terça-feira, 12 de dezembro de 2023

A visita (parte 2)

      Já de volta à casa, com o Sol indo se ocultar deste lado ocidental e Vênus se insinuando na linha do horizonte, eu só ansiava por um banho morno que me lavasse e levasse pelo ralo um pouco das dores tão duramente experimentadas ao longo do dia. Ao abrir a torneira um jorro de água fria foi um choque neste espírito alquebrado. Quinze anos é bastante tempo para esquecer que as benesses e as facilidades da vida urbana nem sempre estão disponíveis nestes rincões, e além do mais meu tio é um tanto ou quanto reticente em se tratando de abraçar as modernidades e as facilidades. Ele é feito da terra, um ser adâmico, mais argila do que porcelana. E então, suspender o banho e esperar um balde de água a ser esquentado no fogão, ou respirar fundo e enfrentar a água fria? A água fria acabou vencendo.

      Logo o aroma de uma comida caseira invadiu o ambiente. Era hora do jantar. Desci para a cozinha e tudo já estava disposto sobre a mesa. O apetite suplantava o cansaço e a dor e logo vastas porções desciam goela abaixo. Devo admitir que o sabor estava quase surreal de tão bom. Comi quase como se estivesse possesso por um espírito colocado em jejum eterno em busca da refeição perdida. A fome era tanta e a sofreguidão das garfadas deixaram de lado os bons modos à mesa, a sede concorria com a fome e para vencê-la enormes goles de água rolavam garganta abaixo. Acho que neste momento, sem muitos freios e refinamentos, eu havia invocado algum espírito primitivo dentro de mim, desconhecido de mim mesmo, à espreita esperando se livrar dos grilhões da civilidade. Após alguns minutos neste embate e quase saciado eu cruzei o olhar com meu tio, que sorria satisfeito.

  - Assim é que eu gosto! Disse ele piscando um olho zombeteiro, maroto mas infantil no melhor sentido que a palavra possa ter. Um olhar cúmplice e solidário, com a total compreensão do que o meu corpo alquebrado estava sentindo e do que precisava para se recuperar.

  - Eu sei meu sobrinho que você não é feito para este trabalho pesado, mas vi a sua boa vontade e seu empenho. São muitos anos até que o corpo se amolde e crie temperança para vencer a queda de braço com a natureza, até o momento em que a natureza se torne parceira e não o capataz com um chicote pronto para estalar em suas costas vergadas. É um longo e solitário aprendizado, que requer paciência até aquele momento em que você olha para o céu e o Sol sorri pra você, e te certifica. A partir deste momento a união com a terra é definitiva.

   Fiquei em silêncio tentando absorver estas palavras. Para alguém tão simples, sem tantas elaborações mentais, sem o trato e o verniz comuns aqueles que vivem na sociedade moderna e educada, a beleza e a sonoridade destas frases me surpreenderam. Talvez fosse por conta de ter a emoção do estômago saciado, mas por um momento eu desconhecia aquele homem que eu acompanhava desde a mais tenra infância. Ou quem sabe o preconceito e o desdém para com os que vivem esta vida agrária, e que está latente dentro de mim, me impeçam de enxergar. Os quinze anos de distância também tem grande papel nesta história, o tempo afasta e esfria, enfraquece a união, estremece os elos. Por que ter como certo que quem tem as mãos tão calejadas seja incapaz de um pensamento elaborado.

   -É, meu tio. Eu tive uma bela lição hoje. Bela e dolorosa. Criei muita expectativa e cheguei achando que podia tudo, ou que podia muito. Mas vi que posso muito pouco. Estou até envergonhado.

 - Ora, não se envergonhe. É falta de prática. Quanto tempo você quer ficar aqui? 

-Ah, ficarei poucos dias. Não sei com certeza.

 - Então descanse amanhã e depois de amanhã tente de novo, mas vá mais devagar. Não falta é trabalho a ser feito. Amanhã vá andar pelo sítio, visitar seus lugares preferidos. Vá até o alto do morro, eu construí um mirante, ficou muito bonito!

 -Com certeza que eu farei isto. Vim matar as saudades de tudo e todos.

    Após esta conversa ficamos em silêncio saboreando a sobremesa e a “marvada” caseira, de sabor adocicado e encorpado. Espichei os ouvidos em busca dos sons noturnos. Grilos e sapos, rãs e vagalumes, corujas a postos para mais uma jornada de caça. O recolhimento. O silêncio. A noite estrelada ao alcance bem aqui na varanda. Um teto de tênues luzes tão longínquas, mas que aqui se contam aos milhares. Esqueci que existem tantas estrêlas. Esqueci que o silêncio aqui é quase ensurdecedor, que o vento morno faz as árvores cantarem uma cantiga imemorial, e que a voz humana dissona nesta sinfonia. Devemos pedir licença para falar e não desperdiçar palavras inúteis, muitas vezes agressivas, muitas vezes vazias, deslocadas, impróprias, malfazejas, vis. Devemos polir as palavras para que elas reluzam na presença de um raio de luar tão puro, e na fagulha débil de uma estrêla tão majestosa, mas que a distância nos faz esquecer a sua magnificência. O ar calmo tem o poder de depurar nossos pensamentos, e até um ser mediano e limitado como eu consegue ter, ou pretende ter, a petulância de pensar em termos tão elevados. Quem sabe é o efeito da aguardente? O que isto importa? Estou pensando demais sem ter o treino necessário para pensar demais, e a mente começa a divagar mais ainda. Acho que o sono chegou. Boa noite tio.

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    No dia seguinte logo cedo, após um farto e revigorante café da manhã, eu acatei a sugestão e saí pelo sítio afora. Queria ver com mais atenção se havia muita mudança em relação ao que a minha memória ainda guardava de lembranças. Tomei um rumo diferente e desviei das terras aradas e preparadas para a próxima safra. Fui em direção ao lago, na parte sul. Os dias de Sol têm sido constantes e clementes, e o vento calmo e morno não se retirou após a noite passada repleta de reflexões.

    A trilha pouco havia mudado, agora tinha mais pedras pequenas e arbustos. As árvores muito copadas despontavam ao redor, algumas já antigas e outras em pleno vigor. Eram motivo de orgulho do meu tio, muitas tendo sido plantadas por ele em sua juventude, dando frutos em quantidade, dando sombra em abundância, dando apoio aos pássaros e esquilos, dando casa e abrigo quando necessário, parte fundamental daquela rede invisível aos olhos humanos destreinados e que sustentam o ciclo da vida vegetal.

    Os insetos zumbiam por todo o ambiente, pulando, voando, rastejando, cuidando da propria vida. Nuvens brancas deslizam alto no céu. O suor escorre pela minha testa e pelas minhas costas, mas eu me sinto bem, me sinto forte de novo, me sinto satisfeito. Aperto o passo e quero chegar logo na margem do lago. 

     Após andar por cerca de dois quilômetros uma clareira se aproxima e eu chego finalmente ao lago. A visão de suas margens de imediato inunda minha memória com as mais deliciosas lembranças que alguém possa ter experimentado. O garoto de sete anos despertou com força neste corpo de adulto acomodado e engordurado, de pele fina e frágil protegida por tecidos finos e caros. Ao mesmo tempo em que quero olhar suas águas calmas, eu cerro os olhos para lembrar dos rostos dos primos e primas, dos amigos e amigas, todos alegres e pulando na água, espirrando água para todos os lados, gritando, pulando, nadando até ficar com os dedos enrugados.

     Descalço meus pés e afundo minha perna na água fria. Um choque seguido de um alívio. Avanço aos poucos me acostumando com a temperatura da água. Já estou com metade do corpo imerso e decido me auto-batizar. Um mergulho e o corpo todo se entrega àquela pia baptismal sem nenhum celebrante. A natureza me consagra, a natureza é Deus sem intermediários, é a comunhão mais sagrada. Não preciso de intermediários. A solidão deste momento é a única testemunha que eu preciso. Olho ao redor e confirmo esta solidão. Fico no mais profundo silêncio por incontáveis minutos, fecho os olhos como se quisesse gravar de modo indelével na memória todas as sensações deste instante e que nada escapasse, e meus olhos fechados vigiariam e encerrariam para sempre no mais profundo do meu íntimo. Ninguém precisa saber, à ninguém importa saber e com ninguém eu preciso e gostaria de compartilhar.

     A manhã segue seu rumo e seu ritmo normal, aquele ritmo que foi estabelecido para facilitar as transações comerciais e os negócios tão necessários ao progresso do mundo, mas eu transito num tempo diferente agora. Chame de êxtase, ou qualquer outro termo equivalente, mas o tempo havia parado para mim nesta manhã que, desconhecendo quem eu era ou sem se importar com o que eu sentia, avançava em seu rumo normal e o Sol já se posicionava por sobre as cabeças, naquela posição que os astrônomos chamam de zênite. Nos dias comuns eu estaria já pensando onde iria almoçar e o que eu gostaria de comer.

     Mas eu continuo aqui parado, molhado, no meio do lago, sorrindo por dentro, saudoso de meus primos e primas, amigos e amigas, invocando a alegria, a euforia e a energia bruta e pura do garoto de sete anos. Estes momentos são tão raros, tão puros e tão vitais que se renova a vontade de se recontratar uma nova e grande extensão do contrato ao qual chamamos de “vida”. Não que jamais tenha passado pela minha pobre e reles cabeça a mera menção de interromper a minha vida, porém este curto e proveitoso momento aguçou a vontade de ficar um pouco mais por estas paragens terrestres.

     A água fria mas já acostumada e diria até que aconchegante me envolvia num abraço líquido e salutar, mas há muito mais a ser revisto. Lembrei de imediato do morro e de seu mirante, o que seria novidade para mim. Me soltei deste abraço líquido e voltei para a margem, calcei os pés novamente e sem mais demora segui caminhando em direção ao morro. Mais três quilômetros de caminhada agora com o terreno se inclinando levemente. Fui secando ao vento e ao Sol, me surpreendendo comigo mesmo por este desapego ao conforto, o que é tão estranho para meus hábitos tão regrados, tão mecânicos e tão aborrecidos.

    Alguns tropeços aqui e ali, alguns mosquitos rechaçados com as mãos, nada que possa me interromper ou me desgastar, creio que nada poderia me interromper ou me aborrecer hoje. Sigo num ritmo firme com o coração batendo forte e feliz. A tarde se impõe por sobre todas as coisas nesta fração de mundo. O terreno se inclina um pouco mais a cada passo e eu já vejo o topo do morro. Cada paragem, cada canto da propriedade me trás uma bagagem de emoções e lembranças. O vento se encorpa e me ajuda, me impulsiona ao alto. Era bem mais fácil subir no morro, de acordo com as minhas lembranças, mas não importa. Sei que os muitos quilos e os muitos anos pesando nos joelhos e ombros são um preço a ser pago. Mas nada pode me interromper ou me aborrecer hoje. As árvores vão rareando, se espaçando, e as pedras vão rolando à medida que meus pés escorregam aqui e ali na trilha. O Sol já começa a se inclinar piscando um olho para o Oeste.

    Cheguei ao topo enfim. Cansado mas contente, com a respiração pesada e acelerada e o coração quase me dizendo envergonhado que é hora de parar um pouco. Me aprumo e olho o mundo de cima. Um mundo de colinas ao longe, e um manto verde exuberante. Como é bela a vista deste alto de mundo, e como esta vista é tão exclusiva, como se eu fosse um conde ou coisa parecida, imponente, a contemplar meus domínios banhados pela luz de um dia infinito.

     O tempo havia parado mais uma vez. Eu tive este poder em minhas mãos hoje. Um retrospecto, uma revisitação e uma análise instantânea de minha vida neste alto de morro. Tudo se passou num piscar de olhos, e este é um aspecto muito curioso deste ente imperdoável chamado tempo, este algoz, este magistrado supremo, de poder absoluto, de apetite voraz e surdo aos pedidos de uma extensão, do momento mais intenso, mais propício, mais feliz. Não, apenas aproveite o momento que lhe foi dado e deixe de lamentações. Passou e é passado, apenas se conforme.

    De repente, como um raio inesperado que corta um céu azul de brilho intenso, e ruge ameaçando a existência e a segurança tão duramente mantida, a percepção da pequenez, da insignificância, da mortalidade, da irrelevância e da finitude me atingiram com força desproporcional. Talvez estivesse em êxtase por muito tempo e desta forma havia me colocado desguarnecido, minhas defesas abaixadas me deixaram fraco, e este momento infinitesimal me atingiu em cheio. Tão súbito que demorei a entender o que estava acontecendo. Nem sei se entendi o que aconteceu, para ser sincero. Só sei que, como por algum feitiço ou manobra urdida por algum espírito debochado e vingativo, destes que nunca deixam os pobres seres humanos reles e débeis, rasteiros e limitados em paz, eu me senti muito pequeno, me senti inútil, me senti sozinho na rampa escorregadia do precipício. Num canto escuro e esquecido, bem dentro, mas bem dentro mesmo do meu íntimo, uma pergunta escapa: “Eu não tenho direito a me sentir feliz?”

      Como que por encanto, ou desencanto, a paisagem havia mudado completamente. Nuvens se adensavam e se encorpavam, passando de um branco imaculado para um cinza pesado e pesaroso. O verde derramado pelas encostas se tingira de um tom lúgubre, e um cansaço inesperado e indesejado se apoderou de todo o meu corpo. Quase que por reflexo, me quedei e fiquei de joelhos, de cabeça baixa a pressentir uma espada sendo baixada impiedosamente para levar minha cabeça embora.

    Por quê? Por quê esta mudança tão brusca e súbita? Fiquei assustado, fiquei decepcionado, fiquei desamparado, e toda a solidez e segurança que julgava ter alcançado na vida escorreu das minhas mãos de forma melancólica neste topo de morro, onde tantas lembranças alegres deveriam ser celebradas neste retorno. Fiquei deitado e imóvel por não sei quanto tempo. Adormeci profundamente, quem sabe se por conta do esforço e do cansaço, certamente por isso. Prefiro esta hipótese à ideia de que pudesse minha vida estar sendo um logro todo este tempo e só hoje me dei conta?

    Quando despertei o céu estrelado ocupava toda a abóboda celeste, num espetáculo que parecia estar se manifestando somente a alguns metros acima da minha cabeça. O vento havia parado mas eu sentia frio. E sentia um gosto amargo na boca, assim como sentia um peso enorme sobre as costas. Sobretudo pressentia que uma reflexão mais profunda precisava ser encarada por mim. Quem sabe os fantasmas protagonistas daquelas histórias de terror que tanto nos aterrorizavam quando montávamos barracas para passar a noite aqui estão ao redor para mais uma vez me assustar. Porém fantasmas não existem, só a vida real existe. Só existe aquela vida mundana de restrições e escassez, de compromissos e obrigações, de aborrecimentos e decepções.

    “Mas é só isso mesmo?” Pensei enquanto levantava e me aprumava, porque precisava voltar para o casarão e repousar num colchão macio forrado com lençóis limpos. Já devia ser por volta das nove horas da noite e o caminho de volta seria mais longo porque escuro se fazia.

    Desci rapidamente, escorregando muitas vezes, tropeçando, me arranhando, impelido pelo impacto de momentos tão intensos. Apesar do escuro e da noite alta meus olhos não encontraram muitas dificuldades em achar o caminho de volta para o casarão. Cheguei perto das onze horas e meu tio me recebeu um tanto preocupado. 

-Meu sobrinho, o que houve ?

-Ah tio, tive um dia bem intenso e estranho hoje. Fui até o lago e depois subi ao topo do morro. Quis matar as saudades e acabei adormecendo no alto do morro. Em resumo foi esse o meu dia. 

 -Você deve estar com fome e muito cansado. 

-Nem sei dizer se estou com fome, mas cansado eu estou e muito, pois vim tateando o caminho no escuro, caí algumas vezes e estou com arranhões, mas nada de mais. Acho que vou tomar um banho e dormir. 

- Hoje eu preparei a água quente para você. 

-Ah, vai cair muito bem nesta carcaça cansada! Obrigado e boa noite tio.

-Boa noite.

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     A água morna foi como um abraço de boas vindas e uma recompensa pela aventura. Pedi perdão pelo desperdício mas fiquei muitos minutos somente com a água quente a me acariciar, cansado demais para qualquer reflexão. Em outro momento eu vou pensar sobre tudo o que aconteceu hoje. Visto de fora, por um observador imparcial, o dia havia sido apenas prosaico, diria mesmo que banal, apenas um homem que sai de manhã sozinho, anda muito, chega num lago, mergulha, sai do lago, anda muito mais, sobe um morro, fica parado olhando a paisagem daquele ponto de vista altaneiro, o dia escurece, aquele homem adormece no alto do morro, desperta, desce o morro e volta para casa.

     Mas visto de dentro parece que algo se rompeu, como um coágulo que tivesse se soltado dentro de um corpo. Será este o preço que se paga por estar completamente sozinho, sem nenhuma distração, sem nenhum subterfúgio, sem desculpas, o espelho em 360 graus que reflete de forma implacável a verdadeira imagem, não aquele que escolhemos ver ?

    Foi uma noite de sono profundo mas intranquilo. O despertar assim amargo, quase uma queda da cama, expulsório. O corpo ainda cansado e ferido pede por mais tempo mas as obrigações impedem. Quantas horas dormidas? Não tenho ideia de que horas possam ser, porém já batem à minha porta avisando que o café está posto. Já passam das dez horas e eu não costumo dormir tanto assim. Vamos para mais um dia. O que será que me espera hoje? O que eu havia planejado para esta visita? Me dei conta que não havia planejado nada, apenas a vontade acumulada em quinze anos de voltar, mas não havia roteiro. Então se é assim vou deixar o acaso conduzir meu dia.

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     O cheiro amistoso de um café fresco, novo, quente, pronto para amolecer o coração mais duro e os pães me receberam à mesa. Que estava mais uma vez posta com ingredientes simples e saborosos, nem luxo nem míngua, o sabor sem disfarces de uma casa sincera.

     Meu corpo se ressente de um preparo melhor, alguns tombos que passaram despercebidos pela urgência da volta para casa no escuro agora estão em primeiro plano, e cobrando minha atenção. Acho que tudo dói, não somente as pernas, a sola do pé abrasada pela caminhada tão longa parece que vai rasgar a qualquer momento, e as mãos carregam arranhões e unhas ainda sujas, um banho só mesmo demorado e aliviador não foi suficiente.

    Ó animal urbano relaxado e amolecido, eis o preço de tamanho conforto buscado a todo custo! A terra é bela mas parece querer se vingar de seus filhos que lhe viram a cara e que lhe desprezam achando que tudo está dominado. O acaso vai conduzir o dia e agora o primeiro impulso é sair correndo, sumir deste ambiente rude e voltar para o piso frio de desenho e estilo requintado, para as paredes pintadas em cores suaves, para a iluminação controlada remotamente pelo celular, para a tela plana da TV de 70 polegadas, para a água previsível de meu banho diário, para a geladeira que avisa que os legumes estão acabando e para a rotina mecânica que me deixou de herança um trilho inamovível.

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     - Meu sobrinho, que olhar perdido é este? Eu perguntei o que você quer fazer hoje mas parece que você não me ouviu.

 - Tio, me desculpe mas acho que fiquei tão cansado com a caminhada ontem que ainda não me recuperei. Não ouvi o que disse. 

- Reparei que você está com vários arranhões…

 - É, eu acabei caindo várias vezes, tropeçando nas raízes, galhos soltos e pedras, porque eu adormeci no alto do morro e quando acordei já estava escuro. Fiquei preocupado de você estar preocupado e desci mais rápido do que podia. Hoje estou mais quebrado do que arroz de terceira, como dizem.

 - Está recuperando as lembranças? 

- Sim. Ontem, apesar dos percalços, foi um dia muito especial para mim, com momentos intensos, difíceis mas intensos. Esta viagem está me purificando, e ao mesmo tempo me dando um banho de realidade. Não deveria ter demorado tanto para voltar aqui.

- Pois então aproveite cada momento. Sabe, eu estou curtido pelas intempéries e consigo enxergar longe e fundo. Você esteve ausente por muito tempo mas eu percebo suas expressões e sinto e leio cada linha de seu rosto. Você, para mim, ainda é e sempre será aquele garoto alegre, cheio de energia, de olhar atento, pronto para correr e pular, pronto para escutar as conversas e os casos, com fome de vida, com fome de saber sobre tudo, que queria pegar o Sol com as mãos, que dormia contando as estrêlas, que acordava com os galos e que dava muito contentamento. Eu não tive filhos meus e você preenchia este vazio. Eu sei que a vida pesa sobre todos os ombros e a vida separa. Sei que você estava no caminho certo e fez o que se espera de todos ou quase todos. Mas também sei que sempre falta algo, ninguém é completo. Eu me casei com a minha terra, eu me uni com este pedaço de chão e fui feliz porque sei do meu espaço e dos meus limites, sei que fora daqui eu não sobreviveria. E cada um tem o seu mister, o seu quinhão, seu destino. Não espero por muito mais e nem por muito tempo, só espero humildemente que minha partida seja rápida e justa, pois sempre fui justo e de bons pensamentos, e então só espero ser recompensado no momento final por isto. No mais é só manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo, enquanto o coração durar e bater.

    - Tio, espero que você não esteja se despedindo de mim. 

- Não, não, mas nunca se sabe. São apenas pensamentos soltos de um velho sozinho na maior parte do tempo. E então, o que você quer fazer hoje?

 - Eu quero ficar quieto e em silêncio.

 - Eu esperava que você dissesse isto. Eu não vou mais te incomodar por hoje. 

- Não, tio. Você nunca me incomoda.

      Terminamos o café da manhã, demos um abraço longo e afetuoso e me dirigi para o alpendre da casa. O Sol um tanto mais pálido nesta manhã parecia entender o meu estado de espírito. Um Sol mais tímido e reservado que não inspirava movimentos mais expansivos. Um vagar, uma instropecção, o comedimento, depois de um dia pleno de esforço, emoções viscerais, choque e espanto. Além do mais é preciso ouvir o que o corpo pede, e o corpo hoje pede descanso, não contrarie o seu veículo, pois seu veículo sabe por instinto até onde pode te levar. A mente controla o corpo ou o corpo controla a mente? Eu não sei. Só sei que minhas contusões são reais e eu vou ficar neste dia de hoje como um animal ferido lambendo suas feridas até que cicatrizem.

     E assim transcorreu a maior parte do dia, comigo sentado numa rústica cadeira de balanço a farejar o vento que trazia pequenas porções de aromas, alguns familiares e outros mais distantes e ignorados. Meu tio havia saído para sua labuta diuturna, junto com os demais empregados. Nem por um segundo me passou pela cabeça a vontade de ajudar na lida. Diria mais atrapalhar a lida. Estava precisando deste descanso.

    Hoje é o quarto dia desde a chegada. Tenho tido momentos muito intensos, muito distantes da minha rotina, e a conta de tanto esforço chegou mais rápido do que esperava. Hoje é o dia do descanso, o dia de ficar de pernas para o ar, de sentir o cheiro do vento, de escutar os sons inaudíveis, os imperceptíveis, de treinar as narinas e as orelhas. Não quero pensar em nada muito profundo, isto será feito em outro momento. Fiquei assustado com o raio que me partiu a convicção arraigada? Certamente que sim, mas refletirei em outro momento e não agora, agora é o momento de sentir o cheiro da grama e do esterco dos animais, da terra remexida que acolheu as sementes, da lenha empilhada no galpão, das galinhas ciscando e a fumaça branda lambendo a chaminé. As horas passam devagar.

     Acho que o que estou fazendo é meditação, mas não tenho certeza. Sei que a dor passa e uma tranquilidade se apossa do coração. Minha respiração é lenta e compassada, a tal ponto que eu presto atenção nela, coisa que não lembro de ter feito nunca. Talvez devesse estar incomodado com esta situação, em dias normais eu estaria incomodado, eu estaria ansioso por estar perdendo tempo sem produzir nada de útil. Útil para quem? Meu tempo em dias normais é como uma grade em que prendem várias tarefas que precisam ser cumpridas. Ao final do dia a sensação de que as tarefas continuam presas na grade me traz grande dissabor, e mais um antiácido desce garganta abaixo para aplacar o azedume do estômago.

       Só que hoje não, hoje a grade sumiu e eu não quero saber onde está. Só quero identificar que cheiro foi esse que o vento trouxe. Um cheiro distante de fogueiras crepitando, um cheiro passageiro de folhas arrastadas pela brisa de primavera, o cheiro insuspeito do lago evaporando suas águas em pleno Sol de meio-dia, as plantas deitadas em sua margem cumprindo sua rotina de processos bioquímicos, tudo isso ao mesmo tempo e tudo isso está por aqui como sempre esteve, escapando aos sentidos entorpecidos e desatentos. Tudo parece tão simples e natural e no entanto tudo se reveste de um caráter sobrenatural. Despertei hoje de um sono pesado imposto pelas molduras de concreto, vidro e aço da vida moderna, tão grades quanto as barras de uma cela de prisão.

    Me distraio por um segundo e olho meus pés feridos. A pele está queimada pelo Sol intenso. Olho meus braços e um tom avermelhado está visível. Gosto da cor! Passo a mão pelo rosto e os pelos de barba arranham minhas mãos. Devo estar com os cabelos desgrenhados e com uma aparência de desleixo e rusticidade. Que se foda! Estou longe de casa e longe da vida, daquela vida civil e insípida. Estou feliz? Nunca sei dizer se estou feliz mas estou contente, ah isso eu estou! Está valendo o esforço? Creio que sim, creio intensamente que sim. É uma fuga, é só um momento, eu sei, é só uma viagem, mas quantas emoções e sensações em tão pouco espaço de tempo! São muitos anos comprimidos em quatro dias, Será que toda a vida passada nestes muitos anos poderiam ser expressas por apenas quatro dias ?

     Se for assim eu sinto muito, mas não tenho como recuperar todo o tempo perdido. Só tenho que aceitar o que agora é imutável, e este é um momento crítico em qualquer vida, o momento de um balanço profundo, de avaliação de muitas decisões tomadas consciente ou inconscientemente que definiram o mapa da vida. Fiz o que queria ou o que podia? Fiz o que devia ou fiz o que fui forçado a fazer, dadas as circunstâncias? Fiz o que o livre arbítrio me ditava ou fiz arbitrariamente coisas duvidosas? Fiz para agradar ou fiz para me agradar? Que poder eu tenho ?

     Ôpa, péra um pouco! Ainda não estou no fim da linha, quer dizer, acho que não estou. Pela média e pelo andar desta carruagem nas previsíveis trilhas de uma vida pacata eu tenho quem sabe uns quarenta anos de vida pela frente. Sacudo a cabeça, abro os olhos, respiro fundo e resolve deixar para um outro momento tão profundas, sérias e difíceis resoluções e respostas. Respostas que jamais serão definitivas.

    E com isso a tarde chegou e um sono malandro me cercou, e me convidou a esquecer tantas agruras e tantas indagações. Melhor neste momento é a companhia de um bom colchão, um travesseiro macio e o corpo na posição horizontal.

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      Quando acordei a noite já estava alta. O cheiro do jantar se insinuou sorrateiro, sedutor e irresistível por entre as frestas da porta. Desci para a sala de jantar onde meu tio me aguardava para compartilhar uma ótima refeição. 

-Meu sobrinho, eu vi que você achou melhor recuperar as energias em casa. Não quis te acordar, achei melhor deixá-lo em silêncio. Descansou? 

-Muito! E como eu precisava, e como estou revigorado, parece que eu remocei uns vinte anos. Mas o cheiro da comida é mortal. Qual o segredo? 

-Nenhum segredo, é uma comida caseira.

 -Ela é especial. 

-O que você fez hoje? 

-Fiquei sentindo os cheiros que o vento trazia. E fiquei pensando, matutando, remoendo pensamentos. Fiquei comigo mesmo, fiquei me testando, fiquei me julgando, mas não cheguei a nenhuma conclusão. -Eu já estive nesta situação inúmeras vezes. Depois de algum tempo eu resolvi não mais me importar, porque cheguei a conclusão que não tinha resposta. E aceitei. Vi que era pequeno e simples demais para tamanha tarefa. E segui em frente. Algumas coisas estão além de nosso alcance.

- Eu estou em paz por agora. Não sei se em outro momento voltarei a ser atormentado por estas questões, talvez sim porque agora elas fazem parte de mim. De fato eu não sei se em algum momento antes da viagem eu me peguei pensando nestas questões. Acho que o ritmo da minha vida não deixa, e hoje, ou nestes dias em que cá estou alguma coisa diferente aconteceu comigo. No caminho para cá, na estrada, eu fui invadido por alguns pensamentos incomuns, algumas reflexões, algumas observações que jamais me ocorreram. Esta viagem está sendo reveladora para mim, de como eu estava inerte e automatizado.

   - Pois é meu querido sobrinho. Eu sou só um matuto, lavrador, que não sabe muito das coisas do mundo, mas eu observo. E vejo que os moradores da cidade estão em busca de alguma coisa que nunca sabem, só percebem que falta uma parte, mas não sabem o quê. Com você não é diferente. Está no olhar, está na postura rígida dos corpos, está numa inquietude, num desassossego. Estão doentes e nem sabem. Estão se envenenando em pequenas doses diárias, mas tomam o veneno com gosto e justificativa. Não dormem bem, não comem bem, não se nutrem, não respiram de forma correta, não estão em paz e jamais estarão. Estão gastando seu dinheiro em coisas sem importância, se endividando em coisas sem sentido, dando nós nas cordas que lhe servirão de pêndulo no final. Mas eu não sei de nada e nada posso fazer, só receber de coração aberto e dar refúgio a quem me pede. Fiquei muito feliz com a sua vinda e vejo que neste momento você está bem. Procure manter este estado de coisas, o máximo que puder. Venha sempre que quiser, enquanto eu estiver por aqui.

- Meu tio acho que você disse tudo. Eu não tenho nada mais a dizer.


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       Estas palavras entraram direto na mente e no coração. E por um momento muito breve eu senti uma tristeza imensa de saber que meu tio não estaria mais por aqui um dia destes. E neste momento muito breve eu percebi o quanto eu o amava. Ao mesmo tempo eu percebi uma força imensa e uma paz ainda mais luminosa. Quem sabe é o resultado desta força indefinível traduzida na palavra gasta chamada Amor, palavra de uso tão leviano e desleixado, de significado tão denso e profundo que é quase incompreensível para os meros mortais. Estava de novo no colo deste homem tão íntegro, da mesma forma de quando era criança e ele me amparava nos braços, e me levava nos ombros para passear pelos campos, rindo satisfeito, me mostrando as plantas, as flôres, as árvores, os insetos, assobiando querendo imitar o vento. Era um tempo feliz.

      Senti que estava na hora de voltar para casa. Algo havia completado seu ciclo. Poderia, quem sabe, ser o ponto de mudança, de estar consciente, de buscar o que faltava. Quem sabe? Quem poderia saber? Só sei que continuava em paz e queria manter este estado indefinidamente. Esta viagem é o elixir da longa vida, quem sabe? Quem poderia saber? Ninguém, mas caberia a mim descobrir.

     Me dirigi para o quarto em silêncio e fui arrumar minhas coisas. Não trouxera muito. Olhei as paredes, as janelas e a porta e já uma saudade enorme cobriu meu coração. Mas tinha certeza que era o momento de dizer adeus, mais do que isso eu já seria um incômodo e apesar de tudo, o resto da vida me espera em casa. Já era noite, resolvi dormir mais uma vez nesta cama aconchegante como um abraço. O sono veio rápido e certeiro. Sonhos em lugares paradisíacos ficaram em cartaz nesta noite especial.

    Uma vez mais o cheiro insinuante do café chegou às minhas narinas com um suave despertar. As dores todas haviam passado e um banho matinal fez surgir novas energias neste corpo preguiçoso. Olhei a mala pronta no chão e um Sol sorria pela janela. Desci pela última vez a escada que levava até a cozinha. Meu tio já me aguardava com a mesa posta e um sorriso no rosto. Antes que eu dissesse qualquer palavra ele já me disse:

- Então já está na hora de ir embora e deixar seu velho tio para trás?

 - Sim, tio. Com uma enorme dor no coração e na alma, mas a vida me espera.

 - Eu sei. Você não faz ideia de quanto me fez bem vindo me visitar. 

- O senhor também não faz ideia de quanto eu estou revigorado em ter vindo.

 - Então vamos comemorar com este belo café da manhã, porque você precisa de energia e a estrada é longa. 

     E nos sentamos, comemos, bebemos, rimos, gargalhamos e nos emocionamos com velhas histórias e boas lembranças.

     Chegou o momento de dizer adeus. Qualquer palavra, gesto ou frase não seria suficiente para expressar o sentimento. Poucos dias em quantidade, mas muito intensos em qualidade. Muitos anos de espera para um momento que passou muito rápido. É sempre assim.

- Tio, já vou. Está na hora de ir. Mais eu não posso dizer, porque as comportas de lágrimas estão prestes a se romper. - Ora, ora, porque segurar lágrimas? Lágrimas são feitas para limpar os corações e mentes, desde que sejam lágrimas sentidas e sinceras. Molhe meus ombros com esta água divina.

   E o abraço mais sincero, apertado, caloroso e fraternal foi trocado entre aqueles dois homens simples, de sentimentos nobres, de alma pura, tão pura quanto possa para seres enviados para viver neste mundo imperfeito. Lágrimas rolavam pelas faces, pelos ombros, lágrimas de afeição, lágrimas de saudades, lágrimas sinceras de um amor incondicional. Lágrimas de pai para filho, mesmo que não sejam. Em momentos assim o Céu toca a Terra.

   Ele me levou até o local onde meu carro estava parado me esperando. Abri, coloquei minha bagagem, dei partida no motor e deixei um breve aceno de mão indicando minha despedida. Ao passar pelo portão decidi não olhar para trás. No íntimo mais profundo, lá onde as convicções mais arraigadas teimam em criar raízes, eu soube que aquela seria a última vez.

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    Estou de volta à casa e de volta para aquela rotina tão previsível quanto tranquilizadora. O hábito molda o corpo e afeta a alma. Não sou imune aos efeitos da pressão de um mundo avassalador, ninguém é. Todos os dias, qualquer dia, é dia de ganhar o pão, porque o pão não nos é dado de mão beijada, esse foi o legado que Adão deixou para sua descendência. Será que a maçã primordial pelo menos estava saborosa? Meses se passam sem alterações significativas, sempre o mesmo roteiro já decorado. Sou um número, sou uma célula, outro dente da engrenagem, outro contribuinte anônimo, outro transeunte deixando suas pegadas a serem apagadas pelos próximos passos que se sobrepõe aos meus. Assim vivemos felizes e satisfeitos. As solas dos meus pés afinaram de novo, lisas e brancas, limpas e asseadas. O tom de pele retrocedeu à sua trincheira, onde trava uma luta diária contra os efeitos malévolos de um Sol tornado inimigo pelos mais recentes estudos dermatológicos. Não posso mais sentir o vento e a quentura de um dia pleno de verão sem que a consciência cumpra seu papel de guardiã das melhores práticas de saúde. O topo da colina é coisa do passado.

    Olho descuidadamente para minha caixa postal à espera das contas que chegam com regularidade, ou para a publicidade indesejada. Novidades tão inúteis que já não me dou ao trabalho de ler seus apelos, afinal quem precisa de uma lanterna do Exército americano que ilumina um bosque inteiro? 

     Até que numa sexta-feira qualquer recebo a notícia da passagem de meu Tio Zé Raimundo. A morte veio recebê-lo em um pequeno momento de descanso após o almoço no meio de um dia comum de trabalho em sua terra tão amada. Ninguém presenciou, pois um momento tão íntimo como este não precisa de testemunhas, mas se por algum efeito, truque, ou quem sabe sortilégio um espectador dotado de poderes além de nossa imaginação tivesse a capacidade de ver a cena, teria visto quem sabe um facho de luz brilhante porém cálida a envolver meu tio num abraço pleno de ternura e amparo, dizendo-lhe sem palavras audíveis que seu caminho estava pronto e sua hora chegara finalmente. E ele em sua singeleza e sapiência teria assentido e acenado com a cabeça, se despedindo de sua amada terra e seus amados amigos.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

A visita (parte 1)

A visita 

 Ivan Henrique Roberto 

 jan/2015- jun/novembro 2023



      Posso afirmar com toda certeza que tem para mais de 15 anos que não vejo Tio Zé Raimundo. Quinze anos, convenhamos, é um belo pedaço de existência. Tempo mais do que suficiente para que um país inteiro mude sua condição de vida, para que uma geração apareça e soterre a anterior, para que suas memórias queridas fiquem obsoletas, bem como suas roupas esquecidas no armário e suas convicções ancoradas num solo movediço. Quinze anos, um lapso de tempo com espaço suficiente para superar as inseguranças e incertezas quanto ao futuro, tempo de sobra para se estabelecer e pensar que venceu na vida. Muitos carnavais e passagens de ano, muitas contas vencidas e honradas e o filho que já não depende de você.

     Meu tio Zé Raimundo, aquele que abdicou do mundo grande, da cidade moderna, do conforto e das facilidades. Meu tio, figura fascinante da infância longínqua, sempre de chapéu na cabeça e com sua fala engraçada, diferente, dita num ritmo e numa cadência que, de tão raros, estão prestes a desaparecer, sucumbindo ao apelo avassalador de um mundo uniforme. Meu tio, aquele que vive bem atrás da serra, em um vale escondido, com seus bodes e cabras, árvores e córregos ainda limpos. Dois dias de caminhada até a cidade mais próxima, onde ele só vai muito raramente, e muito a contragosto, pois mesmo a “metrópole” de cinquenta mil habitantes é muito grande e agitada para ele.

    Mas somos seres humanos e civilizados, que dependem uns dos outros, e nem tudo pode ser provido pela mãe natureza, apesar de sua extrema benevolência e seio farto. Sua existência desmonetizada por vezes é contestada pelas leis vigentes, e os tributos, taxas e obrigações fiscais, bem como uma peça ou objeto que teimam em quebrar o obrigam à longa caminhada até a cidade mais próxima. No mais do tempo é a lida diária com as forças da natureza, com seus animais e plantas, de onde vem sua renda e sua alegria de viver, pois não há companhia melhor neste mundo. No silêncio acolhedor de suas terras ele pode ouvir com clareza a voz oculta que está por trás de tudo, e ter um leve vislumbre da harmonia da criação.

    A vida simples e direta sempre embaixo de um Sol absoluto o deixou assim como a terra, que sempre clama por seus dedos e está sempre sendo regada pelo seu suor. Um tom ocre de uma pele curtida, a sola dos pés de derme grossa e adaptada aos rigores e asperezas, pois a terra não é fácil, é generosa, mas não é fácil, há que ser cúmplice e ter respeito.

   Seu descanso é a noite estrelada, com todas as luzes distantes de mundos inatingíveis, de vento morno que arrasta as nuvens para um passeio gentil, de sons ritmados dos sapos, dos grilos e da vida noturna das matas, agora que o Sol se recolhe e o ar está mais fresco. É hora de cantar.

    Desde jovem ele escolheu este estilo de vida, embora escolha não possa ser o melhor termo para esta situação, melhor dizer que ele seguiu a ordem natural das coisas. De certo modo ele é uma árvore, e árvores não devem ser arrancadas. Seus irmãos e irmãs tomaram rumos diferentes, cada qual com sua escolha, suas raízes não eram assim tão firmes, mais aves do que árvores eles eram, mais sementes carregadas pelos ventos da vida, por assim dizer.

     Uma das irmãs veio a ser minha mãe, há muito tempo assentada na cidade grande. Uma vida pacata abençoada com os filhos que ela tanto quis. E então chegamos nós, ao longo dos anos, e cá estou eu, lutando bravamente para seguir em frente de forma honesta e ajuizada. Bem, que posso dizer? Mal não vivo. Sou como todos, ou a maioria, e só posso dizer com certeza que minha cabeça pode seguir erguida.

     Como a maioria da população atual eu sou um animal urbano até nas células mais profundas. Meus pés nunca estão descalços, meus dedos apertam teclas a maior parte do tempo, não penso que minha energia vem do alimento e sim das tomadas ao redor, onde a eletricidade corre sem obstáculos. As memórias de infância estão distantes no tempo, onde aqueles momentos de férias e visitas aos parentes do interior se alojaram em algum canto adormecido do cérebro e teimam em parecer um sonho curto numa noite truncada e mal dormida.

    A pele de meus pés está tão fina que ganho calos que logo viram bolhas só de andar em casa. Minha pele tem mais afinidade com o tecido das meias que aconchegam meus dedos. Uma vida de conforto e distância dos espinhos e pedrinhas pontiagudas, da areia quente e das folhas secas que teimam em cair das árvores, do barro após a chuva e dos pingos d'água desta chuva, que tão logo se oferece, logo a repelimos com guarda-chuvas, capas, marquises e limpadores de para-brisa. Não que eu esteja errado, só estou de outro lado, do lado que paga o que for preciso para manter o bom humor da mãe natureza. Como se isso estivesse a nosso alcance.

    Não quero cansar seus ouvidos, nem quero sua concordância quanto a meu modo de ser, isto é só para me situar dentro deste relato. De uma coisa eu tenho certeza: eu sou um homem de família e prezo muito estas ligações, apesar das distâncias e do tempo escasso, dos afazeres e das tarefas que sempre estão a exigir nossa atenção, e com isso o contato com meus semelhantes vai rareando. A memória da infância distante, em certas ocasiões se impõe, e com isso a saudade me abraça. Por isso tenho lembrado de Tio Zé Raimundo, e ouço sua fala engraçada lacrada em algum canto da cabeça. Em alguns momentos, quase na hora em que o sono vence a disputa, certas imagens de sua propriedade ocupam meus olhos e quase posso sentir o cheiro terroso e forte, sem filtros e aromatizantes, o cheiro das coisas como deve ser. Acho que é hora de uma visita.

   Então comecei a planejar a viagem. Pedi duas semanas de férias, conversei com minha mulher e meu filho, expliquei-lhes da necessidade que estava começando a sentir, e do tempo longo demais longe daquela figura importante em minha vida. Tinha visto fotos recentes dele, e é claro que a idade chega para todos, no entanto, apesar das rugas em seu rosto sempre exposto as intempéries, ele me parecia disposto e rijo como uma árvore. Minha mãe e minhas tias sempre me põem ao par de tudo o que acontece, até dos parentes distantes. Mesmo com a dificuldade de comunicação autoimposta por meu tio, apesar de todas as facilidades de nossa vida contemporânea instantânea, a mensagem de que eu chegaria em breve para visitá-lo foi acolhida com surpresa e alegria, nesta ordem.

    Pensei no que levar de presente: que tal uma camisa social bonita, um sapato de classe, um relógio com cronômetro e que funciona em mergulhos de até 100 metros? Ou quem sabe uma garrafa de vinho chileno ou australiano? Poderia ser um quadro de algum artista valorizado, ou um smartphone? Sim, um smartphone. É tão útil, facilita tanto nossa vida, pode até fazer ligações como um telefone! A distância apaga estes pequenos detalhes, de gostos e preferências. Sempre fui pouco criativo para compra de presentes, mas esta era uma ocasião especial e eu precisava me esforçar.

     Ontem eu fiquei por longos minutos olhando o mapa e tentando localizar a pequena fazenda de meu tio, já traçando o roteiro da viagem. Não era fácil de localizar, mesmo com todos os satélites bisbilhoteiros que cruzam os céus a todo instante. A região progredira bastante nestes últimos anos, as cidades dentro da rota haviam crescido e multiplicado, o apetite voraz sobre as terras era uma ameaça constante para os pequenos proprietários rurais. Muitos sucumbiram e venderam seus alqueires, roçados e criação. Porém meu tio era teimoso e tenaz e já nem atendia mais aos curiosos e interessados. Seus vizinhos foram desaparecendo, se mudando e alguns mudaram de ramo. Poucos permaneceram. Mas ele era feito da terra, comprovando o mito de Adão.

     Desentocá-lo seria uma tarefa das mais ingratas, como puderam confirmar os inúmeros corretores quase sempre postos para correr, literalmente, seja para escapar dos alçapões ou dos ferozes e bem treinados cães de guarda, e até de um ou outro disparo de sua velha espingarda, velha, mas sempre lustrada e pronta para uso. O progresso que ficasse longe dele e de sua desconfiança. Seu amor por seu chão era inquebrantável, incondicional e infinito, quase incompreensível neste mundo volátil e volúvel. Um romântico incurável ou um fóssil vivo desafiando a lógica que rege o mundo bem pensante?

   Por fim pensei ter localizado sua amada terra. Ampliei e imprimi o mapa, olhei a distância já expressa nas informações adicionais do serviço cartográfico, quantas horas previstas no trajeto, qual o melhor caminho, qual caminho alternativo, quantos pedágios, quais paradas para abastecimento e refeição, onde tinha radar e polícia, nada escapa aos olhos digitais, ah o que seria dos bandeirantes hoje? Quase quinze anos e eu precisava resgatar muitas histórias, memórias e fatos para me preparar para esta visita ao passado. (2015).

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(2023) Hoje é o dia para pegar a estrada e cumprir o que estou me prometendo e obrigando há tempos. Logo cedo dei partida no carro, dei um beijo de despedida em minha mulher e meu filho e o asfalto começou a sentir o gosto dos pneus novos trocados para a viagem. Tanque cheio, carro limpo, um dia de Sol. Em cerca de quarenta minutos alcancei a estrada de início do trajeto. Duas horas, três horas, parei para abastecer e esticar as pernas. Ainda cedo, ainda claro, ainda alegre e cheio de expectativas. Vamos em frente, porque para trás a estrada e a vida já terão mudado para sempre.

     Estou à sós com meus pensamentos. Estou sozinho neste veículo e a paisagem vai passando rápido e as árvores vão sendo enfileiradas em paralelo com as faixas pintadas no asfalto ainda fresco, ainda em bom estado. Estou à sós com meus pensamentos e me sinto um pouco intimidado, quem sabe incomodado com todo este tempo vazio ao qual não estou mais acostumado, pois desde que abro os olhos pela manhã até o momento de fechá-los à noite a disputa incessante por atenção, seja de que lado venha, é excruciante. Neste momento me dei conta que me sinto um copo prestes a transbordar, ou mesmo uma bola sendo enchida a ponto de explodir. Um instante após, num átimo de tempo mais breve que um piscar de olhos, talvez como mecanismo de defesa, respirei fundo e estanquei a explosão. Meu pé afundado no acelerador retraiu e vi uma revoada de pássaros. O movimento gracioso, leve e livre abriu um sorriso tão íntimo e interno dentro de mim que me peguei surpreso de ainda conseguir capturar estas fagulhas de beleza soltas pelo mundo.

     Então é isso, o sinal estava dado, ainda tenho cura. O tempo vazio merece ser honrado com uma melhor disposição por minha parte, o tempo é o bem mais precioso que nos é ofertado. Não devemos desperdiçá-lo. Por que esta compreensão chegou a mim agora? Não importa, certas perguntas não precisam de resposta. Não agora, quem sabe um dia ou uma noite qualquer.

     Quinze anos é muito ou pouco tempo? Quem poderá me tirar esta dúvida? Quem eu era, ou o que eu era há quinze anos? O que eu sou agora? Um marido esforçado, um pai dedicado ou um número num registro? Talvez tudo isso e um pouco mais. Os quilômetros passam e o vento sacode os arbustos e árvores nas margens da rodovia. Em sentido contrário muitos caminhões carregados com todas as coisas imprescindíveis da vida moderna, objetos que não existiam a dois anos e agora muitas pessoas não podem imaginar a vida sem eles. Olho o GPS do carro de forma automática e me sinto seguro de saber que estou na direção certa. Mas eu estava estudando o mapa ainda ontem e não foi o suficiente? Me senti um pouco tolo de pensar que não consigo confiar na minha memória e devo deixar que algum satélite flutuando alto na atmosfera conduza meu destino. Será que a humanidade está regredindo? Estamos retrocedendo à condição de crianças inseguras, diminuindo a estatura, não a estatura física, mas a estatura moral?

    Pronto! Agora é oficial, depois do momento pré-explosão e pós-revoada dos pássaros eu entrei no terreno da especulação científica, do devaneio, da mente solta. Se é assim agora então eu vou aproveitar, já que o tempo livre e vazio se apossou de mim. E, cá prá nós, o que eu vou fazer sozinho dentro de um carro em movimento, se deslocando em velocidade moderada, em linha reta com um céu claro e nuvens algodoadas? Cantar não sei. Me pus a pensar, já que pensar é de graça, não dói e ainda não está sendo gravado em arquivos violáveis, sujeitos ao escrutínio sabe-se lá de quem ou do quê.

    À medida que o asfalto ia sumindo por trás do automóvel, eu ia sendo tomado por uma vontade renovada de pensar e pensar e pensar em coisas que estavam germinando no solo mais profundo de minha cabeça, mas não havia percebido, em parte por estar sobrecarregado, em parte por ter uma vergonha inconfessável de permitir que a mente atue deste jeito, vejam que coisa mais estúpida e constrangedora a que eu me auto submeti! Será que é reflexo destes tempos conturbados que estamos atravessando? Onde está o iluminismo? Muitas pessoas hoje podem pensar que o iluminismo é uma apropriação da energia elétrica de outrem através de manobras pouco recomendáveis e arriscadas feitas por profissionais da área de eletrotecnia, embora sem a certificação técnica recomendada. Mas eu tenho absoluta certeza de que o iluminismo é um movimento científico do século XVIII que pregava e prezava que a mente fosse iluminada através da educação e do conhecimento, eu aprendi isso na escola e agora veio à minha mente de forma súbita e abrupta. O que está acontecendo? Será que o Tio Zé Raimundo está possuindo a minha mente neste momento? Mas ele sempre foi tão simples, não lembro de nenhuma conversa em que ele despejasse este tipo de conhecimento. Olha o que o tempo livre faz? Lembrei daquele ditado em que é descrito que o Diabo acha trabalho para quem tem as mãos desocupadas. A mente livre e solta pode levar a caminhos pedregosos, onde os pés de pele lisa e macia podem se ferir facilmente. Mas não me importa, o tempo é todo meu agora e eu estou muito contente, a estrada está vazia e tranquila e ainda restam algumas horas até o sítio.

     Na semana passada eu ouvi notícias que diziam que no futuro não haverá emprego para todos, que a humanidade atingiria um nível de desenvolvimento tão alto que o trabalho humano, tal qual o conhecemos e que vem assim desde o passado remoto, não teria mais razão de ser neste mundo pós-moderno e altamente tecnológico. Mas então como entreter tantas pessoas? Como fazer com que os seres humanos possam viver e comprar suas coisas tão preciosas, tão necessárias, tão apegadas? Com que dinheiro poderiam contar, se não haverá trabalho para todos? Certas ideias eu não consigo alcançar, minha mente é muito limitada para isso. E volta à lembrança o ditado de momentos atrás: com tantas pessoas de mãos e tempo livre o Diabo vai fazer a festa como jamais terá feito. Olho para o painel do carro e muitos sensores o posicionam de forma a ficar sempre em linha reta em perfeita sincronia com a estrada. Em breve não precisaremos mais dirigir nossos carros. Em breve não precisaremos pensar em mais nada? Em breve seremos dispensáveis e desnecessários? Uma voz impessoal ressoa através do sistema de navegação e me alerta que tenho em torno de 240 Km de autonomia até que o carro desfaleça por falta de combustível. Todavia ainda restam menos de 100Km até meu destino.

    Uma nova revoada de pássaros cruza por cima da estrada, quase raspando meu para-brisas. Lembrei de uma série que eu gostava muito de ver na TV, onde era mostrado um cenário de um mundo liberto dos humanos, e como a natureza reagiria à nossa ausência em dias, semanas, meses e anos. Os pássaros não teriam mais o receio de se esborrachar em para-brisas e janelas transparentes. Se em breve não teremos mais trabalho quem vai pagar pelo nosso conforto? Se no futuro não existirem mais humanos qual o sentido de tudo o que foi construído, pensado, planejado, desejado, tudo aquilo que achamos que é nosso por direito e que está por aí desde o início dos tempos? Todo este esforço terá sido em vão? Todo este esforço de pensar está me deixando apreensivo pois uma cortina que se abre sempre pode revelar um panorama cinzento quando ansiávamos por um Sol pleno que cumprisse com a promessa de um novo dia melhor e mais feliz. Mas não, não é isso que eu esperava neste dia tão aguardado, não quero chegar e encontrar o Tio Zé Raimundo para mostrar uma face azeda, não depois de quinze anos sem contato. O Sol está alto no céu e a cortina aberta quer me mostrar isso mesmo, que hoje é um dia calmo e tranquilo com pássaros voando livres. Pensar não é para os fracos.

    Acho que farei uma breve pausa pois minhas pernas já estão reclamando por estarem na mesma posição por muito tempo.

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    Dois quilômetros a frente havia uma parada grande e moderna, com lanchonetes, sanitários, estacionamentos e muitas bugigangas para serem compradas. Ainda não havia comprado nenhum presente, me perdi em divagações acerca do que seria conveniente levar para agradar meu tio. São quinze anos e uma distância difícil de ser superada.

    Parei o carro, me dirigi à uma lanchonete típica, escolhi uma refeição leve, procurei um assento vazio. A lanchonete estava bastante cheia para a ocasião. No meu cotidiano eu não tenho o costume de observar as pessoas, quase sempre elas passam e eu nem percebo, sempre com a mente ocupada pelas questões banais do trabalho ou da vida. Porém hoje algo estava diferente, como pude observar na estrada pois fui tomado por uma vontade incomum de pensar livremente. Assim me pus a lançar um olhar um pouco mais demorado, um pouquinho mais atento ao que estava ao meu redor. E vi as pessoas. Mas que roupas são essas? Mas que cabelos são esses? Quase ninguém conversava, quase não percebi interação. Pessoas sentadas uma ao lado das outras e quase não havia interação. Famílias inteiras agindo desta forma. Todas debruçadas nos seus celulares. Por um momento achei que estivesse num lugar estranho, ou num sonho estranho. Estava cheio, mas reinava um silêncio desproporcional à quantidade de gente. Será que eram todos humanos? Olha que ideia absurda me tomou de assalto! Por certo que são seres humanos.

    Um mal-estar me chegou de forma enviesada, após momentos tão tranquilos passados dentro do carro. Será que alguém poderia me dizer o que se passava? Percebi que havia uma parede espelhada e vi meu reflexo, que transparecia uma perplexidade ainda controlada, pois o hábito joga cinturões em volta da persona pública e os anos de convívio adestram as pessoas, portanto a dissimulação se torna uma necessidade em nossa vida civilizada e citadina.

    Então pensei que a surpresa de observar aquelas pessoas tenha me atingido como um choque de realidade. Eu estou ficando anestesiado e perdendo o contato com o mundo real? Ou a decisão de realizar esta viagem há tanto esperada, mas sempre protelada tenha deflagrado algum processo mental desconhecido? Meu batimento cardíaco aumentou e minha garganta ficou seca. Olho de novo meu reflexo e percebo um semblante pálido e confuso. Não tenho problemas cardíacos pregressos, mas estou firme em direção à meia idade, então será que ...?

    Não, não, calma, respire compassadamente, volte seus pensamentos para o lugar de conforto que você tanto preza. Esta viagem foi pensada para ser agradável e tranquila, e estava sendo até agora. E deve continuar assim. Fiquei alguns minutos em silêncio olhando para meu prato e aos poucos o pensamento voltou a ser como aquela esteira de malas num aeroporto, correndo livre num trilho assentado sobre uma base firme. Não como uma montanha-russa com um trilho torcido que se projeta no espaço vazio, e a queda pode estar logo ali na frente. Assim como a esteira no aeroporto, que logo traz a sua mala em segurança e seus pertences que não serão extraviados, o meu coração voltou ao seu ritmo normal.

    Não tenho pressa. Fiquei mais alguns minutos, minutos suficientes para me trazer de volta ao chão e ao centro. Ainda surpreso pelo ataque de pânico, se é que podemos chamar assim, percebi que a lanchonete estava mais vazia. Alguns ônibus seguiram viagem e algumas nuvens mais densas mostraram suas formas no enorme palanque que é o céu.

    Paguei minha refeição e mais uma vez esqueci de olhar algum possível presente a ser entregue ao Tio Zé Raimundo.

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    Em menos de duas horas eu já poderei estar na companhia de meu tio. Alguns quilômetros e encontra-se uma saída para pegar o acesso à cidade. De lá mais alguns quilômetros de estradas vicinais, depois mais alguns difíceis quilômetros de estrada de terra e enfim o sítio. Quando se é criança o caminho é muito diferente, não temos a lógica e a razão funcionando e então quase sempre a fantasia reina de forma absoluta. Eu me lembro de pensar nesta estrada de terra como o caminho para grandes aventuras, onde a qualquer momento animais exóticos nos cercariam ou tanques de guerra com rodas de bicicleta com canhões que soltavam fumaça colorida e fogos de artifício serviam de cortejo ao carro de meu pai. Muitas vezes na época de chuvas intensas a lama grossa e escorregadia me parecia a superfície de um planeta distante, e logo ao virar a primeira curva pequenos homenzinhos de pele verde e roupas metálicas nos abordariam e fariam nosso carro flutuar para longe e alto, nos livrando deste terreno difícil. Nestas ocasiões meu devaneio quase sempre era interrompido pelos xingamentos de meu pai amaldiçoando a chuva.

    Por um momento tentei lembrar quando foi que a fantasia desapareceu de meus pensamentos. Quase certo de que tenha sido quando, ao invés de passar as férias no sítio, eu já preferisse frequentar as primeiras festinhas e os primeiros olhares para as meninas. Me dei conta que a fantasia não havia desaparecido, só havia mudado de foco.

    Ao antecipar determinadas situações criamos um cenário propício a nossos propósitos. Quase sempre tendemos a trazer a situação para mais perto de nosso controle, e assim podemos criar diálogos convenientes e controlados. Parte do caminho eu fiquei imaginando o reencontro com o tio. Tinha notícias sobre ele de tempos em tempos, mas sempre filtradas pelo crivo de minhas outras tias e de minha mãe, e é certo que mesmo elas não tiveram um contato mais próximo e demorado com ele nestes últimos anos. O que eu poderia conversar com ele? Esta dúvida me trouxe uma ponta de apreensão. Sou urbano até a medula e me distanciei bastante deste ambiente campestre. Sei conversar sobre muita coisa, quase sempre coisas afeitas aos cidadãos que se espremem nas cidades onde tudo ou quase tudo chega à porta sem atropelos, onde tudo ou quase tudo ficou tão disponível que a maior luta é com a capacidade de pagar as contas desta facilidade na ponta dos dedos,

    Faço um esforço extra para me colocar mentalmente na posição de alguém que a cada dia se levanta com a primeira claridade e logo está com seus apetrechos à mão para cumprir suas tarefas diuturnas, e cuidar sempre para que o solo, seu solo tão querido e sagrado, esteja acarinhado e receptivo e desta forma possa retribuir na forma de frutos e folhas, ramos e grãos, talos e caules, sementes e alimento. E que suas criações estejam saudáveis.

   Assim já fui criando diálogos onde eu sempre sou o ponto de partida: “Olá tio, então me diga: como vai sua plantação? Tem vendido seus animais com lucro? Seu retorno financeiro está condizente? O que tem feito para aplicar seu dinheiro? Se quiser eu terei o maior prazer de ser seu consultor”, ou coisas do tipo. Como serei recebido? Como eu receberia alguém que estivesse separado no tempo e no espaço, sendo que nem os vizinhos de porta, e que vejo todos os dias, eu consigo imaginar entrando em minha casa, ou os colegas no trabalho, que a muito custo eu confraternizo, e mesmo assim somente aos finais de ano ou nos eventos institucionais obrigatórios. Não que eu seja um eremita ou antissocial, mas tal é o estado de coisas na sociedade. Não sou o único e atestei isso pouco antes na parada para o lanche. Interação. Socialização. Civilidade. Belas palavras, mas na prática...

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     Entrei na cidade mais próxima e minha viagem está acabando. Quem sabe estivesse só começando? Vejo que muita coisa está diferente, afinal já são quinze anos. Casas novas, ruas novas, mais automóveis, o comércio mais diversificado. Serão meus olhos ou esta vontade renovada pela viagem é que me pôs lentes mais favoráveis? Vejo sinais de progresso ou é somente uma demão nova de tinta numa parede desgastada?

    Olha para as pessoas que transitam ao lado da estrada. De bicicleta, em pequenas motocicletas ou a pé lá vão elas atravessar mais um dia. Estão apressadas, estão atarefadas, será que até aqui o passo acelerado da vida moderna se instalou? Não há mais refúgios de paz neste mundo e esta sentença me chega aos ouvidos como um golpe fatal. Minha certeza sofre um abalo.

    Mas não rodei tantos quilômetros para ficar neste estado de alma. Após tantos adiamentos e tantas considerações, tantas providências e tanta espera cá estou. Resolvi parar mais uma vez antes do entroncamento que nos leva à estrada de terra final, e antes da porteira do sítio. Vou vasculhar a memória atrás daquelas lembranças ainda tão saborosas, de todas aquelas férias junto com os primos e primas, amigos e amigas. Quem sabe era o olhar ainda ingênuo de criança, mas eu tenho certeza de que meu tio gostava destes momentos com o sítio cheio. Lembro muito bem dele com sua pele curtida dirigindo a charrete cheia de crianças aos gritos e risos, como se aqueles dias nunca fossem terminar. Ou dos banhos no lago nos dias mais quentes do verão. E às tardes íamos todos pela trilha que dava no alto do morro. Certa vez levamos colchonetes e cobertores para passar a noite sob as estrelas, contando histórias de terror e assombrações. Fizemos fogueira, estouramos pipoca, comemos sanduíches, trememos de medo dizendo que o tremor era do frio e não das histórias, apesar da noite quente de verão. Noites assim não deveriam terminar jamais, e de fato elas nunca terminam na nossa mente, elas guardam um lugar vitalício na memória mais afetiva e profunda.

     Me dei conta de que jamais trouxera meu filho, ele nasceu bem depois da última visita. Nem sei ao certo se ele sentiria prazer nestes passeios tão singelos. Também não sei se alguma vez eu contei destes dias com a ênfase merecida. O mundo está ficando virtual e as crianças estão ficando mais inteligentes e minhas cicatrizes não têm o mesmo impacto e interesse que uma tatuagem da moda.

    Não importa agora, quero me apegar à estas memórias. Lembrar das minhas tias e das conversas na grande sala com sua grande mesa de madeira e as doze cadeiras, quase sempre ocupadas. Não haviam TV’s para sugar a atenção, portanto as conversas fluíam animadamente até que os bocejos insistentes viessem avisar que a madrugada chegara, e o sono começava a vencer a disputa com os assuntos. Retiravam-se todos pois amanhã tudo de novo, novas conversas e quem sabe jogos e brincadeiras ocupariam a grande mesa de madeira.

   Sim, meu tio ficava feliz. Disso eu tenho certeza. Isso eu posso assegurar. Eram os melhores dias? Quem sabe? Só sei que estas lembranças nunca se apagaram e sempre me apegaram. Muitos anos se passaram, poucas pessoas se perderam nas estradas da vida, mas uma reunião nos moldes de antigamente é quase uma miragem, é quase uma impossibilidade porque o mundo, com seus múltiplos e poderosos tentáculos, tem uma predileção especial por separar.

    Então eu vim sozinho. E assim será. Meu tio me espera só. Teremos assunto para tanto? Terei a prova de que minha vida terá sido interessante o suficiente para gerar motivos e vontade de contar as novidades?

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    “A vida é aquilo que acontece enquanto pagamos as contas do mês”. Esta frase veio cambaleando entre as sinapses da minha mente até chegar na ponta da língua. Mas não foi dita, só foi pensada. E assim o tempo passa, quando terminei de pagar a última conta de um mês já penso na próxima conta, dois dias depois da penúltima. Como será que meu tio lida com estas questões?

    Creio que esta viagem está desobstruindo alguns canais adormecidos na minha cabeça, porque eu jamais havia pensado nestes assuntos tão triviais, e somente hoje eu já me deparei com tantas indagações e observações do ambiente ao redor. Será que estou ficando dormente, como um braço que receba todo o peso do corpo durante o sono que quando acordamos parece ser o braço de outra pessoa, apenas um monte de carne flácida? Será que me tornei um monte de carne flácida? Minha pele sempre coberta dos pés à cabeça tem pouco contato com a luz solar, meus pés nunca pisam o chão sem meias para intermediar o impacto. Foi para isso que fomos criados ?

     As nuvens estão ficando mais grossas conforme eu observo, aqui, parado em pensamentos desgovernados, ansioso por conta de tudo o que já relatei, pela longa espera, pelas ternas lembranças, pela expectativa, e por que não dizer, por toda a saudade acumulada. Tudo ao redor está diferente. E por que deveria estar igual? “Nada do que foi será de novo, do jeito que já foi um dia”, diz a canção. O que está me segurando? Minhas mãos largaram o volante e de repente pesam dez toneladas. Meus braços ficaram estáticos, alheios à minha vontade. Não vim até aqui para parar e ficar, a vida é movimento, o vento de súbito sopra mais forte e arrasta as nuvens mais grossas. O Sol intenso está de volta com toda a sua beleza, e toda esta beleza cauterizou as correntes que estavam prendendo meus braços, minhas pernas e meu corpo. Engatei a marcha, pisei no acelerador com força e saí daquela encruzilhada. Agora faltam poucos quilômetros de terra batida e seca até a porta do sítio.

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     Ao chegar à cancela do sítio lá estava ele. Reconheci de imediato e parece que os quinze anos de hiato não tiveram a menor importância. O chapeuzinho no alto da cabeça, as botinas manchadas de barro, a camisa xadrez, parece que não havia trocado a roupa nesta década e meia de ausência, e isso logo de cara me trouxe um conforto sem paralelo. Igual a um elemental, como se fosse feito de barro e gotas de chuva, adâmico. Desci do carro meio anestesiado, com as pernas meio dormentes, a circulação sanguínea um pouco paralisada, coisas de quem não está acostumado com longas viagens de carro e fui de encontro aos seus braços já estendidos:

 - Meu sobrinho!!! 

-Tio Zé, que saudade!

     Um simples abraço não cura quinze anos de saudades e boas lembranças, pensei que teríamos muito por conversar.

-Entre, vamos, já estava te esperando.

 -Entre no carro, não posso deixá-lo aqui fora.

 -Ora, ninguém vai mexer no seu carro, depois você pega 

-Não Tio, se bem me lembro é um longo estirão até sua casa. 

-Está bem então.

     Poucos minutos depois estávamos em frente à porta. Com a cabeça transbordando de memórias quase imediatas pois tudo, todos os veios das madeiras e as telhas, todas as janelas, todo o caminho era meu velho conhecido, é impressionante como guardamos tantas coisas num espaço tão reduzido entre os olhos e a nuca. Já era de tarde e percebi que estava com fome.

- Você deve estar com fome. 

-Tio, como adivinhou? E como sabia a que horas eu chegaria, para ficar me esperando? 

- O vento me avisa, respondeu enigmático e lacônico. Já estou com a mesa posta.

 -Temos muito para conversar 

-Sim, é claro. Mas somente com a barriga cheia as palavras terão força para pular da língua para os lábios e daí para os ouvidos, não é mesmo? 

- O senhor está sempre certo, e rimos bastante com esta imagem inusitada.

   Comi como se estivesse me preparando para uma jornada de trabalho no campo. Meu apetite havia despertado feroz e impetuoso, nem lembrei das azias e indisposições, e dos sais de frutas e pastilhas antiácidas que substituíram as balas e jujubas da feliz infância. E ainda tive espaço para as frutas de sobremesa.

 - Para arrematar tudo aqui vai uma “marvada” especial, direto do alambique. "Guardei para brindar com meu sobrinho mais querido".

   E ao ouvir isto um velho sorriso brotou de algum lugar entre o estômago saciado e o coração acalentado, pulando sem freios para os lábios e os olhos.

- Você deve estar bem cansado. Seu quarto já está preparado. Tire aquela soneca que recupera até o mais judiado dos peões e amanhã nós retomamos do ponto onde havíamos parado.

-Sim, tio. Não tenho como recusar esta oferta. Nestes momentos é que percebo o quanto eu estou fora de forma. A vida no conforto me deixou muito mole. 

-Descanse hoje porque amanhã vou colocar você na lida. Vamos crescer uns calos nessas mãos, que estão muito finas. 

    Fiz questão de deixar as janelas do quarto abertas para que fosse despertado pelos primeiros brilhos da manhã. Um vento forte sacudia as cortinas e o cheiro do campo chegou às minhas narinas antes que meus olhos estivessem abertos. Fiquei vários minutos estirado na cama implorando que a preguiça fosse embora, e quando ela se retirou me levantei bem-disposto e pronto para o que desse e viesse.

    Meu tio já me aguardava para a primeira refeição do dia. Pensei comigo mesmo “como ele consegue estar sempre pronto?”. Já bastante curtido pela vida e pelo tempo, eu fiz os cálculos e me dei conta que ele já passava dos setenta anos. Tirando a pele já enrugada pelo tempo e pelos sóis, chuvas e ventos que escorreram neste rosto e corpo ele esbanjava uma vivacidade e uma firmeza incompatíveis com a idade biológica.

- Bom dia Tio, dormiste bem?

 -Sim, sempre durmo bem. E você? 

-Não lembro de ter dormido assim em muitos e muitos anos. Fiz questão de ser acordado pela alvorada.

 -A alvorada é o melhor despertador que conheço, junto com os galos. 

-Eu só desperto com meu celular tocando uma trilha suave, feita para induzir o corpo a um tranquilo despertar. Mas troco o toque toda semana pois logo me enjoa e mais tenho de vontade de arremessar o maldito aparelho na parede. Ontem eu lembrei a tempo de cancelar a programação.

 - Ah, a vida na cidade é sempre difícil, não é mesmo?  

-Nem me diga. A vida moderna está muito difícil, muita gente está ficando doente e nem percebe.

 -Mesmo de longe eu acompanho, ou tento acompanhar o que acontece no mundo, e suas tias me contam muitas coisas quando as vejo.

 - Foi a vida que escolhi 

-Escolheu ou foi escolhido? 

-Não sei ao certo.

-Bom, chega por hora. Está disposto ao trabalho?

 -Acordei muito bem-disposto, mas não exagere tio. Pega leve comigo, hein? 

-Fique tranquilo, eu já reparei nas suas mãos finas.

 -Então vamos.

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      Busquei trajes mais adequados e logo estávamos na carroça. A grama estava alta e as árvores sacudiam calmamente nesta manhã plena de vento e Sol. Seguimos em silêncio saboreando este momento tão sereno. O ambiente ao redor estava tão envolvido numa paz que os sons de uma voz humana seriam inconvenientes, diria até que seriam nocivos e perturbariam o sutil equilíbrio dos elementos. Eu até tentei falar alguma coisa no início da jornada, mas olhei meu tio ao meu lado e a sua expressão tão benfazeja me transmitiu de imediato um pedido de silêncio sem precisar de palavras. Não me restou nada além de concordar.

   Chegamos ao campo arado, já preparado para receber as sementes da próxima safra. Três trabalhadores já estavam em atividade. Reconheci dois deles dos meus tempos de infância e juventude, o Antônio e o Tomé, agora já bastante maduros. Tantas memórias e tantas surpresas. Lembro deles quase garotos, garotos mais velhos do que eu, é claro, e muitas vezes entravam nas brincadeiras e nos passeios junto com o resto da criançada. E aqui estão ainda, depois de tantos anos. Também têm raízes muito profundas, raízes difíceis de serem cortadas, raízes que se dirigem ao coração da terra.

   Apeamos da carroça e quase de imediato os dois vieram em minha direção, para me cumprimentar:

- Eita que não é o garoto bom da cidade! Vixe, já tá com cabelo branco! 

- Quanto tempo, hein? E vocês ainda lembram de mim! 

- E num havera de esquecer! O sobrinho preferido do Seu Zé Raimundo. 

- Pois é, depois de quinze anos eu finalmente cheguei aqui. Fiquei muito contente de ver vocês. Vim pronto pra lida!

    Reparei que eles deram um sorriso meio zombeteiro quando disse isso e meu tio se meteu na conversa: -Pois é Antonio e Tomé, ele chegou cheio de disposição. Vamos ver quanto dura esta disposição. Todos riram muito e fiquei um pouco sem graça.

   Em menos de uma hora de atividade eu já estava vermelho, suando em bicas e com a respiração pesada. Em cerca de duas horas as câimbras começaram a me martirizar. Lá pela terceira hora eu parei e olhei os quatro homens, todos firmes, concentrados e com uma expressão de satisfação nos rostos marcados. Meu tio liderava esta pequena equipe. Seu ritmo era impressionante de acompanhar. Como pode um homem desta idade estar com esta energia toda?

    Cheguei rápido à conclusão que cada macaco fica melhor no seu galho. Não fui talhado para esta vida. Brincar e correr nos campos naqueles dias róseos da infância é uma coisa, ganhar a vida nestes mesmos campos é algo bem, bem diferente. Apesar das luvas que estava usando, minhas mãos já carregavam bolhas bem pronunciadas. Quando por fim fui dar um passo e minha perna direita deu aquela contorção marcante de câimbra, caí ao chão e gritei por ajuda, cheio de dor. Eles largaram tudo e correram em minha direção. Pouco depois eu já refeito da dor e do incômodo, só tive condições de dizer: “Eu não posso mais”

- Meu sobrinho eu já sabia, só deixei você vir porque vi a sua alegria e sua boa intenção. Mas não se preocupe, já foi o bastante. Descanse ali debaixo da árvore e se refaça. 

      Os outros trabalhadores me dirigiram um olhar não de desprezo, mas de uma sagacidade incomum: “Nós, na cidade, também ficaríamos perdidos. Não se pode esperar que um cavalo haja como uma  tartaruga, assim como não se pode esperar que uma tartaruga haja como um cavalo”

     Embaixo da árvore, já mais calmo e descansado, me peguei a pensar:” de onde me veio esta ideia absurda de achar que poderia trabalhar como um peão de fazenda?” “Eu não piso nem no chão liso de casa com os pés descalços!”. Bastante envergonhado esperei o final do trabalho para voltar para casa e esperar uma noite de sono pesado.


A Perseguição

 A perseguição

 Início da perseguição: noite de 5 de novembro de 2023

 Término da perseguição: manhã de 11 de dezembro de 2023 

       Não sei ao certo por que tenho sentido essa estranha urgência de me mover mais rápido, de não parar quieto nem por um segundo, de passar despercebido, diria mesmo que camuflado, de não deixar vestígios nem minha impressão digital, de não me demorar e nem ficar em pé empertigado ao alcance da luz. Não me recordo de ter feito algo errado embora minha memória possa estar me enganando, há espaços em branco e há como borrões, pensamentos indefinidos, fragmentos de imagens duvidosas, espaçadas, intermitentes como um vagalume. A dúvida é um instrumento que pode muito bem servir de tortura, pois a falta de certeza, de clareza, da compreensão do espaço que me cerca contribui para este estado de inquietude que me assola. 

      A única certeza é que eu vi a silhueta esguia e sorrateira, que achava que fosse me surpreender e me alcançar, só que a estranha urgência de me manter em constante movimento me deu uma vantagem de dois quarteirões. Por sorte ou talento eu consigo mapear os lugares por onde passo com muita rapidez e vejo as alternativas de escape. Não tenho como saber onde adquiri esta habilidade, ou se foi herança genética. Não conheci meu pai e minha mãe está longe de ser considerada um ser talhado para o combate ou para ações desta natureza, pobre dela sempre muito ordeira e ajuizada. Ela nunca falava sobre meu pai então nada sei sobre ele, só sei que os olhos de minha mãe quando se referia a tal figura traía um desgosto e um desapontamento. Nada sei sobre ele.

     Por que esta atração por saídas improváveis, por rotas de fuga, por atalhos encontrados em lugares insuspeitos? Sempre andei um pouco desconfiado, olhando para os lados, de soslaio, talvez seja o efeito da paranoia inoculada nos cidadãos empilhadas nas grandes cidades, como um veneno de ação lenta potencializado pelas imagens de caos urbano servidos em doses potentes diariamente. Vasculho por um instante minha memória de longo prazo e não descubro nenhum evento onde eu tenho sido vítima deste caos urbano. Faço uma varredura em minhas memórias de infância e não me lembro de ter sido violentado por qualquer modalidade de maldade que esteja disponível no mercado. Então de onde vem esta urgência, esta agitação imperativa que me leva a buscar saídas onde ninguém mais vê? 

    Eu vi a silhueta esguia e sorrateira há poucos minutos. Na galeria, entre os quiosques de roupas, com muitos casacos longos, vestidos longos, echarpes penduradas, amontoadas as pessoas que escolhem suas próximas roupas, seus casacos para o inverno que não tarda. A iluminação diminuída por contenção de custos dificulta um pouco as escolhas, quem sabe para ocultar a qualidade duvidosa das peças de vestuário na espera de serem vendidas, então uma certa quantidade de confusão visual está embutida nesta equação, e assim, quem sabe, uma silhueta esguia, sorrateira pode estar mimetizada nesta penumbra proposital. Mas não quero gastar nenhum segundo com essa suposição porque preciso me afastar o mais possível da silhueta esguia, sorrateira e duvidosa. Não vou dar de bandeja nenhum centímetro de vantagem, então apresso os passos e de uma distância agora suficiente me escondo atrás de um letreiro luminoso onde olho em direção à galeria para me certificar que despistei a silhueta esguia, sorrateira, duvidosa e improvável.

    Abrando um pouco minha respiração e sinto o ar carregado deste beco apinhado. Um homem encorpado se aproxima pelo meu lado esquerdo e minha atenção se apruma imediatamente. Cerro as mãos e logo procuro o bolso do casaco em busca de defesa. O homem encorpado carrega uma bengala, a qual arrasta de um lado para outro pelo piso tátil num sinal claro de sua deficiência visual. Dou um suspiro aliviado e saio de seu caminho, levemente envergonhado. Não demoro mais do que uns segundos nesta distração e apresso o passo em direção ao fim do beco.

     No final do beco há uma profusão de latas de lixo com cerca de um metro e meio de altura encostadas ao muro baixo de onde pode-se facilmente pular para o beco de trás, simétrico e apinhado de restos de papelão e plástico. Transponho com agilidade o muro baixo não antes de deixar de olhar para ver se estou sendo observado. Ando apressadamente e entro na rua paralela. Outra rua similar a muitas outras desta zona de comércio popular. A feição urbana antiga, ultrapassada e decadente desta região é um ponto forte a meu favor, repleta de vãos entre as construções, escadas em espiral, tendas e bancas avulsas, grandes placas de anúncios apoiadas nas calçadas, iluminação deficiente neste crepúsculo, tudo o que preciso para me esgueirar e desaparecer caso seja necessário.

     Cubro minha cabeça com meu capuz deste casaco cinza escuro, desbotado e anódino, praticamente invisível no meio desta multidão. Sou discreto, sempre fui e acho isto uma grande vantagem. Não deixo rastros, ou pelo menos penso que não, mesmo neste ambiente de atroz vigilância. Mesmo que faça um esforço consciente de diminuir a velocidade do passo eu não consigo. Verifico sempre meu relógio para checar a quantidade de passadas ao longo do dia e nunca acho suficiente. Me aproximo da loja onde são vendidos chapéus. Não entendo muito a insistência ou a persistência de se manter em funcionamento uma loja dedicada à venda de chapéus, já que é uma moda tão ultrapassada, muito embora eu tenha uma grande atração por chapéus. Passo rapidamente pela porta e vejo poucos consumidores em seu interior. Não me demoro, nunca me demoro. Capto o máximo de informação num mínimo de tempo.

     A rua continua apinhada de gente, mesmo que a noite se aproxime. Talvez estejam com os bolsos ainda cheios após o dia do pagamento e se apressem a gastar antes que seja tarde demais. Passam por mim como uma torrente e ninguém repara. É o que quero, que ninguém repare em mim, mas eu estou atento e reparo em tudo. Gosto de pensar que meus olhos são duas câmeras de vigilância ligadas em tempo integral. Um homem se volta e anda rápido em minha direção. Hesito por um segundo e acelero mais um pouco. Após uns dez passos acelerados eu volto minha cabeça para perceber que ele entra numa pequena e malcuidada loja de artigos para fumantes, aquele velho hábito hoje em desuso e declínio. Vejo os olhos amarelados e os dentes enegrecidos quando o homem abra a boca num sorriso embebido em fumaça e nicotina para saudar o balconista. Sigo em frente. 

    O decréscimo da luz natural é um componente a mais para aumentar o grau de atenção no ato de esquadrinhar o ambiente ao redor. Por mais treinado que eu seja o limite humano é inevitável e ainda não avançamos o suficiente para a disponibilidade de próteses oculares que permitam dobrar ou mesmo triplicar a acuidade visual. Pelo menos eu não tenho conhecimento disto, ou mesmo que já existam, que tivesse recursos para tanto. Como consequência deste atraso tecnológico a minha tensão aumenta, pois nunca tenho certeza de ter despistado de vez a tal figura esguia e sorrateira. 

     Este bairro é um emaranhado de vielas e ruas estreitas. No passado já foi um lugar de requinte e destaque, mas que não soube se adaptar às mudanças. O eixo do luxo virou e se transferiu para ruas mais modernas, largas, arborizadas, perfumadas, cheias do dinheiro novo que mudava de mãos e bolsos, e os filhos e filhas desta nova geração do dinheiro novo assumiu o novo gosto, o novo estilo e se mudou com alívio. Nestes dias cheios de penumbra e alarido o dinheiro curto e duramente auferido, e em alguns casos sorrateiramente desviado, circula com desconfiança por entre as lojas apertadas, as barracas malcuidadas, as paredes sujas e rabiscadas. Este é o ambiente onde melhor me adaptei.

     Mantenho as mãos cerradas dentro dos bolsos do casaco cinza escuro. Camuflagem. No meio de tanta gente eu sempre passo despercebido, e noto tantas cores espalhafatosas em vestimentas mais espalhafatosas ainda. Na minha percepção são alvos fáceis, como se fossem latas empilhadas colocadas em cima dos tocos de árvores esperando as balas certeiras que chegam em velocidade espantosa. Evito ao máximo o contato com estes pontos de referência. Sigo em frente, e as vezes sigo para os lados, ziguezagueando. A linha reta é traiçoeira. Luz de mais é um precipício, fere meus olhos treinados. A penumbra me atrai, é onde as nuances ficam mais escondidas, o que enseja um maior esforço em percebê-las, é mais instigante e me estimula. 

     Ouço um murmúrio mais alto que sai detrás de um velho cartaz da loja de artigos de toucador. Um murmúrio como se fosse uma máquina em baixa vibração. Pode ser uma voz humana, mas não tenho certeza. Eu vejo melhor do que ouço, portanto, eu dobro a atenção. A desconfiança casou-se com a curiosidade e fez morada dentro de mim. Estou ao lado do velho cartaz e sem espaço para uma saída rápida, então não me resta nada a não ser olhar e cessar a dúvida. Com alívio sinto o cheiro de álcool barato que exala de um homem deitado no chão atrás do cartaz, e que ronca despreocupadamente. Alheio a tudo e a todos, repousa sua cabeça desgrenhada num amontoado de plástico e papelão das embalagens descartadas sem nenhum pudor ou cuidado. Ele não é o único nesta posição, neste exato momento pode-se contar às dezenas os indivíduos largados em sono etílico por trás dos becos e das fachadas desbotadas, nas vielas detrás e nos vãos entre as escadas em espiral.

     A luz diminui um pouco mais ao se escorrerem os minutos. Assim eu fico mais confiante e mesmo assim eu não diminuo a atenção. Estou chegando perto da praça. Aqui o espaço fica mais aberto, porém as árvores estão muito copadas e sem poda, longos galhos que quase tocam o chão. Os morcegos já começam seu turno de trabalho atrás dos insetos que hão de encher seus estômagos por mais um dia. Os cestos de lixo atraem muitos ratos também, então as pessoas evitam esta praça que já foi ponto de encontro e hoje faz justiça ao entorno. Aqui estou mais destacado, mesmo na penumbra de uma praça com postes muito espaçados, árvores de troncos largos e escuros, e ratos que não se apavoram mais quando encontram seus predadores. 

     No canto esquerdo da praça, junto à Rua dos Centuriões, uma figura baixa e volumosa repara em mim. Disso eu tenho certeza, noto sua cabeça que gira à medida que acelero o passo. Desta vez eu tenho certeza, não é uma simples desconfiança. A praça está vazia e eu dei um passo errado escolhendo esta rota. Noto que pelo contorno da figura sua mobilidade estará aquém da minha, portanto estou em vantagem se precisar correr. Para isso é que treino bastante, para não ser pego desprevenido. Para isso estou sempre com calçados adequados, para evitar escorregar no momento exato. Paro, respiro e me aprumo. Para seguir em frente eu precisarei cruzar com a tal figura. A alternativa é voltar, mas voltar é dar chance para a figura esguia e sorrateira que eu tenho certeza de que estava no meu encalço. Bom, certeza, certeza eu não saberia dizer. Impasse. 

      Só cinco segundos, é o máximo que eu permito de hesitação. Decido seguir em frente e me deparar com esta figura baixa e volumosa. Não mais do que uns trinta metros nos separam. Dou passos decididos e subitamente um automóvel surge quase desgovernado, em movimento errático. A figura baixa e volumosa toma um susto tremendo e pula em direção à parede do prédio antigo e desbotado, que no passado ostentava brasões de uma realeza duvidosa, mas que hoje é refúgio para atividades ilícitas. O automóvel sobe em parte da calçada e passa perigosamente perto das pernas da figura baixa e volumosa, que solta um grito agudo carregado de horror. A cena toda foi muito rápida, mas o suficiente para entender que a tal figura baixa e volumosa estava apenas em busca de uma aventura amorosa descartável, de preferência com figuras em bom estado físico e idade tenra. Com certeza eu me encaixava neste quesito, mas eu dispenso a honraria. Passei rápido e nem perguntei se estava tudo bem à figura baixa, volumosa, assustada e lívida. O amor descartável ficaria para outra oportunidade, dado o susto inesperado.

      A Rua dos Centuriões é uma rua decadente, com edifícios quase centenários que se estendem por cerca de oitocentos metros. No intervalo a cada três edifícios há uma passagem que serve às entradas de serviços. Em tempos mais bem aquinhoados era uma maneira de ocultar os serviçais das famílias abastadas. Os empregados adentravam os recintos pelas entradas laterais, longe das vistas dos proprietários, incomodados com a visão terrena, mundana e servil. Hoje as vielas são um bom esconderijo para o comércio livre e desenfreado de Doxifedril, ScarletDream e Moxazeletl, entre outras drogas menos conhecidas. Desnecessário dizer que a delegacia de polícia mais próxima fica a pelo menos quinze quilômetros daqui. A fauna humana que se move aos tropeções por aqui não me preocupa. Todos alheios, todos desconectados, todos inertes. Sei me esgueirar e me desvencilhar com facilidade destes arremedos de seres humanos. Só quero atravessar o quanto antes esta rua. Já é noite completa e o céu está cinza. Cinza, porém firme.

    Vou em frente em meio à multidão de mortos-vivos. Relaxo um pouco minhas mãos dentro dos bolsos do casaco cinza. Avanço em bom passo e já vejo o cruzamento com a Periferal, onde os vagões de VLT passam a cada hora, lotados, sujos e inseguros. Prefiro seguir andando. O comércio de Doxifedril é livre nos vagões de VLT e pelo menos a cada semana ocorre um ou mais óbitos de usuário. Vez em quando algum é jogado nos trilhos, e aí o intervalo entre os vagões aumenta bastante. Prefiro seguir andando. Embaixo dos viadutos é mais frequente o comércio de ScarletDream, por isso se vê com frequência a sequência de corpos encolhidos em posição fetal. Prefiro seguir andando e continuar limpo. Nos prédios outrora revolucionários, arquitetonicamente falando, e hoje decadentes, ocorre de preferência o comércio e o consumo de Moxazeletl. A euforia toma conta sem freios e os muitos apartamentos hoje sem janelas e portas muitas vezes são usados como trampolim para os “Vôos do condor”, as vezes também chamados “d’Experiência de Galileu”, onde o feliz usuário desafia a lei da gravidade em seu sonho infinito de voar como os pássaros. Após tantas ocorrências os prontos socorros locais já não atendem com presteza e alguns corpos são retirados já em adiantado estado de putrefação. Prefiro seguir andando e continuo limpo.

      Nem tudo são espectros e quase mortos-quase vivos. Em certas ocasiões eu consigo sentir o cheiro do perigo, como agora. Em sentido contrário, no outro lado da calçada, dois sujeitos com gorros e viseiras de soldador se viram e atravessam em minha direção. Justamente quando chega a última viela, que liga à entrada da estação do VLT. É para isso que eu treino: arranco velozmente e quase passo por cima dos primeiros quase mortos-quase vivos acocorados na viela. Derrubei dois deles que nem esboçam reação. Em segundos eu chego ao portão de acesso e escalo com agilidade felina. Não há bloqueios e subo as escadas. Paro por cerca de três segundos atrás de uma placa com o mapa dos arredores e olho meus perseguidores. Eles pararam em frente à porta onde são feitas as transações para mais uma noitada plena de delírios. Em caso de dúvidas é melhor correr.

     Escapei, mas vim parar onde não queria, por força das circunstâncias. Não era minha intenção entrar num vagão de VLT, A plataforma de embarque está bastante cheia e mal iluminada, pelo menos isso está a meu favor. Cobri de novo minha cabeça e vou serpenteando entre os corpos tensos que esperam a composição chegar, se alinhar, abrir as portas e rezar para que nada de mal aconteça até cada estação de destino. Preciso decidir se embarco ou se saio da estação. As luzes dos faróis já despontam e o ruído característico do atrito com os trilhos está audível. A composição se alinha com a plataforma e abre as portas. O empurra-empurra dos que querem entrar versus os que querem sair já é a rotina. Tenho cerca de vinte segundos para decidir o que fazer. Se entro no vagão e sigo até a próxima parada terei obtido uma boa vantagem de espaço e tempo. No último momento antes da sirene que anuncia o fechamento das portas eu dou o último passo e me espremo no meio da multidão.

     O vagão está cheio e por medida de economia ou falta de manutenção as luzes estão parcialmente apagadas. A penumbra benfajeza aos meus olhos me protege. Mas me protege do quê, se tenho certeza de ter escapado? Com este pensamento cruzando minha mente resolvo relaxar por alguns poucos minutos até a chegada na próxima estação. De repente eu olho em direção a interseção dos vagões e lá está de novo a figura esguia e sorrateira. Um choque me traz de volta à prontidão. Meu cérebro retoma a sua velocidade usual e quase por impulso automático vou me esgueirando entre os corpos suados, cansados e amedrontados dos passageiros no sentido oposto à interseção do vagão. São apenas alguns segundos até a próxima parada.

      A estação Vanguarda chegou e consegui ficar bem na segunda linha de passageiros a desembarcarem. Uma massa de gente sai aos trancos e tropeções, mas eu me desvio e desvencilho com passadas rápidas e firmes. Em segundos já estou na escada que leva a saída. Na rua novamente e uma lufada de ar foi muito bem recebida. Por sorte eu também conheço os arredores, e a feição urbana pouco difere entre os bairros adjacentes. O relógio segue sem interrupções o seu curso e vai retirando mais pessoas das ruas neste horário. Minha atenção aumenta, pois, assim fico mais exposto. A iluminação pública aqui é um pouco melhor e os becos e vielas são mais escassos. Apresso o passo. Olho para os lados e nada me inspira cuidado. Após duas esquinas eu noto um carro estacionado com os faróis baixos e cabeças no interior. Atravesso para a outra calçada, mas antes disso reparo num sinal feito com os faróis deste veículo. Instintivamente volto minha cabeça e vejo a resposta do sinal luminoso dado por um sujeito com uma lanterna, que pisca rapidamente três vezes. Reconheço o sinal para confirmar que a transação pode ser completada. Três piscadas rápidas significam que o fornecedor espera no prédio em frente. E assim segue o ritmo frenético de suspensão da realidade nesta cidade infestada.

     Uma viatura da polícia está estacionada na próxima esquina e um policial conversa com uma figura de gênero indefinido em trajes sumários, quase supérfluos, com olhar vidrado e cicatrizes pelos braços. O policial aparenta estar muito interessado, diria até que embevecido na conversa com a tal figura. O outro policial se aproxima com um maço de dinheiros nas mãos, a “caixinha de Natal”, gentileza do bar em frente que permanece aberto até a manhã seguinte, muito embora a legislação não permita. Mas sempre se pode recorrer aos amigos. A propósito o Natal foi comemorado há dois meses.

     Não quero saber de nada disto. A fauna noturna é peculiar e já estou acostumado com ela. Há muitos tipos interessantes e curiosos que se espalham por estas ruas depois que o Sol se põe, como aquele que fica plantando bananeiras a cada dez minutos até que o Sol dê o ar de sua graça num novo dia repleto de oportunidades e esperanças. Uma vez eu parei por alguns minutos para conversar e reparei nas suas mãos calosas por conta do exercício diário e repetido à exaustão. Seu nome é Nondas, e achei bastante inusitado este nome, e ele me disse que era abreviação de Epaminondas. Ele detestava o nome e se rebatizou com o diminutivo. Não mais do que alguns minutos me deram a certeza de que aquele sujeito pacato e inofensivo, embora excêntrico, era apenas mais um dos inúmeros enjeitados, ignorados, desprezados e abandonados pela família tão logo seu estado mental ficou patente.

    Morava num quarto infecto, sobrevivia de uma pequena pensão conseguida em função de seu estado mental delirante e saía todo entardecer para aprimorar suas habilidades atléticas. Cruzei com ele muitas outras vezes e sempre estava daquele jeito quieto, manso, com um sorriso tímido, roupas puídas e de cabeça para baixo. Acho que era a melhor forma que achou de ver e entender o mundo.

    Faz algum tempo que não vejo a Madame Viegas. Ela tentava de todas as maneiras manter a pose, pobre criatura. Havia sido uma mulher bem colocada na vida, cercada de luxos e mimos. Mas correm boatos que o marido descobriu uma traição, que gerou uma criança, que foi tirada de seus braços pelo agora ex-marido com influência e valiosos contatos no mundo das leis e decisões judiciais. Dizem que foi largada só com a roupa do corpo e sem nunca mais ver sua criança. Hoje perambula coberta de trapos, sem dizer coisa com coisa. Pobre criatura.

    Porém há os belicosos e os perigosos. Na Praça Subhotai Khan vive um sujeito alto e forte, de olhar flamejante e muitas cicatrizes, quase sempre ébrio e pronto para uma briga. Certa ocasião ele agarrou ao acaso um assustado pedestre, que certamente ia em direção ao seu trabalho, e quase o enforcou com as próprias mãos. Foram necessários cinco homens para dissuadi-lo, ou melhor, para apagá-lo, após uma pancada certeira com um martelo em sua cabeça. O pobre homem atacado não entendeu o que havia ocorrido e certamente jamais passou por ali novamente. Na semana seguinte lá estava de volta o brigão, com a cabeça raspada e um curativo sujo no ponto do impacto do martelo.

    Não julgo ninguém, só vou em frente aprendendo a desviar dos belicosos e perigosos. Corro bem e sou muito ágil. Vivo assim desde muito jovem e acho que me viciei nisto. Me adaptei à selva. Já vi muita coisa e me tornei um cético. Ou talvez um cínico, e desconfiado. Os piores são os que tem a melhor lábia, aqueles que enganam os outros por profissão, devoção ou somente má intenção. As ruas estão cheias destes também. Não só as ruas, mas também os locais designados para dar segurança e apoio, usando o divino como isca, atraindo os pobres desesperados e desiludidos para uma armadilha que acena com promessas de conforto e esperança. Os melhores na arte de enganar cresceram na vida e já se sentam nas poltronas do poder. A mim não enganam.

     Já atravessei durante esta breve digressão o espaço de três quarteirões e a companhia mais constante é o barulho de vidros quebrados e xingamentos trocados entre os bêbados, que disputam os melhores espaços embaixo das marquises e nos vãos das lojas fechadas pelo adiantado da hora. Há rumores nunca confirmados de que um acordo foi feito entre o poder público e os fabricantes de bebidas, de forma a adicionar aditivos químicos que auxiliam, e muito, na diminuição da expectativa de vida destes usuários como forma de assepsia social, inclusive com distribuição gratuita de bebida para os dependentes. A justificativa é a de tal qual numa epidemia onde se distribui remédio contra os surtos mais agudos da doença, este grave problema social precisava ser abordado e equacionado. E os ébrios unidos jamais vencidos ficavam controlados e saciados, amortecidos e apaziguados, sem causar muito transtorno aos contribuintes.

      O tal acordo secreto sempre foi negado e quem se atreveu a investigar mais a fundo teve sua carreira abreviada, e num caso extremo dado como desaparecido. Não sei ao certo, porém como ando muito e todo dia pelas ruas desta bela cidade, as madrugadas contemplam comboios de ambulâncias que vão recolhendo com frequência crescente os corpos de indigentes encharcados em tonéis de carvalho, ou qualquer madeira menos nobre. Em alguns casos o excesso de álcool era tamanho que os usuários eram incendiados e as chamas subiam celeremente, servindo de fogueira para aquecer os vizinhos de bebedeira nos dias mais frios do inverno. Todavia isto jamais chegou às páginas principais da imprensa.

     Cheguei em frente ao prédio sede da Secretaria de Segurança Interna. Quase todo apagado, apenas alguns seguranças adormecidos em guaritas. A vigilância tem sofrido seguidos cortes de verba e grande parte das câmeras que antes davam a sensação de segurança para uns e a impressão de invasão ostensiva de privacidade para outros está desligada, muito embora venham à público negar veementemente este fato. O fato é que não funcionam e não coíbem mais. Muitas delas são usadas como alvo para treino de tiro e até um campeonato foi criado, para descobrir o melhor atirador da cidade. Clandestino, é claro. O campeão recebeu como prêmio cerca de 200 gramas de Doxifedril, que foi consumido em tempo recorde. O que vem fácil, vai fácil é o que diz o ditado. O corpo do campeão foi um dos muitos que foram lançados nos trilhos do VLT. Só descobriram sua identidade por conta do pacote com a identificação do produto achado dentro de um bolso do pouco que restou de seu corpo estraçalhado.

      Pensei em costear o prédio e entrar pelos fundos, apenas pelo prazer de invadir o que antes era um símbolo do poder e do medo. Me dei de presente este pequeno intervalo de tempo como devaneio. Demorei quem sabe um minuto nesta divagação. Numa fração de segundo o som de pneus derrapando foi como um raio que tivesse caído próximo de mim. Um conversível de capota arriada dobrava a esquina, com quatro sujeitos que gritavam obscenidades, apenas uns idiotas de cara e cabeça cheia de anfetaminas. Tão rápido quanto apareceram sumiram. Mas eu me virei e lá estava de novo: a figura esguia, sorrateira e lúgubre. De relance, entre dois postes, de forma que no espaço havia mais escuridão do que o efeito das lâmpadas no solo. Pisquei firme e passei as mãos pelos olhos para ter certeza de que meus olhos estavam limpos e que não haveria dúvida. Olhei novamente e pensei ter distinguido na verdade uma pilha de sacos de lixo, parados esperando serem recolhidos. Na dúvida resolvi entrar no prédio da Segurança Pública e escalar o muro dos fundos que dava para um pequeno bosque anexo ao complexo. Estaria vazio nestas horas, já quase madrugada.

    Não hesitei mais e assim foi feito. Sem nenhum obstáculo, sem nenhuma contestação cheguei no muro e escalei, pois seus vários ressaltos facilitam muito um escalador mesmo que iniciante. Transpus o muro e desci para o pequeno bosque, que à luz do dia é bem bonito e até bem cuidado. No escuro teria alguma dificuldade, mas em menos de quatro minutos eu cheguei na outra extremidade. Pensei ter ouvido barulhos enquanto me esgueirava entre as árvores, e ouvi chamarem meu nome. Ôpa! Será que estou delirando? Não, observei com mais cuidado e percebi que era uma coruja. O farfalhar de asas em vôo ficou mais nítido e mais um rato perdeu sua vida nesta noite. Pensei no rato e na brevidade de sua existência. Pensei na coruja e sua estratégia de caça muito eficiente, seu vôo no escuro e seus olhos enormes capturando migalhas de luz, o suficiente para posicioná-la frente à sua presa. Ela em breve estará banqueteando, garantindo sua sobrevivência por mais um tempo. A vida não é fácil.

     Meus batimentos cardíacos estão normais, ou seja, normais para mim, sempre cercando a marca de 120 BPM. Este é o ritmo que eu gosto, é onde me sinto alerta. Minha mente irrigada com um fluxo intenso de um sangue vermelho, quente e jovem. Este é o meu maior tesouro, meu melhor trunfo, esta capacidade de reagir com rapidez e nunca hesitar por mais de cinco segundos. Isto pode ser a diferença entre estar quente e ágil ou frio e inerte, numa fração de segundos. Já escapei de vários acidentes e só aprimorei esta capacidade, com o passar dos dias vividos com intensidade na selva urbana.

    No outro extremo do parque há uma grade com um grande buraco. Após transpassar a grade chega-se ao vão central de um grande complexo de edifícios que faziam parte da universidade pública, hoje desativados. É um lugar perfeito para os mais variados tipos de casais, trisais, grupos mixtos, grupos múltiplos, solitários voyers, adeptos das mais diversas formas de conjunção carnal já imaginadas pelos seres humanos, prostitutas e prostitutos, aberrações diversas, fetiches simples e complicados e até jovens casais de namorados de mãos dadas, o que causa grande espanto. Há um acordo tácito estabelecido de ninguém se ocupar com a atividade de seu vizinho, um civilizado equilíbrio de se fazer vista grossa, mesmo que à luz do dia alguns participantes exibam um afetado pudor e uma fachada moralista. Alguns participantes são próceres da sociedade, formadores de opinião, líderes empresariais, intelectuais respeitados, políticos de qualquer espectro do campo, impolutos líderes religiosos, celebridades da mídia e dos esportes. Não se há de negar que é a maior experiência democrática desta sociedade, num ambiente de extremo sigilo e discrição. Pelo jeito estes prédios jamais serão reativados ou demolidos.

      Só que eu não estou interessado nestes assuntos agora. Aqui posso passar despercebido, embora ouça alguns convites e perceba alguns acenos com os olhos, alguns sorrisos maliciosos. Alguns são tentadores. Porém o estranho senso de urgência é imperativo e, tal qual Ulisses amarrado ao mastro evitando o chamado das sereias, eu atravesso aquele Domo do prazer em passo largo já dentro da madrugada. Venho no sentido oposto da ideia original da construção do complexo. Entrei pelos fundos e saio pela frente, no saguão principal, nas paredes onde estão expostos os retratos dos fundadores e financiadores, todos em poses hieráticas. Tenho quase certeza que um deles estava participando de uma animada festinha, minutos atrás na ala de Geografia.

     Saio defronte uma grande avenida com um canteiro central, muito utilizada para eventos cívicos. Está bem vazia nesta hora. Olho para os lados e cubro minha cabeça. Sigo com os olhos voltados para o chão num passo firme. Um sujeito pula por cima do canteiro central e vem na minha direção. Fico alerta imediatamente. Ele me dirige a palavra:

“E então meu camarada, tem fogo?”, com um cigarro entre os dedos.

- Não, não fumo. 

- Que pressa é essa? 

- Pressa nenhuma 

- Para aí agora! E puxou uma faca pequena.

       Eu capto muita informação em curtíssimo espaço de tempo. Vi que a faca estava cega e que o sujeito estava muito embriagado. E eu não me apavoro com facilidade.

- Guarda essa faca!

- Guardo nada, me dá teu casaco!

    Nisso ele deu um passo trôpego na minha direção, a cerca de três metros de distância. É para isso que eu estou sempre em guarda. Num movimento rápido e inesperado para ele, eu pulei na mureta e fiquei na altura do seu peito. Dei um salto no ar e chutei com força sua cabeça. A faca voou pelo ar e o ladrão bêbado caiu para trás. Com a surpresa e a contundência do golpe ele ficou deitado, sem atinar muito bem o que havia acontecido. A avenida estava bem vazia, somente alguns automóveis passavam desatentos. Eu poderia ter descido da mureta, pego a faca e riscado minhas iniciais na cara do sujeito bêbado, ladrão atrapalhado, mas só cuspi nos seus olhos e segui em frente. Um pouco excitado pela adrenalina despejada na corrente sanguínea soltei um berro de contentamento. No outro lado da avenida, embaixo da marquise do Cine Howlin’Wood, com seu neón neogótico, uma figura me olhava fixamente, empertigada, na penumbra. Impassível. Com certeza ouviu meu grito. Foi testemunha de toda a ação. Menos de dez metros nos separavam.

     A adrenalina ainda estava abundante na corrente sanguínea e serve para duas coisas: atacar ou correr. Achei melhor correr. E corri, muito, muito rápido. Como um antílope que foge do leopardo, como uma lebre que foge da raposa, como um condenado que quer escapar de seu carrasco. Só parei três quarteirões depois, com o pulmão estourando e o coração saltando pela boca. Mesmo assim eu tinha a certeza de que ninguém ou nada poderia ter me acompanhado. Levei alguns minutos para retomar o estado inicial. Nisso eu vi uma garota que cumpria seu turno nesta esquina, olhando para mim com muita surpresa.

- Ei garoto, tá fugindo do capeta? 

 - Olá princesa! Nem sei dizer do que estou fugindo. 

- Boa coisa você não fez, né verdade?

 - Olha, de verdade eu não fiz nada errado. Não hoje, nem ontem.

 -Ei, pode falar a verdade pra mim. Sou firmeza.

 - Ô garota, onde você vê verdade nestas ruas? 

- Ah, sei lá.

 - Você já deve saber disso, não é? Quanto tempo que você está nas ruas? 

- Ah, sei lá. Uns cinco anos.

 -Qual sua idade?

 -Vou fazer 21 no mês que vem. (Aparentava mais de trinta, mas ainda mantinha alguns traços de beleza e juventude)

-Ah sei. Qual seu nome? 

- Nefer. 

- Que nome é esse?

 - Um cliente que me chamou assim uma vez e eu gostei. Ele disse que era de uma rainha do Egito. O nome todo eu não lembro, só guardei o início.

 - Nefertiti (Lembrei do nome por completo) 

- Esse mesmo! 

 - Tá certo. É um nome chique e diferente. E então, como está o movimento?

 -Ah, tá meio devagar hoje. Os caras só querem saber de Dóxi ou ScarletDream. Se eu não conseguir uns cinco, pelo menos, o bagulho vai ficar estranho. 

      Por cerca de alguns segundos me passou pela cabeça a ideia descabida de chamá-la para se juntar a mim nesta louca aventura em que me meti. Só que em seguida a realidade se impôs, e eu não quero arrumar confusão com nenhuma máfia.

- Olha Nefer, legal nossa conversa, mas eu já vou. 

- Ah, você não quer subir um pouquinho? Já vai tão cedo? Não gostou de mim? 

- Gostei, gostei sim. Mas eu nem sei te explicar o que está acontecendo comigo hoje.

     Neste instante eu reparo que seus olhos mudaram de direção e estão inquietos. Com isso ela me dá a indicação de que alguém, ou alguéns, se aproximam por trás. Estava bom demais para ser verdade. Nem pensei meia vez e, já com a respiração refeita eu disparo mais uma vez pelas calçadas saturadas de vício e traições. Os dois que estavam prontos para me pegaram por trás não esperavam pela reação e ficaram para trás. Dobrei na primeira rua e logo percebi que era uma rua sem saída, mas tinha certeza dos latões de lixo que sempre estão colocados junto ao muro. Não olhei para trás e pulei em cima de um latão tapado, que dava acesso para uma escada de serviço vazada. Enquanto escalava a escada vi que os perseguidores acabavam de entrar na rua sem saída. Hesitaram um pouco porque o beco estava escuro, mas eu os via com facilidade. Um deles sacou uma arma e veio em minha direção, ou na direção dos latões de lixo. Notei que estavam muito tensos, talvez pela frustação de não terem conseguido dar o bote no otário, e porque estavam expostos, de uma certa maneira. Com certeza que não me viram mais, mas eu os via e resolvi seguir adiante, não sem antes pegar um pedaço de telha quebrada e arremessar em cima de um dos latões de lixo. Com o barulho do impacto o perseguidor com a arma dispara à esmo, já que estava tão tenso e com o dedo no gatilho, sem perceber que atingira o outro perseguidor na perna. Ainda deu para ouvir com clareza o grito de dor e surpresa. 

     Atravessei para a viela simétrica e vazia, totalmente vazia, com somente alguns gatos revirando os sacos de lixo atrás dos ratos graúdos que infestam o lugar. Sei que não posso relaxar nunca e a tensão só aumenta. E o cansaço começa a querer me dominar. Sou preparado, saudável e ágil, mas todos temos limites. Ao final da viela novamente outra rua cheia de edifícios comerciais vazios nesta hora da madrugada. Um solitário caminhão de limpeza urbana asperge água em jatos potentes no asfalto castigado, numa tentativa diária e quase inútil de arrastar a sujeira para baixo do tapete, ou para dentro dos ralos e galerias pluviais. É uma cena que se não fosse pela minha urgência e tensão daria alguns momentos de uma beleza quase insuportável, uma poesia urbana calcada na banalidade de uma tarefa mundana, onde os jatos de água atravessados pela luz das lâmpadas cria respingos de água refratada, quase um arco-íris em contraponto com o cinza das paredes, o negro do chão e da noite alta. O silêncio circunda o local, apunhalado pelo ruído do motor e da bomba d’água que varre impassível os resíduos da frenética atividade humana ao longo do dia. Amanhã tem mais, muito mais.

    Passo pelo caminhão que realiza seu trabalho lentamente e o operador me acena com a cabeça, achando que sou mais um perdido pelo emaranhado de ruas, vielas e becos, outro desgarrado, outro habitante noturno desta teia pegajosa. O fato é que a sua suposição está certa. Já vim longe demais, atravessando a cidade fugindo do quê eu nem sei. Será que estou criando e materializando fantasmas? Talvez por efeito do cansaço eu começo a duvidar do que vi. E vi muitas vezes nesta noite quando ainda não estava cansado. Vi a figura esguia e sorrateira, muito embora não tenho divisado traços humanos nela. Usava roupas escuras? Usava. Mas eu também estou usando roupas escuras. Se movia? Não tenho certeza, não vi se mover usando meios humanos de movimento. Mas vem me acompanhando enquanto atravesso a cidade. Até dentro do VLT eu vi. Será que lê meus pensamentos? E sabe para onde é o meu próximo passo? Não lembro de ninguém que eu tenho tido algum tipo de atrito ou desavença recentemente, procuro viver com a mínima interação, pouco sou dado a convescotes ou amabilidades, fico mais tranquilo assim.

      Estou na Avenida Silveira da Costa, a tal artéria comercial cheia de agências bancárias, casas de câmbio, importadores e exportadores, hotéis e restaurantes. O setor de hotéis costuma ter um movimento maior de pessoas chegando e saindo, já é no próximo quarteirão então é melhor eu mudar o rumo, pois posso ser confundido com um assaltante e os seguranças não dão refresco. Automóveis mais luxuosos circulam despudoradamente e exigem a presença de manobristas subservientes que prezem pelo bom estado de suas latarias e do bom humor dos proprietários. Aqui também é o epicentro das casas noturnas, onde a qualidade da diversão é mais bem refinada do que nas vielas laterais e viadutos, e eventuais excessos são tratados com discrição. A diversão chega em quantidades suficientes para manter a euforia e a alegria artificial sempre em ebulição porque a vida as vezes parece uma festa, e aqui a festa é como um moto perpétuo, o dinheiro circula e todos ficam felizes. Eventuais excessos são tratados com discrição, tamanha discrição que nunca foi preciso o arremesso de nenhum corpo nos trilhos do VLT, embora há quem jure que corpos boiando a centenas de quilômetros na represa tenham alguma relação com isso. Como sempre ninguém consegue provar nada. 

      Passei em frente à porta da Herbarium, o lugar da vez, o lugar mais quente, mais badalado. Uma fila de pessoas ansiava por triagem, cada uma com o melhor e mais caro argumento possível para adentrar e demonstrar seu prestígio. Uma vez dentro as portas do sucesso estarão abertas, até que uma casa mais nova e mais chique se imponha. Jamais serei admitido num lugar assim. É uma bolha com projeção de raio laser na superfície translúcida, aromas exclusivos que emanam de máquinas colocadas em cada canto para perfumar o ambiente e sistema de som suficiente para estilhaçar dezenas de taças de champanhe. É uma gaiola pendurada na beira do precipício, com um leve fio de seda a lhe segurar.

    Atravesso a calçada e fico esquadrinhando os personagens deste lugar de fazde-conta. Muito brilho, muitos sorrisos fáceis e devidamente ensaiados, roupas caras embora nem sempre elegantes, poses, caras e bocas, olhar dos que se acham donos do poder, escroques e golpistas, bajuladores, falsos e perversos. Ninguém em que se possa confiar. Ninguém que se possa apertar a mão sem lavar em seguida.

      Sigo andando porque o ambiente é carregado, o ar ao redor fica denso e turvo. Não se pode decidir qual vizinhança é a mais perigosa. Pelo menos lá embaixo ainda persiste uma tênue dignidade e um esboço de ética entre os decaídos.

     Sinto o cansaço avançando pelo corpo à medida que o caminho se alonga e eu ainda não tenho certeza do que está me perseguindo. Meu grande trunfo é conhecer muito bem os atalhos e desvios desta cidade que parece sólida, mas tem buracos demais, buracos e abrigos, buracos que viram abrigos quando mais se precisa. Esta certeza injeta umas gramas de euforia e esperança que mitiga por um momento o cansaço que consome minhas calorias.

    Já superei quatro quadras e a avenida se aproxima do seu fim. No final há uma rotatória com um obelisco e vinte estátuas circundando e cercando a rotatória. Nestes momentos eu fico exposto. Após a rotatória começa uma série de ruas estreitas feitas para pedestres, o que é mais a minha feição. Cruzo por fim a estátua do herói desconhecido e chego à rua de sobrados de dois e três pavimentos. Tudo está fechado e deserto nesta hora, nem os gatos de rua dão o ar da graça, talvez estejam saciados e sem motivos para se expor. O silêncio é quase ameaçador e meus passos sobressaem.

    Quase que por instinto eu ando rente às paredes, mais próximo dos atalhos, embaixo das marquises. Será que minha pequena odisseia está chegando ao fim? Não me dou ao luxo de relaxar. O estilo construtivo das casas e sobrados é sempre rebuscado, com muitos ressaltos, colunatas, beirais, escadas em espiral, quinas, sempre um ponto de apoio para mãos e pés, diria que um impulso necessário para um salto, uma escalada, um jeito fácil de pular para o prédio vizinho, quase sempre colado, sem recuo, sem espaçamento, o que dificulta a circulação do ar, mas ideal para quem, como eu, tem alma de gato e espírito de lagartixa. Se preciso eu subo os três pisos em menos de quinze segundos.

    Espero não precisar pôr em prática esta habilidade, já que o fim desta jornada pela noite adentro parece estar chegando e nada de pior me aconteceu, em que pese os fortuitos encontros com o perigo, mas o perigo é parte integrante da vida nas ruas e os exemplares desta noite eram muito amadores para o meu gosto e minha capacidade. Quem sabe tenha estado fugindo de uma quimera, de uma ilusão, de uma invenção ou uma peça pregada pela minha mente fervilhante.

    Só que... lá está de novo a temida e estranhamente aguardada figura esguia, fugidia, apenas insinuada, e ainda assim sorrateira e ameaçadora. Agora é quase certeza, é quase real, quase concreta. Está no final da rua, à espreita, a minha espera. A rua é estreita e está vazia e para chegar ao meu destino eu preciso atravessar. Eu paro e observo. A figura está parada, totalmente parada. Não esboça reação alguma, não emite som, não emite luz, nem parece existir de fato. Estou confuso.

    Os segundos escorrem pelo chão e arredores, parece um duelo encenado em filmes antigos. Minha mente fica turva por mais tempo do que eu gostaria e me deu de presente um impasse. Lentamente recolho minhas mãos para dentro do casaco em busca de defesa, ou quem sabe insinuar que possuo um trunfo importante, uma arma escondida que me dê uma vantagem psicológica. Estou confuso. 

     Por um momento pensei nem estar respirando, nem estar existindo, estar fora de meu corpo, estar em suspensão, apenas um invólucro, uma casca extirpada, uma pele de cobra que se soltou de um corpo que cresceu demais e pede por um abrigo maior e mais evoluído. E tudo ao mesmo tempo se passava numa velocidade estonteante, um filme exibido numa taxa de compressão tão alta como se quisesse resumir em microssegundos toda a história de uma vida. Mesmo assim continuo confuso, sem reação, sem saber como agir e que próximo passo dar. 

    Paradoxalmente em descompasso com a velocidade alucinante do desenrolar do filme da vida, um observador externo que porventura estivesse analisando e tentando entender a situação o que veria? Nada, somente uma cena estática, congelada, e quem sabe nem estaria vendo dois personagens. Talvez estivesse vendo dois borrões escuros contra um fundo de paredes ocre, cinza, branca e bege numa noite alta e mal iluminada, duas figuras indistinguíveis. 

    Preciso reagir e decidir o que fazer, já que a jornada noite adentro resolveu estender sua permanência neste palco de teatro inusitado. Respirei fundo e calculei melhor minhas possibilidades. Creio que possa subir pela marquise e correr pelo telhado até três casas à minha esquerda, dali eu escalo pela tubulação externa até o quinto andar do único edifício mais alto desta rua e que tem um toldo seguro por cordas ornamentais e firmes o suficiente para aguentar meu peso, desço por elas até o passadiço do sobrado de três andares quase na esquina. De lá eu posso descer pela escada externa que fica nos fundos, pular o muro e chegar até a passagem subterrânea escondida por um tapume móvel usado pelos contrabandistas para guardar suas cargas desviadas. Quando lá chegar meu caminho até o meu esconderijo estará seguro. Não conheço ninguém que saiba mais dos atalhos do que eu.

    Então finalmente eu quebrei estas algemas que estavam segurando minha ação. Mesmo cansado eu puxei energia de onde menos se espera, e de onde eu nem esperava que houvesse, e como uma lagartixa faminta que desliza em direção à uma mosca suculenta eu me atirei ao encanamento. O encanamento externo foi como uma escada para mim e logo alcancei a marquise. Segui exato o meu plano e em pouco mais de um minuto eu já estava quase alcançando o final da rua. Ao chegar perto do tapume que cobria a entrada secreta para a passagem subterrânea eu resolvi parar e olhar para trás, cheio de soberba e confiança em despistar meu perseguidor. E para minha surpresa lá estava a figura esguia, sorrateira, silenciosa e que agora eu tinha certeza de que se movia, porque de outro modo como poderia estar assim tão próximo de mim, em meu encalço? Quando parei para olhar a figura parou também, a me observar. O mais estranho de tudo é que eu não conseguia distinguir seu rosto, ou qualquer traço de humanidade. Que se movia acho que agora estava claro, mas ao parar e olhar a figura continuava estática, não mexia braços, pernas ou cabeça. Era mais um borrão escuro, na noite escura. Comecei a duvidar do meu estado mental. Como era possível ?

     O instinto de defesa e fuga falou mais alto e eu puxei o tapume e me lancei pela passagem secreta pois a figura estava a cerca de quinze metros de mim e eu permanecia em vantagem. A passagem estava muito escura com somente duas das doze lâmpadas acesas. Isto atrasou um pouco meu deslocamento, mas eu ia avançando sem ouvir outros sons de passos além dos meus. A passagem estava seca e razoavelmente limpa. Ao final há duas saídas, à esquerda e a direita, e a pouca iluminação estava mais evidente neste final de túnel. Só alguém muito familiarizado para conseguir distinguir os acessos. Sem pensar muito virei à esquerda para os trinta e oito degraus que me levariam de volta ao nível da rua.

     Novamente com o batimento cardíaco de volta aos 130 BPM cheguei à Alameda Semedo. Olhei para baixo de relance e não percebi nada ou ninguém. Apenas alguns bêbados cambaleando alheios ao que estava acontecendo ao redor. Resolvi não me demorar e continuei andando em passos largos e acelerados. Minha boca estava seca e meus pulmões berravam por uma pausa e um descanso. Parei por um breve momento, me virei e novamente lá estava a maldita figura em pé na saída da escadaria. Meu medo agora aumentou de tamanho e a cada momento eu sentia que o perigo era real e imediato. Como escapar e principalmente entender o que estava acontecendo comigo nesta noite? Virei novamente e continuei caminhando, já com menos da metade da energia, que agora mais do nunca era drenada pelo aumento do medo. Estava ficando sem opções pois me aproximava do meu destino e do meu esconderijo, e se fosse descoberto o que poderia me proteger? Voltar e fazer o caminho inverso para despistar agora estava fora de questão porque estava começando a ficar exausto com aquela perseguição. Somente por impulso eu entrei numa viela que tinha uma passagem estreita que dava acesso a um depósito de tecidos. Minhas opções estavam escasseando.

     Cheguei na passagem e chequei a viela. Lá estava a tal figura. Desta vez mais perto. Entrei no tal depósito e havia pilhas de bobinas de tecidos de todas as cores e muitas padronagens. Colocados na vertical, mas não ordenados, era um bom local para brincar de esconde-esconde, se tratássemos de crianças num recreio. Ou quem sabe daria um bom labirinto, para quem estivesse com tempo livre e despreocupado, com seus amigos num momento de lazer e despreocupação. Porém não aqui, nem agora. No teto algumas telhas translúcidas já deixavam passar os primeiros raios de Sol de um novo dia. A noite terminava, cronologicamente falando, mas para mim o pesadelo só aumentava. Fui me esgueirando, serpenteando entre as bobinas, tateando o caminho que me levasse até a saída, no outro extremo daquele galpão imenso. Em breve um novo turno de trabalho começaria e nem quero pensar no que aconteceria se me pegassem aqui, nesta situação. O modo fuga desesperada estava ativado, definitivamente. O ar estava pesado, quase irrespirável, com a saturação de cheiros emanados das bobinas de tecidos aliado à minha perda acelerada de energia e a incerteza crescente. Agora com dois focos a me preocupar, uma figura aterrorizante no meu encalço e a iminência da chegada de trabalhadores que acionariam a segurança armada assim que me avistassem. Não tinha noção da hora, mas pressentia mais do que sabia que a hora se aproximava. Como um náufrago arremessado ao mar e que nada com desespero antes que seu suprimento de oxigênio termine, eu buscava a maçaneta da porta no extremo da sala. Já não dava mais tempo de olhar para trás.

    Chego no limite de minha respiração. E ainda me restam forças para abrir a porta e escapulir daquele labirinto têxtil. De relance me certifico que o turno ainda não começou. Basta escalar uma parede munida de escada para alcançar a rua. E é isso o que faço, no desespero. Quase no topo da escada eu viro a cabeça e lá está a figura sinistra ainda no solo se aproveitando da porta aberto por mim para tentar me alcançar. É certo agora que se move, de outra forma não poderia estar aqui. Volto a cabeça para o muro, pois só me ocupo em fugir. Cheguei na beirada do muro, que tem cerca de um metro de espessura, o suficiente como base de apoio. Modo fuga em alerta máximo. Vou para a direita e vejo que na extremidade do muro, no lado de fora, há um talude com rejeitos de tecidos, plásticos, papelão de embalagens, cacos de telhas, latas de tinta vazias, bancos quebrados, móveis descartados, tudo criando uma plataforma logo abaixo onde posso pular sem grandes cuidados, pois a maior parte é papelão e plástico. O descaso com o lixo é a minha garantia de fuga.

     Um segundo antes de pular eu me viro e vejo a figura sinistra de pé em cima do muro. Como estes olhares são imediatos e demoram-se um quarto de tempo, eu percebo a cena como um quadro estático, por isso não vejo o deslocamento de tal figura, acabei de entender isto. Só que ela está cada vez mais perto, a cada última olhada que eu tenho dado. Se este jogo de gato e rato persistir por mais tempo a figura esguia, sorrateira, disforme e maligna acabará por me alcançar, pois estou no meu limite. Sem pensar, ato contínuo, eu me jogo na pilha de rejeitos e rolo talude abaixo. O que importa é que estou fora do galpão e perto da minha chegada. Me levanto para correr e tropeço num balde vazio. Caio logo a frente e chuto o balde para longe. Isto me atrasou. 

     Automaticamente volto a cabeça em direção à pilha de rejeitos e lá está, incólume, impávida, sem parecer que sofra o mínimo desgaste. Cada vez mais perto. Não ouvi o mínimo de ruído, mas ela teve que descer pela pilha de rejeitos também, então o que será isto? O chute no balde acabou por ferir meu pé, mesmo com a adrenalina alta eu sinto uma dor aguda. Nem posso pensar nisto agora, a dor que suma. Falta somente um quarteirão e o dia vai clareando. Ao mesmo tempo que me ajuda na fuga, pode revelar o lugar onde me escondo.

     Tento me aprumar, mas a dor não cede. A rua ainda está vazia e agora eu praticamente me arrasto, faltando apenas uns cinquenta metros até a minha porta. Neste momento eu ouço um som grave, gutural, como uma lamúria, ou um uivo, um som das profundezas. Este som atinge meus ouvidos e trás um arrepio gelado que busca me paralisar. O uivo aumenta de intensidade enquanto eu quase imploro por mais ar. Faltam menos de trinta metros, é muito pouco depois desta jornada muito louca, se não me pegou antes não será agora. Sinto também algo como se fosse uma emanação de ar gelado junto ao som gutural que agride meus ouvidos. Essa mistura de gelo e uivos murmurados vai aumentado em grande escala, sinto que se aproxima cada vez mais, me prendendo numa atração gravitacional crescente. Faltam dez metros até a minha porta. No canto do meu olho esquerdo eu reparo no que acredito ser um tentáculo, não um braço humano. No canto do meu olho direito outro tentáculo que avança e se volta como se pretendesse um abraço. Faltam menos de cinco metros para a minha porta, que ficou aberta. Os tentáculos me cercam e se dirigem para as minhas pernas, o ar gelado me cobre e o uivo quase me ensurdece. Como se por milagre ou encantamento a minha porta se acende e cria uma trama de luz incandescente entre os batentes. Eu paro de súbito e me viro para perceber os tentáculos se recolhendo, o gelo dissipando e o uivo que vai se esvaindo até que não tenha mais força para mover nenhuma molécula de ar.

      Minha porta está aberta e a figura esguia, sorrateira, sinistra e disforme começa a se desfazer bem na minha frente, como uma fotografia que se queima lentamente, se contorcendo, com as bordas se apagando em direção ao centro. Assisto paralisado este estranho espetáculo, perplexo, sem entender coisa alguma.

     Num breve momento, que pareceu uma eternidade, eu repassei todos os eventos desta noite estranha, a mais estranha que já me ocorreu. Num esforço desesperado de aplicar alguma lógica que desmembrasse a cadeia de eventos que me levou até este ponto, eu não encontrei nenhuma resposta. Resignado me voltei para minha porta que parecia se fechar com vontade própria. A luz incandescente de um instante atrás se apagava, como se apagara a noite e a claridade plena de um dia de Sol já despontava no canto dos meus olhos. Temendo ficar do lado de fora ao relento, eu me atirei para dentro de minha morada.

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       A janela havia ficado aberta, eu esquecera de fechá-la, bem como havia esquecido também de programar o temporizador do ar-condicionado. Os primeiros raios de Sol entraram sem minha permissão e o aparelho de ar-condicionado gelou além do que eu queria. O incômodo da temperatura e a intromissão de uma luz inesperada e indesejada somaram forças para este despertar desagradável. Além disso, em função da idade que já pesa, eu definitivamente preciso cuidar desta apneia, porque não é a primeira vez que o meu roncar me acorda. O despertar súbito, pelos elementos relatados acima, me faz esquecer do que tenho sonhado, e hoje mais do que nunca acordei cansado, como se tivesse corrido, brigado e fugido a noite toda. Vai entender? 

 Ivan Henrique Roberto

11 de dezembro de 2023.