quinta-feira, 5 de abril de 2018

O ato de esperar (5ª parte)


                    DOZE METROS ACIMA DO LEITO DO RIO
                     
                         A cerca que impunha o limite da propriedade não resistiu mais do que alguns segundos, pois árvores frondosas e maciças servindo de aríete arrancaram meras estacas e finos fios de arame como se fossem barbantes e palitos de dente. A inclinação do terreno retardou só um pouco do inexorável avanço, um espetáculo majestoso para o observador que estivesse flutuando como espírito distante, ou ave altaneira certa de sua segurança a muitos metros do solo.
                         O carro azul ainda novo, já bastante enlameado das aventuras recentes, sentiu as águas barrentas tocando seus pneus fincados no solo. Uma tonelada de metal que descansava em silêncio logo, logo começou a boiar, qual veículo anfíbio, se bem que esta descrição não é muito apropriada, pois experimente deixá-lo encharcado para checar o seu funcionamento! Carros gostam de um asfalto firme e não de uma enxurrada barrenta. Logo, logo começou a rodopiar sem direção, qual um barquinho de papel na correnteza. A água, em poucos minutos, invadiu o interior confortável e seco, encharcando tudo que estivesse dentro; celular, notebook, pastas de documentos, carteira, o que fosse. Perda total.
                     
                                               
                     
                                                                                 ABRIGO
                     
                             Certas pessoas são resistentes, outras pessoas costumam se gabar de sua segurança e fortaleza. O corpo humano tende ao conforto e ao bem-estar, a um sofá macio e uma ducha quente quando chega em casa no ocaso de mais um dia duro de trabalho e atribulações. Em alguns casos já documentados algumas pessoas sobreviveram em condições extremas, subvertendo as expectativas de uma morte anunciada. Outras desabam na presença de um mero resfriado. Nosso pobre trabalhador nunca foi colocado à prova. Nenhuma grave crise ou ponto de ruptura jamais se apresentara a ele, e a carne amaciara demais.
                           Neste momento a dor e a fome se misturam em um ser pego de surpresa. As condições extremas à que ele ficara agora exposto, com a contusão inesperada e a estômago vazio, vacuidade esta que migrara para sua mente, podem determinar que tipo de pessoa ele é, frente às adversidades. A confusão mental que ganhava espaço obscurecia o raciocínio. Mas tanto faz qual estratégia ele deveria escolher para se arrastar até seu carro, pois neste momento uma água suja invade por baixo das portas deste casarão esquecido.
                     
                     
                                                              ABRIGO?
                     
                           A escuridão aumentara assim que os relâmpagos cessaram de riscar o céu. O som de água que avança é inconfundível. As águas deveriam estar dentro dos canos, certo? No conforto e na segurança de uma construção bem-feita, no aconchego de uma vizinhança numerosa, em residências de alto padrão, sim. Mas aqui a normalidade se ausentara há muito tempo. Lá fora seu carro desgovernado bate contra uma parede ainda sólida, mas sem pintura e sem cuidados.  Com o impacto, parte de um telhado desmonta e despenca sobre a lataria azul. Tanto faz, o carro está condenado de qualquer maneira.
                         O instinto de sobrevivência ainda é uma força poderosa no íntimo dos seres vivos. Ao se dar conta, numa fração de segundos, do quadro assombroso em que estava colocado, ele reúne forças já quase ausentes e se arrasta em direção à escada, para o mezanino. Cada degrau é um suplício, pois seu pé inchado bate em cada um deles, agravando a dor. Com muito, muito esforço ele chega ao piso superior da construção. Ofegando, suado, os olhos esgazeados e estupefatos por tudo de ruim que desabou sobre sua pobre pessoa.
                        “Por que eu? ” (Pergunta clássica em momentos de desespero). “Que foi que eu fiz de errado? ” (A velha culpa cristã inculcada e infligida ao longo de dois milênios). “ Eu, eu não entendo! Por que vim parar aqui? Acho que é castigo”.  Está mais do que claro e bem explicado que não há eletrodos em sua cabeça, nem aparelhos sofisticados de ressonância, nem técnicos habilitados para operá-los, portanto só se pode especular sobre o que se passa em seu cérebro bastante cansado e quase exasperado nestes momentos de grande aflição, quando um sujeito comum, sem talentos destacados, sem habilidades cognitivas fora do padrão médio, e acima de tudo completamente sozinho e incógnito neste agreste destruído por uma força titânica da natureza, se vê de cara com uma realidade sombria, diria até que fatal.
                        As águas avançam, embora com um quinto de sua força original de arrancada. O salão embaixo já está completamente tomado. As cadeiras e mesas remanescentes boiam, outros utensílios sobrenadam naquela imundície. Apesar do que aparentava de início, as paredes resistem com bravura, só as portas da frente haviam sido arrancadas, e com isso deu boas-vindas à torrente. O som ambiente era um composto líquido de borbulhas e atrito aquático. A chuva já se dera por satisfeita e cessara por completo. Tirando o som das águas em desfile, todo o resto era um silêncio abismal. Nenhum grito seria ouvido, nem adianta tentar, é só um esforço desesperado e inútil.
                         Mesmo assim ele tenta um grito de socorro, mas tão logo expande os pulmões para executar o ato, tão logo o grito se desfaz em face da total inutilidade deste ato. A impotência é a regra neste momento, e o cansaço está junto para somar forças.
                     
                       “Eu não entendo, eu não deveria estar aqui, eu deveria estar na minha cama, no meu conforto! Que mal eu fiz? A quem eu fiz? Eu sempre agi de forma correta... tão longe eu possa lembrar eu nunca prejudiquei ninguém. Tá certo, eu tive raiva muitas vezes, mas quem nunca teve? Quem nunca quis matar o vizinho abusado ou o colega aproveitador, num momento de descontrole? ”
                     
                          A água chega ao segundo degrau da escada.
                     
                       “ Será que foi por causa daquela garota que eu conheci no clube?  Eu não quis mais nada com ela e ela vivia me perseguindo, querendo compromisso. Eu não queria compromisso!  Não sou obrigado!  Eu só queria me divertir, eu só queria curtir muito! Que será que aconteceu com ela? Ah, ela deve ter conhecido outro cara e seguido em frente. É isso, é isso, ah eu não tenho culpa, eu não queria ficar com ela mais. Como era mesmo o nome dela? Alice, ah Alice, agora lembrei! De que adianta lembrar disto agora? ”
                     
                        A água chega ao quinto degrau da escada.
                     
                      “ E a Elisa? Caramba! Como ela pode ter sumido da minha memória? Quanto tempo faz, quanto tempo... oito anos, não, sete anos, sete anos. Ela ficou grávida. Eu me apavorei. Eu não estava pronto para ser pai. Eu não queria compromisso. Eu só queria me divertir, só queria curtir a vida. Eu paguei, sim eu paguei para ela retirar... eu deveria ter pago? “
                     
                       A água chega ao oitavo degrau da escada.
                     
                       “ Por que esta lembrança tem de vir agora? Eu sou uma pessoa correta, não é? Meu irmão.... Ele nunca me perdoou. Mas ele nunca foi ambicioso, nunca demonstrou interesse no negócio. Eu tirei ele sim. Eu tirei ele sim. Ele não merecia nada! Ele só me deu o dinheiro, mais nada. Minha mãe nunca perdoou também. Mas eu não preciso deles! Eu não preciso de ninguém! ”
                     
                       A água ultrapassou o décimo quinto degrau da escada
                     
                        “ Por que, por que eu lembrei? ... eu não, eu não roubei a ideia, a ideia estava dando sopa, eu só registrei. Ele foi muito descuidado também, a culpa foi dele. Otávio…Otávio. Por que estes nomes estão aparecendo assim de repente?  Eu havia esquecido disto tudo. Otávio. Tenho que admitir que ele era inteligente, muito inteligente. Inteligente demais, dava até raiva do queridinho dos professores! Tão inteligente que deixou aquela ideia brilhante por escrito na minha gaveta”
                          Uma maré de memórias submersas aflorou na mente deste homem esquivo. Uma onda de cargas elétricas disparou dentro de seu cérebro e desnudou estes véus espessos. Quem sabe se resultado do medo intenso e do fato de estar encurralado, sem saída e ferido?   Suas mãos e todo o seu corpo tremem sem controle, não se sabe se por causa do frio, do choque ou da súbita lembrança de seus atos passados. Uma epifania moral, que chegou para cobrar-lhe dívidas antigas, dívidas irresgatáveis.
                     
                            E a água chega no topo da escada.
                     
                       “ Eu não fiz nada de mais, nada demais. Muita gente faz isso, ou até pior, muito pior, viu? Eu nunca matei ninguém! Eu só queria viver minha vida, sem compromisso. Sempre paguei minhas contas, ninguém nunca pagou minhas contas. Aquela vez que eu entreguei meu sócio para as autoridades foi por extrema necessidade, era ele ou eu, e eu sou um homem correto. Nem quero saber o que aconteceu com ele, deve estar preso ainda. Eu sou um homem correto!!” Este pensamento era tão caro para ele que foi verbalizado em voz alta e clara.  E ninguém ouviu.
                        “Alguém me ajude, alguém me ajude!!” A voz muda queria gritar, mas era inútil. A consciência agora desperta e abastecida com as memórias lacradas, oscilava entre euforia e delírio. Ele pensou ouvir helicópteros, sirenes de bombeiros, gaitas de foles (!?), a bateria de uma escola de samba, e até a voz de sua mãe. A pulsação acelerada irrigava com muita intensidade seu cérebro, e com isso a atividade de sua mente era análoga a um arquivo onde as gavetas se abriam descontroladas, despejando seu conteúdo pelo chão. Alguns compartimentos, que por força da conveniência estiveram lacrados por anos, agora se expunham sem controle.
                          O estado lamentável de nosso obscuro trabalhador não impede que ele perceba a água que avança, agora de forma mais lenta, mas que avança em sua direção. O grau de delírio que ele atingiu faz com que uma superfície inanimada de uma substância se transforme num monstro de olhos arregalados, que olha fixamente e demonstra a intenção de cobrar suas dívidas, reais e imaginárias.
                           “ Vai embora, vai embora! Eu não tive culpa de nada, eu não fiz nada errado! Todo mundo faz igual.... Por que você quer me pegar? ”
                           A água suja e escura, malcheirosa e carregada de lixo não quer saber se alguém traiu, trapaceou ou renegou seu semelhante. Ela quer ocupar seu espaço quando pode.
                     
                            A água chega aos pés do sofá.

terça-feira, 3 de abril de 2018

O ato de esperar (4ª parte)


                    CINCO METROS ACIMA DO LEITO DO RIO
                     
                           Se traçássemos uma linha de altimetria entre a sala agora esburacada deste casarão abandonado e o leito original do Rio dos Troncos, teríamos como certo que cerca de 10 metros seriam suficientes para que, numa situação anormal, as águas chegassem, sinuosas e sorrateiras. A propriedade onde estava edificado este casarão situava-se na bacia do rio. Com tanta água à sua disposição o rio só crescia e corria, cada vez mais rápido, cada vez mais forte. Árvores robustas e maduras em idade já se deslocavam, num rafting sem emoção, apenas uma corrida cega à mercê da enxurrada.  Toneladas de terra, pedra e sedimentos arrancados das margens, que se devidamente processadas e tratadas seriam suficientes para a construção de um bairro inteiro, porém, neste momento não é esse o objetivo. Este é o momento de destruição. Ou de renovação, depende do ângulo que se olha.
                           A defesa civil da cidade mais próxima já se mobilizava, pois certamente o estrago seria colossal. Com a ponte caída e o rio transbordado, a ajuda teria enormes dificuldades para chegar. A chuva intensa era mais um ingrediente deste bolo amargo a ser servido ao poder público e seus contribuintes.
                          Com todas as dificuldades já relatadas até agora, o trânsito na estrada havia cessado. Se nem os locais habitados eram objeto de atenção, imagine um local abandonado? Para todos os efeitos tudo que estivesse a menos de 15 metros de altura a partir do leito original do rio parecia condenado.
                     
                     
                                                                                   ABRIGO
                     
                          
                              A dor intensa do momento após o trauma havia cedido um pouco, mas não passara. A imobilidade era a única certeza que nosso trabalhador azarado tinha no momento. A fome fora esquecida por motivo de força maior, bem maior, diga-se de passagem. Mais do que se sentir sozinho ele sente e percebe a verdadeira solidão. Com todo o seu aparato de comunicação há apenas cerca de 20 metros de distância, dentro do carro, distância que numa situação de normalidade seria percorrida em poucos segundos, o isolamento em que este contundido homem se encontra é uma grande ironia em face da sociedade onde o anonimato e a privacidade são bens cada vez mais raros.
                           O teto da construção ainda resiste. Alguns filetes de água escorrem pelas paredes. Os trovões não param de ribombar, com seu barulho ensurdecedor. Com tanto ruído ao redor o som surdo que avança em direção ao casarão fica em segundo plano. A dor e os trovões impedem de ouvir muita coisa.
                     
                     
                                                         DEZ METROS ACIMA DO LEITO DO RIO
                     
                           A escalada do rio em direção ao topo não encontrava obstáculos. A celeridade do avanço havia diminuído um pouco em relação ao início avassalador, mas mesmo assim o volume envolvido era tão grande que a própria inércia tinha velocidade. Aos poucos, quase imperceptivelmente, a chuva começava a diminuir, como a se cansar de sua queda tão rápida, a brincadeira perdendo a graça do início. Já quase não havia terra seca num raio de vários quilômetros, já quase não havia construção que tivesse resistido em pé diante de um poder maior.  Uma placa semidestruída, que indicava em anos recentes um local de comércio de licores e vinhos, boiava agora por cima de um monte de galhos e material de demolição na garupa de uma massa d'água que avançava sem controle, porém agora numa velocidade menor.
                     
                     
                                                                                  ABRIGO
                     
                            “ Tenho a impressão que a chuva está diminuindo. Ou minha razão já está sendo afetada, pela fome, pela dor, pelo azar”. “Por que não fiquei para pernoite? Bem que o colega avisou. Ahh, agora já era. ” Desconsolado, esfomeado e com uma dor intensa, sentado num chão imundo, o ansioso trabalhador tenta reunir alguma força e algum raciocínio que o faça buscar uma saída. “Minha perna dói demais, mas eu tenho que me arrastar até o carro, senão jamais saberão que eu estou aqui. ”
                       O suor frio escorre pela sua testa, pelas suas mãos, pelas suas costas. Mesmo se arrastando a dor na perna é imensa. Ele é obrigado a parar pois não resiste ao esforço. “Ahhh. Acho que não dá…” E começa um choro convulsivo, um choro de desamparo, como há muito não fazia. Talvez desde criança, quando acordava sozinho no quarto, todo molhado no meio de um pesadelo. Um pesadelo recorrente, com ondas gigantes que avançam para o banco de areia onde ele está, no meio do oceano, e mais nada ao redor e ao longe.
                        “ O que será que eu fiz de errado? ” Tremendo de frio e de medo o raciocínio se esgarça. O som dos trovões quase acabara, a chuva de fato diminuíra. “Então, que som é este? Que barulho é este? Parece um enxame gigantesco. ” Dentro de seu carro o celular mostrava várias ligações perdidas. A madrugada avança e várias equipes de socorro já estavam trabalhando na recuperação da ponte, ou no que seria possível fazer emergencialmente. Os esforços ficaram concentrados neste ponto específico desta região agreste. Num raio de 5 quilômetros, tendo o casarão abandonado como epicentro, nada parecia chamar a atenção, apenas o barulho das águas que avançavam.
                     

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O ato de esperar (3ª parte)


                                                         SEGUNDO METRO ACIMA DO LEITO
                     
                         O segundo metro veio quase em seguida. Árvores recém brotadas e ainda não firmes o bastante foram arrebatadas pela marcha frenética. Alguns casebres miseráveis ao longo do caminho, abandonados também, outros como simples abrigos para caçadores clandestinos, e cujos alicerces não eram lá essas coisas, nenhum deles ofereceu a mínima resistência. Pedaços de parede, tijolos soltos, telhas quebradas, cadeiras velhas, pedaços de pau foram juntar-se ao turbilhão de objetos que avançavam sem limite e sem vergonha
                     
                                                                      ABRIGO
                     
                            Um cansado trabalhador desaba numa cadeira coberta de poeira ao se dar conta que seu abrigo não contém uma simples migalha de qualquer coisa que possa ser mastigada e deglutida.  O cansaço começa a cobrar seu preço, transformando a surpresa inicial com a descoberta deste refúgio em um leve desespero, alimentado pela fome que veio para ficar como companhia indesejada. O que antes era uma escuridão física, pela ausência de uma simples lâmpada incandescente que seja, mesmo uma pequena de uns quinze watts, pouco a pouco se transmuta numa escuridão psicológica. Ah o conforto! Tudo à distância de um simples apertar ou estalar de dedos, uma rede extensa criada e mantida pelo esforço anônimo de milhões de outros trabalhadores para garantir o bem-estar de seus concidadãos. Quando esta rede se rompe os dedos ficam inertes e impotentes. Só resta cruzá-los em um perplexo gesto de superstição.
                            A chuva não dava trégua, nem cedia um mililitro que fosse. Os raios riscavam o céu noturno, numa dança iluminada e aleatória, parecia a natureza em festa a zombar dos humildes mortais encolhidos em suas casas, ensopados nas ruas, encurralados debaixo de pontes e marquises.  Os raios continuavam a fornecer a pouca luz naquele ambiente desolado que servia de abrigo.
                         “ Acho que eu tenho ainda um pacote de biscoitos no porta-luvas do carro”, pensou o trabalhador de boa memória, apesar da fome. “O repouso eu já arrumei, aquelas toalhas bastam como coberta, mas e a fome? Vai ser duro de aguentar passar a noite desse jeito”. Apesar do desconforto que um estômago vazio oferece àqueles que sempre tem à disposição alguma coisinha para mastigar, nosso resignado trabalhador resolve esperar um pouco, talvez na vã esperança que a chuva pare de repente. “Que horas devem ser? Deixei tudo no carro, meu relógio, meu celular, meu notebook, tô completamente perdido, estou ilhado literalmente, acho que ninguém vem aqui há tempos”               
                          Vários minutos são consumidos nestas deliberações e hesitações. Quando o desconforto alcança o ponto em que obriga nosso herói a se mexer, ele quase num salto resolve ir até o carro vasculhar o porta-luvas em busca do biscoito perdido.  Depois de quatro passos o assoalho cede abruptamente, resultado do abandono e uma infiltração de água que havia solapado a madeira. Ele enfia o pé no buraco súbito, com todo seu peso.  O estalo nem chegou a ser ouvido pois no mesmo instante um trovão rugiu forte e poderoso, enchendo o ar com seu som assustador. A dor não demorou a vir. Uma torção muito forte, talvez uma fratura, causou esta dor lancinante que se apossa do corpo e alma deste pobre, cansado e faminto trabalhador, que só queria dormir sentindo o cheiro familiar de seu travesseiro.
                          A dor foi tão intensa que ele perdeu os sentidos. Em poucos minutos, já refeito do desmaio, o descontrole já quer invadir seu raciocínio. Ele percebe a gravidade da situação.
                     

quarta-feira, 21 de março de 2018

O ato de esperar (2ª parte)


                                                                                        ABRIGO
                     
                        Havia bastante tempo que uma chuva com tanta volúpia não desabava nesta região. Agora tudo ao redor está molhado e enlameado. Ele para o carro no antigo estacionamento e com cuidado caminha até a porta. Ainda dentro de um impulso semiconsciente, um pontapé na fechadura abre as portas para este abrigo improvisado. Uma escuridão e um monte de teias de aranha são os recepcionistas.
                         “Pelo menos o teto está intacto. Acho que vou ter de me virar por aqui mesmo”
                         Ele começa a explorar o edifício. Muitas peças do mobiliário continuam no estabelecimento abandonado há vários anos. Algumas janelas quebradas deixam passar um pouco do frio úmido que circunda tudo. Num canto meio escondido há um lampião. Várias cadeiras ainda estofadas se colocadas em fila podem fazer o papel de uma cama, caso seja imperioso passar a noite. O abandono lega ao ambiente uma camada substancial de pó. Caso haja alguém com um mínimo que seja de alergia esta não aguentaria permanecer por mais do que 15 minutos no recinto, porém este não é o caso de nosso pobre trabalhador, que de queixas em relação à saúde tem muito poucas. Apenas a ansiedade, fruto do estresse constante, se bem que isto não é um privilégio dele, mas sim uma praga em escala global.
                          O frio aumenta neste casarão abandonado, cercado por uma mata luxuriante e encharcada neste fim de outono. Uma despensa ao final do corredor continha ainda algumas toalhas de mesa e outros apetrechos. Não tão sujas por estarem fechadas em gavetas de um móvel de esmerada construção, que ao serem fechadas lacravam com bastante precisão todos os utensílios esquecidos em seu interior. “Quem não tem cão caça com gato é o que dizem, então se tiver que pernoitar aqui já tenho com que me cobrir”.
                       Continuando a exploração deste território ele descobre, com grande surpresa e satisfação, que havia vários galões de água, licores e garrafões de vinho (se bem que de qualidade para lá de duvidosa), ainda lacrados e potáveis, sabe-se lá como. Pois que a sede já avançava pela sua garganta, resultado de toda a ansiedade e irritação pelos eventos recentes. “Este lugar parece que foi abandonado às pressas”, pensou, agora com a garganta tranquila e refrescada. Os relâmpagos providenciavam a claridade para a locomoção neste terreno desconhecido. Então percebeu a fome. Quantas horas já haviam decorrido desde a saída da reunião? A contagem do tempo havia ficado em suspensão desde a parada e o breve cochilo quilômetros e horas atrás.
                        Apesar da fome, que agora que percebera tornara-se uma companhia desagradável, ele subiu ao piso superior do estabelecimento, em busca de alguma outra surpresa. Todavia qualquer resquício de comida caíra por terra, pois mesmo que houvessem esquecido mantimentos, os ratos, pássaros e demais animais silvestres já teriam se fartado muito antes de sua chegada. A noite havia de ser longa.
                     
                     
                                                                O RIO
                     
                         Rios gostam de água. Rios são feitos de água, apesar de todo o lixo que insistem em pedi-los para guardar em seu bojo. Há quanto tempo eles estão em seu leito original?
                           Hoje o Rio dos Troncos está feliz, pois tamanha quantidade de água assim faz tempo que ele não recebe como visita. Logo se expande, e se expande cada vez mais, numa velocidade assombrosa. Em minutos ele resolve sair de seu leito original, acariciando a grama e os arbustos que o margeiam. A pobre ponte que por sobre seu dorso permanecia imóvel já por vinte anos, hoje não aguentou e despencou. O rio não quer saber do destino da ponte. Logo avança mais e mais, e não parecia arrefecer neste ímpeto aventureiro, como que tomado por um desejo irrefreável de conhecer toda a vizinhança, deixar o leito para trás e subir, subir, subir....
                     
                     
                                                         PRIMEIRO METRO ACIMA DO LEITO
                     
                         O primeiro metro acima do leito levou cerca de uma hora para ser alcançado. Já encharcada pela queda livre vertical dos pingos grossos de água, a terra ao longo do leito do rio deixou fácil o caminho para o avança impetuoso daquela massa de água revolta. Todo o lixo acumulado ao longo das margens já rodopiava, afundava e voltava à tona, num vaivém frenético, após o arrasto inicial, parecendo mesmo um trio elétrico que passa e leva aquela multidão maravilhada pelo som e luzes coloridas. Galhos e ramos caídos levavam sacos plásticos como bandeirolas numa procissão. Baldes de lixo já cheios de areia e sedimentos se chocavam com garrafas plásticas, cascas de côco, sapatos velhos sem par, até um pobre pássaro preso por um pedaço de fio elétrico não havia sido rápido o bastante para escapar da enxurrada. Visto de longe é um belo espetáculo esta pororoca, esta avalanche horizontal. Quem pode com a força das águas?
                     
                     

terça-feira, 20 de março de 2018

O ato de esperar (parte 1)


                O ato de esperar

                     
                     
                                                                                                 Ivan Henrique Roberto
                                                                                                 Julho de 2014
                     
                     
                     
                     
                                -Você volta ainda hoje?
                    -Sim, minha missão está encerrada por aqui, desta vez. Já deixei o carro abastecido e calibrado.
                    -Não acha que está um pouco tarde? Não demora a escurecer e as nuvens estão muito carregadas. A estrada é boa mas sei lá...o dia foi longo e cansativo.
                    -É, eu sei. Mas você sabe como sou ansioso. Pretendo tirar mais um dia de folga.
                    -Já sabe onde vai pernoitar?
                    -Não vou pernoitar. Vou dar uma esticada firme. Penso em dormir na minha cama.
                    -Você é corajoso hein? O rio costuma transbordar. Eu não encararia.  Acho que é a idade pesando. Bem, boa sorte então.
                    -Obrigado. Até a próxima.
                     
                                      ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
                     
                              Rádio ligado com a previsão do tempo. “ Instabilidade acentuada. Previsão de pancadas de chuva com muita intensidade na região serrana. Visibilidade reduzida com a previsão de nevoeiro”.
                              A luz do dia diminuía com rapidez na estrada sinuosa. Dois acidentes antes da saída da cidade já haviam atrasado a viagem. A ansiedade não costuma ficar de bem com a imprevisibilidade, sendo esta o cálice que contém o líquido corrosivo a ser jogado nas entranhas da ansiedade. O plano de viagem já foi sabotado logo no início, logo de saída na cidade tortuosa, cheia de cruzamentos, cheia de ambulantes e barracas coloridas às margens da estrada-avenida neste dia útil. Nem as cidades menores estão a salvo do enxame de veículos, que são a sustentação da sociedade motorizada.
                            O tempo, ah o tempo perdido! Não adianta reclamar, não há com quem reclamar.
                        
                         Os primeiros pingos vieram de encontro ao para-brisas, gentilmente batendo e escorrendo pelo vidro, e qual uma infestação de pragas sem controle logo uma camada grossa de água obrigava as hastes do limpador a fazer o seu vaivém, jogando à esquerda e à direita a água abençoada que pulava do céu para umedecer o solo e fazer crescer as plantas. A pista que logo encharcava dava mostras da necessidade de trazer para primeiro plano a cautela, aquele ente irritante que se antepõe à pressa, ao arrojo, à impetuosidade e todos os adjetivos que servem para lubrificar a máquina do sucesso nestes tempos modernos medido em milissegundos.
                       O velocímetro já marcava 90 km/h na estrada sinuosa e molhada, a luz baça do crepúsculo sombrio diminuía o raio de ação e a velocidade de reação caso o freio fosse acionado. Ah o planejamento! Sempre brota uma variável indesejada para desequilibrar a equação.
                       500 metros adiante há uma curva muito fechada, e uma fileira de caminhões abarrotados já ocupa o espaço. A ultrapassagem além de proibida é impensável. E as comportas do céu foram escancaradas de vez. Que cenário estimulante!
                        As forças da natureza não se importam com os pobres mortais. Meros figurantes de um enredo intrincado e caprichoso, os simples mortais quase sempre assistem ao desenrolar dos acontecimentos de forma passiva e impotentes, creditando à sorte e ao acaso a composição dos fatos, que ao final de um período determinado transforma-se em história, seja minha, sua ou deles, tanto faz. A sequência dos fatos deste pequeno recorte de história, neste momento nos diz que a transmissão da rádio local informa de uma carreta tombada a poucos quilômetros, serra abaixo. Já nervoso com o atraso inicial, a irritação dá saltos dentro do corpo já cansado de um mero trabalhador que só queria dormir em sua cama nesta noite.
                         Minutos alongados ao máximo da capacidade de paciência vão se sucedendo. A noite se instala em definitivo e a chuva que havia chegado com tanta alegria e disposição, não dava nenhum sinal de ir embora, parecendo mesmo que estava tão saudosa do solo, que a conversa entre ambos não pararia jamais. Nosso devotado trabalhador desligara o carro, vencido pela espera de uma estrada vazia, que não vinha. Suas pernas já doem. Sua impaciência perdera a queda de braço e virara resignação.
                        A música escorria dos falantes de seu carro e embalara-o ternamente. Adormecera. De repente sons de motores a dar partida. Despertara num susto, alguns segundos para dar-se conta da situação. A estrada estava livre de novo. A serpente adormecida se movia novamente e um ânimo novo insuflava seus pulmões e sua mente. E a chuva não arrefecia. 30 quilômetros adiante havia um rio. Rios gostam de chuva. Ela os alimenta, os engorda, os mantém vivos e lépidos. Ah as águas! As águas, tão vitais neste planeta chamado Terra.
                        Chegamos então num longo trecho em que as habitações e construções se rarefazem. A mata fechada ainda sobrevive com alguma folga e muitas folhas nesta região que produz uma bela vista e um belo refúgio quando o Sol está alto e fagueiro, e várias trilhas levam à cachoeiras e grutas, diversão gratuita aos bravos de espírito, bem preparados e bem abastecidos com água e guloseimas. Num claro dia de primavera ou verão, quando as nuvens estão altas no céu e os pássaros cantam para namorar é um bom lugar para se estar. Mas a chuva nesta noite de fim de outono não quer ir dormir. E a luz está ausente em grande parte. A estrada esvaziou um pouco, porém o asfalto já bastante gasto associado com a água em abundância impede que o carro ganhe velocidade.
                       Já bastante distante da cidade a transmissão do rádio estava intermitente. “.......atenção na estrada por conta da chuva torrencial.......não há previsão de que haja melhoras nas próximas horas…ATENÇÃO!! A PONTE ACABA DE RUIR.......” E o sinal da rádio sumiu de novo.
                        O trabalhador cansado, já a esta altura dos acontecimentos, aguça o ouvido e mexe no dial do rádio, porém a notícia já havia sido transmitida. “A ponte caiu? A ponte caiu? Foi isto mesmo o que eu ouvi ???!! Só me faltava essa! O quê que eu faço agora? Não tem nada nessa região, nenhum hotel, nenhuma pousada, eu que contava em dormir em casa…”
                         Antes que a ponte ruísse os veículos já haviam escoado com rapidez, e o carro azul de nosso trabalhador estava sozinho na estrada escura e molhada. Faltavam poucos quilômetros para atravessá-la.  A chuva aumentara de intensidade bruscamente. Parecia mais uma descarga monumental acionada nas nuvens.  Uma placa semidestruída indicava um antigo comércio de licores e vinhos à direita, cerca de 200 metros ao longe. Nosso trabalhador num impulso semiconsciente sai com o carro da estrada e vai em direção ao prédio abandonado. Um trecho de terra totalmente enlameado o separa de seu abrigo.