quinta-feira, 5 de abril de 2018

O ato de esperar (5ª parte)


                    DOZE METROS ACIMA DO LEITO DO RIO
                     
                         A cerca que impunha o limite da propriedade não resistiu mais do que alguns segundos, pois árvores frondosas e maciças servindo de aríete arrancaram meras estacas e finos fios de arame como se fossem barbantes e palitos de dente. A inclinação do terreno retardou só um pouco do inexorável avanço, um espetáculo majestoso para o observador que estivesse flutuando como espírito distante, ou ave altaneira certa de sua segurança a muitos metros do solo.
                         O carro azul ainda novo, já bastante enlameado das aventuras recentes, sentiu as águas barrentas tocando seus pneus fincados no solo. Uma tonelada de metal que descansava em silêncio logo, logo começou a boiar, qual veículo anfíbio, se bem que esta descrição não é muito apropriada, pois experimente deixá-lo encharcado para checar o seu funcionamento! Carros gostam de um asfalto firme e não de uma enxurrada barrenta. Logo, logo começou a rodopiar sem direção, qual um barquinho de papel na correnteza. A água, em poucos minutos, invadiu o interior confortável e seco, encharcando tudo que estivesse dentro; celular, notebook, pastas de documentos, carteira, o que fosse. Perda total.
                     
                                               
                     
                                                                                 ABRIGO
                     
                             Certas pessoas são resistentes, outras pessoas costumam se gabar de sua segurança e fortaleza. O corpo humano tende ao conforto e ao bem-estar, a um sofá macio e uma ducha quente quando chega em casa no ocaso de mais um dia duro de trabalho e atribulações. Em alguns casos já documentados algumas pessoas sobreviveram em condições extremas, subvertendo as expectativas de uma morte anunciada. Outras desabam na presença de um mero resfriado. Nosso pobre trabalhador nunca foi colocado à prova. Nenhuma grave crise ou ponto de ruptura jamais se apresentara a ele, e a carne amaciara demais.
                           Neste momento a dor e a fome se misturam em um ser pego de surpresa. As condições extremas à que ele ficara agora exposto, com a contusão inesperada e a estômago vazio, vacuidade esta que migrara para sua mente, podem determinar que tipo de pessoa ele é, frente às adversidades. A confusão mental que ganhava espaço obscurecia o raciocínio. Mas tanto faz qual estratégia ele deveria escolher para se arrastar até seu carro, pois neste momento uma água suja invade por baixo das portas deste casarão esquecido.
                     
                     
                                                              ABRIGO?
                     
                           A escuridão aumentara assim que os relâmpagos cessaram de riscar o céu. O som de água que avança é inconfundível. As águas deveriam estar dentro dos canos, certo? No conforto e na segurança de uma construção bem-feita, no aconchego de uma vizinhança numerosa, em residências de alto padrão, sim. Mas aqui a normalidade se ausentara há muito tempo. Lá fora seu carro desgovernado bate contra uma parede ainda sólida, mas sem pintura e sem cuidados.  Com o impacto, parte de um telhado desmonta e despenca sobre a lataria azul. Tanto faz, o carro está condenado de qualquer maneira.
                         O instinto de sobrevivência ainda é uma força poderosa no íntimo dos seres vivos. Ao se dar conta, numa fração de segundos, do quadro assombroso em que estava colocado, ele reúne forças já quase ausentes e se arrasta em direção à escada, para o mezanino. Cada degrau é um suplício, pois seu pé inchado bate em cada um deles, agravando a dor. Com muito, muito esforço ele chega ao piso superior da construção. Ofegando, suado, os olhos esgazeados e estupefatos por tudo de ruim que desabou sobre sua pobre pessoa.
                        “Por que eu? ” (Pergunta clássica em momentos de desespero). “Que foi que eu fiz de errado? ” (A velha culpa cristã inculcada e infligida ao longo de dois milênios). “ Eu, eu não entendo! Por que vim parar aqui? Acho que é castigo”.  Está mais do que claro e bem explicado que não há eletrodos em sua cabeça, nem aparelhos sofisticados de ressonância, nem técnicos habilitados para operá-los, portanto só se pode especular sobre o que se passa em seu cérebro bastante cansado e quase exasperado nestes momentos de grande aflição, quando um sujeito comum, sem talentos destacados, sem habilidades cognitivas fora do padrão médio, e acima de tudo completamente sozinho e incógnito neste agreste destruído por uma força titânica da natureza, se vê de cara com uma realidade sombria, diria até que fatal.
                        As águas avançam, embora com um quinto de sua força original de arrancada. O salão embaixo já está completamente tomado. As cadeiras e mesas remanescentes boiam, outros utensílios sobrenadam naquela imundície. Apesar do que aparentava de início, as paredes resistem com bravura, só as portas da frente haviam sido arrancadas, e com isso deu boas-vindas à torrente. O som ambiente era um composto líquido de borbulhas e atrito aquático. A chuva já se dera por satisfeita e cessara por completo. Tirando o som das águas em desfile, todo o resto era um silêncio abismal. Nenhum grito seria ouvido, nem adianta tentar, é só um esforço desesperado e inútil.
                         Mesmo assim ele tenta um grito de socorro, mas tão logo expande os pulmões para executar o ato, tão logo o grito se desfaz em face da total inutilidade deste ato. A impotência é a regra neste momento, e o cansaço está junto para somar forças.
                     
                       “Eu não entendo, eu não deveria estar aqui, eu deveria estar na minha cama, no meu conforto! Que mal eu fiz? A quem eu fiz? Eu sempre agi de forma correta... tão longe eu possa lembrar eu nunca prejudiquei ninguém. Tá certo, eu tive raiva muitas vezes, mas quem nunca teve? Quem nunca quis matar o vizinho abusado ou o colega aproveitador, num momento de descontrole? ”
                     
                          A água chega ao segundo degrau da escada.
                     
                       “ Será que foi por causa daquela garota que eu conheci no clube?  Eu não quis mais nada com ela e ela vivia me perseguindo, querendo compromisso. Eu não queria compromisso!  Não sou obrigado!  Eu só queria me divertir, eu só queria curtir muito! Que será que aconteceu com ela? Ah, ela deve ter conhecido outro cara e seguido em frente. É isso, é isso, ah eu não tenho culpa, eu não queria ficar com ela mais. Como era mesmo o nome dela? Alice, ah Alice, agora lembrei! De que adianta lembrar disto agora? ”
                     
                        A água chega ao quinto degrau da escada.
                     
                      “ E a Elisa? Caramba! Como ela pode ter sumido da minha memória? Quanto tempo faz, quanto tempo... oito anos, não, sete anos, sete anos. Ela ficou grávida. Eu me apavorei. Eu não estava pronto para ser pai. Eu não queria compromisso. Eu só queria me divertir, só queria curtir a vida. Eu paguei, sim eu paguei para ela retirar... eu deveria ter pago? “
                     
                       A água chega ao oitavo degrau da escada.
                     
                       “ Por que esta lembrança tem de vir agora? Eu sou uma pessoa correta, não é? Meu irmão.... Ele nunca me perdoou. Mas ele nunca foi ambicioso, nunca demonstrou interesse no negócio. Eu tirei ele sim. Eu tirei ele sim. Ele não merecia nada! Ele só me deu o dinheiro, mais nada. Minha mãe nunca perdoou também. Mas eu não preciso deles! Eu não preciso de ninguém! ”
                     
                       A água ultrapassou o décimo quinto degrau da escada
                     
                        “ Por que, por que eu lembrei? ... eu não, eu não roubei a ideia, a ideia estava dando sopa, eu só registrei. Ele foi muito descuidado também, a culpa foi dele. Otávio…Otávio. Por que estes nomes estão aparecendo assim de repente?  Eu havia esquecido disto tudo. Otávio. Tenho que admitir que ele era inteligente, muito inteligente. Inteligente demais, dava até raiva do queridinho dos professores! Tão inteligente que deixou aquela ideia brilhante por escrito na minha gaveta”
                          Uma maré de memórias submersas aflorou na mente deste homem esquivo. Uma onda de cargas elétricas disparou dentro de seu cérebro e desnudou estes véus espessos. Quem sabe se resultado do medo intenso e do fato de estar encurralado, sem saída e ferido?   Suas mãos e todo o seu corpo tremem sem controle, não se sabe se por causa do frio, do choque ou da súbita lembrança de seus atos passados. Uma epifania moral, que chegou para cobrar-lhe dívidas antigas, dívidas irresgatáveis.
                     
                            E a água chega no topo da escada.
                     
                       “ Eu não fiz nada de mais, nada demais. Muita gente faz isso, ou até pior, muito pior, viu? Eu nunca matei ninguém! Eu só queria viver minha vida, sem compromisso. Sempre paguei minhas contas, ninguém nunca pagou minhas contas. Aquela vez que eu entreguei meu sócio para as autoridades foi por extrema necessidade, era ele ou eu, e eu sou um homem correto. Nem quero saber o que aconteceu com ele, deve estar preso ainda. Eu sou um homem correto!!” Este pensamento era tão caro para ele que foi verbalizado em voz alta e clara.  E ninguém ouviu.
                        “Alguém me ajude, alguém me ajude!!” A voz muda queria gritar, mas era inútil. A consciência agora desperta e abastecida com as memórias lacradas, oscilava entre euforia e delírio. Ele pensou ouvir helicópteros, sirenes de bombeiros, gaitas de foles (!?), a bateria de uma escola de samba, e até a voz de sua mãe. A pulsação acelerada irrigava com muita intensidade seu cérebro, e com isso a atividade de sua mente era análoga a um arquivo onde as gavetas se abriam descontroladas, despejando seu conteúdo pelo chão. Alguns compartimentos, que por força da conveniência estiveram lacrados por anos, agora se expunham sem controle.
                          O estado lamentável de nosso obscuro trabalhador não impede que ele perceba a água que avança, agora de forma mais lenta, mas que avança em sua direção. O grau de delírio que ele atingiu faz com que uma superfície inanimada de uma substância se transforme num monstro de olhos arregalados, que olha fixamente e demonstra a intenção de cobrar suas dívidas, reais e imaginárias.
                           “ Vai embora, vai embora! Eu não tive culpa de nada, eu não fiz nada errado! Todo mundo faz igual.... Por que você quer me pegar? ”
                           A água suja e escura, malcheirosa e carregada de lixo não quer saber se alguém traiu, trapaceou ou renegou seu semelhante. Ela quer ocupar seu espaço quando pode.
                     
                            A água chega aos pés do sofá.

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