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O ato de esperar
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Ivan
Henrique Roberto
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Julho de 2014
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-Você volta ainda hoje?
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-Sim, minha missão está encerrada por aqui,
desta vez. Já deixei o carro abastecido e calibrado.
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-Não acha que está um pouco tarde? Não
demora a escurecer e as nuvens estão muito carregadas. A estrada é boa mas sei
lá...o dia foi longo e cansativo.
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-É, eu sei. Mas você sabe como sou ansioso.
Pretendo tirar mais um dia de folga.
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-Já sabe onde vai pernoitar?
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-Não vou pernoitar. Vou dar uma esticada
firme. Penso em dormir na minha cama.
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-Você é corajoso hein? O rio costuma
transbordar. Eu não encararia. Acho que
é a idade pesando. Bem, boa sorte então.
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-Obrigado. Até a próxima.
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Rádio ligado com a previsão do tempo.
“ Instabilidade acentuada. Previsão de pancadas de chuva com muita intensidade
na região serrana. Visibilidade reduzida com a previsão de nevoeiro”.
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A luz do dia diminuía com rapidez na
estrada sinuosa. Dois acidentes antes da saída da cidade já haviam atrasado a
viagem. A ansiedade não costuma ficar de bem com a imprevisibilidade, sendo
esta o cálice que contém o líquido corrosivo a ser jogado nas entranhas da
ansiedade. O plano de viagem já foi sabotado logo no início, logo de saída na cidade
tortuosa, cheia de cruzamentos, cheia de ambulantes e barracas coloridas às
margens da estrada-avenida neste dia útil. Nem as cidades menores estão a salvo
do enxame de veículos, que são a sustentação da sociedade motorizada.
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O tempo, ah o tempo perdido! Não
adianta reclamar, não há com quem reclamar.
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Os primeiros pingos vieram de encontro ao
para-brisas, gentilmente batendo e escorrendo pelo vidro, e qual uma infestação
de pragas sem controle logo uma camada grossa de água obrigava as hastes do
limpador a fazer o seu vaivém, jogando à esquerda e à direita a água abençoada
que pulava do céu para umedecer o solo e fazer crescer as plantas. A pista que
logo encharcava dava mostras da necessidade de trazer para primeiro plano a cautela,
aquele ente irritante que se antepõe à pressa, ao arrojo, à impetuosidade e
todos os adjetivos que servem para lubrificar a máquina do sucesso nestes
tempos modernos medido em milissegundos.
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O
velocímetro já marcava 90 km/h na estrada sinuosa e molhada, a luz baça do
crepúsculo sombrio diminuía o raio de ação e a velocidade de reação caso o
freio fosse acionado. Ah o planejamento! Sempre brota uma variável indesejada
para desequilibrar a equação.
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500 metros adiante há uma curva muito
fechada, e uma fileira de caminhões abarrotados já ocupa o espaço. A
ultrapassagem além de proibida é impensável. E as comportas do céu foram
escancaradas de vez. Que cenário estimulante!
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As forças da natureza não se importam com
os pobres mortais. Meros figurantes de um enredo intrincado e caprichoso, os
simples mortais quase sempre assistem ao desenrolar dos acontecimentos de forma
passiva e impotentes, creditando à sorte e ao acaso a composição dos fatos, que
ao final de um período determinado transforma-se em história, seja minha, sua
ou deles, tanto faz. A sequência dos fatos deste pequeno recorte de história,
neste momento nos diz que a transmissão da rádio local informa de uma carreta
tombada a poucos quilômetros, serra abaixo. Já nervoso com o atraso inicial, a
irritação dá saltos dentro do corpo já cansado de um mero trabalhador que só
queria dormir em sua cama nesta noite.
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Minutos alongados ao máximo da capacidade
de paciência vão se sucedendo. A noite se instala em definitivo e a chuva que
havia chegado com tanta alegria e disposição, não dava nenhum sinal de ir
embora, parecendo mesmo que estava tão saudosa do solo, que a conversa entre
ambos não pararia jamais. Nosso devotado trabalhador desligara o carro, vencido
pela espera de uma estrada vazia, que não vinha. Suas pernas já doem. Sua
impaciência perdera a queda de braço e virara resignação.
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A
música escorria dos falantes de seu carro e embalara-o ternamente. Adormecera.
De repente sons de motores a dar partida. Despertara num susto, alguns segundos
para dar-se conta da situação. A estrada estava livre de novo. A serpente
adormecida se movia novamente e um ânimo novo insuflava seus pulmões e sua
mente. E a chuva não arrefecia. 30 quilômetros adiante havia um rio. Rios
gostam de chuva. Ela os alimenta, os engorda, os mantém vivos e lépidos. Ah as
águas! As águas, tão vitais neste planeta chamado Terra.
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Chegamos então num longo trecho em que as
habitações e construções se rarefazem. A mata fechada ainda sobrevive com
alguma folga e muitas folhas nesta região que produz uma bela vista e um belo
refúgio quando o Sol está alto e fagueiro, e várias trilhas levam à cachoeiras
e grutas, diversão gratuita aos bravos de espírito, bem preparados e bem
abastecidos com água e guloseimas. Num claro dia de primavera ou verão, quando
as nuvens estão altas no céu e os pássaros cantam para namorar é um bom lugar
para se estar. Mas a chuva nesta noite de fim de outono não quer ir dormir. E a
luz está ausente em grande parte. A estrada esvaziou um pouco, porém o asfalto
já bastante gasto associado com a água em abundância impede que o carro ganhe
velocidade.
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Já
bastante distante da cidade a transmissão do rádio estava intermitente.
“.......atenção na estrada por conta da chuva torrencial.......não há previsão
de que haja melhoras nas próximas horas…ATENÇÃO!! A PONTE ACABA DE RUIR.......”
E o sinal da rádio sumiu de novo.
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O
trabalhador cansado, já a esta altura dos acontecimentos, aguça o ouvido e mexe
no dial do rádio, porém a notícia já havia sido transmitida. “A ponte caiu? A
ponte caiu? Foi isto mesmo o que eu ouvi ???!! Só me faltava essa! O quê que eu
faço agora? Não tem nada nessa região, nenhum hotel, nenhuma pousada, eu que
contava em dormir em casa…”
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Antes
que a ponte ruísse os veículos já haviam escoado com rapidez, e o carro azul de
nosso trabalhador estava sozinho na estrada escura e molhada. Faltavam poucos
quilômetros para atravessá-la. A chuva
aumentara de intensidade bruscamente. Parecia mais uma descarga monumental
acionada nas nuvens. Uma placa semidestruída
indicava um antigo comércio de licores e vinhos à direita, cerca de 200 metros
ao longe. Nosso trabalhador num impulso semiconsciente sai com o carro da
estrada e vai em direção ao prédio abandonado. Um trecho de terra totalmente
enlameado o separa de seu abrigo.
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