terça-feira, 20 de março de 2018

O ato de esperar (parte 1)


                O ato de esperar

                     
                     
                                                                                                 Ivan Henrique Roberto
                                                                                                 Julho de 2014
                     
                     
                     
                     
                                -Você volta ainda hoje?
                    -Sim, minha missão está encerrada por aqui, desta vez. Já deixei o carro abastecido e calibrado.
                    -Não acha que está um pouco tarde? Não demora a escurecer e as nuvens estão muito carregadas. A estrada é boa mas sei lá...o dia foi longo e cansativo.
                    -É, eu sei. Mas você sabe como sou ansioso. Pretendo tirar mais um dia de folga.
                    -Já sabe onde vai pernoitar?
                    -Não vou pernoitar. Vou dar uma esticada firme. Penso em dormir na minha cama.
                    -Você é corajoso hein? O rio costuma transbordar. Eu não encararia.  Acho que é a idade pesando. Bem, boa sorte então.
                    -Obrigado. Até a próxima.
                     
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                              Rádio ligado com a previsão do tempo. “ Instabilidade acentuada. Previsão de pancadas de chuva com muita intensidade na região serrana. Visibilidade reduzida com a previsão de nevoeiro”.
                              A luz do dia diminuía com rapidez na estrada sinuosa. Dois acidentes antes da saída da cidade já haviam atrasado a viagem. A ansiedade não costuma ficar de bem com a imprevisibilidade, sendo esta o cálice que contém o líquido corrosivo a ser jogado nas entranhas da ansiedade. O plano de viagem já foi sabotado logo no início, logo de saída na cidade tortuosa, cheia de cruzamentos, cheia de ambulantes e barracas coloridas às margens da estrada-avenida neste dia útil. Nem as cidades menores estão a salvo do enxame de veículos, que são a sustentação da sociedade motorizada.
                            O tempo, ah o tempo perdido! Não adianta reclamar, não há com quem reclamar.
                        
                         Os primeiros pingos vieram de encontro ao para-brisas, gentilmente batendo e escorrendo pelo vidro, e qual uma infestação de pragas sem controle logo uma camada grossa de água obrigava as hastes do limpador a fazer o seu vaivém, jogando à esquerda e à direita a água abençoada que pulava do céu para umedecer o solo e fazer crescer as plantas. A pista que logo encharcava dava mostras da necessidade de trazer para primeiro plano a cautela, aquele ente irritante que se antepõe à pressa, ao arrojo, à impetuosidade e todos os adjetivos que servem para lubrificar a máquina do sucesso nestes tempos modernos medido em milissegundos.
                       O velocímetro já marcava 90 km/h na estrada sinuosa e molhada, a luz baça do crepúsculo sombrio diminuía o raio de ação e a velocidade de reação caso o freio fosse acionado. Ah o planejamento! Sempre brota uma variável indesejada para desequilibrar a equação.
                       500 metros adiante há uma curva muito fechada, e uma fileira de caminhões abarrotados já ocupa o espaço. A ultrapassagem além de proibida é impensável. E as comportas do céu foram escancaradas de vez. Que cenário estimulante!
                        As forças da natureza não se importam com os pobres mortais. Meros figurantes de um enredo intrincado e caprichoso, os simples mortais quase sempre assistem ao desenrolar dos acontecimentos de forma passiva e impotentes, creditando à sorte e ao acaso a composição dos fatos, que ao final de um período determinado transforma-se em história, seja minha, sua ou deles, tanto faz. A sequência dos fatos deste pequeno recorte de história, neste momento nos diz que a transmissão da rádio local informa de uma carreta tombada a poucos quilômetros, serra abaixo. Já nervoso com o atraso inicial, a irritação dá saltos dentro do corpo já cansado de um mero trabalhador que só queria dormir em sua cama nesta noite.
                         Minutos alongados ao máximo da capacidade de paciência vão se sucedendo. A noite se instala em definitivo e a chuva que havia chegado com tanta alegria e disposição, não dava nenhum sinal de ir embora, parecendo mesmo que estava tão saudosa do solo, que a conversa entre ambos não pararia jamais. Nosso devotado trabalhador desligara o carro, vencido pela espera de uma estrada vazia, que não vinha. Suas pernas já doem. Sua impaciência perdera a queda de braço e virara resignação.
                        A música escorria dos falantes de seu carro e embalara-o ternamente. Adormecera. De repente sons de motores a dar partida. Despertara num susto, alguns segundos para dar-se conta da situação. A estrada estava livre de novo. A serpente adormecida se movia novamente e um ânimo novo insuflava seus pulmões e sua mente. E a chuva não arrefecia. 30 quilômetros adiante havia um rio. Rios gostam de chuva. Ela os alimenta, os engorda, os mantém vivos e lépidos. Ah as águas! As águas, tão vitais neste planeta chamado Terra.
                        Chegamos então num longo trecho em que as habitações e construções se rarefazem. A mata fechada ainda sobrevive com alguma folga e muitas folhas nesta região que produz uma bela vista e um belo refúgio quando o Sol está alto e fagueiro, e várias trilhas levam à cachoeiras e grutas, diversão gratuita aos bravos de espírito, bem preparados e bem abastecidos com água e guloseimas. Num claro dia de primavera ou verão, quando as nuvens estão altas no céu e os pássaros cantam para namorar é um bom lugar para se estar. Mas a chuva nesta noite de fim de outono não quer ir dormir. E a luz está ausente em grande parte. A estrada esvaziou um pouco, porém o asfalto já bastante gasto associado com a água em abundância impede que o carro ganhe velocidade.
                       Já bastante distante da cidade a transmissão do rádio estava intermitente. “.......atenção na estrada por conta da chuva torrencial.......não há previsão de que haja melhoras nas próximas horas…ATENÇÃO!! A PONTE ACABA DE RUIR.......” E o sinal da rádio sumiu de novo.
                        O trabalhador cansado, já a esta altura dos acontecimentos, aguça o ouvido e mexe no dial do rádio, porém a notícia já havia sido transmitida. “A ponte caiu? A ponte caiu? Foi isto mesmo o que eu ouvi ???!! Só me faltava essa! O quê que eu faço agora? Não tem nada nessa região, nenhum hotel, nenhuma pousada, eu que contava em dormir em casa…”
                         Antes que a ponte ruísse os veículos já haviam escoado com rapidez, e o carro azul de nosso trabalhador estava sozinho na estrada escura e molhada. Faltavam poucos quilômetros para atravessá-la.  A chuva aumentara de intensidade bruscamente. Parecia mais uma descarga monumental acionada nas nuvens.  Uma placa semidestruída indicava um antigo comércio de licores e vinhos à direita, cerca de 200 metros ao longe. Nosso trabalhador num impulso semiconsciente sai com o carro da estrada e vai em direção ao prédio abandonado. Um trecho de terra totalmente enlameado o separa de seu abrigo.
                     

                     
                     
                                                                                               

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