domingo, 14 de abril de 2024

Pandemia

                                                               Pandemia 


        Estava em casa e liguei a TV, um gesto mecânico que de tão repetido virara hábito, mas que estava entrando em desuso pois a atração pela tela plana preta já não é a mesma, quem sabe pela escassez de conteúdo, talvez pela escassez de interesse. Quem sabe o ruído de fundo do aparelho ligado faça parte da mobília e contribua para a normalidade do ambiente. Era o horário do noticiário e o cansaço em conluio com o tédio era uma barreira formidável para se prestar atenção em qualquer imagem ou texto.

        Em um momento qualquer, no meio da transmissão, uma palavra escorreu pelo ar e penetrou na minha escassa atenção: “pandemia”. Meu olhar fora fisgado a partir daí, e imagens de pessoas com características asiáticas pontuavam a matéria jornalística. O tom da matéria era inquietante, ou melhor, diria se tratar de algo alarmante. Outro vírus ameaçava a existência da humanidade, periodicamente passamos por isso, não é? Desta vez parecia ser diferente, o suposto vírus havia mudado de patamar e era esquivo, difícil de ser entendido, diferente de seus primos que haviam aparecido em outras ocasiões prometendo acabar com tudo mas perdiam a força e a corrida contra a humanidade num breve espaço de tempo. Era uma espécie nova, ou renovada, mais difícil de lidar. Desliguei a TV e fui me ocupar de outras coisas, fui procurar alívio imediato para se contrapor a um dia cheio de problemas. E o dia terminou como sempre terminam os dias, com a certeza de que amanhã chegará outro, quem sabe melhor... 

      No dia seguinte fiquei mais atento e procurei acompanhar o noticiário. O surto já era realidade e o mundo já se perguntava o que de fato estava acontecendo. O tempo dedicado à cobertura do novo surto aumentara de tamanho no espaço total dos noticiários, sinal evidente da gravidade do evento. Na busca frenética pela melhor informação, ou quem sabe a informação mais rentável, o atropelo pela novidade impunha dados desencontrados, trajados de inconsistências e inverdades. Tudo ainda muito nebuloso, mas o mundo vive em sobressaltos, flertando com o abismo em cada esquina, em cada nova encruzilhada. 

      Mais um dia se passa e mais migalhas de informação que chegam por minuto. Estamos curtidos pelo excesso de preocupação suscitados pela última ameaça global? Afinal o fim do mundo já havia sido descartado desde a última pandemia, e depois de um início promissor o último vírus perdera o fôlego e ficara desmoralizado. Os humanos haviam vencido de novo. Os humanos são invencíveis, na mesma proporção de sua soberba. 

     Da voz treinada do locutor salta uma explicação que parece absurda, que um suposto homem chinês, quem sabe entediado de comer a mesma comida de sempre, resolveu aventurar suas papilas gustativas em outras carnes mais exóticas, e neste caso achou que pudesse experimentar o gosto inusitado da carne de morcego. O ser humano é mesmo peculiar e aparentemente sem limites, então que mal haveria em petiscar algo estranho? Não é lá, naqueles rincões do mundo que as opções gastronômicas tendem a ser um tanto exóticas? Se até a carne humana já foi degustada em inúmeras ocasiões ao longo da história, por que não a de um morcego? Tudo bem, desde que não me ofereçam, pois terei que declinar polidamente não sem antes experimentar uma ânsia de vômito que soaria indelicada e descortês para o ofertante. 

     Depois de tantos alertas de que seria muito melhor para a saúde humana que não entrássemos em contato com certos organismos silvestres desconhecidos, não espanta que, dado o caráter curioso da espécie humana, se avance sem pejo e sem pudor pelas entranhas da natureza, e desta forma o que supostamente gostaria de estar escondido e a salvo revela o porquê de sua distância: “Não venha brincar comigo pois minha brincadeira pode lhe causar mal, muito mal. Eu não quero a sua presença, eu não te chamei aqui, você veio por sua conta e risco então aguente as consequências” 

     As consequências neste caso começaram a se espalhar em rápida expansão. Antes que o inimigo fosse desvendado vários corpos esperavam em necrotérios, envoltos em dúvidas e incertezas. E já que o mundo se tornou pequeno e acessível, conectado e com seus pontos atingíveis em poucas horas, um simples vôo comercial tem o condão de trazer além de passageiros a negócios ou lazer uma quantidade imensurável de pequenas organelas invisíveis a olho nu, indetectáveis pelos possantes aparelhos de escaneamento ou pelos oficiais de imigração. Assim, em questão de dias o mundo foi tomado pelo menor inimigo que se conhece: um vírus, um ínfimo vírus, a mais perversa das criações. 

    E o mundo mudou. Foi forçado a mudar. Foi colocado de joelhos perante o menor inimigo que se poderia conceber, um inimigo tão sorrateiro e tão dependente, já que não tem como ter vida própria e só são viáveis invadindo a casa alheia. Um vírus solto no espaço não tem como resistir, um vírus que adentre uma célula prospera e pode ser fatal. E são, muitas das vezes são. Desta vez parece pior, porque aprimorado, evoluído, uma nova geração mais esperta, mais furtiva. E a contagem de corpos só aumenta e o pânico acompanha esta escalada. Não é mais um boato, não é apenas uma moda passageira, desta vez é real. E chegou como uma avalanche de más notícias, maus presságios, incerteza e medo. Medo de não se saber com o que estamos lidando, o medo ancestral e irracional do desconhecido. O ser humano é uma coleção de medos. Logo a morte se apossou do imaginário. E pronta para o trabalho logo a morte começou sua coleta e estabeleceu sua loteria. Quem seria escolhido? Qual grupo seria o alvo primeiro da implacável foice? A morte está sempre de prontidão, ansiosa por mostrar serviço. 

     Alerta sobre o mundo, este mundo tão tenso, diverso e controverso. Começam as especulações sobre o que fazer, sobre com o que estamos lidando. Os especialistas são convocados a opinar no calor do momento e são só palpites, todos estão tensos porque todos querem uma solução rápida e eficaz, afinal não é a primeira vez que isso acontece, não é mesmo? Muito saber acumulado até hoje, mas e agora? Com o quê estamos lidando? Este é diferente. Esta criação perversa é tão perversa que nunca é a mesma, ela se modifica, ela sofre mutação, ela muta, ela muda, ela foi feita para enganar, ela quer pôr à prova a perícia dos especialistas. A respiração é suspensa frente à incerteza, a respiração que em breve será sufocada. 

     Pelo menos lhe deram um nome, se ainda não podem combater pelo menos deram um nome para catalogar, para identificar, dê ao seu inimigo um nome que logo ele fica palpável, quase íntimo. E tem o nome de “Coroa”, mais uma coroa para ser temida, uma nova coroa de espinhos fincada na cabeça da humanidade. Não é a primeira e quem poderá saber se não será a última? O mundo está em choque, o mundo está parando e a contagem de corpos só aumenta. 

      E o medo se estabeleceu em definitivo. O medo paralisou os aviões, paralisou os trens, paralisou os navios, paralisou as pessoas ao redor do globo, paralisou e isolou. Cada pessoa poderia trazer consigo a sentença de morte de seu próximo, mesmo não tendo a intenção. O medo é invisível e não tem cheiro, o único traço em comum para toda a humanidade. Ninguém jamais pensou que poderia ser assim, ninguém jamais se preparou para isto e todos devotaram uma pequena ponta de esperança nos especialistas que foram colhidos pela surpresa no calor do momento, tendo que dar respostas que não tinham no calor do momento. 

      O Papa sozinho na praça orando por nós, por todos, um homem idoso e frágil. Uma cena por demais comovente e simbólica, um retrato irretocável de nossa fraqueza. Neste momento não havia espaço para nenhuma soberba. Solitário e vertido em cordeiro de Deus, querendo expiar os pecados do mundo. São muitos pecados para um homem só expiar. E além de tudo, e sobretudo, o Papa é humano, finito e indefeso.

      Pois bem, a sorte está lançada, a realidade se impõe e vamos ter que conviver com isso sem remédios, sem defesas e tateando no escuro. E mal começou a corrida o maldito vírus já mostra outras versões de si mesmo num jogo de gato e rato com os cientistas, sendo pequeno e maleável, ágil e esquivo, um ser mutante por vocação e princípio.

     Aliados ao vírus se mostraram muitos dos que se diziam líderes de seus povos, ignorando e desdenhando das evidências que começaram a aparecer e as medidas de precaução sensatas sugeridas pelos especialistas. Colocando a razão do dinheiro à frente da razão do bem estar e proteção dos povos, foram os maiores traficantes de almas de nossa era, fornecedores convictos de uma colheita imensa de corpos destroçados pela falta de ar, de vidas interrompidas sem que ao menos pudessem ter o conforto final de estar próximos aos seus bem amados, pais e mães que não puderam se despedir de seus filhos, filhos e filhas que não puderam ao menos ver a imagem derradeira dos rostos de seus pais, enterrados em valas comuns, famílias inteiras que partiram juntas em sua jornada final. 

     A expectativa de que talvez desta vez a humanidade pudesse aprender com essa dolorosa experiência e alcançar um novo nível de convivência e compaixão está para ser desacreditada todo dia, pois os homens são o que são e o isolamento e o distanciamento social só fez ressaltar o que cada um tem em sua essência, os bons permaneceram bons e os maus ficarão piores, pois que reconheceram e se identificaram com um número imenso de semelhantes escondidos nas sombras da contenção moral, e que agora perderam a vergonha de sair para a claridade e expor a podridão de suas entranhas até então ocultas. Não espanta que o culto à mediocridade e ao ódio tenho criado uma musculatura invejável nestes dias incertos e a guerra tenha voltado à ordem do dia. Alguém surpreso com isso?

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      Acordei num certo dia que não guardei a data, pois os dias estão insuportavelmente tediosos e assemelhados e decidi sair de casa para ver a minha cidade esvaziada. Com o corpo encharcado de álcool gel, portando máscara e muito receio eu peguei minha bicicleta para rodar pelas calçadas, ruas, vielas e avenidas num dia útil comum, que outrora estaria frenético, ruidoso e congestionado, as lojas e oficinas abertas, o comércio atendendo as necessidades prementes e as não tão urgentes assim, os restaurantes abrindo suas portas e mesas para saciar a fome dos cidadãos comuns. Mas não hoje, hoje está deserto e as poucas pessoas que se arriscam nas ruas só o fazem por extrema necessidade, ou por extrema imposição, não sendo possível distinguir com exatidão suas expressões por trás de máscaras, mas com a certeza de que seus olhos transparecem o medo e a insegurança destes dias sombrios. 

       Minha curiosidade foi maior do que a sensatez de permanecer guardado de maiores riscos de contaminação. Queria testemunhar com meus próprios olhos o espaço urbano esvaziado de seus entes mais frequentes. Deslizo suavemente e sem pressa pelas calçadas vazias, entro nas ruas com tão poucos veículos que custo a crer que não corro o risco de ser abalroado por estar tão descuidado num espaço que não seria meu, entro nas faixas exclusivas dos ônibus e seus pontos de embarque estão vazios, subo os viadutos e do alto olho as vias expressas completamente livres, elas que em dias normais, ou quando a vida era normal estavam sempre congestionadas, drenando a energia dos motoristas naquele embate diário entre a partida, o destino e o tempo dispendido entre a partida e o destino. 

       Desço do viaduto, faço o contorno e olho para os sem-teto que se acomodam embaixo da estrutura de concreto. Quem olha por eles? Serão imunes ao vírus ou são apenas invisíveis e fora das estatísticas oficiais?

       Paro por uns instantes defronte a um telão ainda em funcionamento que transmite imagens do que está acontecendo pelo mundo afora. Outras cidades vazias, e animais que se aproveitam da ausência de seus maiores inimigos para se aventurarem nos ambientes que outrora lhes pertencia. Agora aparecem imagens de praias urbanas com a faixa de areia imaculadamente branca, sem marcas de passos e outros indícios da presença humana, sem um naco de lixo ou resíduo, apenas alguns pombos órfãos privados das migalhas que lhes sobram. 

      Sigo em frente em direção ao centro da cidade onde a intensidade das atividades sempre foi maior. O que eu vejo é um quadro ao mesmo tempo desolador e curioso, desolador porque tudo está vazio, muito vazio, qual uma cidade fantasma que tivesse sofrido uma calamidade instantânea. Curioso porque o vazio de gentes e veículos não faz parte da rotina, então o quadro geral lembra mais um cenário de um grande estúdio de cinema preparado para uma filmagem de imensas proporções, e isto tudo causa uma estranheza, uma situação desconcertante, uma sensação de inutilidade. A vida em suspensão parece estar fechada para balanço, avaliando o que deu certo, o que não deu, o que está fora do lugar, o que merece continuar e o custo de tudo isso. 

     Ainda é cedo e claro e tenho energia de sobra nas pernas para prosseguir minha exploração. Vou em direção a uma área residencial e percebo muitos rostos nas janelas e varandas. Sei que muitos devem estar se perguntando o que aquele maluco inconsequente está querendo, andando assim desamparado enquanto os telejornais não dão conta da quantidade de óbitos pelo mundo afora. Eu, de minha parte, olho para cima e consigo sentir a aflição de estar confinado por tanto tempo, e sei que muitos gostariam de estar no meu lugar, neste momento. Muitos devem estar desesperados, desiludidos, se defrontando de forma inesperada com o pior de todos os críticos que é si mesmo. Muito tempo ocioso para se auto avaliar. 

     Ao mesmo tempo em que faço estas reflexões vou vendo os funcionários destes prédios de moradias confortáveis se esmerando para zelar pela segurança e tranquilidade dos moradores, em detrimento da sua saúde e segurança. Estes podem ficar expostos ao risco, assim como os entregadores que se esforçam para matar a fome de quem não pode sair do conforto e segurança de seu lar. No fim das contas é apenas a continuação histórica de uma sequência lógica, ou que foi decidida ser a lógica, que é a existência de dois tipos de pessoas: aquelas que estão com os pés no chão e aquelas que estão assentadas nos ombros daquelas que estão com os pés no chão, afinal de contas sem uma fundação não se pode construir uma casa repleta de conforto. Não estou alheio a isto, mas não tenho força ou poder para influir ou alterar o rumo das coisas, então eu me afasto com o coração pesado e as costas molhadas de suor. 

      Ainda quero rodar mais um pouco para quitar de vez essa curiosidade que sempre me acompanhou, o delírio de ser um personagem num filme apocalíptico em que o mundo está deserto e a humanidade foi extinta e eu sou apenas um observador externo a atestar a falência definitiva da sociedade humana. Talvez eu tenha visto filmes demais ou lido livros demais, quem sabe eu pense demais e isto esteja afetando meu raciocínio. De repente me recordo da peste negra do século quatorze, mais uma tentativa fracassada de Deus em dar cabo da sua criação. Acho que Deus de tempos em tempos fica enjoado e enojado de seus feitos, caia em momentos de frustração e tédio e para melhorar o humor busca uma borracha poderosa para apagar seus desenhos incompletos. Ele já tentou em outras oportunidades afundando terras, mandando chuvas intermináveis, pragas terríveis, vulcões convulsivos, mas nada foi eficiente o suficiente para extirpar essa criação teimosa, essa contradição ambulante, essa causa e consequência, ao mesmo tempo que morde e sangra em seguida sopra e estanca. 

      Esse pensamento me causa um certo alívio, pois o homo sapiens, embora em grande parte não seja tão sapiens assim, engloba em seu conjunto e deixa que atuem, muito a contragosto, diga-se de passagem, alguns teimosos, renitentes, abnegados, ingênuos de boa vontade que ainda acreditam na redenção e na salvação, e é por estes que a vida ainda vale a pena, e é para estes que eu dedico esta aventura ciclística, e são sempre estes os que salvam o dia no final.

     Meu fôlego novo imprimiu um ritmo forte em minhas pedaladas. Mudo o meu rumo na direção de casa pois acho que já vi o suficiente, já saciei minha curiosidade. O mundo não vai acabar, o mundo não acaba, só as pessoas vêm e vão. Já é quase de noite quando alcanço o portão de casa. Daqui a pouco mais uma dose da enxurrada de más notícias ocupa o espaço das transmissões. Só quero saber da corrida em busca da cura, da solução, o resto é somente uma autoflagelação, o resto é somente a dor solidária pelos que perderam a corrida, o resto é a indignação pela falta de compaixão por parte daqueles que deviam ser os guias, mas guiaram o povo em direção ao abismo, com suas mentiras, trapaças e desinformação, na verdade uns seres deformados moral e eticamente. Há de ter alguma forma de justiça para estes traficantes de almas, seja neste mundo ou em qualquer outro. Deus deveria estar atento e não pensando em novas punições, mas quem poderá adentrar a mente de Deus? Deus é inescrutável e eu sou apenas um ser medíocre e indignado. 

     Chego, guardo minha bicicleta, tomo um banho para limpar as impurezas mesmo que várias camadas de álcool gel possam prover a sensação de um manto protetor que tem me envolvido nestes dias cinzas. Cansado, mas estranhamente satisfeito de ter realizado um desejo secreto que eu espero nunca mais possa ser realizado, pois o custo de cumprir este desejo é insuportável para com meus concidadãos e toda a humanidade. 

     Sou imune? Não tenho como saber. O perigo ronda por todos os ângulos possíveis e as notícias ainda não trazem nenhum tipo de alívio. Desta vez não é nada pessoal, ao contrário, parece ser completamente impessoal. Esta não é a primeira vez e certamente não será a última. Tenho certeza de que somos todos parte de um grande experimento, estamos sendo testados por toda a nossa existência, simples cobaias enjaulados num grande laboratório, à disposição. Simples matéria prima, nada mais do que isso. E muitos acham que são o suprassumo da criação, filhos prediletos destinados a brilhar. 

     Sou um sobrevivente? Sim, todos somos. Com pavios curtos que queimam sem misericórdia, sem saber quando é o final, temendo o que nos aguarda do lado de lá da porta. Já dei de ombros muitas vezes, pois se não tenho como saber onde é o final porque eu deveria me preocupar? 

    Se já me arrisquei? Hoje eu me arrisquei, mas não sei ao certo o número de vezes, algumas vezes eu nem tinha consciência de que estava me arriscando, na santa inocência de se pensar imortal. Por certo que não era a minha hora, fui descartado da remessa daquele dia. Ou talvez não estivesse devidamente processado de forma adequada para servir ao propósito específico daquele dia. O fato é que cheguei até aqui, e não tenho nenhuma intenção de parar por enquanto, pois gostaria de ver algumas coisas mais. 

 Ivan Henrique Roberto

10.04.24


Na véspera (62)

 

Na véspera (62)

 

 

     Quarenta e um anos atrás eu escrevi a primeira das Vésperas, para comemorar mais um ano de vida que se completava. O olhar retroativo me mostra um jovem sonhador e inseguro que queria ou, melhor dizendo, precisava ardentemente se expressar pelas palavras. As palavras borbulhavam ao ponto de causar uma erupção, como um vômito ou um jorro, um disparo de raios de luz e som que almejam alcançar o espaço e ficar em órbita ao alcance dos olhos e ouvidos de quem habitasse na mesma frequência.

    Quarenta e um anos atrás havia um outro mundo onde a vida humana transcorria, um mundo amedrontado pelas possibilidades de concretização da guerra fria, tão falada e debatida por tanto tempo que se transformara em fetiche. Um mundo em transformação, que celebrava o consumo e deixava para trás alguns ideais mais igualitários. Um mundo sobrecarregado pelo peso e o custo das armas criadas para nunca serem usadas, um custo que já teria levado a humanidade a um estágio superior de desenvolvimento, conforto e convivência se as vidas humanas valessem mais do que as balas e a pólvora de sua ignição. 

    Quarenta e um anos atrás e o país estava cansado dos anos de martírio e chumbo, olhando adiante para novos tempos mais iluminados, rompendo a velha casca que perdera a razão de ser, ou certamente nunca tivera razão de ser. A geração que viera ao mundo numa era de  rara concessão de liberdades, criatividade e afirmação positiva , numa janela de tempo pleno de esperanças e expectativa, uma geração que não vivera os horrores da guerra e suas consequências imediatas e que traria uma carga mais leve sobre seus ombros agora chegava na idade adulta, com muito o que construir, muito para ser vivido e experimentado, tudo por ser transformado.

    Quarenta e um anos depois sou um homem maduro, contente com a vida que teve, ainda inseguro e ainda sonhador, pois o mundo nunca terá a feição que eu gostaria, o mundo mudou de forma irreversível e as gerações se sobrepõe e se sobrepujam. A única constante é a guerra, a alternativa daqueles que nunca aprenderam a fazer amor.

    Na véspera os mísseis voam sedentos por morte e a vida humana continua custando menos do que as balas e a pólvora que as disparam.

 

 

Ivan Henrique Roberto

14.04.2024

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

O tubarão

                                                                            O Tubarão


 Ivan Henrique Roberto, 14/15 de fevereiro de 2024.

 

     Como será viver 518 anos? Viver quinhentos e dezoito anos dentro do oceano, em águas profundas, escuras e geladas? Este ambiente inóspito é o melhor lugar do mundo. Longe dos olhares curiosos, cheios de cobiça, prontos para o ataque dos assim chamados seres humanos. Por séculos me deixaram em paz, mas me perceberam só agora que estou velho, que estou grande, que sou esquivo, mas não esquivo o bastante para escapar dos olhos curiosos destes humanos que querem saber de tudo.

    Vivo no escuro das águas geladas no lado de cima do planeta, esta é a minha casa. Aqui eu flutuo sem porto, sem ancoradouro, sem amarras, sempre em busca da minha refeição. Por quinhentos e dezoito anos eu tenho vivido em paz. Escapei logo no início, pois sou mais uma das inúmeras cobaias de Deus lançadas à própria sorte nesta manifestação material, uma das incontáveis possibilidades de projeção da mente divina. Deus brinca com suas criações e as deixa indefesas, incompletas, despreparadas, ao alcance da primeira boca mais ávida que aparecer pela frente. Nenhuma boca ávida foi rápida, voraz ou atenta o bastante para me perceber, e eu escapei e fui crescendo neste ambiente escuro, gelado e incerto até alcançar o tamanho suficiente para virar uma boca ávida que caça as cobaias indefesas, incompletas e despreparadas de Deus. Não tenho culpa, eu fui lançado neste mundo assim. 

     E os anos foram passando, seguindo a corrente fria que é minha estrada. Quando nasci, ou fui parido, não era mais do que um óvulo invulgar que escapou do desastre e sobreviveu. Nada sabia do mundo que me cercava, esta é uma dádiva que nos foi dada, a de não saber das maquinações humanas. Quando nasci os homens já estavam por aí, ocupando todos os espaços deste mundo grande. E por força do destino o mundo que me cerca é gelado e escuro e os homens não têm muito apreço por lugares escuros e gelados. Quando nasci suas embarcações ainda eram rudimentares, feitas de madeira e movidas por ventos, os quais não podiam controlar. No quarteirão de mundo onde crescia, e ainda era um jovem ser marítimo aprendendo as formas mais eficientes de capturar as pequenas e indefesas cobaias de Deus, o frio intenso da superfície não era atraente o bastante para trazer as embarcações movidas a vento dos humanos, e assim eles me deixaram em paz e a salvo por anos sem conta, pois sou esquivo e de aspecto desagradável. Além do mais minha carne tem um gosto repugnante e sou grato a Deus por ter me concedido esta graça. 

    Não sei nada do mundo acima da minha estrada de águas geladas, mas aos poucos mais e mais barcos de madeira singravam por entre as ondas que se erguiam e quebravam no teto de meu reino aquático. Por sobre o teto de meu reino aquático os raios de Sol revelavam os segredos dos caminhos marinhos em seus extratos mais altos, e assim era franqueado aos homens o acesso fácil aos corpos indefesos dos milhões de irmãos marinhos como eu, que não tem pernas e pulmões para correr e escapar às pontas de metal e tramas de cordas. Nada me interessa no brilho do Sol, nada me interessa nas ondas que sobem e morrem no teto de meu reino aquático, prefiro a escuridão que me protege dos olhares curiosos dos seres humanos sempre ávidos pelas carnes macias e suculentas de meus irmãos marinhos. 

      A rotina é o que me mantém vivo, a rotina de vagar pelas correntes frias em busca do alimento que me faz crescer, a rotina de me esconder na escuridão e passar despercebido, invisível, incompreendido, inclassificável, desconhecido, indetectável. Por séculos tem sido assim aqui no meu ambiente acolhedor, aqui onde me movo com agilidade. Mas na superfície, no reino despressurizado os anos passam e os humanos vão aprendendo coisas novas. Há cada vez mais humanos, mesmo que eles tenham uma predileção especial em ceifar a vida de outro ser semelhante, como se houvesse de tempos em tempos a necessidade de colher a plantação de humanos que nasce, cresce e fica pronta para ser cortada e consumida. Mesmo assim com toda a fome desenfreada em devorar tudo, a plantação humana é grande demais e sempre sobram aqueles que escapam e germinam. 

    Os anos passam devagar e o mundo despressurizado vai sendo ocupado, ocupado, desbastado, avaliado, preparado, ocupado, invadido, desbastado, incendiado, devastado, ocupado novamente, incansavelmente, queimado, transformado, sua essência primeva é vilipendiada, sua riqueza avaliada, medida, confiscada, apropriada por uso da força, novas ideias surgem, novas formas de explorar e desgastar a força que a terra ao se desgarrar do oceano levou eras incontáveis para criar. E já se criam impérios, que criam frotas de navios de madeira maiores e mais seguros para deslizar sobre as ondas que se crispam no topo do reino submarino, e esses navios já são incontáveis, levando e trazendo produtos, alguns criados pelos humanos e outros arrancados da terra, a mesma terra, o reino despressurizado, que teve uma paciência infinita de gerar, nutrir e fazer crescer tantas coisas admiráveis.

      Estes mesmos navios que vem e vão já levam em seu bojo outra carga, essa mais sensível: outros seres humanos. Tudo é mercadoria, tudo pode ser vendido e comprado, tudo tem um valor, e o que tem valor tem sempre alguém que possa pagar. A riqueza arrancada da terra não é suficiente então agora os navios trazem esta nova mercadoria, outros seres humanos. Arrancados de sua terra, avaliados, taxados, medidos e pesados, prontos para trabalharem a terra, não sua, mas de outros que, por graça do nascimento, herança, manobras políticas ou por outros meios escusos dividiram o melhor da terra entre si, e por não ter desejo de sujar as mãos e dobrar as costas ou se molhar no suor do trabalho, acharam melhor comprar outros seres humanos para fazer estas tarefas para si. E de acordo com as noções mais precisas e eficientes de como se obter o melhor valor para sua mercadoria acharam por bem explorar ao máximo cada peça comprada, sem considerar por um momento sequer a possível humanidade de suas aquisições. 

     Tal mercadoria em função da possível humanidade inerente era bastante perecível, e nas longas travessias dos barcos de madeira cada vez maiores a perda destas peças humanas perecíveis era bastante significativa, sendo lançados ao mar sem pudor ou a mínima consideração, tomados apenas como um peso morto ou prejuízo financeiro. Mesmo longe, muito longe de meu ambiente escuro e gelado, eu fiquei sabendo pelos primos tubarões distantes, aqueles que viajam muito e gostam das águas quentes para passar o verão que o descarte sem pena e pudor destas peças humanas perecíveis criou para eles um formidável banquete de corpos negros de carne macia, fáceis de abocanhar porque já falecidos e sem condições de lutar. Para mim é muito longe e desconfortável e um motivo a mais para nunca chegar perto de um ser humano, pois se nos fosse dada a capacidade da razão eu não teria como justificar, por nenhum meio possível e imaginável que uma espécie possa agir desta forma com outro membro da sua espécie. E nesse momento eu prezo muito não ter a capacidade da razão, no mesmo molde que a razão humana se apresenta perante o mundo. 

     O globo terrestre jamais se cansa de girar pelo espaço à fora e esta atividade tem seu custo medido numa unidade chamada tempo. E o tempo dispendido nesta atividade rotatória do planeta me faz crescer. Já sou grande agora, ainda jovem pelos padrões da minha espécie, mas firme em meus propósitos que é ser levado pela correnteza em busca de comida. Queiramos ou não as águas trocadas com a superfície acabam por trazer as novidades do mundo despressurizado, e estas novidades nos alertam sobre a atividade preferida dos seres humanos que é a guerra. Eu sei que a guerra é muito anterior a meu nascimento e ela estará na superfície muito depois que a minha longa existência termine. Estou apenas relatando fatos que nenhum outro ser vivo presenciou porque eu sou o ser vivo mais antigo que ainda interage com os elementos do mundo. Os navios já se fazem onipresentes, mesmo neste lado do mundo inóspito. Pobres das primas baleias, já que descobriram que seu corpo espesso e cheio de gordura serve para iluminar as ruas de suas cidades escuras. Elas não têm a mesma capacidade que eu tenho, de ficar submerso no escuro profundo, elas precisam respirar o ar da superfície, pobres delas! E os navios cada vez mais velozes se aproveitam desta fraqueza para caçá-las sem piedade. 

      As cidades humanas crescem para acomodar cada vez mais humanos. As cidades humanas crescem e querem a riqueza de outras cidades humanas, e assim vão em busca do que cobiçam. Porém nenhuma cidade humana quer dar de graça suas riquezas e os humanos criaram o jogo chamado guerra, onde o competidor mais forte e mais astuto se acha no direito de levar para sua cidade as riquezas da cidade que perdeu a competição. Não satisfeitos em brincar deste jogo no amplo espaço do mundo despressurizado, eles se acharam no direito de brincar de guerra no topo do mundo pressurizado. Os humanos são seres muito inventivos, não se pode negar e já na minha juventude eles descobriram meios de colocar tubos de metal em suas embarcações, que cospem coisas pesadas na direção das outras embarcações apenas pelo prazer de derrubar as outras embarcações, aquelas dos humanos contrários, aquelas que penduram pedaços de pano em cores e formatos diferentes e que eles deram o nome de bandeiras, não sei como um simples pedaço de pano diferente pode causar tanta ojeriza aos olhos de alguns seres humanos. 

      Da mesma forma que os navios que transportavam carne humana em troca de dinheiro, estes navios carregados de humanos ávidos por causar danos aos navios com bandeiras diferentes da sua quase sempre eram postos para mergulhar no tecido aquoso e gelado de meu mundo submerso. Na queda fatal em direção ao abismo sua assim chamada tripulação, muito a contragosto, era apresentada a um ambiente inclemente, inseguro, não afeito às necessidades humanas, diria mesmo que interditada à vida humana, tão bem adaptada à camada despressurizada do mundo. Quem gostava muito destas ocasiões eram os infindáveis cardumes de todo o tipo de irmãos marinhos à espera de uma refeição fácil. Fácil, mas de gosto indigesto. Não conheço o gosto da carne humana, eles não costumam vir na minha vizinhança com frequência, quem me conta são as primas baleias que escapam dos arpões e viajam muito, além dos vizinhos tubarões, que não apresentam um paladar refinado e tudo que chega em suas bocas é bem-vindo. A dieta do oceano, a partir de então, acrescentou para sempre um ítem novo aos comensais, muito embora a proporção entre os irmãos marinhos caçados, pescados e devorados e os humanos atirados às profundezas ainda seja totalmente desequilibrada. 

     Minha pele já mudou sua cobertura diversas vezes, o que significa que já não sou tão jovem assim, mas permaneço firme e forte e apartado das artimanhas e escaramuças que se avolumam na superfície do mundo despressurizado. Num pequeno território encravado num lugar maior chamado Europa chegam notícias de que os humanos muito insatisfeitos com o rumo que as coisas haviam tomado resolveram dizer não aos assim chamados privilégios que uma fatia pequena, porém gulosa em extremo não queria deixar de ter. Os gulosos e surdos às reclamações de seus vizinhos despossuídos, famintos e desesperados se viram encurralados e muitos, mas muitos mesmo, tiveram suas cabeças cortadas num único golpe, para quem sabe assim aprenderem de uma vez por outra que os humanos nascem iguais e assim deveria ser. Eu tenho para mim que esta última afirmação não está embebida de verdade, mas quem sou eu para entender das peculiaridades dos humanos?

     A única coisa é que mesmo longe eu sinto as vibrações das transformações que chegam muito de leve, trazidas pelas correntes marítimas. O mundo da superfície está cada vez mais complexo, mais intrincado, novas ideias brotam nas mentes mais argutas e poderosas. E os humanos se multiplicam cada vez mais. Passam mais tempo sob o Sol pois que suas vidas vão se estendendo, já não vivem assim tão pouco, quer dizer, muitos ainda vivem assim tão pouco, que são os mais indefesos pois os mais indefesos são utilizados como a gordura das primas baleias para iluminar as cidades humanas, neste caso os indefesos não são queimados como a gordura das baleias, não, nada disso, pois seus corpos ao serem queimados exalam um odor atroz, que repulsa os não tão indefesos assim. A gordura dos mais indefesos, que na verdade é bem pouca pois são mal alimentados, é na verdade sua débil energia extinta logo após se esforçarem por horas a fio, por dias a fio, por meses a fio nas novas construções que são chamadas de fábricas. Os mais indefesos então podem queimar até o fim sem precisar exalar um mal cheiro repulsivo. Muitos deles terminam sua existência sem que se ouça um ai, ou um grito. São como os pequenos óvulos invulgares lançados ao mar, no meio da vastidão do oceano. Sobre seus pequenos corpos tão frágeis foi construída grande parte da riqueza dos homens. 

     Quase não o sinto, mas o tempo corre como se precisasse se superar sempre, numa prova de velocidade insana. Ainda vivo em paz, ninguém me avistou e sigo ignoto, todavia eu prenuncio que minha tranquilidade está por ser destroçada. Mesmo neste lado gelado da existência o vai-e-vem dos navios só aumenta, os humanos não ficam satisfeitos com o lugar que já tem, eles querem sempre mais. Os navios estão cada vez maiores e mais fortes, novas carcaças. Inventaram uma nova maneira de iluminar as cidades e já não precisam assim tanto da gordura das primas baleias, agora só as perseguem por esporte, vejam só!

     E o mundo vai se enchendo de fumaça. Desta vez não é culpa dos vulcões, eles só acordam de seu sono profundo muito raramente. Eu por vezes chego próximo de alguns, suas pernas imensas nascem muito fundo dentro do mundo pressurizado e eu me aproximo para contemplá-los em silêncio, o silêncio que me acompanha sempre pois não ouso despertá-los, acho que ainda sou muito pequeno para isso. Acho que jamais serei capaz disso. Lembro de uma ocasião em que um deles, jovem ainda, expelia suas entranhas para dentro da água. Suas entranhas eram tão quentes, que eu me afastei acelerado, tão rápido quanto jamais pudesse ter sido. Gosto da minha água bem gelada e as entranhas daquela jovem montanha submersa cauterizavam tudo que estava ao redor, o calor era sentido numa longa distância. Os homens temem os vulcões, estes são os verdadeiros dragões de suas histórias pueris, com seu fogo devastador. A ilha mais próxima de onde eu vivo é assim, cheia deles, todos quase sempre adormecidos, Deus salve a sua preguiça. 

     Após tanto tempo vagando nestas correntes geladas e submersas eu aprendi a me esquivar, pois vivo no escuro e não atraio a atenção. Vivo minha longa existência em paz, mas agora o mundo da superfície quer invadir o meu domínio. Sinto minhas águas mais quentes, vejo o chão de meu mundo coalhado de objetos estranhos, muitos navios e aparelhos voadores, grande parte deles lançados aqui em baixo após duas enormes guerras, aquele esporte favorito dos seres humanos. E mais essa também: começaram a aparecer substâncias estranhas, maleáveis, transparentes, que são novidade, surgiram a muito pouco tempo e já ocupam tanto espaço. Muitos irmãos marinhos confundiram-nas com alimento e tiveram um fim antecipado. Ouço também notícias distantes que falam de um sangue negro e espesso que agora ocupa por vezes o lugar da água antes limpa. Este sangue negro deve ser muito nutritivo pois os humanos agridem-se por sua causa, este sangue negro e espesso que estava placidamente contido no imenso corpo de pedra lá embaixo, muito abaixo de onde eu costumo ir. Me disseram que este sangue negro está por trás da quentura crescente de minha água gelada. Quem saberá dizer se é verdade ou não?

     Só sinto uma tensão que cresce cada vez mais, como se não pudesse mais haver nenhum lugar onde se possa ficar em paz e em silêncio, onde se possa desfrutar do escuro intenso. Sinto que estou ficando cada vez mais indefeso, como me sentia quando era não mais do que um grão dentro deste corpo líquido imenso, ainda mais agora que me descobriram, eu que deslizei aqui em baixo por séculos e sou a testemunha viva mais antiga a relatar os acontecimentos por vezes infames e por vezes prosaicos, eu que me esquivei o máximo que pude da curiosidade deletéria que só os humanos podem ter, eu que presenciei tantas barbaridades cometidas contra meus irmãos marinhos, eu que fui contemporâneo do descarte de tantos humanos indefesos jogados ao mar, eu que vivo no escuro e assim gostaria de continuar. Mas minha foto agora está nos meios de comunicação e não sei por quanto tempo mais resistirei. Já vivi quinhentos e dezoito anos, sou velho e certamente cansado, mas gostaria de pedir que me deixassem terminar meus dias onde sempre fui feliz, e se, ao passar desta vida para outra encontrarem meu corpo de carne com sabor indigesto ainda inteiro, eu permito que me preservem para estudo.

      Agora, uma coisa muito me intriga: como calcularam tão bem a minha idade?

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

A visita (parte 2)

      Já de volta à casa, com o Sol indo se ocultar deste lado ocidental e Vênus se insinuando na linha do horizonte, eu só ansiava por um banho morno que me lavasse e levasse pelo ralo um pouco das dores tão duramente experimentadas ao longo do dia. Ao abrir a torneira um jorro de água fria foi um choque neste espírito alquebrado. Quinze anos é bastante tempo para esquecer que as benesses e as facilidades da vida urbana nem sempre estão disponíveis nestes rincões, e além do mais meu tio é um tanto ou quanto reticente em se tratando de abraçar as modernidades e as facilidades. Ele é feito da terra, um ser adâmico, mais argila do que porcelana. E então, suspender o banho e esperar um balde de água a ser esquentado no fogão, ou respirar fundo e enfrentar a água fria? A água fria acabou vencendo.

      Logo o aroma de uma comida caseira invadiu o ambiente. Era hora do jantar. Desci para a cozinha e tudo já estava disposto sobre a mesa. O apetite suplantava o cansaço e a dor e logo vastas porções desciam goela abaixo. Devo admitir que o sabor estava quase surreal de tão bom. Comi quase como se estivesse possesso por um espírito colocado em jejum eterno em busca da refeição perdida. A fome era tanta e a sofreguidão das garfadas deixaram de lado os bons modos à mesa, a sede concorria com a fome e para vencê-la enormes goles de água rolavam garganta abaixo. Acho que neste momento, sem muitos freios e refinamentos, eu havia invocado algum espírito primitivo dentro de mim, desconhecido de mim mesmo, à espreita esperando se livrar dos grilhões da civilidade. Após alguns minutos neste embate e quase saciado eu cruzei o olhar com meu tio, que sorria satisfeito.

  - Assim é que eu gosto! Disse ele piscando um olho zombeteiro, maroto mas infantil no melhor sentido que a palavra possa ter. Um olhar cúmplice e solidário, com a total compreensão do que o meu corpo alquebrado estava sentindo e do que precisava para se recuperar.

  - Eu sei meu sobrinho que você não é feito para este trabalho pesado, mas vi a sua boa vontade e seu empenho. São muitos anos até que o corpo se amolde e crie temperança para vencer a queda de braço com a natureza, até o momento em que a natureza se torne parceira e não o capataz com um chicote pronto para estalar em suas costas vergadas. É um longo e solitário aprendizado, que requer paciência até aquele momento em que você olha para o céu e o Sol sorri pra você, e te certifica. A partir deste momento a união com a terra é definitiva.

   Fiquei em silêncio tentando absorver estas palavras. Para alguém tão simples, sem tantas elaborações mentais, sem o trato e o verniz comuns aqueles que vivem na sociedade moderna e educada, a beleza e a sonoridade destas frases me surpreenderam. Talvez fosse por conta de ter a emoção do estômago saciado, mas por um momento eu desconhecia aquele homem que eu acompanhava desde a mais tenra infância. Ou quem sabe o preconceito e o desdém para com os que vivem esta vida agrária, e que está latente dentro de mim, me impeçam de enxergar. Os quinze anos de distância também tem grande papel nesta história, o tempo afasta e esfria, enfraquece a união, estremece os elos. Por que ter como certo que quem tem as mãos tão calejadas seja incapaz de um pensamento elaborado.

   -É, meu tio. Eu tive uma bela lição hoje. Bela e dolorosa. Criei muita expectativa e cheguei achando que podia tudo, ou que podia muito. Mas vi que posso muito pouco. Estou até envergonhado.

 - Ora, não se envergonhe. É falta de prática. Quanto tempo você quer ficar aqui? 

-Ah, ficarei poucos dias. Não sei com certeza.

 - Então descanse amanhã e depois de amanhã tente de novo, mas vá mais devagar. Não falta é trabalho a ser feito. Amanhã vá andar pelo sítio, visitar seus lugares preferidos. Vá até o alto do morro, eu construí um mirante, ficou muito bonito!

 -Com certeza que eu farei isto. Vim matar as saudades de tudo e todos.

    Após esta conversa ficamos em silêncio saboreando a sobremesa e a “marvada” caseira, de sabor adocicado e encorpado. Espichei os ouvidos em busca dos sons noturnos. Grilos e sapos, rãs e vagalumes, corujas a postos para mais uma jornada de caça. O recolhimento. O silêncio. A noite estrelada ao alcance bem aqui na varanda. Um teto de tênues luzes tão longínquas, mas que aqui se contam aos milhares. Esqueci que existem tantas estrêlas. Esqueci que o silêncio aqui é quase ensurdecedor, que o vento morno faz as árvores cantarem uma cantiga imemorial, e que a voz humana dissona nesta sinfonia. Devemos pedir licença para falar e não desperdiçar palavras inúteis, muitas vezes agressivas, muitas vezes vazias, deslocadas, impróprias, malfazejas, vis. Devemos polir as palavras para que elas reluzam na presença de um raio de luar tão puro, e na fagulha débil de uma estrêla tão majestosa, mas que a distância nos faz esquecer a sua magnificência. O ar calmo tem o poder de depurar nossos pensamentos, e até um ser mediano e limitado como eu consegue ter, ou pretende ter, a petulância de pensar em termos tão elevados. Quem sabe é o efeito da aguardente? O que isto importa? Estou pensando demais sem ter o treino necessário para pensar demais, e a mente começa a divagar mais ainda. Acho que o sono chegou. Boa noite tio.

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    No dia seguinte logo cedo, após um farto e revigorante café da manhã, eu acatei a sugestão e saí pelo sítio afora. Queria ver com mais atenção se havia muita mudança em relação ao que a minha memória ainda guardava de lembranças. Tomei um rumo diferente e desviei das terras aradas e preparadas para a próxima safra. Fui em direção ao lago, na parte sul. Os dias de Sol têm sido constantes e clementes, e o vento calmo e morno não se retirou após a noite passada repleta de reflexões.

    A trilha pouco havia mudado, agora tinha mais pedras pequenas e arbustos. As árvores muito copadas despontavam ao redor, algumas já antigas e outras em pleno vigor. Eram motivo de orgulho do meu tio, muitas tendo sido plantadas por ele em sua juventude, dando frutos em quantidade, dando sombra em abundância, dando apoio aos pássaros e esquilos, dando casa e abrigo quando necessário, parte fundamental daquela rede invisível aos olhos humanos destreinados e que sustentam o ciclo da vida vegetal.

    Os insetos zumbiam por todo o ambiente, pulando, voando, rastejando, cuidando da propria vida. Nuvens brancas deslizam alto no céu. O suor escorre pela minha testa e pelas minhas costas, mas eu me sinto bem, me sinto forte de novo, me sinto satisfeito. Aperto o passo e quero chegar logo na margem do lago. 

     Após andar por cerca de dois quilômetros uma clareira se aproxima e eu chego finalmente ao lago. A visão de suas margens de imediato inunda minha memória com as mais deliciosas lembranças que alguém possa ter experimentado. O garoto de sete anos despertou com força neste corpo de adulto acomodado e engordurado, de pele fina e frágil protegida por tecidos finos e caros. Ao mesmo tempo em que quero olhar suas águas calmas, eu cerro os olhos para lembrar dos rostos dos primos e primas, dos amigos e amigas, todos alegres e pulando na água, espirrando água para todos os lados, gritando, pulando, nadando até ficar com os dedos enrugados.

     Descalço meus pés e afundo minha perna na água fria. Um choque seguido de um alívio. Avanço aos poucos me acostumando com a temperatura da água. Já estou com metade do corpo imerso e decido me auto-batizar. Um mergulho e o corpo todo se entrega àquela pia baptismal sem nenhum celebrante. A natureza me consagra, a natureza é Deus sem intermediários, é a comunhão mais sagrada. Não preciso de intermediários. A solidão deste momento é a única testemunha que eu preciso. Olho ao redor e confirmo esta solidão. Fico no mais profundo silêncio por incontáveis minutos, fecho os olhos como se quisesse gravar de modo indelével na memória todas as sensações deste instante e que nada escapasse, e meus olhos fechados vigiariam e encerrariam para sempre no mais profundo do meu íntimo. Ninguém precisa saber, à ninguém importa saber e com ninguém eu preciso e gostaria de compartilhar.

     A manhã segue seu rumo e seu ritmo normal, aquele ritmo que foi estabelecido para facilitar as transações comerciais e os negócios tão necessários ao progresso do mundo, mas eu transito num tempo diferente agora. Chame de êxtase, ou qualquer outro termo equivalente, mas o tempo havia parado para mim nesta manhã que, desconhecendo quem eu era ou sem se importar com o que eu sentia, avançava em seu rumo normal e o Sol já se posicionava por sobre as cabeças, naquela posição que os astrônomos chamam de zênite. Nos dias comuns eu estaria já pensando onde iria almoçar e o que eu gostaria de comer.

     Mas eu continuo aqui parado, molhado, no meio do lago, sorrindo por dentro, saudoso de meus primos e primas, amigos e amigas, invocando a alegria, a euforia e a energia bruta e pura do garoto de sete anos. Estes momentos são tão raros, tão puros e tão vitais que se renova a vontade de se recontratar uma nova e grande extensão do contrato ao qual chamamos de “vida”. Não que jamais tenha passado pela minha pobre e reles cabeça a mera menção de interromper a minha vida, porém este curto e proveitoso momento aguçou a vontade de ficar um pouco mais por estas paragens terrestres.

     A água fria mas já acostumada e diria até que aconchegante me envolvia num abraço líquido e salutar, mas há muito mais a ser revisto. Lembrei de imediato do morro e de seu mirante, o que seria novidade para mim. Me soltei deste abraço líquido e voltei para a margem, calcei os pés novamente e sem mais demora segui caminhando em direção ao morro. Mais três quilômetros de caminhada agora com o terreno se inclinando levemente. Fui secando ao vento e ao Sol, me surpreendendo comigo mesmo por este desapego ao conforto, o que é tão estranho para meus hábitos tão regrados, tão mecânicos e tão aborrecidos.

    Alguns tropeços aqui e ali, alguns mosquitos rechaçados com as mãos, nada que possa me interromper ou me desgastar, creio que nada poderia me interromper ou me aborrecer hoje. Sigo num ritmo firme com o coração batendo forte e feliz. A tarde se impõe por sobre todas as coisas nesta fração de mundo. O terreno se inclina um pouco mais a cada passo e eu já vejo o topo do morro. Cada paragem, cada canto da propriedade me trás uma bagagem de emoções e lembranças. O vento se encorpa e me ajuda, me impulsiona ao alto. Era bem mais fácil subir no morro, de acordo com as minhas lembranças, mas não importa. Sei que os muitos quilos e os muitos anos pesando nos joelhos e ombros são um preço a ser pago. Mas nada pode me interromper ou me aborrecer hoje. As árvores vão rareando, se espaçando, e as pedras vão rolando à medida que meus pés escorregam aqui e ali na trilha. O Sol já começa a se inclinar piscando um olho para o Oeste.

    Cheguei ao topo enfim. Cansado mas contente, com a respiração pesada e acelerada e o coração quase me dizendo envergonhado que é hora de parar um pouco. Me aprumo e olho o mundo de cima. Um mundo de colinas ao longe, e um manto verde exuberante. Como é bela a vista deste alto de mundo, e como esta vista é tão exclusiva, como se eu fosse um conde ou coisa parecida, imponente, a contemplar meus domínios banhados pela luz de um dia infinito.

     O tempo havia parado mais uma vez. Eu tive este poder em minhas mãos hoje. Um retrospecto, uma revisitação e uma análise instantânea de minha vida neste alto de morro. Tudo se passou num piscar de olhos, e este é um aspecto muito curioso deste ente imperdoável chamado tempo, este algoz, este magistrado supremo, de poder absoluto, de apetite voraz e surdo aos pedidos de uma extensão, do momento mais intenso, mais propício, mais feliz. Não, apenas aproveite o momento que lhe foi dado e deixe de lamentações. Passou e é passado, apenas se conforme.

    De repente, como um raio inesperado que corta um céu azul de brilho intenso, e ruge ameaçando a existência e a segurança tão duramente mantida, a percepção da pequenez, da insignificância, da mortalidade, da irrelevância e da finitude me atingiram com força desproporcional. Talvez estivesse em êxtase por muito tempo e desta forma havia me colocado desguarnecido, minhas defesas abaixadas me deixaram fraco, e este momento infinitesimal me atingiu em cheio. Tão súbito que demorei a entender o que estava acontecendo. Nem sei se entendi o que aconteceu, para ser sincero. Só sei que, como por algum feitiço ou manobra urdida por algum espírito debochado e vingativo, destes que nunca deixam os pobres seres humanos reles e débeis, rasteiros e limitados em paz, eu me senti muito pequeno, me senti inútil, me senti sozinho na rampa escorregadia do precipício. Num canto escuro e esquecido, bem dentro, mas bem dentro mesmo do meu íntimo, uma pergunta escapa: “Eu não tenho direito a me sentir feliz?”

      Como que por encanto, ou desencanto, a paisagem havia mudado completamente. Nuvens se adensavam e se encorpavam, passando de um branco imaculado para um cinza pesado e pesaroso. O verde derramado pelas encostas se tingira de um tom lúgubre, e um cansaço inesperado e indesejado se apoderou de todo o meu corpo. Quase que por reflexo, me quedei e fiquei de joelhos, de cabeça baixa a pressentir uma espada sendo baixada impiedosamente para levar minha cabeça embora.

    Por quê? Por quê esta mudança tão brusca e súbita? Fiquei assustado, fiquei decepcionado, fiquei desamparado, e toda a solidez e segurança que julgava ter alcançado na vida escorreu das minhas mãos de forma melancólica neste topo de morro, onde tantas lembranças alegres deveriam ser celebradas neste retorno. Fiquei deitado e imóvel por não sei quanto tempo. Adormeci profundamente, quem sabe se por conta do esforço e do cansaço, certamente por isso. Prefiro esta hipótese à ideia de que pudesse minha vida estar sendo um logro todo este tempo e só hoje me dei conta?

    Quando despertei o céu estrelado ocupava toda a abóboda celeste, num espetáculo que parecia estar se manifestando somente a alguns metros acima da minha cabeça. O vento havia parado mas eu sentia frio. E sentia um gosto amargo na boca, assim como sentia um peso enorme sobre as costas. Sobretudo pressentia que uma reflexão mais profunda precisava ser encarada por mim. Quem sabe os fantasmas protagonistas daquelas histórias de terror que tanto nos aterrorizavam quando montávamos barracas para passar a noite aqui estão ao redor para mais uma vez me assustar. Porém fantasmas não existem, só a vida real existe. Só existe aquela vida mundana de restrições e escassez, de compromissos e obrigações, de aborrecimentos e decepções.

    “Mas é só isso mesmo?” Pensei enquanto levantava e me aprumava, porque precisava voltar para o casarão e repousar num colchão macio forrado com lençóis limpos. Já devia ser por volta das nove horas da noite e o caminho de volta seria mais longo porque escuro se fazia.

    Desci rapidamente, escorregando muitas vezes, tropeçando, me arranhando, impelido pelo impacto de momentos tão intensos. Apesar do escuro e da noite alta meus olhos não encontraram muitas dificuldades em achar o caminho de volta para o casarão. Cheguei perto das onze horas e meu tio me recebeu um tanto preocupado. 

-Meu sobrinho, o que houve ?

-Ah tio, tive um dia bem intenso e estranho hoje. Fui até o lago e depois subi ao topo do morro. Quis matar as saudades e acabei adormecendo no alto do morro. Em resumo foi esse o meu dia. 

 -Você deve estar com fome e muito cansado. 

-Nem sei dizer se estou com fome, mas cansado eu estou e muito, pois vim tateando o caminho no escuro, caí algumas vezes e estou com arranhões, mas nada de mais. Acho que vou tomar um banho e dormir. 

- Hoje eu preparei a água quente para você. 

-Ah, vai cair muito bem nesta carcaça cansada! Obrigado e boa noite tio.

-Boa noite.

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     A água morna foi como um abraço de boas vindas e uma recompensa pela aventura. Pedi perdão pelo desperdício mas fiquei muitos minutos somente com a água quente a me acariciar, cansado demais para qualquer reflexão. Em outro momento eu vou pensar sobre tudo o que aconteceu hoje. Visto de fora, por um observador imparcial, o dia havia sido apenas prosaico, diria mesmo que banal, apenas um homem que sai de manhã sozinho, anda muito, chega num lago, mergulha, sai do lago, anda muito mais, sobe um morro, fica parado olhando a paisagem daquele ponto de vista altaneiro, o dia escurece, aquele homem adormece no alto do morro, desperta, desce o morro e volta para casa.

     Mas visto de dentro parece que algo se rompeu, como um coágulo que tivesse se soltado dentro de um corpo. Será este o preço que se paga por estar completamente sozinho, sem nenhuma distração, sem nenhum subterfúgio, sem desculpas, o espelho em 360 graus que reflete de forma implacável a verdadeira imagem, não aquele que escolhemos ver ?

    Foi uma noite de sono profundo mas intranquilo. O despertar assim amargo, quase uma queda da cama, expulsório. O corpo ainda cansado e ferido pede por mais tempo mas as obrigações impedem. Quantas horas dormidas? Não tenho ideia de que horas possam ser, porém já batem à minha porta avisando que o café está posto. Já passam das dez horas e eu não costumo dormir tanto assim. Vamos para mais um dia. O que será que me espera hoje? O que eu havia planejado para esta visita? Me dei conta que não havia planejado nada, apenas a vontade acumulada em quinze anos de voltar, mas não havia roteiro. Então se é assim vou deixar o acaso conduzir meu dia.

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     O cheiro amistoso de um café fresco, novo, quente, pronto para amolecer o coração mais duro e os pães me receberam à mesa. Que estava mais uma vez posta com ingredientes simples e saborosos, nem luxo nem míngua, o sabor sem disfarces de uma casa sincera.

     Meu corpo se ressente de um preparo melhor, alguns tombos que passaram despercebidos pela urgência da volta para casa no escuro agora estão em primeiro plano, e cobrando minha atenção. Acho que tudo dói, não somente as pernas, a sola do pé abrasada pela caminhada tão longa parece que vai rasgar a qualquer momento, e as mãos carregam arranhões e unhas ainda sujas, um banho só mesmo demorado e aliviador não foi suficiente.

    Ó animal urbano relaxado e amolecido, eis o preço de tamanho conforto buscado a todo custo! A terra é bela mas parece querer se vingar de seus filhos que lhe viram a cara e que lhe desprezam achando que tudo está dominado. O acaso vai conduzir o dia e agora o primeiro impulso é sair correndo, sumir deste ambiente rude e voltar para o piso frio de desenho e estilo requintado, para as paredes pintadas em cores suaves, para a iluminação controlada remotamente pelo celular, para a tela plana da TV de 70 polegadas, para a água previsível de meu banho diário, para a geladeira que avisa que os legumes estão acabando e para a rotina mecânica que me deixou de herança um trilho inamovível.

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     - Meu sobrinho, que olhar perdido é este? Eu perguntei o que você quer fazer hoje mas parece que você não me ouviu.

 - Tio, me desculpe mas acho que fiquei tão cansado com a caminhada ontem que ainda não me recuperei. Não ouvi o que disse. 

- Reparei que você está com vários arranhões…

 - É, eu acabei caindo várias vezes, tropeçando nas raízes, galhos soltos e pedras, porque eu adormeci no alto do morro e quando acordei já estava escuro. Fiquei preocupado de você estar preocupado e desci mais rápido do que podia. Hoje estou mais quebrado do que arroz de terceira, como dizem.

 - Está recuperando as lembranças? 

- Sim. Ontem, apesar dos percalços, foi um dia muito especial para mim, com momentos intensos, difíceis mas intensos. Esta viagem está me purificando, e ao mesmo tempo me dando um banho de realidade. Não deveria ter demorado tanto para voltar aqui.

- Pois então aproveite cada momento. Sabe, eu estou curtido pelas intempéries e consigo enxergar longe e fundo. Você esteve ausente por muito tempo mas eu percebo suas expressões e sinto e leio cada linha de seu rosto. Você, para mim, ainda é e sempre será aquele garoto alegre, cheio de energia, de olhar atento, pronto para correr e pular, pronto para escutar as conversas e os casos, com fome de vida, com fome de saber sobre tudo, que queria pegar o Sol com as mãos, que dormia contando as estrêlas, que acordava com os galos e que dava muito contentamento. Eu não tive filhos meus e você preenchia este vazio. Eu sei que a vida pesa sobre todos os ombros e a vida separa. Sei que você estava no caminho certo e fez o que se espera de todos ou quase todos. Mas também sei que sempre falta algo, ninguém é completo. Eu me casei com a minha terra, eu me uni com este pedaço de chão e fui feliz porque sei do meu espaço e dos meus limites, sei que fora daqui eu não sobreviveria. E cada um tem o seu mister, o seu quinhão, seu destino. Não espero por muito mais e nem por muito tempo, só espero humildemente que minha partida seja rápida e justa, pois sempre fui justo e de bons pensamentos, e então só espero ser recompensado no momento final por isto. No mais é só manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo, enquanto o coração durar e bater.

    - Tio, espero que você não esteja se despedindo de mim. 

- Não, não, mas nunca se sabe. São apenas pensamentos soltos de um velho sozinho na maior parte do tempo. E então, o que você quer fazer hoje?

 - Eu quero ficar quieto e em silêncio.

 - Eu esperava que você dissesse isto. Eu não vou mais te incomodar por hoje. 

- Não, tio. Você nunca me incomoda.

      Terminamos o café da manhã, demos um abraço longo e afetuoso e me dirigi para o alpendre da casa. O Sol um tanto mais pálido nesta manhã parecia entender o meu estado de espírito. Um Sol mais tímido e reservado que não inspirava movimentos mais expansivos. Um vagar, uma instropecção, o comedimento, depois de um dia pleno de esforço, emoções viscerais, choque e espanto. Além do mais é preciso ouvir o que o corpo pede, e o corpo hoje pede descanso, não contrarie o seu veículo, pois seu veículo sabe por instinto até onde pode te levar. A mente controla o corpo ou o corpo controla a mente? Eu não sei. Só sei que minhas contusões são reais e eu vou ficar neste dia de hoje como um animal ferido lambendo suas feridas até que cicatrizem.

     E assim transcorreu a maior parte do dia, comigo sentado numa rústica cadeira de balanço a farejar o vento que trazia pequenas porções de aromas, alguns familiares e outros mais distantes e ignorados. Meu tio havia saído para sua labuta diuturna, junto com os demais empregados. Nem por um segundo me passou pela cabeça a vontade de ajudar na lida. Diria mais atrapalhar a lida. Estava precisando deste descanso.

    Hoje é o quarto dia desde a chegada. Tenho tido momentos muito intensos, muito distantes da minha rotina, e a conta de tanto esforço chegou mais rápido do que esperava. Hoje é o dia do descanso, o dia de ficar de pernas para o ar, de sentir o cheiro do vento, de escutar os sons inaudíveis, os imperceptíveis, de treinar as narinas e as orelhas. Não quero pensar em nada muito profundo, isto será feito em outro momento. Fiquei assustado com o raio que me partiu a convicção arraigada? Certamente que sim, mas refletirei em outro momento e não agora, agora é o momento de sentir o cheiro da grama e do esterco dos animais, da terra remexida que acolheu as sementes, da lenha empilhada no galpão, das galinhas ciscando e a fumaça branda lambendo a chaminé. As horas passam devagar.

     Acho que o que estou fazendo é meditação, mas não tenho certeza. Sei que a dor passa e uma tranquilidade se apossa do coração. Minha respiração é lenta e compassada, a tal ponto que eu presto atenção nela, coisa que não lembro de ter feito nunca. Talvez devesse estar incomodado com esta situação, em dias normais eu estaria incomodado, eu estaria ansioso por estar perdendo tempo sem produzir nada de útil. Útil para quem? Meu tempo em dias normais é como uma grade em que prendem várias tarefas que precisam ser cumpridas. Ao final do dia a sensação de que as tarefas continuam presas na grade me traz grande dissabor, e mais um antiácido desce garganta abaixo para aplacar o azedume do estômago.

       Só que hoje não, hoje a grade sumiu e eu não quero saber onde está. Só quero identificar que cheiro foi esse que o vento trouxe. Um cheiro distante de fogueiras crepitando, um cheiro passageiro de folhas arrastadas pela brisa de primavera, o cheiro insuspeito do lago evaporando suas águas em pleno Sol de meio-dia, as plantas deitadas em sua margem cumprindo sua rotina de processos bioquímicos, tudo isso ao mesmo tempo e tudo isso está por aqui como sempre esteve, escapando aos sentidos entorpecidos e desatentos. Tudo parece tão simples e natural e no entanto tudo se reveste de um caráter sobrenatural. Despertei hoje de um sono pesado imposto pelas molduras de concreto, vidro e aço da vida moderna, tão grades quanto as barras de uma cela de prisão.

    Me distraio por um segundo e olho meus pés feridos. A pele está queimada pelo Sol intenso. Olho meus braços e um tom avermelhado está visível. Gosto da cor! Passo a mão pelo rosto e os pelos de barba arranham minhas mãos. Devo estar com os cabelos desgrenhados e com uma aparência de desleixo e rusticidade. Que se foda! Estou longe de casa e longe da vida, daquela vida civil e insípida. Estou feliz? Nunca sei dizer se estou feliz mas estou contente, ah isso eu estou! Está valendo o esforço? Creio que sim, creio intensamente que sim. É uma fuga, é só um momento, eu sei, é só uma viagem, mas quantas emoções e sensações em tão pouco espaço de tempo! São muitos anos comprimidos em quatro dias, Será que toda a vida passada nestes muitos anos poderiam ser expressas por apenas quatro dias ?

     Se for assim eu sinto muito, mas não tenho como recuperar todo o tempo perdido. Só tenho que aceitar o que agora é imutável, e este é um momento crítico em qualquer vida, o momento de um balanço profundo, de avaliação de muitas decisões tomadas consciente ou inconscientemente que definiram o mapa da vida. Fiz o que queria ou o que podia? Fiz o que devia ou fiz o que fui forçado a fazer, dadas as circunstâncias? Fiz o que o livre arbítrio me ditava ou fiz arbitrariamente coisas duvidosas? Fiz para agradar ou fiz para me agradar? Que poder eu tenho ?

     Ôpa, péra um pouco! Ainda não estou no fim da linha, quer dizer, acho que não estou. Pela média e pelo andar desta carruagem nas previsíveis trilhas de uma vida pacata eu tenho quem sabe uns quarenta anos de vida pela frente. Sacudo a cabeça, abro os olhos, respiro fundo e resolve deixar para um outro momento tão profundas, sérias e difíceis resoluções e respostas. Respostas que jamais serão definitivas.

    E com isso a tarde chegou e um sono malandro me cercou, e me convidou a esquecer tantas agruras e tantas indagações. Melhor neste momento é a companhia de um bom colchão, um travesseiro macio e o corpo na posição horizontal.

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      Quando acordei a noite já estava alta. O cheiro do jantar se insinuou sorrateiro, sedutor e irresistível por entre as frestas da porta. Desci para a sala de jantar onde meu tio me aguardava para compartilhar uma ótima refeição. 

-Meu sobrinho, eu vi que você achou melhor recuperar as energias em casa. Não quis te acordar, achei melhor deixá-lo em silêncio. Descansou? 

-Muito! E como eu precisava, e como estou revigorado, parece que eu remocei uns vinte anos. Mas o cheiro da comida é mortal. Qual o segredo? 

-Nenhum segredo, é uma comida caseira.

 -Ela é especial. 

-O que você fez hoje? 

-Fiquei sentindo os cheiros que o vento trazia. E fiquei pensando, matutando, remoendo pensamentos. Fiquei comigo mesmo, fiquei me testando, fiquei me julgando, mas não cheguei a nenhuma conclusão. -Eu já estive nesta situação inúmeras vezes. Depois de algum tempo eu resolvi não mais me importar, porque cheguei a conclusão que não tinha resposta. E aceitei. Vi que era pequeno e simples demais para tamanha tarefa. E segui em frente. Algumas coisas estão além de nosso alcance.

- Eu estou em paz por agora. Não sei se em outro momento voltarei a ser atormentado por estas questões, talvez sim porque agora elas fazem parte de mim. De fato eu não sei se em algum momento antes da viagem eu me peguei pensando nestas questões. Acho que o ritmo da minha vida não deixa, e hoje, ou nestes dias em que cá estou alguma coisa diferente aconteceu comigo. No caminho para cá, na estrada, eu fui invadido por alguns pensamentos incomuns, algumas reflexões, algumas observações que jamais me ocorreram. Esta viagem está sendo reveladora para mim, de como eu estava inerte e automatizado.

   - Pois é meu querido sobrinho. Eu sou só um matuto, lavrador, que não sabe muito das coisas do mundo, mas eu observo. E vejo que os moradores da cidade estão em busca de alguma coisa que nunca sabem, só percebem que falta uma parte, mas não sabem o quê. Com você não é diferente. Está no olhar, está na postura rígida dos corpos, está numa inquietude, num desassossego. Estão doentes e nem sabem. Estão se envenenando em pequenas doses diárias, mas tomam o veneno com gosto e justificativa. Não dormem bem, não comem bem, não se nutrem, não respiram de forma correta, não estão em paz e jamais estarão. Estão gastando seu dinheiro em coisas sem importância, se endividando em coisas sem sentido, dando nós nas cordas que lhe servirão de pêndulo no final. Mas eu não sei de nada e nada posso fazer, só receber de coração aberto e dar refúgio a quem me pede. Fiquei muito feliz com a sua vinda e vejo que neste momento você está bem. Procure manter este estado de coisas, o máximo que puder. Venha sempre que quiser, enquanto eu estiver por aqui.

- Meu tio acho que você disse tudo. Eu não tenho nada mais a dizer.


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       Estas palavras entraram direto na mente e no coração. E por um momento muito breve eu senti uma tristeza imensa de saber que meu tio não estaria mais por aqui um dia destes. E neste momento muito breve eu percebi o quanto eu o amava. Ao mesmo tempo eu percebi uma força imensa e uma paz ainda mais luminosa. Quem sabe é o resultado desta força indefinível traduzida na palavra gasta chamada Amor, palavra de uso tão leviano e desleixado, de significado tão denso e profundo que é quase incompreensível para os meros mortais. Estava de novo no colo deste homem tão íntegro, da mesma forma de quando era criança e ele me amparava nos braços, e me levava nos ombros para passear pelos campos, rindo satisfeito, me mostrando as plantas, as flôres, as árvores, os insetos, assobiando querendo imitar o vento. Era um tempo feliz.

      Senti que estava na hora de voltar para casa. Algo havia completado seu ciclo. Poderia, quem sabe, ser o ponto de mudança, de estar consciente, de buscar o que faltava. Quem sabe? Quem poderia saber? Só sei que continuava em paz e queria manter este estado indefinidamente. Esta viagem é o elixir da longa vida, quem sabe? Quem poderia saber? Ninguém, mas caberia a mim descobrir.

     Me dirigi para o quarto em silêncio e fui arrumar minhas coisas. Não trouxera muito. Olhei as paredes, as janelas e a porta e já uma saudade enorme cobriu meu coração. Mas tinha certeza que era o momento de dizer adeus, mais do que isso eu já seria um incômodo e apesar de tudo, o resto da vida me espera em casa. Já era noite, resolvi dormir mais uma vez nesta cama aconchegante como um abraço. O sono veio rápido e certeiro. Sonhos em lugares paradisíacos ficaram em cartaz nesta noite especial.

    Uma vez mais o cheiro insinuante do café chegou às minhas narinas com um suave despertar. As dores todas haviam passado e um banho matinal fez surgir novas energias neste corpo preguiçoso. Olhei a mala pronta no chão e um Sol sorria pela janela. Desci pela última vez a escada que levava até a cozinha. Meu tio já me aguardava com a mesa posta e um sorriso no rosto. Antes que eu dissesse qualquer palavra ele já me disse:

- Então já está na hora de ir embora e deixar seu velho tio para trás?

 - Sim, tio. Com uma enorme dor no coração e na alma, mas a vida me espera.

 - Eu sei. Você não faz ideia de quanto me fez bem vindo me visitar. 

- O senhor também não faz ideia de quanto eu estou revigorado em ter vindo.

 - Então vamos comemorar com este belo café da manhã, porque você precisa de energia e a estrada é longa. 

     E nos sentamos, comemos, bebemos, rimos, gargalhamos e nos emocionamos com velhas histórias e boas lembranças.

     Chegou o momento de dizer adeus. Qualquer palavra, gesto ou frase não seria suficiente para expressar o sentimento. Poucos dias em quantidade, mas muito intensos em qualidade. Muitos anos de espera para um momento que passou muito rápido. É sempre assim.

- Tio, já vou. Está na hora de ir. Mais eu não posso dizer, porque as comportas de lágrimas estão prestes a se romper. - Ora, ora, porque segurar lágrimas? Lágrimas são feitas para limpar os corações e mentes, desde que sejam lágrimas sentidas e sinceras. Molhe meus ombros com esta água divina.

   E o abraço mais sincero, apertado, caloroso e fraternal foi trocado entre aqueles dois homens simples, de sentimentos nobres, de alma pura, tão pura quanto possa para seres enviados para viver neste mundo imperfeito. Lágrimas rolavam pelas faces, pelos ombros, lágrimas de afeição, lágrimas de saudades, lágrimas sinceras de um amor incondicional. Lágrimas de pai para filho, mesmo que não sejam. Em momentos assim o Céu toca a Terra.

   Ele me levou até o local onde meu carro estava parado me esperando. Abri, coloquei minha bagagem, dei partida no motor e deixei um breve aceno de mão indicando minha despedida. Ao passar pelo portão decidi não olhar para trás. No íntimo mais profundo, lá onde as convicções mais arraigadas teimam em criar raízes, eu soube que aquela seria a última vez.

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    Estou de volta à casa e de volta para aquela rotina tão previsível quanto tranquilizadora. O hábito molda o corpo e afeta a alma. Não sou imune aos efeitos da pressão de um mundo avassalador, ninguém é. Todos os dias, qualquer dia, é dia de ganhar o pão, porque o pão não nos é dado de mão beijada, esse foi o legado que Adão deixou para sua descendência. Será que a maçã primordial pelo menos estava saborosa? Meses se passam sem alterações significativas, sempre o mesmo roteiro já decorado. Sou um número, sou uma célula, outro dente da engrenagem, outro contribuinte anônimo, outro transeunte deixando suas pegadas a serem apagadas pelos próximos passos que se sobrepõe aos meus. Assim vivemos felizes e satisfeitos. As solas dos meus pés afinaram de novo, lisas e brancas, limpas e asseadas. O tom de pele retrocedeu à sua trincheira, onde trava uma luta diária contra os efeitos malévolos de um Sol tornado inimigo pelos mais recentes estudos dermatológicos. Não posso mais sentir o vento e a quentura de um dia pleno de verão sem que a consciência cumpra seu papel de guardiã das melhores práticas de saúde. O topo da colina é coisa do passado.

    Olho descuidadamente para minha caixa postal à espera das contas que chegam com regularidade, ou para a publicidade indesejada. Novidades tão inúteis que já não me dou ao trabalho de ler seus apelos, afinal quem precisa de uma lanterna do Exército americano que ilumina um bosque inteiro? 

     Até que numa sexta-feira qualquer recebo a notícia da passagem de meu Tio Zé Raimundo. A morte veio recebê-lo em um pequeno momento de descanso após o almoço no meio de um dia comum de trabalho em sua terra tão amada. Ninguém presenciou, pois um momento tão íntimo como este não precisa de testemunhas, mas se por algum efeito, truque, ou quem sabe sortilégio um espectador dotado de poderes além de nossa imaginação tivesse a capacidade de ver a cena, teria visto quem sabe um facho de luz brilhante porém cálida a envolver meu tio num abraço pleno de ternura e amparo, dizendo-lhe sem palavras audíveis que seu caminho estava pronto e sua hora chegara finalmente. E ele em sua singeleza e sapiência teria assentido e acenado com a cabeça, se despedindo de sua amada terra e seus amados amigos.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

A visita (parte 1)

A visita 

 Ivan Henrique Roberto 

 jan/2015- jun/novembro 2023



      Posso afirmar com toda certeza que tem para mais de 15 anos que não vejo Tio Zé Raimundo. Quinze anos, convenhamos, é um belo pedaço de existência. Tempo mais do que suficiente para que um país inteiro mude sua condição de vida, para que uma geração apareça e soterre a anterior, para que suas memórias queridas fiquem obsoletas, bem como suas roupas esquecidas no armário e suas convicções ancoradas num solo movediço. Quinze anos, um lapso de tempo com espaço suficiente para superar as inseguranças e incertezas quanto ao futuro, tempo de sobra para se estabelecer e pensar que venceu na vida. Muitos carnavais e passagens de ano, muitas contas vencidas e honradas e o filho que já não depende de você.

     Meu tio Zé Raimundo, aquele que abdicou do mundo grande, da cidade moderna, do conforto e das facilidades. Meu tio, figura fascinante da infância longínqua, sempre de chapéu na cabeça e com sua fala engraçada, diferente, dita num ritmo e numa cadência que, de tão raros, estão prestes a desaparecer, sucumbindo ao apelo avassalador de um mundo uniforme. Meu tio, aquele que vive bem atrás da serra, em um vale escondido, com seus bodes e cabras, árvores e córregos ainda limpos. Dois dias de caminhada até a cidade mais próxima, onde ele só vai muito raramente, e muito a contragosto, pois mesmo a “metrópole” de cinquenta mil habitantes é muito grande e agitada para ele.

    Mas somos seres humanos e civilizados, que dependem uns dos outros, e nem tudo pode ser provido pela mãe natureza, apesar de sua extrema benevolência e seio farto. Sua existência desmonetizada por vezes é contestada pelas leis vigentes, e os tributos, taxas e obrigações fiscais, bem como uma peça ou objeto que teimam em quebrar o obrigam à longa caminhada até a cidade mais próxima. No mais do tempo é a lida diária com as forças da natureza, com seus animais e plantas, de onde vem sua renda e sua alegria de viver, pois não há companhia melhor neste mundo. No silêncio acolhedor de suas terras ele pode ouvir com clareza a voz oculta que está por trás de tudo, e ter um leve vislumbre da harmonia da criação.

    A vida simples e direta sempre embaixo de um Sol absoluto o deixou assim como a terra, que sempre clama por seus dedos e está sempre sendo regada pelo seu suor. Um tom ocre de uma pele curtida, a sola dos pés de derme grossa e adaptada aos rigores e asperezas, pois a terra não é fácil, é generosa, mas não é fácil, há que ser cúmplice e ter respeito.

   Seu descanso é a noite estrelada, com todas as luzes distantes de mundos inatingíveis, de vento morno que arrasta as nuvens para um passeio gentil, de sons ritmados dos sapos, dos grilos e da vida noturna das matas, agora que o Sol se recolhe e o ar está mais fresco. É hora de cantar.

    Desde jovem ele escolheu este estilo de vida, embora escolha não possa ser o melhor termo para esta situação, melhor dizer que ele seguiu a ordem natural das coisas. De certo modo ele é uma árvore, e árvores não devem ser arrancadas. Seus irmãos e irmãs tomaram rumos diferentes, cada qual com sua escolha, suas raízes não eram assim tão firmes, mais aves do que árvores eles eram, mais sementes carregadas pelos ventos da vida, por assim dizer.

     Uma das irmãs veio a ser minha mãe, há muito tempo assentada na cidade grande. Uma vida pacata abençoada com os filhos que ela tanto quis. E então chegamos nós, ao longo dos anos, e cá estou eu, lutando bravamente para seguir em frente de forma honesta e ajuizada. Bem, que posso dizer? Mal não vivo. Sou como todos, ou a maioria, e só posso dizer com certeza que minha cabeça pode seguir erguida.

     Como a maioria da população atual eu sou um animal urbano até nas células mais profundas. Meus pés nunca estão descalços, meus dedos apertam teclas a maior parte do tempo, não penso que minha energia vem do alimento e sim das tomadas ao redor, onde a eletricidade corre sem obstáculos. As memórias de infância estão distantes no tempo, onde aqueles momentos de férias e visitas aos parentes do interior se alojaram em algum canto adormecido do cérebro e teimam em parecer um sonho curto numa noite truncada e mal dormida.

    A pele de meus pés está tão fina que ganho calos que logo viram bolhas só de andar em casa. Minha pele tem mais afinidade com o tecido das meias que aconchegam meus dedos. Uma vida de conforto e distância dos espinhos e pedrinhas pontiagudas, da areia quente e das folhas secas que teimam em cair das árvores, do barro após a chuva e dos pingos d'água desta chuva, que tão logo se oferece, logo a repelimos com guarda-chuvas, capas, marquises e limpadores de para-brisa. Não que eu esteja errado, só estou de outro lado, do lado que paga o que for preciso para manter o bom humor da mãe natureza. Como se isso estivesse a nosso alcance.

    Não quero cansar seus ouvidos, nem quero sua concordância quanto a meu modo de ser, isto é só para me situar dentro deste relato. De uma coisa eu tenho certeza: eu sou um homem de família e prezo muito estas ligações, apesar das distâncias e do tempo escasso, dos afazeres e das tarefas que sempre estão a exigir nossa atenção, e com isso o contato com meus semelhantes vai rareando. A memória da infância distante, em certas ocasiões se impõe, e com isso a saudade me abraça. Por isso tenho lembrado de Tio Zé Raimundo, e ouço sua fala engraçada lacrada em algum canto da cabeça. Em alguns momentos, quase na hora em que o sono vence a disputa, certas imagens de sua propriedade ocupam meus olhos e quase posso sentir o cheiro terroso e forte, sem filtros e aromatizantes, o cheiro das coisas como deve ser. Acho que é hora de uma visita.

   Então comecei a planejar a viagem. Pedi duas semanas de férias, conversei com minha mulher e meu filho, expliquei-lhes da necessidade que estava começando a sentir, e do tempo longo demais longe daquela figura importante em minha vida. Tinha visto fotos recentes dele, e é claro que a idade chega para todos, no entanto, apesar das rugas em seu rosto sempre exposto as intempéries, ele me parecia disposto e rijo como uma árvore. Minha mãe e minhas tias sempre me põem ao par de tudo o que acontece, até dos parentes distantes. Mesmo com a dificuldade de comunicação autoimposta por meu tio, apesar de todas as facilidades de nossa vida contemporânea instantânea, a mensagem de que eu chegaria em breve para visitá-lo foi acolhida com surpresa e alegria, nesta ordem.

    Pensei no que levar de presente: que tal uma camisa social bonita, um sapato de classe, um relógio com cronômetro e que funciona em mergulhos de até 100 metros? Ou quem sabe uma garrafa de vinho chileno ou australiano? Poderia ser um quadro de algum artista valorizado, ou um smartphone? Sim, um smartphone. É tão útil, facilita tanto nossa vida, pode até fazer ligações como um telefone! A distância apaga estes pequenos detalhes, de gostos e preferências. Sempre fui pouco criativo para compra de presentes, mas esta era uma ocasião especial e eu precisava me esforçar.

     Ontem eu fiquei por longos minutos olhando o mapa e tentando localizar a pequena fazenda de meu tio, já traçando o roteiro da viagem. Não era fácil de localizar, mesmo com todos os satélites bisbilhoteiros que cruzam os céus a todo instante. A região progredira bastante nestes últimos anos, as cidades dentro da rota haviam crescido e multiplicado, o apetite voraz sobre as terras era uma ameaça constante para os pequenos proprietários rurais. Muitos sucumbiram e venderam seus alqueires, roçados e criação. Porém meu tio era teimoso e tenaz e já nem atendia mais aos curiosos e interessados. Seus vizinhos foram desaparecendo, se mudando e alguns mudaram de ramo. Poucos permaneceram. Mas ele era feito da terra, comprovando o mito de Adão.

     Desentocá-lo seria uma tarefa das mais ingratas, como puderam confirmar os inúmeros corretores quase sempre postos para correr, literalmente, seja para escapar dos alçapões ou dos ferozes e bem treinados cães de guarda, e até de um ou outro disparo de sua velha espingarda, velha, mas sempre lustrada e pronta para uso. O progresso que ficasse longe dele e de sua desconfiança. Seu amor por seu chão era inquebrantável, incondicional e infinito, quase incompreensível neste mundo volátil e volúvel. Um romântico incurável ou um fóssil vivo desafiando a lógica que rege o mundo bem pensante?

   Por fim pensei ter localizado sua amada terra. Ampliei e imprimi o mapa, olhei a distância já expressa nas informações adicionais do serviço cartográfico, quantas horas previstas no trajeto, qual o melhor caminho, qual caminho alternativo, quantos pedágios, quais paradas para abastecimento e refeição, onde tinha radar e polícia, nada escapa aos olhos digitais, ah o que seria dos bandeirantes hoje? Quase quinze anos e eu precisava resgatar muitas histórias, memórias e fatos para me preparar para esta visita ao passado. (2015).

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(2023) Hoje é o dia para pegar a estrada e cumprir o que estou me prometendo e obrigando há tempos. Logo cedo dei partida no carro, dei um beijo de despedida em minha mulher e meu filho e o asfalto começou a sentir o gosto dos pneus novos trocados para a viagem. Tanque cheio, carro limpo, um dia de Sol. Em cerca de quarenta minutos alcancei a estrada de início do trajeto. Duas horas, três horas, parei para abastecer e esticar as pernas. Ainda cedo, ainda claro, ainda alegre e cheio de expectativas. Vamos em frente, porque para trás a estrada e a vida já terão mudado para sempre.

     Estou à sós com meus pensamentos. Estou sozinho neste veículo e a paisagem vai passando rápido e as árvores vão sendo enfileiradas em paralelo com as faixas pintadas no asfalto ainda fresco, ainda em bom estado. Estou à sós com meus pensamentos e me sinto um pouco intimidado, quem sabe incomodado com todo este tempo vazio ao qual não estou mais acostumado, pois desde que abro os olhos pela manhã até o momento de fechá-los à noite a disputa incessante por atenção, seja de que lado venha, é excruciante. Neste momento me dei conta que me sinto um copo prestes a transbordar, ou mesmo uma bola sendo enchida a ponto de explodir. Um instante após, num átimo de tempo mais breve que um piscar de olhos, talvez como mecanismo de defesa, respirei fundo e estanquei a explosão. Meu pé afundado no acelerador retraiu e vi uma revoada de pássaros. O movimento gracioso, leve e livre abriu um sorriso tão íntimo e interno dentro de mim que me peguei surpreso de ainda conseguir capturar estas fagulhas de beleza soltas pelo mundo.

     Então é isso, o sinal estava dado, ainda tenho cura. O tempo vazio merece ser honrado com uma melhor disposição por minha parte, o tempo é o bem mais precioso que nos é ofertado. Não devemos desperdiçá-lo. Por que esta compreensão chegou a mim agora? Não importa, certas perguntas não precisam de resposta. Não agora, quem sabe um dia ou uma noite qualquer.

     Quinze anos é muito ou pouco tempo? Quem poderá me tirar esta dúvida? Quem eu era, ou o que eu era há quinze anos? O que eu sou agora? Um marido esforçado, um pai dedicado ou um número num registro? Talvez tudo isso e um pouco mais. Os quilômetros passam e o vento sacode os arbustos e árvores nas margens da rodovia. Em sentido contrário muitos caminhões carregados com todas as coisas imprescindíveis da vida moderna, objetos que não existiam a dois anos e agora muitas pessoas não podem imaginar a vida sem eles. Olho o GPS do carro de forma automática e me sinto seguro de saber que estou na direção certa. Mas eu estava estudando o mapa ainda ontem e não foi o suficiente? Me senti um pouco tolo de pensar que não consigo confiar na minha memória e devo deixar que algum satélite flutuando alto na atmosfera conduza meu destino. Será que a humanidade está regredindo? Estamos retrocedendo à condição de crianças inseguras, diminuindo a estatura, não a estatura física, mas a estatura moral?

    Pronto! Agora é oficial, depois do momento pré-explosão e pós-revoada dos pássaros eu entrei no terreno da especulação científica, do devaneio, da mente solta. Se é assim agora então eu vou aproveitar, já que o tempo livre e vazio se apossou de mim. E, cá prá nós, o que eu vou fazer sozinho dentro de um carro em movimento, se deslocando em velocidade moderada, em linha reta com um céu claro e nuvens algodoadas? Cantar não sei. Me pus a pensar, já que pensar é de graça, não dói e ainda não está sendo gravado em arquivos violáveis, sujeitos ao escrutínio sabe-se lá de quem ou do quê.

    À medida que o asfalto ia sumindo por trás do automóvel, eu ia sendo tomado por uma vontade renovada de pensar e pensar e pensar em coisas que estavam germinando no solo mais profundo de minha cabeça, mas não havia percebido, em parte por estar sobrecarregado, em parte por ter uma vergonha inconfessável de permitir que a mente atue deste jeito, vejam que coisa mais estúpida e constrangedora a que eu me auto submeti! Será que é reflexo destes tempos conturbados que estamos atravessando? Onde está o iluminismo? Muitas pessoas hoje podem pensar que o iluminismo é uma apropriação da energia elétrica de outrem através de manobras pouco recomendáveis e arriscadas feitas por profissionais da área de eletrotecnia, embora sem a certificação técnica recomendada. Mas eu tenho absoluta certeza de que o iluminismo é um movimento científico do século XVIII que pregava e prezava que a mente fosse iluminada através da educação e do conhecimento, eu aprendi isso na escola e agora veio à minha mente de forma súbita e abrupta. O que está acontecendo? Será que o Tio Zé Raimundo está possuindo a minha mente neste momento? Mas ele sempre foi tão simples, não lembro de nenhuma conversa em que ele despejasse este tipo de conhecimento. Olha o que o tempo livre faz? Lembrei daquele ditado em que é descrito que o Diabo acha trabalho para quem tem as mãos desocupadas. A mente livre e solta pode levar a caminhos pedregosos, onde os pés de pele lisa e macia podem se ferir facilmente. Mas não me importa, o tempo é todo meu agora e eu estou muito contente, a estrada está vazia e tranquila e ainda restam algumas horas até o sítio.

     Na semana passada eu ouvi notícias que diziam que no futuro não haverá emprego para todos, que a humanidade atingiria um nível de desenvolvimento tão alto que o trabalho humano, tal qual o conhecemos e que vem assim desde o passado remoto, não teria mais razão de ser neste mundo pós-moderno e altamente tecnológico. Mas então como entreter tantas pessoas? Como fazer com que os seres humanos possam viver e comprar suas coisas tão preciosas, tão necessárias, tão apegadas? Com que dinheiro poderiam contar, se não haverá trabalho para todos? Certas ideias eu não consigo alcançar, minha mente é muito limitada para isso. E volta à lembrança o ditado de momentos atrás: com tantas pessoas de mãos e tempo livre o Diabo vai fazer a festa como jamais terá feito. Olho para o painel do carro e muitos sensores o posicionam de forma a ficar sempre em linha reta em perfeita sincronia com a estrada. Em breve não precisaremos mais dirigir nossos carros. Em breve não precisaremos pensar em mais nada? Em breve seremos dispensáveis e desnecessários? Uma voz impessoal ressoa através do sistema de navegação e me alerta que tenho em torno de 240 Km de autonomia até que o carro desfaleça por falta de combustível. Todavia ainda restam menos de 100Km até meu destino.

    Uma nova revoada de pássaros cruza por cima da estrada, quase raspando meu para-brisas. Lembrei de uma série que eu gostava muito de ver na TV, onde era mostrado um cenário de um mundo liberto dos humanos, e como a natureza reagiria à nossa ausência em dias, semanas, meses e anos. Os pássaros não teriam mais o receio de se esborrachar em para-brisas e janelas transparentes. Se em breve não teremos mais trabalho quem vai pagar pelo nosso conforto? Se no futuro não existirem mais humanos qual o sentido de tudo o que foi construído, pensado, planejado, desejado, tudo aquilo que achamos que é nosso por direito e que está por aí desde o início dos tempos? Todo este esforço terá sido em vão? Todo este esforço de pensar está me deixando apreensivo pois uma cortina que se abre sempre pode revelar um panorama cinzento quando ansiávamos por um Sol pleno que cumprisse com a promessa de um novo dia melhor e mais feliz. Mas não, não é isso que eu esperava neste dia tão aguardado, não quero chegar e encontrar o Tio Zé Raimundo para mostrar uma face azeda, não depois de quinze anos sem contato. O Sol está alto no céu e a cortina aberta quer me mostrar isso mesmo, que hoje é um dia calmo e tranquilo com pássaros voando livres. Pensar não é para os fracos.

    Acho que farei uma breve pausa pois minhas pernas já estão reclamando por estarem na mesma posição por muito tempo.

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    Dois quilômetros a frente havia uma parada grande e moderna, com lanchonetes, sanitários, estacionamentos e muitas bugigangas para serem compradas. Ainda não havia comprado nenhum presente, me perdi em divagações acerca do que seria conveniente levar para agradar meu tio. São quinze anos e uma distância difícil de ser superada.

    Parei o carro, me dirigi à uma lanchonete típica, escolhi uma refeição leve, procurei um assento vazio. A lanchonete estava bastante cheia para a ocasião. No meu cotidiano eu não tenho o costume de observar as pessoas, quase sempre elas passam e eu nem percebo, sempre com a mente ocupada pelas questões banais do trabalho ou da vida. Porém hoje algo estava diferente, como pude observar na estrada pois fui tomado por uma vontade incomum de pensar livremente. Assim me pus a lançar um olhar um pouco mais demorado, um pouquinho mais atento ao que estava ao meu redor. E vi as pessoas. Mas que roupas são essas? Mas que cabelos são esses? Quase ninguém conversava, quase não percebi interação. Pessoas sentadas uma ao lado das outras e quase não havia interação. Famílias inteiras agindo desta forma. Todas debruçadas nos seus celulares. Por um momento achei que estivesse num lugar estranho, ou num sonho estranho. Estava cheio, mas reinava um silêncio desproporcional à quantidade de gente. Será que eram todos humanos? Olha que ideia absurda me tomou de assalto! Por certo que são seres humanos.

    Um mal-estar me chegou de forma enviesada, após momentos tão tranquilos passados dentro do carro. Será que alguém poderia me dizer o que se passava? Percebi que havia uma parede espelhada e vi meu reflexo, que transparecia uma perplexidade ainda controlada, pois o hábito joga cinturões em volta da persona pública e os anos de convívio adestram as pessoas, portanto a dissimulação se torna uma necessidade em nossa vida civilizada e citadina.

    Então pensei que a surpresa de observar aquelas pessoas tenha me atingido como um choque de realidade. Eu estou ficando anestesiado e perdendo o contato com o mundo real? Ou a decisão de realizar esta viagem há tanto esperada, mas sempre protelada tenha deflagrado algum processo mental desconhecido? Meu batimento cardíaco aumentou e minha garganta ficou seca. Olho de novo meu reflexo e percebo um semblante pálido e confuso. Não tenho problemas cardíacos pregressos, mas estou firme em direção à meia idade, então será que ...?

    Não, não, calma, respire compassadamente, volte seus pensamentos para o lugar de conforto que você tanto preza. Esta viagem foi pensada para ser agradável e tranquila, e estava sendo até agora. E deve continuar assim. Fiquei alguns minutos em silêncio olhando para meu prato e aos poucos o pensamento voltou a ser como aquela esteira de malas num aeroporto, correndo livre num trilho assentado sobre uma base firme. Não como uma montanha-russa com um trilho torcido que se projeta no espaço vazio, e a queda pode estar logo ali na frente. Assim como a esteira no aeroporto, que logo traz a sua mala em segurança e seus pertences que não serão extraviados, o meu coração voltou ao seu ritmo normal.

    Não tenho pressa. Fiquei mais alguns minutos, minutos suficientes para me trazer de volta ao chão e ao centro. Ainda surpreso pelo ataque de pânico, se é que podemos chamar assim, percebi que a lanchonete estava mais vazia. Alguns ônibus seguiram viagem e algumas nuvens mais densas mostraram suas formas no enorme palanque que é o céu.

    Paguei minha refeição e mais uma vez esqueci de olhar algum possível presente a ser entregue ao Tio Zé Raimundo.

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    Em menos de duas horas eu já poderei estar na companhia de meu tio. Alguns quilômetros e encontra-se uma saída para pegar o acesso à cidade. De lá mais alguns quilômetros de estradas vicinais, depois mais alguns difíceis quilômetros de estrada de terra e enfim o sítio. Quando se é criança o caminho é muito diferente, não temos a lógica e a razão funcionando e então quase sempre a fantasia reina de forma absoluta. Eu me lembro de pensar nesta estrada de terra como o caminho para grandes aventuras, onde a qualquer momento animais exóticos nos cercariam ou tanques de guerra com rodas de bicicleta com canhões que soltavam fumaça colorida e fogos de artifício serviam de cortejo ao carro de meu pai. Muitas vezes na época de chuvas intensas a lama grossa e escorregadia me parecia a superfície de um planeta distante, e logo ao virar a primeira curva pequenos homenzinhos de pele verde e roupas metálicas nos abordariam e fariam nosso carro flutuar para longe e alto, nos livrando deste terreno difícil. Nestas ocasiões meu devaneio quase sempre era interrompido pelos xingamentos de meu pai amaldiçoando a chuva.

    Por um momento tentei lembrar quando foi que a fantasia desapareceu de meus pensamentos. Quase certo de que tenha sido quando, ao invés de passar as férias no sítio, eu já preferisse frequentar as primeiras festinhas e os primeiros olhares para as meninas. Me dei conta que a fantasia não havia desaparecido, só havia mudado de foco.

    Ao antecipar determinadas situações criamos um cenário propício a nossos propósitos. Quase sempre tendemos a trazer a situação para mais perto de nosso controle, e assim podemos criar diálogos convenientes e controlados. Parte do caminho eu fiquei imaginando o reencontro com o tio. Tinha notícias sobre ele de tempos em tempos, mas sempre filtradas pelo crivo de minhas outras tias e de minha mãe, e é certo que mesmo elas não tiveram um contato mais próximo e demorado com ele nestes últimos anos. O que eu poderia conversar com ele? Esta dúvida me trouxe uma ponta de apreensão. Sou urbano até a medula e me distanciei bastante deste ambiente campestre. Sei conversar sobre muita coisa, quase sempre coisas afeitas aos cidadãos que se espremem nas cidades onde tudo ou quase tudo chega à porta sem atropelos, onde tudo ou quase tudo ficou tão disponível que a maior luta é com a capacidade de pagar as contas desta facilidade na ponta dos dedos,

    Faço um esforço extra para me colocar mentalmente na posição de alguém que a cada dia se levanta com a primeira claridade e logo está com seus apetrechos à mão para cumprir suas tarefas diuturnas, e cuidar sempre para que o solo, seu solo tão querido e sagrado, esteja acarinhado e receptivo e desta forma possa retribuir na forma de frutos e folhas, ramos e grãos, talos e caules, sementes e alimento. E que suas criações estejam saudáveis.

   Assim já fui criando diálogos onde eu sempre sou o ponto de partida: “Olá tio, então me diga: como vai sua plantação? Tem vendido seus animais com lucro? Seu retorno financeiro está condizente? O que tem feito para aplicar seu dinheiro? Se quiser eu terei o maior prazer de ser seu consultor”, ou coisas do tipo. Como serei recebido? Como eu receberia alguém que estivesse separado no tempo e no espaço, sendo que nem os vizinhos de porta, e que vejo todos os dias, eu consigo imaginar entrando em minha casa, ou os colegas no trabalho, que a muito custo eu confraternizo, e mesmo assim somente aos finais de ano ou nos eventos institucionais obrigatórios. Não que eu seja um eremita ou antissocial, mas tal é o estado de coisas na sociedade. Não sou o único e atestei isso pouco antes na parada para o lanche. Interação. Socialização. Civilidade. Belas palavras, mas na prática...

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     Entrei na cidade mais próxima e minha viagem está acabando. Quem sabe estivesse só começando? Vejo que muita coisa está diferente, afinal já são quinze anos. Casas novas, ruas novas, mais automóveis, o comércio mais diversificado. Serão meus olhos ou esta vontade renovada pela viagem é que me pôs lentes mais favoráveis? Vejo sinais de progresso ou é somente uma demão nova de tinta numa parede desgastada?

    Olha para as pessoas que transitam ao lado da estrada. De bicicleta, em pequenas motocicletas ou a pé lá vão elas atravessar mais um dia. Estão apressadas, estão atarefadas, será que até aqui o passo acelerado da vida moderna se instalou? Não há mais refúgios de paz neste mundo e esta sentença me chega aos ouvidos como um golpe fatal. Minha certeza sofre um abalo.

    Mas não rodei tantos quilômetros para ficar neste estado de alma. Após tantos adiamentos e tantas considerações, tantas providências e tanta espera cá estou. Resolvi parar mais uma vez antes do entroncamento que nos leva à estrada de terra final, e antes da porteira do sítio. Vou vasculhar a memória atrás daquelas lembranças ainda tão saborosas, de todas aquelas férias junto com os primos e primas, amigos e amigas. Quem sabe era o olhar ainda ingênuo de criança, mas eu tenho certeza de que meu tio gostava destes momentos com o sítio cheio. Lembro muito bem dele com sua pele curtida dirigindo a charrete cheia de crianças aos gritos e risos, como se aqueles dias nunca fossem terminar. Ou dos banhos no lago nos dias mais quentes do verão. E às tardes íamos todos pela trilha que dava no alto do morro. Certa vez levamos colchonetes e cobertores para passar a noite sob as estrelas, contando histórias de terror e assombrações. Fizemos fogueira, estouramos pipoca, comemos sanduíches, trememos de medo dizendo que o tremor era do frio e não das histórias, apesar da noite quente de verão. Noites assim não deveriam terminar jamais, e de fato elas nunca terminam na nossa mente, elas guardam um lugar vitalício na memória mais afetiva e profunda.

     Me dei conta de que jamais trouxera meu filho, ele nasceu bem depois da última visita. Nem sei ao certo se ele sentiria prazer nestes passeios tão singelos. Também não sei se alguma vez eu contei destes dias com a ênfase merecida. O mundo está ficando virtual e as crianças estão ficando mais inteligentes e minhas cicatrizes não têm o mesmo impacto e interesse que uma tatuagem da moda.

    Não importa agora, quero me apegar à estas memórias. Lembrar das minhas tias e das conversas na grande sala com sua grande mesa de madeira e as doze cadeiras, quase sempre ocupadas. Não haviam TV’s para sugar a atenção, portanto as conversas fluíam animadamente até que os bocejos insistentes viessem avisar que a madrugada chegara, e o sono começava a vencer a disputa com os assuntos. Retiravam-se todos pois amanhã tudo de novo, novas conversas e quem sabe jogos e brincadeiras ocupariam a grande mesa de madeira.

   Sim, meu tio ficava feliz. Disso eu tenho certeza. Isso eu posso assegurar. Eram os melhores dias? Quem sabe? Só sei que estas lembranças nunca se apagaram e sempre me apegaram. Muitos anos se passaram, poucas pessoas se perderam nas estradas da vida, mas uma reunião nos moldes de antigamente é quase uma miragem, é quase uma impossibilidade porque o mundo, com seus múltiplos e poderosos tentáculos, tem uma predileção especial por separar.

    Então eu vim sozinho. E assim será. Meu tio me espera só. Teremos assunto para tanto? Terei a prova de que minha vida terá sido interessante o suficiente para gerar motivos e vontade de contar as novidades?

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    “A vida é aquilo que acontece enquanto pagamos as contas do mês”. Esta frase veio cambaleando entre as sinapses da minha mente até chegar na ponta da língua. Mas não foi dita, só foi pensada. E assim o tempo passa, quando terminei de pagar a última conta de um mês já penso na próxima conta, dois dias depois da penúltima. Como será que meu tio lida com estas questões?

    Creio que esta viagem está desobstruindo alguns canais adormecidos na minha cabeça, porque eu jamais havia pensado nestes assuntos tão triviais, e somente hoje eu já me deparei com tantas indagações e observações do ambiente ao redor. Será que estou ficando dormente, como um braço que receba todo o peso do corpo durante o sono que quando acordamos parece ser o braço de outra pessoa, apenas um monte de carne flácida? Será que me tornei um monte de carne flácida? Minha pele sempre coberta dos pés à cabeça tem pouco contato com a luz solar, meus pés nunca pisam o chão sem meias para intermediar o impacto. Foi para isso que fomos criados ?

     As nuvens estão ficando mais grossas conforme eu observo, aqui, parado em pensamentos desgovernados, ansioso por conta de tudo o que já relatei, pela longa espera, pelas ternas lembranças, pela expectativa, e por que não dizer, por toda a saudade acumulada. Tudo ao redor está diferente. E por que deveria estar igual? “Nada do que foi será de novo, do jeito que já foi um dia”, diz a canção. O que está me segurando? Minhas mãos largaram o volante e de repente pesam dez toneladas. Meus braços ficaram estáticos, alheios à minha vontade. Não vim até aqui para parar e ficar, a vida é movimento, o vento de súbito sopra mais forte e arrasta as nuvens mais grossas. O Sol intenso está de volta com toda a sua beleza, e toda esta beleza cauterizou as correntes que estavam prendendo meus braços, minhas pernas e meu corpo. Engatei a marcha, pisei no acelerador com força e saí daquela encruzilhada. Agora faltam poucos quilômetros de terra batida e seca até a porta do sítio.

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     Ao chegar à cancela do sítio lá estava ele. Reconheci de imediato e parece que os quinze anos de hiato não tiveram a menor importância. O chapeuzinho no alto da cabeça, as botinas manchadas de barro, a camisa xadrez, parece que não havia trocado a roupa nesta década e meia de ausência, e isso logo de cara me trouxe um conforto sem paralelo. Igual a um elemental, como se fosse feito de barro e gotas de chuva, adâmico. Desci do carro meio anestesiado, com as pernas meio dormentes, a circulação sanguínea um pouco paralisada, coisas de quem não está acostumado com longas viagens de carro e fui de encontro aos seus braços já estendidos:

 - Meu sobrinho!!! 

-Tio Zé, que saudade!

     Um simples abraço não cura quinze anos de saudades e boas lembranças, pensei que teríamos muito por conversar.

-Entre, vamos, já estava te esperando.

 -Entre no carro, não posso deixá-lo aqui fora.

 -Ora, ninguém vai mexer no seu carro, depois você pega 

-Não Tio, se bem me lembro é um longo estirão até sua casa. 

-Está bem então.

     Poucos minutos depois estávamos em frente à porta. Com a cabeça transbordando de memórias quase imediatas pois tudo, todos os veios das madeiras e as telhas, todas as janelas, todo o caminho era meu velho conhecido, é impressionante como guardamos tantas coisas num espaço tão reduzido entre os olhos e a nuca. Já era de tarde e percebi que estava com fome.

- Você deve estar com fome. 

-Tio, como adivinhou? E como sabia a que horas eu chegaria, para ficar me esperando? 

- O vento me avisa, respondeu enigmático e lacônico. Já estou com a mesa posta.

 -Temos muito para conversar 

-Sim, é claro. Mas somente com a barriga cheia as palavras terão força para pular da língua para os lábios e daí para os ouvidos, não é mesmo? 

- O senhor está sempre certo, e rimos bastante com esta imagem inusitada.

   Comi como se estivesse me preparando para uma jornada de trabalho no campo. Meu apetite havia despertado feroz e impetuoso, nem lembrei das azias e indisposições, e dos sais de frutas e pastilhas antiácidas que substituíram as balas e jujubas da feliz infância. E ainda tive espaço para as frutas de sobremesa.

 - Para arrematar tudo aqui vai uma “marvada” especial, direto do alambique. "Guardei para brindar com meu sobrinho mais querido".

   E ao ouvir isto um velho sorriso brotou de algum lugar entre o estômago saciado e o coração acalentado, pulando sem freios para os lábios e os olhos.

- Você deve estar bem cansado. Seu quarto já está preparado. Tire aquela soneca que recupera até o mais judiado dos peões e amanhã nós retomamos do ponto onde havíamos parado.

-Sim, tio. Não tenho como recusar esta oferta. Nestes momentos é que percebo o quanto eu estou fora de forma. A vida no conforto me deixou muito mole. 

-Descanse hoje porque amanhã vou colocar você na lida. Vamos crescer uns calos nessas mãos, que estão muito finas. 

    Fiz questão de deixar as janelas do quarto abertas para que fosse despertado pelos primeiros brilhos da manhã. Um vento forte sacudia as cortinas e o cheiro do campo chegou às minhas narinas antes que meus olhos estivessem abertos. Fiquei vários minutos estirado na cama implorando que a preguiça fosse embora, e quando ela se retirou me levantei bem-disposto e pronto para o que desse e viesse.

    Meu tio já me aguardava para a primeira refeição do dia. Pensei comigo mesmo “como ele consegue estar sempre pronto?”. Já bastante curtido pela vida e pelo tempo, eu fiz os cálculos e me dei conta que ele já passava dos setenta anos. Tirando a pele já enrugada pelo tempo e pelos sóis, chuvas e ventos que escorreram neste rosto e corpo ele esbanjava uma vivacidade e uma firmeza incompatíveis com a idade biológica.

- Bom dia Tio, dormiste bem?

 -Sim, sempre durmo bem. E você? 

-Não lembro de ter dormido assim em muitos e muitos anos. Fiz questão de ser acordado pela alvorada.

 -A alvorada é o melhor despertador que conheço, junto com os galos. 

-Eu só desperto com meu celular tocando uma trilha suave, feita para induzir o corpo a um tranquilo despertar. Mas troco o toque toda semana pois logo me enjoa e mais tenho de vontade de arremessar o maldito aparelho na parede. Ontem eu lembrei a tempo de cancelar a programação.

 - Ah, a vida na cidade é sempre difícil, não é mesmo?  

-Nem me diga. A vida moderna está muito difícil, muita gente está ficando doente e nem percebe.

 -Mesmo de longe eu acompanho, ou tento acompanhar o que acontece no mundo, e suas tias me contam muitas coisas quando as vejo.

 - Foi a vida que escolhi 

-Escolheu ou foi escolhido? 

-Não sei ao certo.

-Bom, chega por hora. Está disposto ao trabalho?

 -Acordei muito bem-disposto, mas não exagere tio. Pega leve comigo, hein? 

-Fique tranquilo, eu já reparei nas suas mãos finas.

 -Então vamos.

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      Busquei trajes mais adequados e logo estávamos na carroça. A grama estava alta e as árvores sacudiam calmamente nesta manhã plena de vento e Sol. Seguimos em silêncio saboreando este momento tão sereno. O ambiente ao redor estava tão envolvido numa paz que os sons de uma voz humana seriam inconvenientes, diria até que seriam nocivos e perturbariam o sutil equilíbrio dos elementos. Eu até tentei falar alguma coisa no início da jornada, mas olhei meu tio ao meu lado e a sua expressão tão benfazeja me transmitiu de imediato um pedido de silêncio sem precisar de palavras. Não me restou nada além de concordar.

   Chegamos ao campo arado, já preparado para receber as sementes da próxima safra. Três trabalhadores já estavam em atividade. Reconheci dois deles dos meus tempos de infância e juventude, o Antônio e o Tomé, agora já bastante maduros. Tantas memórias e tantas surpresas. Lembro deles quase garotos, garotos mais velhos do que eu, é claro, e muitas vezes entravam nas brincadeiras e nos passeios junto com o resto da criançada. E aqui estão ainda, depois de tantos anos. Também têm raízes muito profundas, raízes difíceis de serem cortadas, raízes que se dirigem ao coração da terra.

   Apeamos da carroça e quase de imediato os dois vieram em minha direção, para me cumprimentar:

- Eita que não é o garoto bom da cidade! Vixe, já tá com cabelo branco! 

- Quanto tempo, hein? E vocês ainda lembram de mim! 

- E num havera de esquecer! O sobrinho preferido do Seu Zé Raimundo. 

- Pois é, depois de quinze anos eu finalmente cheguei aqui. Fiquei muito contente de ver vocês. Vim pronto pra lida!

    Reparei que eles deram um sorriso meio zombeteiro quando disse isso e meu tio se meteu na conversa: -Pois é Antonio e Tomé, ele chegou cheio de disposição. Vamos ver quanto dura esta disposição. Todos riram muito e fiquei um pouco sem graça.

   Em menos de uma hora de atividade eu já estava vermelho, suando em bicas e com a respiração pesada. Em cerca de duas horas as câimbras começaram a me martirizar. Lá pela terceira hora eu parei e olhei os quatro homens, todos firmes, concentrados e com uma expressão de satisfação nos rostos marcados. Meu tio liderava esta pequena equipe. Seu ritmo era impressionante de acompanhar. Como pode um homem desta idade estar com esta energia toda?

    Cheguei rápido à conclusão que cada macaco fica melhor no seu galho. Não fui talhado para esta vida. Brincar e correr nos campos naqueles dias róseos da infância é uma coisa, ganhar a vida nestes mesmos campos é algo bem, bem diferente. Apesar das luvas que estava usando, minhas mãos já carregavam bolhas bem pronunciadas. Quando por fim fui dar um passo e minha perna direita deu aquela contorção marcante de câimbra, caí ao chão e gritei por ajuda, cheio de dor. Eles largaram tudo e correram em minha direção. Pouco depois eu já refeito da dor e do incômodo, só tive condições de dizer: “Eu não posso mais”

- Meu sobrinho eu já sabia, só deixei você vir porque vi a sua alegria e sua boa intenção. Mas não se preocupe, já foi o bastante. Descanse ali debaixo da árvore e se refaça. 

      Os outros trabalhadores me dirigiram um olhar não de desprezo, mas de uma sagacidade incomum: “Nós, na cidade, também ficaríamos perdidos. Não se pode esperar que um cavalo haja como uma  tartaruga, assim como não se pode esperar que uma tartaruga haja como um cavalo”

     Embaixo da árvore, já mais calmo e descansado, me peguei a pensar:” de onde me veio esta ideia absurda de achar que poderia trabalhar como um peão de fazenda?” “Eu não piso nem no chão liso de casa com os pés descalços!”. Bastante envergonhado esperei o final do trabalho para voltar para casa e esperar uma noite de sono pesado.