domingo, 14 de abril de 2024

Pandemia

                                                               Pandemia 


        Estava em casa e liguei a TV, um gesto mecânico que de tão repetido virara hábito, mas que estava entrando em desuso pois a atração pela tela plana preta já não é a mesma, quem sabe pela escassez de conteúdo, talvez pela escassez de interesse. Quem sabe o ruído de fundo do aparelho ligado faça parte da mobília e contribua para a normalidade do ambiente. Era o horário do noticiário e o cansaço em conluio com o tédio era uma barreira formidável para se prestar atenção em qualquer imagem ou texto.

        Em um momento qualquer, no meio da transmissão, uma palavra escorreu pelo ar e penetrou na minha escassa atenção: “pandemia”. Meu olhar fora fisgado a partir daí, e imagens de pessoas com características asiáticas pontuavam a matéria jornalística. O tom da matéria era inquietante, ou melhor, diria se tratar de algo alarmante. Outro vírus ameaçava a existência da humanidade, periodicamente passamos por isso, não é? Desta vez parecia ser diferente, o suposto vírus havia mudado de patamar e era esquivo, difícil de ser entendido, diferente de seus primos que haviam aparecido em outras ocasiões prometendo acabar com tudo mas perdiam a força e a corrida contra a humanidade num breve espaço de tempo. Era uma espécie nova, ou renovada, mais difícil de lidar. Desliguei a TV e fui me ocupar de outras coisas, fui procurar alívio imediato para se contrapor a um dia cheio de problemas. E o dia terminou como sempre terminam os dias, com a certeza de que amanhã chegará outro, quem sabe melhor... 

      No dia seguinte fiquei mais atento e procurei acompanhar o noticiário. O surto já era realidade e o mundo já se perguntava o que de fato estava acontecendo. O tempo dedicado à cobertura do novo surto aumentara de tamanho no espaço total dos noticiários, sinal evidente da gravidade do evento. Na busca frenética pela melhor informação, ou quem sabe a informação mais rentável, o atropelo pela novidade impunha dados desencontrados, trajados de inconsistências e inverdades. Tudo ainda muito nebuloso, mas o mundo vive em sobressaltos, flertando com o abismo em cada esquina, em cada nova encruzilhada. 

      Mais um dia se passa e mais migalhas de informação que chegam por minuto. Estamos curtidos pelo excesso de preocupação suscitados pela última ameaça global? Afinal o fim do mundo já havia sido descartado desde a última pandemia, e depois de um início promissor o último vírus perdera o fôlego e ficara desmoralizado. Os humanos haviam vencido de novo. Os humanos são invencíveis, na mesma proporção de sua soberba. 

     Da voz treinada do locutor salta uma explicação que parece absurda, que um suposto homem chinês, quem sabe entediado de comer a mesma comida de sempre, resolveu aventurar suas papilas gustativas em outras carnes mais exóticas, e neste caso achou que pudesse experimentar o gosto inusitado da carne de morcego. O ser humano é mesmo peculiar e aparentemente sem limites, então que mal haveria em petiscar algo estranho? Não é lá, naqueles rincões do mundo que as opções gastronômicas tendem a ser um tanto exóticas? Se até a carne humana já foi degustada em inúmeras ocasiões ao longo da história, por que não a de um morcego? Tudo bem, desde que não me ofereçam, pois terei que declinar polidamente não sem antes experimentar uma ânsia de vômito que soaria indelicada e descortês para o ofertante. 

     Depois de tantos alertas de que seria muito melhor para a saúde humana que não entrássemos em contato com certos organismos silvestres desconhecidos, não espanta que, dado o caráter curioso da espécie humana, se avance sem pejo e sem pudor pelas entranhas da natureza, e desta forma o que supostamente gostaria de estar escondido e a salvo revela o porquê de sua distância: “Não venha brincar comigo pois minha brincadeira pode lhe causar mal, muito mal. Eu não quero a sua presença, eu não te chamei aqui, você veio por sua conta e risco então aguente as consequências” 

     As consequências neste caso começaram a se espalhar em rápida expansão. Antes que o inimigo fosse desvendado vários corpos esperavam em necrotérios, envoltos em dúvidas e incertezas. E já que o mundo se tornou pequeno e acessível, conectado e com seus pontos atingíveis em poucas horas, um simples vôo comercial tem o condão de trazer além de passageiros a negócios ou lazer uma quantidade imensurável de pequenas organelas invisíveis a olho nu, indetectáveis pelos possantes aparelhos de escaneamento ou pelos oficiais de imigração. Assim, em questão de dias o mundo foi tomado pelo menor inimigo que se conhece: um vírus, um ínfimo vírus, a mais perversa das criações. 

    E o mundo mudou. Foi forçado a mudar. Foi colocado de joelhos perante o menor inimigo que se poderia conceber, um inimigo tão sorrateiro e tão dependente, já que não tem como ter vida própria e só são viáveis invadindo a casa alheia. Um vírus solto no espaço não tem como resistir, um vírus que adentre uma célula prospera e pode ser fatal. E são, muitas das vezes são. Desta vez parece pior, porque aprimorado, evoluído, uma nova geração mais esperta, mais furtiva. E a contagem de corpos só aumenta e o pânico acompanha esta escalada. Não é mais um boato, não é apenas uma moda passageira, desta vez é real. E chegou como uma avalanche de más notícias, maus presságios, incerteza e medo. Medo de não se saber com o que estamos lidando, o medo ancestral e irracional do desconhecido. O ser humano é uma coleção de medos. Logo a morte se apossou do imaginário. E pronta para o trabalho logo a morte começou sua coleta e estabeleceu sua loteria. Quem seria escolhido? Qual grupo seria o alvo primeiro da implacável foice? A morte está sempre de prontidão, ansiosa por mostrar serviço. 

     Alerta sobre o mundo, este mundo tão tenso, diverso e controverso. Começam as especulações sobre o que fazer, sobre com o que estamos lidando. Os especialistas são convocados a opinar no calor do momento e são só palpites, todos estão tensos porque todos querem uma solução rápida e eficaz, afinal não é a primeira vez que isso acontece, não é mesmo? Muito saber acumulado até hoje, mas e agora? Com o quê estamos lidando? Este é diferente. Esta criação perversa é tão perversa que nunca é a mesma, ela se modifica, ela sofre mutação, ela muta, ela muda, ela foi feita para enganar, ela quer pôr à prova a perícia dos especialistas. A respiração é suspensa frente à incerteza, a respiração que em breve será sufocada. 

     Pelo menos lhe deram um nome, se ainda não podem combater pelo menos deram um nome para catalogar, para identificar, dê ao seu inimigo um nome que logo ele fica palpável, quase íntimo. E tem o nome de “Coroa”, mais uma coroa para ser temida, uma nova coroa de espinhos fincada na cabeça da humanidade. Não é a primeira e quem poderá saber se não será a última? O mundo está em choque, o mundo está parando e a contagem de corpos só aumenta. 

      E o medo se estabeleceu em definitivo. O medo paralisou os aviões, paralisou os trens, paralisou os navios, paralisou as pessoas ao redor do globo, paralisou e isolou. Cada pessoa poderia trazer consigo a sentença de morte de seu próximo, mesmo não tendo a intenção. O medo é invisível e não tem cheiro, o único traço em comum para toda a humanidade. Ninguém jamais pensou que poderia ser assim, ninguém jamais se preparou para isto e todos devotaram uma pequena ponta de esperança nos especialistas que foram colhidos pela surpresa no calor do momento, tendo que dar respostas que não tinham no calor do momento. 

      O Papa sozinho na praça orando por nós, por todos, um homem idoso e frágil. Uma cena por demais comovente e simbólica, um retrato irretocável de nossa fraqueza. Neste momento não havia espaço para nenhuma soberba. Solitário e vertido em cordeiro de Deus, querendo expiar os pecados do mundo. São muitos pecados para um homem só expiar. E além de tudo, e sobretudo, o Papa é humano, finito e indefeso.

      Pois bem, a sorte está lançada, a realidade se impõe e vamos ter que conviver com isso sem remédios, sem defesas e tateando no escuro. E mal começou a corrida o maldito vírus já mostra outras versões de si mesmo num jogo de gato e rato com os cientistas, sendo pequeno e maleável, ágil e esquivo, um ser mutante por vocação e princípio.

     Aliados ao vírus se mostraram muitos dos que se diziam líderes de seus povos, ignorando e desdenhando das evidências que começaram a aparecer e as medidas de precaução sensatas sugeridas pelos especialistas. Colocando a razão do dinheiro à frente da razão do bem estar e proteção dos povos, foram os maiores traficantes de almas de nossa era, fornecedores convictos de uma colheita imensa de corpos destroçados pela falta de ar, de vidas interrompidas sem que ao menos pudessem ter o conforto final de estar próximos aos seus bem amados, pais e mães que não puderam se despedir de seus filhos, filhos e filhas que não puderam ao menos ver a imagem derradeira dos rostos de seus pais, enterrados em valas comuns, famílias inteiras que partiram juntas em sua jornada final. 

     A expectativa de que talvez desta vez a humanidade pudesse aprender com essa dolorosa experiência e alcançar um novo nível de convivência e compaixão está para ser desacreditada todo dia, pois os homens são o que são e o isolamento e o distanciamento social só fez ressaltar o que cada um tem em sua essência, os bons permaneceram bons e os maus ficarão piores, pois que reconheceram e se identificaram com um número imenso de semelhantes escondidos nas sombras da contenção moral, e que agora perderam a vergonha de sair para a claridade e expor a podridão de suas entranhas até então ocultas. Não espanta que o culto à mediocridade e ao ódio tenho criado uma musculatura invejável nestes dias incertos e a guerra tenha voltado à ordem do dia. Alguém surpreso com isso?

 ............................................................................................................................................. 


      Acordei num certo dia que não guardei a data, pois os dias estão insuportavelmente tediosos e assemelhados e decidi sair de casa para ver a minha cidade esvaziada. Com o corpo encharcado de álcool gel, portando máscara e muito receio eu peguei minha bicicleta para rodar pelas calçadas, ruas, vielas e avenidas num dia útil comum, que outrora estaria frenético, ruidoso e congestionado, as lojas e oficinas abertas, o comércio atendendo as necessidades prementes e as não tão urgentes assim, os restaurantes abrindo suas portas e mesas para saciar a fome dos cidadãos comuns. Mas não hoje, hoje está deserto e as poucas pessoas que se arriscam nas ruas só o fazem por extrema necessidade, ou por extrema imposição, não sendo possível distinguir com exatidão suas expressões por trás de máscaras, mas com a certeza de que seus olhos transparecem o medo e a insegurança destes dias sombrios. 

       Minha curiosidade foi maior do que a sensatez de permanecer guardado de maiores riscos de contaminação. Queria testemunhar com meus próprios olhos o espaço urbano esvaziado de seus entes mais frequentes. Deslizo suavemente e sem pressa pelas calçadas vazias, entro nas ruas com tão poucos veículos que custo a crer que não corro o risco de ser abalroado por estar tão descuidado num espaço que não seria meu, entro nas faixas exclusivas dos ônibus e seus pontos de embarque estão vazios, subo os viadutos e do alto olho as vias expressas completamente livres, elas que em dias normais, ou quando a vida era normal estavam sempre congestionadas, drenando a energia dos motoristas naquele embate diário entre a partida, o destino e o tempo dispendido entre a partida e o destino. 

       Desço do viaduto, faço o contorno e olho para os sem-teto que se acomodam embaixo da estrutura de concreto. Quem olha por eles? Serão imunes ao vírus ou são apenas invisíveis e fora das estatísticas oficiais?

       Paro por uns instantes defronte a um telão ainda em funcionamento que transmite imagens do que está acontecendo pelo mundo afora. Outras cidades vazias, e animais que se aproveitam da ausência de seus maiores inimigos para se aventurarem nos ambientes que outrora lhes pertencia. Agora aparecem imagens de praias urbanas com a faixa de areia imaculadamente branca, sem marcas de passos e outros indícios da presença humana, sem um naco de lixo ou resíduo, apenas alguns pombos órfãos privados das migalhas que lhes sobram. 

      Sigo em frente em direção ao centro da cidade onde a intensidade das atividades sempre foi maior. O que eu vejo é um quadro ao mesmo tempo desolador e curioso, desolador porque tudo está vazio, muito vazio, qual uma cidade fantasma que tivesse sofrido uma calamidade instantânea. Curioso porque o vazio de gentes e veículos não faz parte da rotina, então o quadro geral lembra mais um cenário de um grande estúdio de cinema preparado para uma filmagem de imensas proporções, e isto tudo causa uma estranheza, uma situação desconcertante, uma sensação de inutilidade. A vida em suspensão parece estar fechada para balanço, avaliando o que deu certo, o que não deu, o que está fora do lugar, o que merece continuar e o custo de tudo isso. 

     Ainda é cedo e claro e tenho energia de sobra nas pernas para prosseguir minha exploração. Vou em direção a uma área residencial e percebo muitos rostos nas janelas e varandas. Sei que muitos devem estar se perguntando o que aquele maluco inconsequente está querendo, andando assim desamparado enquanto os telejornais não dão conta da quantidade de óbitos pelo mundo afora. Eu, de minha parte, olho para cima e consigo sentir a aflição de estar confinado por tanto tempo, e sei que muitos gostariam de estar no meu lugar, neste momento. Muitos devem estar desesperados, desiludidos, se defrontando de forma inesperada com o pior de todos os críticos que é si mesmo. Muito tempo ocioso para se auto avaliar. 

     Ao mesmo tempo em que faço estas reflexões vou vendo os funcionários destes prédios de moradias confortáveis se esmerando para zelar pela segurança e tranquilidade dos moradores, em detrimento da sua saúde e segurança. Estes podem ficar expostos ao risco, assim como os entregadores que se esforçam para matar a fome de quem não pode sair do conforto e segurança de seu lar. No fim das contas é apenas a continuação histórica de uma sequência lógica, ou que foi decidida ser a lógica, que é a existência de dois tipos de pessoas: aquelas que estão com os pés no chão e aquelas que estão assentadas nos ombros daquelas que estão com os pés no chão, afinal de contas sem uma fundação não se pode construir uma casa repleta de conforto. Não estou alheio a isto, mas não tenho força ou poder para influir ou alterar o rumo das coisas, então eu me afasto com o coração pesado e as costas molhadas de suor. 

      Ainda quero rodar mais um pouco para quitar de vez essa curiosidade que sempre me acompanhou, o delírio de ser um personagem num filme apocalíptico em que o mundo está deserto e a humanidade foi extinta e eu sou apenas um observador externo a atestar a falência definitiva da sociedade humana. Talvez eu tenha visto filmes demais ou lido livros demais, quem sabe eu pense demais e isto esteja afetando meu raciocínio. De repente me recordo da peste negra do século quatorze, mais uma tentativa fracassada de Deus em dar cabo da sua criação. Acho que Deus de tempos em tempos fica enjoado e enojado de seus feitos, caia em momentos de frustração e tédio e para melhorar o humor busca uma borracha poderosa para apagar seus desenhos incompletos. Ele já tentou em outras oportunidades afundando terras, mandando chuvas intermináveis, pragas terríveis, vulcões convulsivos, mas nada foi eficiente o suficiente para extirpar essa criação teimosa, essa contradição ambulante, essa causa e consequência, ao mesmo tempo que morde e sangra em seguida sopra e estanca. 

      Esse pensamento me causa um certo alívio, pois o homo sapiens, embora em grande parte não seja tão sapiens assim, engloba em seu conjunto e deixa que atuem, muito a contragosto, diga-se de passagem, alguns teimosos, renitentes, abnegados, ingênuos de boa vontade que ainda acreditam na redenção e na salvação, e é por estes que a vida ainda vale a pena, e é para estes que eu dedico esta aventura ciclística, e são sempre estes os que salvam o dia no final.

     Meu fôlego novo imprimiu um ritmo forte em minhas pedaladas. Mudo o meu rumo na direção de casa pois acho que já vi o suficiente, já saciei minha curiosidade. O mundo não vai acabar, o mundo não acaba, só as pessoas vêm e vão. Já é quase de noite quando alcanço o portão de casa. Daqui a pouco mais uma dose da enxurrada de más notícias ocupa o espaço das transmissões. Só quero saber da corrida em busca da cura, da solução, o resto é somente uma autoflagelação, o resto é somente a dor solidária pelos que perderam a corrida, o resto é a indignação pela falta de compaixão por parte daqueles que deviam ser os guias, mas guiaram o povo em direção ao abismo, com suas mentiras, trapaças e desinformação, na verdade uns seres deformados moral e eticamente. Há de ter alguma forma de justiça para estes traficantes de almas, seja neste mundo ou em qualquer outro. Deus deveria estar atento e não pensando em novas punições, mas quem poderá adentrar a mente de Deus? Deus é inescrutável e eu sou apenas um ser medíocre e indignado. 

     Chego, guardo minha bicicleta, tomo um banho para limpar as impurezas mesmo que várias camadas de álcool gel possam prover a sensação de um manto protetor que tem me envolvido nestes dias cinzas. Cansado, mas estranhamente satisfeito de ter realizado um desejo secreto que eu espero nunca mais possa ser realizado, pois o custo de cumprir este desejo é insuportável para com meus concidadãos e toda a humanidade. 

     Sou imune? Não tenho como saber. O perigo ronda por todos os ângulos possíveis e as notícias ainda não trazem nenhum tipo de alívio. Desta vez não é nada pessoal, ao contrário, parece ser completamente impessoal. Esta não é a primeira vez e certamente não será a última. Tenho certeza de que somos todos parte de um grande experimento, estamos sendo testados por toda a nossa existência, simples cobaias enjaulados num grande laboratório, à disposição. Simples matéria prima, nada mais do que isso. E muitos acham que são o suprassumo da criação, filhos prediletos destinados a brilhar. 

     Sou um sobrevivente? Sim, todos somos. Com pavios curtos que queimam sem misericórdia, sem saber quando é o final, temendo o que nos aguarda do lado de lá da porta. Já dei de ombros muitas vezes, pois se não tenho como saber onde é o final porque eu deveria me preocupar? 

    Se já me arrisquei? Hoje eu me arrisquei, mas não sei ao certo o número de vezes, algumas vezes eu nem tinha consciência de que estava me arriscando, na santa inocência de se pensar imortal. Por certo que não era a minha hora, fui descartado da remessa daquele dia. Ou talvez não estivesse devidamente processado de forma adequada para servir ao propósito específico daquele dia. O fato é que cheguei até aqui, e não tenho nenhuma intenção de parar por enquanto, pois gostaria de ver algumas coisas mais. 

 Ivan Henrique Roberto

10.04.24


Na véspera (62)

 

Na véspera (62)

 

 

     Quarenta e um anos atrás eu escrevi a primeira das Vésperas, para comemorar mais um ano de vida que se completava. O olhar retroativo me mostra um jovem sonhador e inseguro que queria ou, melhor dizendo, precisava ardentemente se expressar pelas palavras. As palavras borbulhavam ao ponto de causar uma erupção, como um vômito ou um jorro, um disparo de raios de luz e som que almejam alcançar o espaço e ficar em órbita ao alcance dos olhos e ouvidos de quem habitasse na mesma frequência.

    Quarenta e um anos atrás havia um outro mundo onde a vida humana transcorria, um mundo amedrontado pelas possibilidades de concretização da guerra fria, tão falada e debatida por tanto tempo que se transformara em fetiche. Um mundo em transformação, que celebrava o consumo e deixava para trás alguns ideais mais igualitários. Um mundo sobrecarregado pelo peso e o custo das armas criadas para nunca serem usadas, um custo que já teria levado a humanidade a um estágio superior de desenvolvimento, conforto e convivência se as vidas humanas valessem mais do que as balas e a pólvora de sua ignição. 

    Quarenta e um anos atrás e o país estava cansado dos anos de martírio e chumbo, olhando adiante para novos tempos mais iluminados, rompendo a velha casca que perdera a razão de ser, ou certamente nunca tivera razão de ser. A geração que viera ao mundo numa era de  rara concessão de liberdades, criatividade e afirmação positiva , numa janela de tempo pleno de esperanças e expectativa, uma geração que não vivera os horrores da guerra e suas consequências imediatas e que traria uma carga mais leve sobre seus ombros agora chegava na idade adulta, com muito o que construir, muito para ser vivido e experimentado, tudo por ser transformado.

    Quarenta e um anos depois sou um homem maduro, contente com a vida que teve, ainda inseguro e ainda sonhador, pois o mundo nunca terá a feição que eu gostaria, o mundo mudou de forma irreversível e as gerações se sobrepõe e se sobrepujam. A única constante é a guerra, a alternativa daqueles que nunca aprenderam a fazer amor.

    Na véspera os mísseis voam sedentos por morte e a vida humana continua custando menos do que as balas e a pólvora que as disparam.

 

 

Ivan Henrique Roberto

14.04.2024

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

O tubarão

                                                                            O Tubarão


 Ivan Henrique Roberto, 14/15 de fevereiro de 2024.

 

     Como será viver 518 anos? Viver quinhentos e dezoito anos dentro do oceano, em águas profundas, escuras e geladas? Este ambiente inóspito é o melhor lugar do mundo. Longe dos olhares curiosos, cheios de cobiça, prontos para o ataque dos assim chamados seres humanos. Por séculos me deixaram em paz, mas me perceberam só agora que estou velho, que estou grande, que sou esquivo, mas não esquivo o bastante para escapar dos olhos curiosos destes humanos que querem saber de tudo.

    Vivo no escuro das águas geladas no lado de cima do planeta, esta é a minha casa. Aqui eu flutuo sem porto, sem ancoradouro, sem amarras, sempre em busca da minha refeição. Por quinhentos e dezoito anos eu tenho vivido em paz. Escapei logo no início, pois sou mais uma das inúmeras cobaias de Deus lançadas à própria sorte nesta manifestação material, uma das incontáveis possibilidades de projeção da mente divina. Deus brinca com suas criações e as deixa indefesas, incompletas, despreparadas, ao alcance da primeira boca mais ávida que aparecer pela frente. Nenhuma boca ávida foi rápida, voraz ou atenta o bastante para me perceber, e eu escapei e fui crescendo neste ambiente escuro, gelado e incerto até alcançar o tamanho suficiente para virar uma boca ávida que caça as cobaias indefesas, incompletas e despreparadas de Deus. Não tenho culpa, eu fui lançado neste mundo assim. 

     E os anos foram passando, seguindo a corrente fria que é minha estrada. Quando nasci, ou fui parido, não era mais do que um óvulo invulgar que escapou do desastre e sobreviveu. Nada sabia do mundo que me cercava, esta é uma dádiva que nos foi dada, a de não saber das maquinações humanas. Quando nasci os homens já estavam por aí, ocupando todos os espaços deste mundo grande. E por força do destino o mundo que me cerca é gelado e escuro e os homens não têm muito apreço por lugares escuros e gelados. Quando nasci suas embarcações ainda eram rudimentares, feitas de madeira e movidas por ventos, os quais não podiam controlar. No quarteirão de mundo onde crescia, e ainda era um jovem ser marítimo aprendendo as formas mais eficientes de capturar as pequenas e indefesas cobaias de Deus, o frio intenso da superfície não era atraente o bastante para trazer as embarcações movidas a vento dos humanos, e assim eles me deixaram em paz e a salvo por anos sem conta, pois sou esquivo e de aspecto desagradável. Além do mais minha carne tem um gosto repugnante e sou grato a Deus por ter me concedido esta graça. 

    Não sei nada do mundo acima da minha estrada de águas geladas, mas aos poucos mais e mais barcos de madeira singravam por entre as ondas que se erguiam e quebravam no teto de meu reino aquático. Por sobre o teto de meu reino aquático os raios de Sol revelavam os segredos dos caminhos marinhos em seus extratos mais altos, e assim era franqueado aos homens o acesso fácil aos corpos indefesos dos milhões de irmãos marinhos como eu, que não tem pernas e pulmões para correr e escapar às pontas de metal e tramas de cordas. Nada me interessa no brilho do Sol, nada me interessa nas ondas que sobem e morrem no teto de meu reino aquático, prefiro a escuridão que me protege dos olhares curiosos dos seres humanos sempre ávidos pelas carnes macias e suculentas de meus irmãos marinhos. 

      A rotina é o que me mantém vivo, a rotina de vagar pelas correntes frias em busca do alimento que me faz crescer, a rotina de me esconder na escuridão e passar despercebido, invisível, incompreendido, inclassificável, desconhecido, indetectável. Por séculos tem sido assim aqui no meu ambiente acolhedor, aqui onde me movo com agilidade. Mas na superfície, no reino despressurizado os anos passam e os humanos vão aprendendo coisas novas. Há cada vez mais humanos, mesmo que eles tenham uma predileção especial em ceifar a vida de outro ser semelhante, como se houvesse de tempos em tempos a necessidade de colher a plantação de humanos que nasce, cresce e fica pronta para ser cortada e consumida. Mesmo assim com toda a fome desenfreada em devorar tudo, a plantação humana é grande demais e sempre sobram aqueles que escapam e germinam. 

    Os anos passam devagar e o mundo despressurizado vai sendo ocupado, ocupado, desbastado, avaliado, preparado, ocupado, invadido, desbastado, incendiado, devastado, ocupado novamente, incansavelmente, queimado, transformado, sua essência primeva é vilipendiada, sua riqueza avaliada, medida, confiscada, apropriada por uso da força, novas ideias surgem, novas formas de explorar e desgastar a força que a terra ao se desgarrar do oceano levou eras incontáveis para criar. E já se criam impérios, que criam frotas de navios de madeira maiores e mais seguros para deslizar sobre as ondas que se crispam no topo do reino submarino, e esses navios já são incontáveis, levando e trazendo produtos, alguns criados pelos humanos e outros arrancados da terra, a mesma terra, o reino despressurizado, que teve uma paciência infinita de gerar, nutrir e fazer crescer tantas coisas admiráveis.

      Estes mesmos navios que vem e vão já levam em seu bojo outra carga, essa mais sensível: outros seres humanos. Tudo é mercadoria, tudo pode ser vendido e comprado, tudo tem um valor, e o que tem valor tem sempre alguém que possa pagar. A riqueza arrancada da terra não é suficiente então agora os navios trazem esta nova mercadoria, outros seres humanos. Arrancados de sua terra, avaliados, taxados, medidos e pesados, prontos para trabalharem a terra, não sua, mas de outros que, por graça do nascimento, herança, manobras políticas ou por outros meios escusos dividiram o melhor da terra entre si, e por não ter desejo de sujar as mãos e dobrar as costas ou se molhar no suor do trabalho, acharam melhor comprar outros seres humanos para fazer estas tarefas para si. E de acordo com as noções mais precisas e eficientes de como se obter o melhor valor para sua mercadoria acharam por bem explorar ao máximo cada peça comprada, sem considerar por um momento sequer a possível humanidade de suas aquisições. 

     Tal mercadoria em função da possível humanidade inerente era bastante perecível, e nas longas travessias dos barcos de madeira cada vez maiores a perda destas peças humanas perecíveis era bastante significativa, sendo lançados ao mar sem pudor ou a mínima consideração, tomados apenas como um peso morto ou prejuízo financeiro. Mesmo longe, muito longe de meu ambiente escuro e gelado, eu fiquei sabendo pelos primos tubarões distantes, aqueles que viajam muito e gostam das águas quentes para passar o verão que o descarte sem pena e pudor destas peças humanas perecíveis criou para eles um formidável banquete de corpos negros de carne macia, fáceis de abocanhar porque já falecidos e sem condições de lutar. Para mim é muito longe e desconfortável e um motivo a mais para nunca chegar perto de um ser humano, pois se nos fosse dada a capacidade da razão eu não teria como justificar, por nenhum meio possível e imaginável que uma espécie possa agir desta forma com outro membro da sua espécie. E nesse momento eu prezo muito não ter a capacidade da razão, no mesmo molde que a razão humana se apresenta perante o mundo. 

     O globo terrestre jamais se cansa de girar pelo espaço à fora e esta atividade tem seu custo medido numa unidade chamada tempo. E o tempo dispendido nesta atividade rotatória do planeta me faz crescer. Já sou grande agora, ainda jovem pelos padrões da minha espécie, mas firme em meus propósitos que é ser levado pela correnteza em busca de comida. Queiramos ou não as águas trocadas com a superfície acabam por trazer as novidades do mundo despressurizado, e estas novidades nos alertam sobre a atividade preferida dos seres humanos que é a guerra. Eu sei que a guerra é muito anterior a meu nascimento e ela estará na superfície muito depois que a minha longa existência termine. Estou apenas relatando fatos que nenhum outro ser vivo presenciou porque eu sou o ser vivo mais antigo que ainda interage com os elementos do mundo. Os navios já se fazem onipresentes, mesmo neste lado do mundo inóspito. Pobres das primas baleias, já que descobriram que seu corpo espesso e cheio de gordura serve para iluminar as ruas de suas cidades escuras. Elas não têm a mesma capacidade que eu tenho, de ficar submerso no escuro profundo, elas precisam respirar o ar da superfície, pobres delas! E os navios cada vez mais velozes se aproveitam desta fraqueza para caçá-las sem piedade. 

      As cidades humanas crescem para acomodar cada vez mais humanos. As cidades humanas crescem e querem a riqueza de outras cidades humanas, e assim vão em busca do que cobiçam. Porém nenhuma cidade humana quer dar de graça suas riquezas e os humanos criaram o jogo chamado guerra, onde o competidor mais forte e mais astuto se acha no direito de levar para sua cidade as riquezas da cidade que perdeu a competição. Não satisfeitos em brincar deste jogo no amplo espaço do mundo despressurizado, eles se acharam no direito de brincar de guerra no topo do mundo pressurizado. Os humanos são seres muito inventivos, não se pode negar e já na minha juventude eles descobriram meios de colocar tubos de metal em suas embarcações, que cospem coisas pesadas na direção das outras embarcações apenas pelo prazer de derrubar as outras embarcações, aquelas dos humanos contrários, aquelas que penduram pedaços de pano em cores e formatos diferentes e que eles deram o nome de bandeiras, não sei como um simples pedaço de pano diferente pode causar tanta ojeriza aos olhos de alguns seres humanos. 

      Da mesma forma que os navios que transportavam carne humana em troca de dinheiro, estes navios carregados de humanos ávidos por causar danos aos navios com bandeiras diferentes da sua quase sempre eram postos para mergulhar no tecido aquoso e gelado de meu mundo submerso. Na queda fatal em direção ao abismo sua assim chamada tripulação, muito a contragosto, era apresentada a um ambiente inclemente, inseguro, não afeito às necessidades humanas, diria mesmo que interditada à vida humana, tão bem adaptada à camada despressurizada do mundo. Quem gostava muito destas ocasiões eram os infindáveis cardumes de todo o tipo de irmãos marinhos à espera de uma refeição fácil. Fácil, mas de gosto indigesto. Não conheço o gosto da carne humana, eles não costumam vir na minha vizinhança com frequência, quem me conta são as primas baleias que escapam dos arpões e viajam muito, além dos vizinhos tubarões, que não apresentam um paladar refinado e tudo que chega em suas bocas é bem-vindo. A dieta do oceano, a partir de então, acrescentou para sempre um ítem novo aos comensais, muito embora a proporção entre os irmãos marinhos caçados, pescados e devorados e os humanos atirados às profundezas ainda seja totalmente desequilibrada. 

     Minha pele já mudou sua cobertura diversas vezes, o que significa que já não sou tão jovem assim, mas permaneço firme e forte e apartado das artimanhas e escaramuças que se avolumam na superfície do mundo despressurizado. Num pequeno território encravado num lugar maior chamado Europa chegam notícias de que os humanos muito insatisfeitos com o rumo que as coisas haviam tomado resolveram dizer não aos assim chamados privilégios que uma fatia pequena, porém gulosa em extremo não queria deixar de ter. Os gulosos e surdos às reclamações de seus vizinhos despossuídos, famintos e desesperados se viram encurralados e muitos, mas muitos mesmo, tiveram suas cabeças cortadas num único golpe, para quem sabe assim aprenderem de uma vez por outra que os humanos nascem iguais e assim deveria ser. Eu tenho para mim que esta última afirmação não está embebida de verdade, mas quem sou eu para entender das peculiaridades dos humanos?

     A única coisa é que mesmo longe eu sinto as vibrações das transformações que chegam muito de leve, trazidas pelas correntes marítimas. O mundo da superfície está cada vez mais complexo, mais intrincado, novas ideias brotam nas mentes mais argutas e poderosas. E os humanos se multiplicam cada vez mais. Passam mais tempo sob o Sol pois que suas vidas vão se estendendo, já não vivem assim tão pouco, quer dizer, muitos ainda vivem assim tão pouco, que são os mais indefesos pois os mais indefesos são utilizados como a gordura das primas baleias para iluminar as cidades humanas, neste caso os indefesos não são queimados como a gordura das baleias, não, nada disso, pois seus corpos ao serem queimados exalam um odor atroz, que repulsa os não tão indefesos assim. A gordura dos mais indefesos, que na verdade é bem pouca pois são mal alimentados, é na verdade sua débil energia extinta logo após se esforçarem por horas a fio, por dias a fio, por meses a fio nas novas construções que são chamadas de fábricas. Os mais indefesos então podem queimar até o fim sem precisar exalar um mal cheiro repulsivo. Muitos deles terminam sua existência sem que se ouça um ai, ou um grito. São como os pequenos óvulos invulgares lançados ao mar, no meio da vastidão do oceano. Sobre seus pequenos corpos tão frágeis foi construída grande parte da riqueza dos homens. 

     Quase não o sinto, mas o tempo corre como se precisasse se superar sempre, numa prova de velocidade insana. Ainda vivo em paz, ninguém me avistou e sigo ignoto, todavia eu prenuncio que minha tranquilidade está por ser destroçada. Mesmo neste lado gelado da existência o vai-e-vem dos navios só aumenta, os humanos não ficam satisfeitos com o lugar que já tem, eles querem sempre mais. Os navios estão cada vez maiores e mais fortes, novas carcaças. Inventaram uma nova maneira de iluminar as cidades e já não precisam assim tanto da gordura das primas baleias, agora só as perseguem por esporte, vejam só!

     E o mundo vai se enchendo de fumaça. Desta vez não é culpa dos vulcões, eles só acordam de seu sono profundo muito raramente. Eu por vezes chego próximo de alguns, suas pernas imensas nascem muito fundo dentro do mundo pressurizado e eu me aproximo para contemplá-los em silêncio, o silêncio que me acompanha sempre pois não ouso despertá-los, acho que ainda sou muito pequeno para isso. Acho que jamais serei capaz disso. Lembro de uma ocasião em que um deles, jovem ainda, expelia suas entranhas para dentro da água. Suas entranhas eram tão quentes, que eu me afastei acelerado, tão rápido quanto jamais pudesse ter sido. Gosto da minha água bem gelada e as entranhas daquela jovem montanha submersa cauterizavam tudo que estava ao redor, o calor era sentido numa longa distância. Os homens temem os vulcões, estes são os verdadeiros dragões de suas histórias pueris, com seu fogo devastador. A ilha mais próxima de onde eu vivo é assim, cheia deles, todos quase sempre adormecidos, Deus salve a sua preguiça. 

     Após tanto tempo vagando nestas correntes geladas e submersas eu aprendi a me esquivar, pois vivo no escuro e não atraio a atenção. Vivo minha longa existência em paz, mas agora o mundo da superfície quer invadir o meu domínio. Sinto minhas águas mais quentes, vejo o chão de meu mundo coalhado de objetos estranhos, muitos navios e aparelhos voadores, grande parte deles lançados aqui em baixo após duas enormes guerras, aquele esporte favorito dos seres humanos. E mais essa também: começaram a aparecer substâncias estranhas, maleáveis, transparentes, que são novidade, surgiram a muito pouco tempo e já ocupam tanto espaço. Muitos irmãos marinhos confundiram-nas com alimento e tiveram um fim antecipado. Ouço também notícias distantes que falam de um sangue negro e espesso que agora ocupa por vezes o lugar da água antes limpa. Este sangue negro deve ser muito nutritivo pois os humanos agridem-se por sua causa, este sangue negro e espesso que estava placidamente contido no imenso corpo de pedra lá embaixo, muito abaixo de onde eu costumo ir. Me disseram que este sangue negro está por trás da quentura crescente de minha água gelada. Quem saberá dizer se é verdade ou não?

     Só sinto uma tensão que cresce cada vez mais, como se não pudesse mais haver nenhum lugar onde se possa ficar em paz e em silêncio, onde se possa desfrutar do escuro intenso. Sinto que estou ficando cada vez mais indefeso, como me sentia quando era não mais do que um grão dentro deste corpo líquido imenso, ainda mais agora que me descobriram, eu que deslizei aqui em baixo por séculos e sou a testemunha viva mais antiga a relatar os acontecimentos por vezes infames e por vezes prosaicos, eu que me esquivei o máximo que pude da curiosidade deletéria que só os humanos podem ter, eu que presenciei tantas barbaridades cometidas contra meus irmãos marinhos, eu que fui contemporâneo do descarte de tantos humanos indefesos jogados ao mar, eu que vivo no escuro e assim gostaria de continuar. Mas minha foto agora está nos meios de comunicação e não sei por quanto tempo mais resistirei. Já vivi quinhentos e dezoito anos, sou velho e certamente cansado, mas gostaria de pedir que me deixassem terminar meus dias onde sempre fui feliz, e se, ao passar desta vida para outra encontrarem meu corpo de carne com sabor indigesto ainda inteiro, eu permito que me preservem para estudo.

      Agora, uma coisa muito me intriga: como calcularam tão bem a minha idade?