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ABRIGO
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Havia bastante tempo que uma chuva com
tanta volúpia não desabava nesta região. Agora tudo ao redor está molhado e enlameado.
Ele para o carro no antigo estacionamento e com cuidado caminha até a porta.
Ainda dentro de um impulso semiconsciente, um pontapé na fechadura abre as
portas para este abrigo improvisado. Uma escuridão e um monte de teias de
aranha são os recepcionistas.
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“Pelo menos o teto está intacto. Acho que
vou ter de me virar por aqui mesmo”
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Ele começa a explorar o edifício. Muitas
peças do mobiliário continuam no estabelecimento abandonado há vários anos.
Algumas janelas quebradas deixam passar um pouco do frio úmido que circunda
tudo. Num canto meio escondido há um lampião. Várias cadeiras ainda estofadas
se colocadas em fila podem fazer o papel de uma cama, caso seja imperioso
passar a noite. O abandono lega ao ambiente uma camada substancial de pó. Caso
haja alguém com um mínimo que seja de alergia esta não aguentaria permanecer
por mais do que 15 minutos no recinto, porém este não é o caso de nosso pobre
trabalhador, que de queixas em relação à saúde tem muito poucas. Apenas a
ansiedade, fruto do estresse constante, se bem que isto não é um privilégio
dele, mas sim uma praga em escala global.
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O frio aumenta neste casarão abandonado,
cercado por uma mata luxuriante e encharcada neste fim de outono. Uma despensa
ao final do corredor continha ainda algumas toalhas de mesa e outros
apetrechos. Não tão sujas por estarem fechadas em gavetas de um móvel de
esmerada construção, que ao serem fechadas lacravam com bastante precisão todos
os utensílios esquecidos em seu interior. “Quem não tem cão caça com gato é o
que dizem, então se tiver que pernoitar aqui já tenho com que me cobrir”.
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Continuando a exploração deste território
ele descobre, com grande surpresa e satisfação, que havia vários galões de
água, licores e garrafões de vinho (se bem que de qualidade para lá de
duvidosa), ainda lacrados e potáveis, sabe-se lá como. Pois que a sede já
avançava pela sua garganta, resultado de toda a ansiedade e irritação pelos
eventos recentes. “Este lugar parece que foi abandonado às pressas”, pensou, agora
com a garganta tranquila e refrescada. Os relâmpagos providenciavam a claridade
para a locomoção neste terreno desconhecido. Então percebeu a fome. Quantas
horas já haviam decorrido desde a saída da reunião? A contagem do tempo havia
ficado em suspensão desde a parada e o breve cochilo quilômetros e horas atrás.
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Apesar da fome, que agora que percebera
tornara-se uma companhia desagradável, ele subiu ao piso superior do
estabelecimento, em busca de alguma outra surpresa. Todavia qualquer resquício
de comida caíra por terra, pois mesmo que houvessem esquecido mantimentos, os
ratos, pássaros e demais animais silvestres já teriam se fartado muito antes de
sua chegada. A noite havia de ser longa.
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O
RIO
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Rios
gostam de água. Rios são feitos de água, apesar de todo o lixo que insistem em
pedi-los para guardar em seu bojo. Há quanto tempo eles estão em seu leito
original?
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Hoje o Rio dos Troncos está feliz, pois
tamanha quantidade de água assim faz tempo que ele não recebe como visita. Logo
se expande, e se expande cada vez mais, numa velocidade assombrosa. Em minutos
ele resolve sair de seu leito original, acariciando a grama e os arbustos que o
margeiam. A pobre ponte que por sobre seu dorso permanecia imóvel já por vinte
anos, hoje não aguentou e despencou. O rio não quer saber do destino da ponte.
Logo avança mais e mais, e não parecia arrefecer neste ímpeto aventureiro, como
que tomado por um desejo irrefreável de conhecer toda a vizinhança, deixar o
leito para trás e subir, subir, subir....
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PRIMEIRO
METRO ACIMA DO LEITO
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O primeiro metro acima do leito levou
cerca de uma hora para ser alcançado. Já encharcada pela queda livre vertical
dos pingos grossos de água, a terra ao longo do leito do rio deixou fácil o
caminho para o avança impetuoso daquela massa de água revolta. Todo o lixo
acumulado ao longo das margens já rodopiava, afundava e voltava à tona, num
vaivém frenético, após o arrasto inicial, parecendo mesmo um trio elétrico que
passa e leva aquela multidão maravilhada pelo som e luzes coloridas. Galhos e
ramos caídos levavam sacos plásticos como bandeirolas numa procissão. Baldes de
lixo já cheios de areia e sedimentos se chocavam com garrafas plásticas, cascas
de côco, sapatos velhos sem par, até um pobre pássaro preso por um pedaço de
fio elétrico não havia sido rápido o bastante para escapar da enxurrada. Visto
de longe é um belo espetáculo esta pororoca, esta avalanche horizontal. Quem
pode com a força das águas?
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