maio/2008
“Nosso campo
de visão é muito pequeno, nosso tamanho é tal que só vemos uma minúscula fração
de uma grande teia, dentro de uma teia muito maior, que alguns só de pensar
nela perderam sua sanidade, e outros, só de tentar se cansaram logo, desistiram
e foram tomar café. Quando olho para o céu traço uma reta entre minha cabeça e
o zênite, e penso se esta reta teria fim ou se tocaria o solo de alguma estrela
ou planeta distante. Acho que no máximo rasparia em algum satélite em órbita,
ou menos ainda, esbarraria num avião muito alto em sua rota, insuficiente para
derrubá-lo, não, Deus me livre de pensar numa maldade desta! Neste momento acho
melhor para de pensar em tanta besteira, que não sou pago para isto, e comer
minha banana saborosa. ”
“Acho que vou jogar a casca lá no chão
da rua, ninguém está vendo mesmo”. Tal discutível ato de falta de civilidade,
para não dizer de falta de higiene teve lugar nesta rua tranquila onde uma casa
estava em reforma, e na laje do segundo andar Pedrinho Júpiter, auxiliar de
pedreiro e astrônomo nas horas vagas, assentava a massa da construção. Esta era
uma combinação pouco comum, uma pessoa ser ao mesmo tempo auxiliar de pedreiro
e astrônomo, mas Pedrinho Júpiter sempre gostou de olhar o céu, o céu o
fascinava. Não que ele fosse astrônomo de verdade, daqueles que estudaram
física a sério e fizeram estágio no Monte Palomar ou no Havaí, ele só gostava
de ler sobre o assunto e ver programas na televisão que mostravam belas imagens
dos planetas e das luas, das estrelas, das galáxias. De tanto olhar o céu,
mesmo nos horários de trabalho, é que Pedrinho ganhou o “sobrenome” Júpiter.
A casca de banana foi se instalar na
calçada, próxima do meio-fio. Ao mesmo tempo um homem havia dobrado a esquina,
e vinha andando próximo dos muros e portões das casas, com bastante pressa,
quase correndo. Na casa vizinha à casa em reforma uma pedra solta fez com que
desviasse em direção ao meio-fio. O homem desviou da pedra, mas como estava
andando muito rápido não teve tempo de desviar da casca de banana e vupt! Pisou
em cheio e escorregou feio. Caiu estatelado, de queixo no chão, largando sua
pasta que bateu com força também e espalhou seu conteúdo: diversos papéis
voaram pela rua vazia, alguns até caíram num bueiro colado ao meio-fio.
O homem desmaiou ao bater com o queixo no chão, mas naquela
rua vazia e sem trânsito naquela hora ninguém presenciou esta cena.
Bem, uma pessoa viu a cena. Pedrinho
Júpiter viu a consequência de seu ato. No momento ficou pasmo e ao mesmo tempo
envergonhado quando viu o homem caído no chão. Passados alguns minutos, ao se
dar conta de que ninguém aparecia para socorrer o homem, resolveu descer para
ajudar pois sabia que também ninguém o havia visto jogar a casca. Chegou
próximo ao sujeito que começava a acordar, com o queixo raspado e sangrando de
leve. - Olá amigo, que tombo feio hein? Você está bem?
-Sssimm acho que
estou... estou só um pouco tonto…onde está minha pasta?
-Aqui está sua
pasta.
O homem
recobrava sua consciência e sua memória, e quase deu um salto...
-Meu Deus, onde está o papel com a
senha??? Gritou desesperado, mexendo nos papéis que havia juntado, nem sentia a
dor no queixo quase quebrado.-Eu preciso da senha! Olhou no relógio e ficou
mais pálido ainda.
-Quanto tempo eu
fiquei caído aqui?
-Cerca de cinco
Minutos, disse-lhe Pedrinho já assustado.
-Ai caramba, não
vai dar tempo, vai ser o caos total! Total! Total!
A cerca de dois minutos dali existia
uma estação de energia, que servia como uma chave de segurança para o sistema
de distribuição, e que atendia à cidade e as cidades menores ao redor. O homem
acidentado estava se dirigindo para ela, ele era o operador mestre do sistema e
carregava consigo a pasta com as senhas de segurança, pois havia recebido um
aviso em seu laptop que uma falha muito incomum havia ocorrido e ele precisava
chegar a tempo para tentar corrigir. O pneu de seu carro havia estourado duas
ruas antes desta, ao passar sobre um parafuso que caíra de um caminhão. A esta
altura já bastante nervoso largou o carro onde estava e saiu quase correndo
pela rua.
A estação era quase
automática, poucos funcionários trabalhavam no local e só Edgar (este era o
nome do homem) no momento tinha acesso irrestrito ao sistema e às senhas. Outro
colega seu, com o outro código de acesso estava de férias.
Pedrinho começou a ficar realmente
preocupado, apesar de ser auxiliar de pedreiro ele sabia bem o significado da
palavra caos, e sabia também que o tal do caos tinha alguma coisa haver com
ele, pois sem aquela casca de banana Edgar teria chegado na tal estação. Teria
chegado mesmo?
-Senhor, a que caos o senhor está querendo dizer?
-Estou dizendo que agora é tarde e
eu não vou conseguir acessar o sistema e conseguir impedir a explosão.
“Explosão”. Agora Pedrinho gelou
por dentro, a mal conseguiu balbuciar...
-Ex..Ex....plosão, tipo explosão
com muito barulho, destruição, fogo?
-Sim, mas não que vá atingir as
casas próximas, só que a energia vai ser cortada e eu não sei por quanto tempo
vamos ficar sem energia, nós eu quero dizer todo mundo, toda esta cidade, com
seus milhões de habitantes, elevadores, hospitais, semáforos, geladeiras,
computadores, lojas, indústrias, ........
-Mas, e os geradores?
-Os geradores só garantem por algum
tempo, e eu estou falando de muito tempo sem energia, entende?
Pedrinho se aprumou um pouco e falou: - Venha, que eu o ajudo a chegar
lá, talvez dê tempo?
- Mas sem o papel com a senha
principal não adianta!
Pedrinho olhou para dentro do bueiro
nesta hora e viu um papel pardo, só que todo molhado e sujo.
-É um papel pardo?
-Sim, ele está aí?
-É, mas...acho que já era...
Edgar já de pé
olhou para dentro do bueiro e constatou o óbvio:
-Fudeu!!!!!

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