quarta-feira, 21 de março de 2018

O ato de esperar (2ª parte)


                                                                                        ABRIGO
                     
                        Havia bastante tempo que uma chuva com tanta volúpia não desabava nesta região. Agora tudo ao redor está molhado e enlameado. Ele para o carro no antigo estacionamento e com cuidado caminha até a porta. Ainda dentro de um impulso semiconsciente, um pontapé na fechadura abre as portas para este abrigo improvisado. Uma escuridão e um monte de teias de aranha são os recepcionistas.
                         “Pelo menos o teto está intacto. Acho que vou ter de me virar por aqui mesmo”
                         Ele começa a explorar o edifício. Muitas peças do mobiliário continuam no estabelecimento abandonado há vários anos. Algumas janelas quebradas deixam passar um pouco do frio úmido que circunda tudo. Num canto meio escondido há um lampião. Várias cadeiras ainda estofadas se colocadas em fila podem fazer o papel de uma cama, caso seja imperioso passar a noite. O abandono lega ao ambiente uma camada substancial de pó. Caso haja alguém com um mínimo que seja de alergia esta não aguentaria permanecer por mais do que 15 minutos no recinto, porém este não é o caso de nosso pobre trabalhador, que de queixas em relação à saúde tem muito poucas. Apenas a ansiedade, fruto do estresse constante, se bem que isto não é um privilégio dele, mas sim uma praga em escala global.
                          O frio aumenta neste casarão abandonado, cercado por uma mata luxuriante e encharcada neste fim de outono. Uma despensa ao final do corredor continha ainda algumas toalhas de mesa e outros apetrechos. Não tão sujas por estarem fechadas em gavetas de um móvel de esmerada construção, que ao serem fechadas lacravam com bastante precisão todos os utensílios esquecidos em seu interior. “Quem não tem cão caça com gato é o que dizem, então se tiver que pernoitar aqui já tenho com que me cobrir”.
                       Continuando a exploração deste território ele descobre, com grande surpresa e satisfação, que havia vários galões de água, licores e garrafões de vinho (se bem que de qualidade para lá de duvidosa), ainda lacrados e potáveis, sabe-se lá como. Pois que a sede já avançava pela sua garganta, resultado de toda a ansiedade e irritação pelos eventos recentes. “Este lugar parece que foi abandonado às pressas”, pensou, agora com a garganta tranquila e refrescada. Os relâmpagos providenciavam a claridade para a locomoção neste terreno desconhecido. Então percebeu a fome. Quantas horas já haviam decorrido desde a saída da reunião? A contagem do tempo havia ficado em suspensão desde a parada e o breve cochilo quilômetros e horas atrás.
                        Apesar da fome, que agora que percebera tornara-se uma companhia desagradável, ele subiu ao piso superior do estabelecimento, em busca de alguma outra surpresa. Todavia qualquer resquício de comida caíra por terra, pois mesmo que houvessem esquecido mantimentos, os ratos, pássaros e demais animais silvestres já teriam se fartado muito antes de sua chegada. A noite havia de ser longa.
                     
                     
                                                                O RIO
                     
                         Rios gostam de água. Rios são feitos de água, apesar de todo o lixo que insistem em pedi-los para guardar em seu bojo. Há quanto tempo eles estão em seu leito original?
                           Hoje o Rio dos Troncos está feliz, pois tamanha quantidade de água assim faz tempo que ele não recebe como visita. Logo se expande, e se expande cada vez mais, numa velocidade assombrosa. Em minutos ele resolve sair de seu leito original, acariciando a grama e os arbustos que o margeiam. A pobre ponte que por sobre seu dorso permanecia imóvel já por vinte anos, hoje não aguentou e despencou. O rio não quer saber do destino da ponte. Logo avança mais e mais, e não parecia arrefecer neste ímpeto aventureiro, como que tomado por um desejo irrefreável de conhecer toda a vizinhança, deixar o leito para trás e subir, subir, subir....
                     
                     
                                                         PRIMEIRO METRO ACIMA DO LEITO
                     
                         O primeiro metro acima do leito levou cerca de uma hora para ser alcançado. Já encharcada pela queda livre vertical dos pingos grossos de água, a terra ao longo do leito do rio deixou fácil o caminho para o avança impetuoso daquela massa de água revolta. Todo o lixo acumulado ao longo das margens já rodopiava, afundava e voltava à tona, num vaivém frenético, após o arrasto inicial, parecendo mesmo um trio elétrico que passa e leva aquela multidão maravilhada pelo som e luzes coloridas. Galhos e ramos caídos levavam sacos plásticos como bandeirolas numa procissão. Baldes de lixo já cheios de areia e sedimentos se chocavam com garrafas plásticas, cascas de côco, sapatos velhos sem par, até um pobre pássaro preso por um pedaço de fio elétrico não havia sido rápido o bastante para escapar da enxurrada. Visto de longe é um belo espetáculo esta pororoca, esta avalanche horizontal. Quem pode com a força das águas?
                     
                     

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