perdido Edgar pensava nas consequências daquele evento, e no que teria de dizer para explicar porque não havia impedido que uma estação tão moderna e segura tivesse dado aquela pane. Pedrinho ao seu lado já um pouco mais refeito se prontificou a acompanhá-lo até a estação, num impulso para minorar uma situação que ele sabia ter implicação direta, e sem nem se dar conta que poderiam se deparar com um inferno de chamas.
- Vamos senhor, vamos ver o que está acontecendo.
- Sim, vamos. Ligarei para a brigada de incêndio, ligarei para os bombeiros, ligarei para o meu diretor, preciso fazer alguma coisa!
        Três quadras adiante já se podiam ver os rolos de fumaça escura subindo para as nuvens, assim como já se ouviam as sirenes dos primeiros carros de bombeiro que chegavam. Com bastante rapidez já começaram a isolar a área e agir para contornar o problema. Muitos curiosos já se aglomeravam no local e helicópteros sobrevoavam para dar notícias em primeira mão para as rádios locais. Logo os primeiros semáforos começavam a apagar e piscar intermitentes, e a primeira colisão aconteceu. Num efeito dominó tão preciso quanto terrível os semáforos foram se apagando, e os motoristas, que muito se assemelham a um rebanho descontrolado que precisam de um pastor que o conduza, logo perceberam a confusão que se instalava. Buzinas dos mais diversos sons e formatos já eram ouvidas próximas e à distância e mais e mais colisões aconteciam.
       A estação acidentada servia de central de comando para as demais subestações da rede, era considerada como sendo muito avançada tecnologicamente, tão avançada que quase prescindia da presença de seres humanos para operá-la, era motivo de orgulho da empresa de energia e até motivo de visitação turística para o bairro antes tão tranquilo. Mas nem tudo pode ser previsto pelos engenheiros e analistas e a mensagem truncada que havia chegado ao laptop de Edgar era o resultado dessa imprevisibilidade. Agora ela ardia em chamas e os primeiros carros de bombeiros que chegaram não conseguiam dar conta de tamanha tarefa. A brigada de incêndio foi localizada, o quartel dos bombeiros foi avisado. Porém a reação em cadeia havia começado, o trânsito em questão de minutos já saíra de controle e as novas viaturas dos bombeiros já tinham muita dificuldade para avançar. A energia ia sendo desligada à medida que as subestações iam sendo bloqueadas após o acidente com a central. Menos de quinze minutos se passaram após a explosão e já metade da cidade estava com os semáforos desligados. Eram 12:30Hs quando a explosão aconteceu, a esta altura centenas de elevadores já estavam parados nos edifícios com milhares de pessoas em seu interior.
        A sociedade humana moderna é um espanto de avanços tecnológicos, artifícios engenhosos que deixam muitos de queixo caído e enchem de orgulho os otimistas que creem cegamente no progresso material da humanidade, e muitas vezes parece que ao subirem demais largaram a escada para trás. Tantas pessoas presas nos elevadores modernos a esta altura devem estar pensando: O que foi que aconteceu? Porque está demorando tanto? Eu tenho compromissos inadiáveis e não posso faltar, eu tenho uma entrevista em meia-hora, eu tenho que ir ao dentista, eu tenho medo de ficar apertado, eu tenho medo de ficar junta com todas estas pessoas, porque está demorando tanto?
        As linhas telefônicas de atendimento de emergência da distribuidora de energia já estavam congestionadas, mas ainda não se sabia ao certo o que havia acontecido. Os escritórios movidos a computadores começavam a parar, os supermercados conectados em rede começavam a parar, ainda era dia muito claro, mas a informação nos caminhos virtuais começava a escassear sem a energia para carregá-la nas costas e chegar aos seus destinatários, todos ávidos e dependentes da informação e da tecnologia mais avançada para disciplinar suas vidas. Muitos braços começavam a ser cruzados, sem ter o que fazer, e com isso crescia a ansiedade. Muitos rostos já estavam debruçados nas janelas olhando a balbúrdia dos carros.
       Nas ruas reinava uma confusão total, nenhum semáforo estava funcionando, atravessar um cruzamento era questão de sorte ou de fazer valer a lei do mais forte. Os pedestres, coitados, dificilmente conseguiam chegar na outra calçada, o caos em comunhão com a discórdia fatalmente lega a gentileza e a civilidade a um segundo plano, salve-se quem puder é a norma de comportamento, num ponto onde séculos de cultura, a busca do refinamento e da educação e as regras de boa convivência são apagadas em pouquíssimo tempo.
       De volta ao local da explosão, Edgar tentava um contato com seu diretor, que a esta altura já havia saído para almoçar. Seu celular estava fora de área, suas tentativas foram em vão, ninguém estava disponível para auxiliá-lo nesta confusão. “Maldita casca de banana” pensou, “teria chegado a tempo; quem foi o desgraçado que a jogou na rua? Agora tô eu aqui na pior, e o que eu vou dizer? Daqui a pouco a imprensa chega e logo vai querer saber a causa da explosão, e todos sabem que no final sobra no lado mais fraco da corda”. Todavia a imprensa não conseguia chegar preto, ninguém conseguia chegar perto, só os helicópteros no alto davam notas esparsas a partir de seu ponto de vista. Como as coisas costumam acontecer em cadeia, os hidrantes próximos apresentavam defeitos, com pouca vazão de água, canos furados por falta de manutenção decente, desvios de água, entre os principais problemas, sem contar que até uma Kombi velha já havia sido achado na tubulação de água, quem dirá a quantidade de coisas menores que ficam entulhadas nos canos? Os bombeiros que já estavam no local logo perceberam que a batalha era inglória e as outras equipes não chegavam.
      Duas horas já haviam escorrido pelo ralo daquele dia que já estava infernal. As escolas começavam a interromper as aulas, as lojas prudentemente desciam e fechavam suas portas, os ônibus nem conseguiam trafegar, mas já estavam lotados, e nem era hora do rush ainda. Muitos motoristas largavam seus carros e saíam andando, até uma Maseratti de 500 CV, tão potente e tão veloz, parada num cruzamento, estática, mostrando suas belas formas de design italiano poderia ser ultrapassada por um ciclista em sua modesta companheira de 2 rodas movida a tração humana. Ambulâncias com sirenes no máximo de volume e a muito custo conseguiam abrir caminho. Poucas delas conseguiram chegar aos hospitais e clínicas, os obituários dos jornais no dia seguinte tiveram suas colunas aumentadas.
       Os rumores circulavam, se espalhavam, criando vida própria de acordo com o interlocutor: dizia-se que era um ataque terrorista, ou que um bando armado havia tomado de assalto um shopping de luxo, mantendo dezenas de reféns, ou mesmo que um vazamento radioativo havia se espalhado após o tombamento de um enorme caminhão-tanque, já com muitas vítimas fatais num raio de 2 Km do acidente. A tensão subia em espiral, o medo já se espalhava e contagiava os cidadãos já tão sobrecarregados com os problemas cotidianos. Muitos que tinham ouvido a explosão reforçavam a ideia de um ataque terrorista, mesmo que nunca tenha havido nenhum registro deste tipo na história recente desta cidade, nem na história mais recuada.
        A unidade de gerenciamento de crise da prefeitura havia sido avisada do que de fato havia acontecido, e procurava divulgar mensagens na tentativa de orientar, articular uma saída, estabelecer um pouco de ordem no que parecia ser, a esta altura, um quadro de calamidade pública, só que mais da metade da cidade já estava sem energia e os comunicados por televisão não poderiam ser divulgados. Por rádio somente nos automóveis, caminhões, vans, táxis, etc., é que poderiam ter um alcance maior, porém ninguém conseguia se locomover. A articulação estava bastante dificultada, só os celulares ainda tinham algum poder de comunicação rápida.
       Quatro horas da tarde o fornecimento de água já estava ficando comprometido, pois as bombas, na grande maioria elétricas estavam impavidamente paradas, as que funcionavam a diesel gastavam rapidamente seu combustível. Nesta altura do dia começaram os primeiros saques, muitas lojas que teimavam em ficar abertas ficaram desguarnecidas e o policiamento lutava desesperadamente para conseguir controlar o incontrolável, então vários bandos se aproveitavam da situação, como cães selvagens que cercam a presa aturdida pela espiral frenética de confusão e desordem. Daí para o confronto foi um pulo, pois várias brigadas das forças de segurança já haviam conseguido se deslocar. Na zona de comércio mais popular por volta das 16:30 hs. o som de garrafas quebradas, vidros quebrados, gritos, correria, já era a tônica. Carros saqueados, lojas saqueadas, ambulantes atacados, pessoas roubadas; a pilhagem já começava a correr solta, o tênue equilíbrio da vida em sociedade estava por um fio, com uma facilidade muito além do aceitável este equilíbrio muitas vezes é rompido. Balas de borracha, gás de pimenta, gás lacrimogênio entupiam o ar e uma praça de guerra se apossou de uma praça onde artigos para consumo, presentes, mimos, brinquedos, eram vendidos e compradas pacificamente , levando alegria e satisfação para tantas pessoas.

Um dia inesquecível (parte 1)

                                            Um dia inesquecível  
                                         maio/2008

          “Nosso campo de visão é muito pequeno, nosso tamanho é tal que só vemos uma minúscula fração de uma grande teia, dentro de uma teia muito maior, que alguns só de pensar nela perderam sua sanidade, e outros, só de tentar se cansaram logo, desistiram e foram tomar café. Quando olho para o céu traço uma reta entre minha cabeça e o zênite, e penso se esta reta teria fim ou se tocaria o solo de alguma estrela ou planeta distante. Acho que no máximo rasparia em algum satélite em órbita, ou menos ainda, esbarraria num avião muito alto em sua rota, insuficiente para derrubá-lo, não, Deus me livre de pensar numa maldade desta! Neste momento acho melhor para de pensar em tanta besteira, que não sou pago para isto, e comer minha banana saborosa. ”
        “Acho que vou jogar a casca lá no chão da rua, ninguém está vendo mesmo”. Tal discutível ato de falta de civilidade, para não dizer de falta de higiene teve lugar nesta rua tranquila onde uma casa estava em reforma, e na laje do segundo andar Pedrinho Júpiter, auxiliar de pedreiro e astrônomo nas horas vagas, assentava a massa da construção. Esta era uma combinação pouco comum, uma pessoa ser ao mesmo tempo auxiliar de pedreiro e astrônomo, mas Pedrinho Júpiter sempre gostou de olhar o céu, o céu o fascinava. Não que ele fosse astrônomo de verdade, daqueles que estudaram física a sério e fizeram estágio no Monte Palomar ou no Havaí, ele só gostava de ler sobre o assunto e ver programas na televisão que mostravam belas imagens dos planetas e das luas, das estrelas, das galáxias. De tanto olhar o céu, mesmo nos horários de trabalho, é que Pedrinho ganhou o “sobrenome” Júpiter.
        A casca de banana foi se instalar na calçada, próxima do meio-fio. Ao mesmo tempo um homem havia dobrado a esquina, e vinha andando próximo dos muros e portões das casas, com bastante pressa, quase correndo. Na casa vizinha à casa em reforma uma pedra solta fez com que desviasse em direção ao meio-fio. O homem desviou da pedra, mas como estava andando muito rápido não teve tempo de desviar da casca de banana e vupt! Pisou em cheio e escorregou feio. Caiu estatelado, de queixo no chão, largando sua pasta que bateu com força também e espalhou seu conteúdo: diversos papéis voaram pela rua vazia, alguns até caíram num bueiro colado ao meio-fio.
O homem desmaiou ao bater com o queixo no chão, mas naquela rua vazia e sem trânsito naquela hora ninguém presenciou esta cena.
      Bem, uma pessoa viu a cena. Pedrinho Júpiter viu a consequência de seu ato. No momento ficou pasmo e ao mesmo tempo envergonhado quando viu o homem caído no chão. Passados alguns minutos, ao se dar conta de que ninguém aparecia para socorrer o homem, resolveu descer para ajudar pois sabia que também ninguém o havia visto jogar a casca. Chegou próximo ao sujeito que começava a acordar, com o queixo raspado e sangrando de leve. - Olá amigo, que tombo feio hein? Você está bem?
       -Sssimm acho que estou... estou só um pouco tonto…onde está minha pasta?
       -Aqui está sua pasta.
        O homem recobrava sua consciência e sua memória, e quase deu um salto...
      -Meu Deus, onde está o papel com a senha??? Gritou desesperado, mexendo nos papéis que havia juntado, nem sentia a dor no queixo quase quebrado.-Eu preciso da senha! Olhou no relógio e ficou mais pálido ainda.
      -Quanto tempo eu fiquei caído aqui?
      -Cerca de cinco Minutos, disse-lhe Pedrinho já assustado.
      -Ai caramba, não vai dar tempo, vai ser o caos total! Total! Total!
        A cerca de dois minutos dali existia uma estação de energia, que servia como uma chave de segurança para o sistema de distribuição, e que atendia à cidade e as cidades menores ao redor. O homem acidentado estava se dirigindo para ela, ele era o operador mestre do sistema e carregava consigo a pasta com as senhas de segurança, pois havia recebido um aviso em seu laptop que uma falha muito incomum havia ocorrido e ele precisava chegar a tempo para tentar corrigir. O pneu de seu carro havia estourado duas ruas antes desta, ao passar sobre um parafuso que caíra de um caminhão. A esta altura já bastante nervoso largou o carro onde estava e saiu quase correndo pela rua.
    A estação era quase automática, poucos funcionários trabalhavam no local e só Edgar (este era o nome do homem) no momento tinha acesso irrestrito ao sistema e às senhas. Outro colega seu, com o outro código de acesso estava de férias.
      Pedrinho começou a ficar realmente preocupado, apesar de ser auxiliar de pedreiro ele sabia bem o significado da palavra caos, e sabia também que o tal do caos tinha alguma coisa haver com ele, pois sem aquela casca de banana Edgar teria chegado na tal estação. Teria chegado mesmo?
-Senhor, a que caos o senhor está querendo dizer?
-Estou dizendo que agora é tarde e eu não vou conseguir acessar o sistema e conseguir impedir a explosão.
“Explosão”. Agora Pedrinho gelou por dentro, a mal conseguiu balbuciar...
-Ex..Ex....plosão, tipo explosão com muito barulho, destruição, fogo?
-Sim, mas não que vá atingir as casas próximas, só que a energia vai ser cortada e eu não sei por quanto tempo vamos ficar sem energia, nós eu quero dizer todo mundo, toda esta cidade, com seus milhões de habitantes, elevadores, hospitais, semáforos, geladeiras, computadores, lojas, indústrias, ........
-Mas, e os geradores?
-Os geradores só garantem por algum tempo, e eu estou falando de muito tempo sem energia, entende? 
     Pedrinho se aprumou um pouco e falou: - Venha, que eu o ajudo a chegar lá, talvez dê tempo?
- Mas sem o papel com a senha principal não adianta!
           Pedrinho olhou para dentro do bueiro nesta hora e viu um papel pardo, só que todo molhado e sujo.
-É um papel pardo?
-Sim, ele está aí?
-É, mas...acho que já era...
        Edgar já de pé olhou para dentro do bueiro e constatou o óbvio:
-Fudeu!!!!!

domingo, 1 de outubro de 2017

Oto (3ª parte)

Quando se levantou num susto, Oto deixara cair um dos relatórios que estavam cobrindo sua cabeça, abafando-o. Eram 00:45 h já na madrugada e seu peito parecia uma turbina dentro de uma indústria. Levou alguns segundos para se recompor e se lembrar que estivera sonhando. Um sonho lindo à princípio que se transformara num pesadelo assustador. Oto apruma-se no sofá e pensa tantas coisas ao mesmo tempo, como uma vertigem. Como o abismo que estivera prestes a cair segundos atrás. Ainda respira com dificuldade, mas pouco a pouco coloca seus pensamentos em ordem. E a palavra mágica voltou na memória: “ Eu disse um NÃO muito firme e o foi o que me salvou. Quando foi que eu disse um não deste tamanho? Acho que nunca”. Ele estava um tanto surpreso consigo próprio, o súbito despertar parece ter pego Oto num momento em que sua guarda estava totalmente baixa, ele estava indefeso para os rótulos que se prendem às pessoas e naquele momento, mesmo que uma fração infinitesimal do tempo, ele experimentou a possibilidade de ser completamente diferente do que vinha sendo por tantos anos. A madrugada abriga em seu cerne esta estranha propriedade ambivalente, de clarear a mente elucidando questões complexas e arraigadas no mais profundo íntimo, e ao mesmo tempo desmascarar as amarras sutis ainda que perversas, que tolhem os movimentos das muitas pessoas incompletas, cujo brilho fica mais e mais baço e terminam por abrir mão de seus sonhos e seus desejos, por medo, vergonha ou o quer que seja.
     Esta fração minúscula de vida logo passou e Oto já se levanta, esfrega os olhos e custa a acreditar que tal pensamento tenha ousado cruzar seu cérebro tão organizado. Ainda com o coração acelerado e intranquilo ele se depara com a grande quantidade de relatórios, pedidos e anotações que preenchem sua rotina. O sono volta a requerer sua atenção, mas ele estava um pouco assustado com a experiência e com as lembranças muito vívidas, ali como se defronte de seus olhos. Aquele rosto moreno e atraente deixara-o desorientado. A Lua muito clara parece encará-lo, pedindo uma resposta. Mas que resposta? A madrugada é um território que Oto não têm muita afinidade, o território dos boêmios, sonhadores e românticos, o oposto de sua figura pública tão ordeira e convencional, quase insípida diriam alguns. Oto liga seu sistema de som bem baixinho para não incomodar os vizinhos e tenta arrumar companhia na forma de música. Sua cafeteira elétrica está de novo em ação. Seu senso de dever e sua retidão falaram mais alto e ele já está recomposto, com energia revigorada para enfrentar mais algumas horas de trabalho árduo ainda que gratificante, segundo seu ponto de vista. Bom, é a vida, dinheiro não brota de um cartão magnético simplesmente.
     Quatro horas da manhã e quase três horas de trabalho ininterrupto são testemunha da grande quantidade de relatórios, gráficos e soluções elegantes para problemas enervantes que Oto têm a oferecer à seus clientes. O cansaço finalmente interrompe esta sequência frenética e Oto praticamente desmaia, e desta vez dorme por horas à fio. Acorda às 11:30 h de uma sexta-feira normal, toma um banho restaurador e um café da manhã farto e saboroso, como há muito não fazia. Ouviu seu rádio por um bom tempo e decidiu voltar ao trabalho, havia avançado muito nas suas pendências, mas ainda faltava bastante. Rotina, não mais que rotina.
             Já estava escurecendo e a cidade já se preparava para uma agradável noite de sexta-feira, milhares de ligações simultâneas arrumavam os passeios, programas, festas, noitadas, diversão saudável ou não. O telefone de Oto como sempre estava mudo, quase inútil nestas horas, e ele seguia firme como um nadador olímpico que draga uma piscina com suas braçadas firmes e largas. A memória de seu laptop ia ganhando mais e mais arquivos e gráficos, relatórios e recomendações, e Oto estava muito contente consigo, seu trabalho fluía e seu orgulho crescia.
    Dez horas e Oto firme, com seus dedos velozes no teclado. Onze horas e Oto boceja um pouco, a máquina range um pouquinho, precisa de óleo? Lá vai a cafeteira de novo esguichar o bom e quente líquido, que fez fama e fortuna de muitos neste Brasil. Um copo, dois copos, onze e meia da noite Oto acha que têm a força. “Para melhorar a iluminação do galpão duas carreiras de lâmpadas econômicas correndo paralelas podem proporcionar um aumento de até 30% na visibilidade, permitindo um incremento na produtividade dos trabalhadores envolvidos diretamente no manuseio........O Everest é uma homenagem aos colonizadores ingleses, o verdadeiro nome da montanha mais alta do mundo é Chomolugma, é injusto que deem este nome estrangeiro.........É impressão minha ou eu estou sendo perseguido por um dragão de escamas vermelhas e púrpura?.....Ahnnn? Oto sacode a cabeça e pensa: “De novo? Meu pensamento já está escorregando de novo”. Ele fica apreensivo ao se lembrar da noite anterior e do sonho aterrador que vivenciara. De um salto se levanta da mesa e percebe que o ar está mais difícil, sua narina direita se fechara um pouco, sua língua está um pouco ressecada. “Água, água pura, um grande gole vou tomar. Que sede! Só percebi agora! Tanto trabalho que eu até esqueço de beber água, esqueço de comer e de marcar consulta no médico. Esse nariz está me atrapalhando”. Oto teima em continuar após matar a sede e respirar fundo, assoando o nariz com força para ver se respira melhor daí em diante. Já seus dedos voltam para seu teclado bastante gasto com tantos toques frenéticos, falta pouco trabalho agora e ele pensa em terminar ainda esta noite e se possível deixar o fim de semana para um merecido descanso. Poucas frases restam para completar o último trabalho do dia. Ou da noite? Oto nem sabe ao certo que horas são. Pequenos pontos luminosos dançam e se sacodem nos cantos de seus olhos, talvez pelo cansaço, muito pelo esforço, pela dedicação de querer sempre cumprir os prazos que se auto impõe. Oto têm princípios sérios e sólidos, mas tudo custa um preço, seja pela ausência, pela falta de uma vida social, pelo descuido com a saúde, pelo adiamento constante de antigos projetos, planos e sonhos quase apagados da memória. Aquele rosto moreno não abandonava mais seu pensamento.
      Só mais uma frase e mais um cliente satisfeito, que com sorte lhe pagará com somente uma semana de atraso. Sua cabeça bamboleia e Oto sucumbe à uma agradável sensação de desligamento da realidade. A última frase não é finalizada. Oto agora estirado no sofá deixa cair seu laptop no chão, mas nem percebe, nem liga, nem escuta. A viagem começa............

      Dentro de uma densa camada de neblina que pulsa como se tivesse vida palpável, emitindo clarões de uma luz fraca e laranja entremeada com fagulhas vermelhas, o chão se move como se fosse uma esteira rolante levando Oto para algum lugar desconhecido. Ele não teme nada, apenas sente aquela sensação agradável de desligamento da realidade, que vai se tornando mais forte à medida em que ele se dirige para um grande maciço de pedra escura e disforme. Logo começa a atravessar um túnel pequeno e afunilado, seu corpo inclinado como uma lança. No outro lado da parede uma claridade cresce, mas não ofusca seus olhos, uma claridade multicolorida que dança como chamas de um fogo frio. É de uma beleza estonteante e traz uma curiosidade seguida de uma sensação de conforto, que logo chega, cerca Oto e o banha de uma luz suave. Uma recepção cordial e aconchegante que carrega junto uma sensação de leveza e repouso. A neblina densa ficara do outro lado do muro de pedra escura. Oto acomoda seus olhos ao novo ambiente, um vale deserto com pedras dispostas num desenho geométrico. Com surpresa ele começa a perceber o padrão na disposição daquelas pedras, algumas muito claras, outras de um tom cinza grafite. Nenhuma vegetação aparente somente pedras num chão macio. Este ambiente apesar de agradável é um tanto estranho, nada natural. As pedras dispostas desta maneira lembram um santuário e ele lembra-se de Stonehenge. Aproxima-se de uma das pedras e quando toca em sua superfície um som agudo penetra-lhe os ouvidos. No centro da formação rochosa as pedras maiores começam a se mover e um buraco no chão aparece. A curiosidade superou o medo, Oto se aproxima e vê uma escada que se perde no escuro. Um som como um canto melodioso se faz ouvir, um som que puxa irresistivelmente o curioso Oto para dentro daquele buraco.
      Os degraus são macios e quando pisados emitem luzes de variados matizes, a parede brilha como se estivesse cravejada de cristais e brilhantes, o som melodioso cresce e aguça a curiosidade de Oto. A escada parece interminável ainda que suave e agradável. As amarras que prendem Oto às convenções foram retiradas e ele parece flutuar, experimentando uma sensação de liberdade desconhecida até então. Ao final da escada ele se depara com uma porta sem tranca nem fechaduras aparentes, daí ele se vira para olhar para trás e uma escuridão absoluta tomou conta do caminho. Volta-se para a porta fechada e agora ela emite uma sequência de luzes que vai aumentando de velocidade até que toda a porta fique acesa como em brasa. Subitamente ela se abre e uma luz intensa faz com que os olhos de Oto se fechem imediatamente. Pouco depois ele se acostuma com a claridade súbita e vê algo como um lago imenso, e ao longe nuvens muito baixas que rodopiam ao redor de uma estrutura gigantesca. Tudo é muito inusitado neste ambiente incomum. Um desejo enorme se apossa do pobre Oto quando o canto melodioso retorna a seus ouvidos e agora ele tem certeza que o som vem daquela construção no meio do lago. Mas como chegar até lá? Ele se aproxima da margem do lago esperando encontrar algum barco ou bote que seja. Um caminho translúcido se destaca no meio da água e Oto como que puxado por uma força maior que sua hesitação apoia um pé e depois outro e nisso o caminho se ergue afastando as águas. O pobre Oto segue firme, quase correndo, o canto sedutor aumenta sua frequência cardíaca e seu desejo de chegar naquele lugar desconhecido envolto por uma luz cálida emitida por nuvens que rodopiam como dervixes em transe.
    No caminho até o edifício, no meio do lago, formas desconhecidas se mexem dentro da água, sombras escuras nadam próximo a superfície. Aquela sensação de conforto e calma começa a ficar perturbada pois à medida que Oto se afasta da margem do lago, o céu ou a abóboda muda de cor, ganhando tons mais escuros e parecendo mais baixo do que no princípio. As águas sobem e cobrem o caminho suspenso até o edifício, atrás de Oto o lago antes tão calmo começa e se encrespar e ficar revolto, uma convulsão surgindo do nada. As formas que nadam pouco abaixo da superfície agora estão maiores e em grande número, turbilhonando mais e mais a água. Oto já havia passado da metade do caminho até a construção e sente-se cada vez mais pressionado pelo espetáculo às suas costas. Começa a correr quando rugidos ameaçadores agridem seus ouvidos e ele já não têm coragem de olhar para trás. Ele só sente uma vibração muito forte próxima de sua cabeça e sua respiração já está muito acelerada quando ele finalmente alcança o edifício no meio do lago. Mal toca o solo e uma pesada porta de granito logo se abre e ele se joga para dentro do desconhecido. Em segundos (ou o que parecia ser um tempo bem curto) ele observa o interior daquela construção tão imponente. Um grande salão com piso de mármore e ao centro duas colunas que sustentam um arco com símbolos desconhecidos esculpidos. Parecem letras de um alfabeto estranho. Nas paredes deste salão muitas imagens com figuras bizarras entremeadas com as mesmas letras do arco. De repente surge entre os arcos um globo incandescente que gira em grande velocidade puxando Oto para junto deste. Oto está muito aflito com estes acontecimentos, e se sente completamente só e desamparado neste mundo estranho, onde até então não havia visto nenhum ser humano. Vai se aproximando do globo iluminado, não consegue recuar pois seu corpo não lhe obedece mais e um ruído crescente preenche aquele salão. Apesar da aparência de fogo do globo giratório Oto não sente calor, só apreensão pela situação fora de controle. Por fim ele é engolido pela esfera e ao abrir seus olhos novamente se vê no centro de outro salão menor que o anterior, mas percebe várias pessoas ao seu redor, como se estivesse num anfiteatro e ele no centro do espetáculo.
     Figuras com ar severo e olhos inquisitórios o observam em profundo silêncio. Oto gira ao redor de seu corpo para olhar aqueles rostos, mas nenhuma palavra sai de seus lábios, apenas os olhares frios e hostis que parecem atravessá-lo. Um temor crescente vai amolecendo suas pernas e pesando seus braços, e um tremor impede que seu corpo obedeça a seu comando. Aquele momento pareceu infinito para ele, sentindo-se nu e desamparado no meio de uma tempestade iminente. Tudo parece tão real e assustador e ele se pergunta o que está acontecendo e porque está acontecendo, por que ele sempre tão ordeiro e inofensivo está naquela situação? O que terá feito de errado? Parece um julgamento. “Meu deus, será que eu morri e aqui é o lugar onde dizem que as almas são julgadas, onde seus feitos são medidos e pesados para saber se podem ir para o céu ou não? ” Ele pensa reconhecer alguns rostos dentre aqueles que o observam com olhares gélidos. “Aquele ali me faz lembrar um diretor de uma siderúrgica que eu prestei serviço, aquele outro mais acima parece o advogado de uma metalúrgica que eu ajudei a reverter uma situação de grande risco, aquele de olhar faiscante na última fileira é idêntico ao gerente daquele frigorífico cujas instalações estavam muito precárias, eu ajudei a consertar e ele só me pagou dois meses depois do combinado. Por que eles estão me olhando assim de modo tão acusatório? Eu só fiz o bem para eles! ”
        Neste momento a voz que o havia atraído para dentro da escada do buraco é ouvida no salão, o mesmo som suave e atraente. Por um instante Oto se sentiu seguro e fortalecido e aquelas pessoas ao redor arrefeceram o olhar frio e feroz. A luz do salão mudou repentinamente e todos pareciam se curvar em reverência. Uma atmosfera solene se apossou daquele aposento antes tão lúgubre. A luz antes escura e soturna havia aumentado de intensidade e brilho, revelando paredes ricamente enfeitadas com imagens muito diferentes de tudo que Oto havia visto até então em sua vida. Ele olhou para o teto que girava parecendo a abóboda celeste, mas as estrelas estavam dispostas de forma muito diferente da configuração que temos no hemisfério sul. Constelações diferentes de todas as conhecidas estavam estampadas naquele teto giratório. Oto não conseguia se virar para ver quem era responsável por toda aquela mudança que havia acontecido subitamente. Tinha a impressão que deveria ser uma figura feminina, a julgar pela voz encantadora que o havia atraído, além do perfume que impregnava o salão. Este perfume o havia deixado mais tranquilo, mas ele não sabia dizer porquê. A curiosidade agora era tamanha que ele, fazendo um grande esforço, estava se descongelando lentamente, mexeu primeiro um braço depois outro, mexeu um pé e a outra perna, mexeu a cabeça para baixo e para o lado. Daí então ele se virou para ter uma surpresa inesperada e uma visão que o paralisou tão profundamente quanto estava antes.
_   Myrna !!!?!????!!!
   Uma presença estonteante e aterradora ao mesmo tempo dominava o anfiteatro, onde as figuras se prostravam em reverência, numa mistura de temor e devoção entrelaçadas, uma presença que emitia uma luz fulgurante e um aroma inebriante à semelhança de uma divindade. Aquele rosto moreno estava de volta ao seu campo visual, só que de uma forma completamente diferente, aquela linda menina que se sentava na carteira ao lado da sua era só uma leve lembrança desta deidade que parecia surgida de mundos submersos pelo tempo. O pensamento e a razão de Oto estavam na mais total das confusões, o temor que crescia dentro dele nos momentos precedentes havia sido substituído pela visão incomensurável, que lhe ofuscava o raciocínio.
-Como você conseguiu desaparecer na última vez que nos encontramos?
   A pergunta foi feita diretamente para Oto que ficara mais destacado do que antes, iluminado diretamente por um facho de luz dourada, o que aumentou mais um pouco o seu desconforto, visto que ele era um homem bastante discreto que não gostava de destaque. A plateia aguçou mais a curiosidade pois sua Deusa parecia conhecer muito bem o convidado. A quantidade de rostos parecia ter se multiplicado e o salão aumentara de tamanho, de um anfiteatro para uma arena.
- Milhares de anos se passaram desde que você sumiu como uma nuvem de fumaça, e naquela ocasião você nos abandonou e nos ignorou, recusou meu pedido. Todos ficaram desiludidos, arrasados, perdidos e por fim foram destruídos. O abismo engoliu tudo. A mim foi permitido retornar e tomar esta manifestação como veículo. Me chamam de Rashkarmatara e este é o meu domínio. Você seguiu minha voz e minha voz foi uma isca, como uma sereia na antiga Grécia. Meu rosto é o mapa que o trouxe até as portas de meu reino, e sua dívida o deixará para sempre dentro destes limites. Você não poderá me negar novamente.
       Oto não sabe o que pensar, muito menos o que dizer. A confusão tornara-se um pavor de proporções inimagináveis. Como era possível que milhares de anos tivessem se passado se ele, que agora se lembrara aos poucos do sonho intranquilo que tivera na noite passada, estivera em sua presença na noite anterior. Nada fazia o menor sentido e ele não conseguia raciocinar como estava acostumado. Aquele rosto que passara a desejar com tanta intensidade agora estava ali na sua frente só que infinitamente mais belo e muito mais assustador também, com aquelas frases tão diretas quanto cruéis. Que dívida era esta, que recusa era esta que ele não sabia e não compreendia?
    -Oto eu já esperei demais por você. Você terá de decidir agora: você virá comigo ou ficará por eras sem conta neste palácio estéril?
     Colocado assim desta forma Oto está imprensado contra uma parede. Mais que uma parede, ele está sendo obrigado a decidir sobre algo que não sabe do que se trata, mas percebe a gravidade da situação, e o “eras sem conta neste palácio estéril” acendeu uma luz intensa na sua cabeça. Uma grande angústia se apoderou dele e ele percebeu que poderia estar morrendo. Só que o rosto de Myrna ou Rashkarmatara era um alívio muito grande, por ser de uma beleza indescritível, um bálsamo, um antídoto, um bote salva-vidas. A outra alternativa, a de ficar com ela, por mais absurdo que parecesse, já que como seria possível uma divindade estar interessada num sujeito tão simplório? Naquele momento era a sua salvação. E ele disse SIM mais uma vez em sua vida. O rosto tão belo de Rashkarmatara , tão severo até então, finalmente se abriu num sorriso encantador, se é que fosse possível ser mais encantador. Ela lançou um olhar meigo e disse:
         -Você fez a escolha certa desta vez. Pode ir embora!
      As paredes, a plateia, a abóboda, tudo enfim começou a se desfazer em pequenos pontos de luz que foram se tornando brancos e formaram uma névoa em forma de túnel, que girava numa velocidade absurda e vertiginosa...
      São 23:42 hs quando Oto abre os olhos com grande espanto. Então percebe uma almofada cobrindo seu rosto, atrapalhando sua respiração. Seu pulso está descontrolado e seu corpo está dolorido, pois estava deitado no sofá de sua sala numa posição bastante incômoda. Seu laptop estava no chão e sua xícara de café ainda estava quente. Menos de dez minutos de sono haviam transcorrido desde então e sua sala continuava igual ao que era antes, os mesmos móveis, a mesma arrumação sem criatividade, apenas funcional. Um alívio sem tamanho envolveu todo seu corpo quando ele percebeu que sua vida real e concreta estava de volta. Um silêncio imenso servia de moldura para aquele momento de despertar do sonho mais absurdo que jamais tivera.
      O impacto daquele sonho logo retornou e Oto foi tomado por uma melancolia tão grande quanto o alívio de seu retorno ao chão e à rotina. Prostrado no sofá as lembranças daqueles momentos tão intensos preenchem sua mente e a beleza sublime e surreal daquele rosto, sem que ele percebesse naquele instante, havia deixado uma marca indelével em seu espírito. Oto havia tocado o seu vazio, havia entrado em contato com o resto que faltava em sua existência. Mas isto é uma elaboração feita por alguém de fora, é claro. O que ele passou a sentir daí então foi como uma sede que nunca passa, como uma ilha ao longe que nunca se alcança, um sentimento muito vago que ele não conseguia captar. Ele havia escutado o canto da sereia, o rumo errado que naufragava os navios nos tempos antigos. Por incontáveis noites ele dormiu na esperança de encontrar novamente aquela divindade, mas em vão. Até que ele percebeu que precisava sair pelo mundo procurando. Mas isto é uma outra história.




                                                                           Ivan Henrique Roberto    16 de fevereiro de 2009