domingo, 8 de outubro de 2017

Um dia inesquecível (parte 1)

                                            Um dia inesquecível  
                                         maio/2008

          “Nosso campo de visão é muito pequeno, nosso tamanho é tal que só vemos uma minúscula fração de uma grande teia, dentro de uma teia muito maior, que alguns só de pensar nela perderam sua sanidade, e outros, só de tentar se cansaram logo, desistiram e foram tomar café. Quando olho para o céu traço uma reta entre minha cabeça e o zênite, e penso se esta reta teria fim ou se tocaria o solo de alguma estrela ou planeta distante. Acho que no máximo rasparia em algum satélite em órbita, ou menos ainda, esbarraria num avião muito alto em sua rota, insuficiente para derrubá-lo, não, Deus me livre de pensar numa maldade desta! Neste momento acho melhor para de pensar em tanta besteira, que não sou pago para isto, e comer minha banana saborosa. ”
        “Acho que vou jogar a casca lá no chão da rua, ninguém está vendo mesmo”. Tal discutível ato de falta de civilidade, para não dizer de falta de higiene teve lugar nesta rua tranquila onde uma casa estava em reforma, e na laje do segundo andar Pedrinho Júpiter, auxiliar de pedreiro e astrônomo nas horas vagas, assentava a massa da construção. Esta era uma combinação pouco comum, uma pessoa ser ao mesmo tempo auxiliar de pedreiro e astrônomo, mas Pedrinho Júpiter sempre gostou de olhar o céu, o céu o fascinava. Não que ele fosse astrônomo de verdade, daqueles que estudaram física a sério e fizeram estágio no Monte Palomar ou no Havaí, ele só gostava de ler sobre o assunto e ver programas na televisão que mostravam belas imagens dos planetas e das luas, das estrelas, das galáxias. De tanto olhar o céu, mesmo nos horários de trabalho, é que Pedrinho ganhou o “sobrenome” Júpiter.
        A casca de banana foi se instalar na calçada, próxima do meio-fio. Ao mesmo tempo um homem havia dobrado a esquina, e vinha andando próximo dos muros e portões das casas, com bastante pressa, quase correndo. Na casa vizinha à casa em reforma uma pedra solta fez com que desviasse em direção ao meio-fio. O homem desviou da pedra, mas como estava andando muito rápido não teve tempo de desviar da casca de banana e vupt! Pisou em cheio e escorregou feio. Caiu estatelado, de queixo no chão, largando sua pasta que bateu com força também e espalhou seu conteúdo: diversos papéis voaram pela rua vazia, alguns até caíram num bueiro colado ao meio-fio.
O homem desmaiou ao bater com o queixo no chão, mas naquela rua vazia e sem trânsito naquela hora ninguém presenciou esta cena.
      Bem, uma pessoa viu a cena. Pedrinho Júpiter viu a consequência de seu ato. No momento ficou pasmo e ao mesmo tempo envergonhado quando viu o homem caído no chão. Passados alguns minutos, ao se dar conta de que ninguém aparecia para socorrer o homem, resolveu descer para ajudar pois sabia que também ninguém o havia visto jogar a casca. Chegou próximo ao sujeito que começava a acordar, com o queixo raspado e sangrando de leve. - Olá amigo, que tombo feio hein? Você está bem?
       -Sssimm acho que estou... estou só um pouco tonto…onde está minha pasta?
       -Aqui está sua pasta.
        O homem recobrava sua consciência e sua memória, e quase deu um salto...
      -Meu Deus, onde está o papel com a senha??? Gritou desesperado, mexendo nos papéis que havia juntado, nem sentia a dor no queixo quase quebrado.-Eu preciso da senha! Olhou no relógio e ficou mais pálido ainda.
      -Quanto tempo eu fiquei caído aqui?
      -Cerca de cinco Minutos, disse-lhe Pedrinho já assustado.
      -Ai caramba, não vai dar tempo, vai ser o caos total! Total! Total!
        A cerca de dois minutos dali existia uma estação de energia, que servia como uma chave de segurança para o sistema de distribuição, e que atendia à cidade e as cidades menores ao redor. O homem acidentado estava se dirigindo para ela, ele era o operador mestre do sistema e carregava consigo a pasta com as senhas de segurança, pois havia recebido um aviso em seu laptop que uma falha muito incomum havia ocorrido e ele precisava chegar a tempo para tentar corrigir. O pneu de seu carro havia estourado duas ruas antes desta, ao passar sobre um parafuso que caíra de um caminhão. A esta altura já bastante nervoso largou o carro onde estava e saiu quase correndo pela rua.
    A estação era quase automática, poucos funcionários trabalhavam no local e só Edgar (este era o nome do homem) no momento tinha acesso irrestrito ao sistema e às senhas. Outro colega seu, com o outro código de acesso estava de férias.
      Pedrinho começou a ficar realmente preocupado, apesar de ser auxiliar de pedreiro ele sabia bem o significado da palavra caos, e sabia também que o tal do caos tinha alguma coisa haver com ele, pois sem aquela casca de banana Edgar teria chegado na tal estação. Teria chegado mesmo?
-Senhor, a que caos o senhor está querendo dizer?
-Estou dizendo que agora é tarde e eu não vou conseguir acessar o sistema e conseguir impedir a explosão.
“Explosão”. Agora Pedrinho gelou por dentro, a mal conseguiu balbuciar...
-Ex..Ex....plosão, tipo explosão com muito barulho, destruição, fogo?
-Sim, mas não que vá atingir as casas próximas, só que a energia vai ser cortada e eu não sei por quanto tempo vamos ficar sem energia, nós eu quero dizer todo mundo, toda esta cidade, com seus milhões de habitantes, elevadores, hospitais, semáforos, geladeiras, computadores, lojas, indústrias, ........
-Mas, e os geradores?
-Os geradores só garantem por algum tempo, e eu estou falando de muito tempo sem energia, entende? 
     Pedrinho se aprumou um pouco e falou: - Venha, que eu o ajudo a chegar lá, talvez dê tempo?
- Mas sem o papel com a senha principal não adianta!
           Pedrinho olhou para dentro do bueiro nesta hora e viu um papel pardo, só que todo molhado e sujo.
-É um papel pardo?
-Sim, ele está aí?
-É, mas...acho que já era...
        Edgar já de pé olhou para dentro do bueiro e constatou o óbvio:
-Fudeu!!!!!

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