Já de volta à casa, com o Sol indo se ocultar deste lado ocidental e Vênus se insinuando na linha do horizonte, eu só ansiava por um banho morno que me lavasse e levasse pelo ralo um pouco das dores tão duramente experimentadas ao longo do dia. Ao abrir a torneira um jorro de água fria foi um choque neste espírito alquebrado. Quinze anos é bastante tempo para esquecer que as benesses e as facilidades da vida urbana nem sempre estão disponíveis nestes rincões, e além do mais meu tio é um tanto ou quanto reticente em se tratando de abraçar as modernidades e as facilidades. Ele é feito da terra, um ser adâmico, mais argila do que porcelana. E então, suspender o banho e esperar um balde de água a ser esquentado no fogão, ou respirar fundo e enfrentar a água fria? A água fria acabou vencendo.
Logo o aroma de uma comida caseira invadiu o ambiente. Era hora do jantar. Desci para a cozinha e tudo já estava disposto sobre a mesa. O apetite suplantava o cansaço e a dor e logo vastas porções desciam goela abaixo. Devo admitir que o sabor estava quase surreal de tão bom. Comi quase como se estivesse possesso por um espírito colocado em jejum eterno em busca da refeição perdida. A fome era tanta e a sofreguidão das garfadas deixaram de lado os bons modos à mesa, a sede concorria com a fome e para vencê-la enormes goles de água rolavam garganta abaixo. Acho que neste momento, sem muitos freios e refinamentos, eu havia invocado algum espírito primitivo dentro de mim, desconhecido de mim mesmo, à espreita esperando se livrar dos grilhões da civilidade. Após alguns minutos neste embate e quase saciado eu cruzei o olhar com meu tio, que sorria satisfeito.
- Assim é que eu gosto! Disse ele piscando um olho zombeteiro, maroto mas infantil no melhor sentido que a palavra possa ter. Um olhar cúmplice e solidário, com a total compreensão do que o meu corpo alquebrado estava sentindo e do que precisava para se recuperar.
- Eu sei meu sobrinho que você não é feito para este trabalho pesado, mas vi a sua boa vontade e seu empenho. São muitos anos até que o corpo se amolde e crie temperança para vencer a queda de braço com a natureza, até o momento em que a natureza se torne parceira e não o capataz com um chicote pronto para estalar em suas costas vergadas. É um longo e solitário aprendizado, que requer paciência até aquele momento em que você olha para o céu e o Sol sorri pra você, e te certifica. A partir deste momento a união com a terra é definitiva.
Fiquei em silêncio tentando absorver estas palavras. Para alguém tão simples, sem tantas elaborações mentais, sem o trato e o verniz comuns aqueles que vivem na sociedade moderna e educada, a beleza e a sonoridade destas frases me surpreenderam. Talvez fosse por conta de ter a emoção do estômago saciado, mas por um momento eu desconhecia aquele homem que eu acompanhava desde a mais tenra infância. Ou quem sabe o preconceito e o desdém para com os que vivem esta vida agrária, e que está latente dentro de mim, me impeçam de enxergar. Os quinze anos de distância também tem grande papel nesta história, o tempo afasta e esfria, enfraquece a união, estremece os elos. Por que ter como certo que quem tem as mãos tão calejadas seja incapaz de um pensamento elaborado.
-É, meu tio. Eu tive uma bela lição hoje. Bela e dolorosa. Criei muita expectativa e cheguei achando que podia tudo, ou que podia muito. Mas vi que posso muito pouco. Estou até envergonhado.
- Ora, não se envergonhe. É falta de prática. Quanto tempo você quer ficar aqui?
-Ah, ficarei poucos dias. Não sei com certeza.
- Então descanse amanhã e depois de amanhã tente de novo, mas vá mais devagar. Não falta é trabalho a ser feito. Amanhã vá andar pelo sítio, visitar seus lugares preferidos. Vá até o alto do morro, eu construí um mirante, ficou muito bonito!
-Com certeza que eu farei isto. Vim matar as saudades de tudo e todos.
Após esta conversa ficamos em silêncio saboreando a sobremesa e a “marvada” caseira, de sabor adocicado e encorpado. Espichei os ouvidos em busca dos sons noturnos. Grilos e sapos, rãs e vagalumes, corujas a postos para mais uma jornada de caça. O recolhimento. O silêncio. A noite estrelada ao alcance bem aqui na varanda. Um teto de tênues luzes tão longínquas, mas que aqui se contam aos milhares. Esqueci que existem tantas estrêlas. Esqueci que o silêncio aqui é quase ensurdecedor, que o vento morno faz as árvores cantarem uma cantiga imemorial, e que a voz humana dissona nesta sinfonia. Devemos pedir licença para falar e não desperdiçar palavras inúteis, muitas vezes agressivas, muitas vezes vazias, deslocadas, impróprias, malfazejas, vis. Devemos polir as palavras para que elas reluzam na presença de um raio de luar tão puro, e na fagulha débil de uma estrêla tão majestosa, mas que a distância nos faz esquecer a sua magnificência. O ar calmo tem o poder de depurar nossos pensamentos, e até um ser mediano e limitado como eu consegue ter, ou pretende ter, a petulância de pensar em termos tão elevados. Quem sabe é o efeito da aguardente? O que isto importa? Estou pensando demais sem ter o treino necessário para pensar demais, e a mente começa a divagar mais ainda. Acho que o sono chegou. Boa noite tio.
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No dia seguinte logo cedo, após um farto e revigorante café da manhã, eu acatei a sugestão e saí pelo sítio afora. Queria ver com mais atenção se havia muita mudança em relação ao que a minha memória ainda guardava de lembranças. Tomei um rumo diferente e desviei das terras aradas e preparadas para a próxima safra. Fui em direção ao lago, na parte sul. Os dias de Sol têm sido constantes e clementes, e o vento calmo e morno não se retirou após a noite passada repleta de reflexões.
A trilha pouco havia mudado, agora tinha mais pedras pequenas e arbustos. As árvores muito copadas despontavam ao redor, algumas já antigas e outras em pleno vigor. Eram motivo de orgulho do meu tio, muitas tendo sido plantadas por ele em sua juventude, dando frutos em quantidade, dando sombra em abundância, dando apoio aos pássaros e esquilos, dando casa e abrigo quando necessário, parte fundamental daquela rede invisível aos olhos humanos destreinados e que sustentam o ciclo da vida vegetal.
Os insetos zumbiam por todo o ambiente, pulando, voando, rastejando, cuidando da propria vida. Nuvens brancas deslizam alto no céu. O suor escorre pela minha testa e pelas minhas costas, mas eu me sinto bem, me sinto forte de novo, me sinto satisfeito. Aperto o passo e quero chegar logo na margem do lago.
Após andar por cerca de dois quilômetros uma clareira se aproxima e eu chego finalmente ao lago. A visão de suas margens de imediato inunda minha memória com as mais deliciosas lembranças que alguém possa ter experimentado. O garoto de sete anos despertou com força neste corpo de adulto acomodado e engordurado, de pele fina e frágil protegida por tecidos finos e caros. Ao mesmo tempo em que quero olhar suas águas calmas, eu cerro os olhos para lembrar dos rostos dos primos e primas, dos amigos e amigas, todos alegres e pulando na água, espirrando água para todos os lados, gritando, pulando, nadando até ficar com os dedos enrugados.
Descalço meus pés e afundo minha perna na água fria. Um choque seguido de um alívio. Avanço aos poucos me acostumando com a temperatura da água. Já estou com metade do corpo imerso e decido me auto-batizar. Um mergulho e o corpo todo se entrega àquela pia baptismal sem nenhum celebrante. A natureza me consagra, a natureza é Deus sem intermediários, é a comunhão mais sagrada. Não preciso de intermediários. A solidão deste momento é a única testemunha que eu preciso. Olho ao redor e confirmo esta solidão. Fico no mais profundo silêncio por incontáveis minutos, fecho os olhos como se quisesse gravar de modo indelével na memória todas as sensações deste instante e que nada escapasse, e meus olhos fechados vigiariam e encerrariam para sempre no mais profundo do meu íntimo. Ninguém precisa saber, à ninguém importa saber e com ninguém eu preciso e gostaria de compartilhar.
A manhã segue seu rumo e seu ritmo normal, aquele ritmo que foi estabelecido para facilitar as transações comerciais e os negócios tão necessários ao progresso do mundo, mas eu transito num tempo diferente agora. Chame de êxtase, ou qualquer outro termo equivalente, mas o tempo havia parado para mim nesta manhã que, desconhecendo quem eu era ou sem se importar com o que eu sentia, avançava em seu rumo normal e o Sol já se posicionava por sobre as cabeças, naquela posição que os astrônomos chamam de zênite. Nos dias comuns eu estaria já pensando onde iria almoçar e o que eu gostaria de comer.
Mas eu continuo aqui parado, molhado, no meio do lago, sorrindo por dentro, saudoso de meus primos e primas, amigos e amigas, invocando a alegria, a euforia e a energia bruta e pura do garoto de sete anos. Estes momentos são tão raros, tão puros e tão vitais que se renova a vontade de se recontratar uma nova e grande extensão do contrato ao qual chamamos de “vida”. Não que jamais tenha passado pela minha pobre e reles cabeça a mera menção de interromper a minha vida, porém este curto e proveitoso momento aguçou a vontade de ficar um pouco mais por estas paragens terrestres.
A água fria mas já acostumada e diria até que aconchegante me envolvia num abraço líquido e salutar, mas há muito mais a ser revisto. Lembrei de imediato do morro e de seu mirante, o que seria novidade para mim. Me soltei deste abraço líquido e voltei para a margem, calcei os pés novamente e sem mais demora segui caminhando em direção ao morro. Mais três quilômetros de caminhada agora com o terreno se inclinando levemente. Fui secando ao vento e ao Sol, me surpreendendo comigo mesmo por este desapego ao conforto, o que é tão estranho para meus hábitos tão regrados, tão mecânicos e tão aborrecidos.
Alguns tropeços aqui e ali, alguns mosquitos rechaçados com as mãos, nada que possa me interromper ou me desgastar, creio que nada poderia me interromper ou me aborrecer hoje. Sigo num ritmo firme com o coração batendo forte e feliz. A tarde se impõe por sobre todas as coisas nesta fração de mundo. O terreno se inclina um pouco mais a cada passo e eu já vejo o topo do morro. Cada paragem, cada canto da propriedade me trás uma bagagem de emoções e lembranças. O vento se encorpa e me ajuda, me impulsiona ao alto. Era bem mais fácil subir no morro, de acordo com as minhas lembranças, mas não importa. Sei que os muitos quilos e os muitos anos pesando nos joelhos e ombros são um preço a ser pago. Mas nada pode me interromper ou me aborrecer hoje. As árvores vão rareando, se espaçando, e as pedras vão rolando à medida que meus pés escorregam aqui e ali na trilha. O Sol já começa a se inclinar piscando um olho para o Oeste.
Cheguei ao topo enfim. Cansado mas contente, com a respiração pesada e acelerada e o coração quase me dizendo envergonhado que é hora de parar um pouco. Me aprumo e olho o mundo de cima. Um mundo de colinas ao longe, e um manto verde exuberante. Como é bela a vista deste alto de mundo, e como esta vista é tão exclusiva, como se eu fosse um conde ou coisa parecida, imponente, a contemplar meus domínios banhados pela luz de um dia infinito.
O tempo havia parado mais uma vez. Eu tive este poder em minhas mãos hoje. Um retrospecto, uma revisitação e uma análise instantânea de minha vida neste alto de morro. Tudo se passou num piscar de olhos, e este é um aspecto muito curioso deste ente imperdoável chamado tempo, este algoz, este magistrado supremo, de poder absoluto, de apetite voraz e surdo aos pedidos de uma extensão, do momento mais intenso, mais propício, mais feliz. Não, apenas aproveite o momento que lhe foi dado e deixe de lamentações. Passou e é passado, apenas se conforme.
De repente, como um raio inesperado que corta um céu azul de brilho intenso, e ruge ameaçando a existência e a segurança tão duramente mantida, a percepção da pequenez, da insignificância, da mortalidade, da irrelevância e da finitude me atingiram com força desproporcional. Talvez estivesse em êxtase por muito tempo e desta forma havia me colocado desguarnecido, minhas defesas abaixadas me deixaram fraco, e este momento infinitesimal me atingiu em cheio. Tão súbito que demorei a entender o que estava acontecendo. Nem sei se entendi o que aconteceu, para ser sincero. Só sei que, como por algum feitiço ou manobra urdida por algum espírito debochado e vingativo, destes que nunca deixam os pobres seres humanos reles e débeis, rasteiros e limitados em paz, eu me senti muito pequeno, me senti inútil, me senti sozinho na rampa escorregadia do precipício. Num canto escuro e esquecido, bem dentro, mas bem dentro mesmo do meu íntimo, uma pergunta escapa: “Eu não tenho direito a me sentir feliz?”
Como que por encanto, ou desencanto, a paisagem havia mudado completamente. Nuvens se adensavam e se encorpavam, passando de um branco imaculado para um cinza pesado e pesaroso. O verde derramado pelas encostas se tingira de um tom lúgubre, e um cansaço inesperado e indesejado se apoderou de todo o meu corpo. Quase que por reflexo, me quedei e fiquei de joelhos, de cabeça baixa a pressentir uma espada sendo baixada impiedosamente para levar minha cabeça embora.
Por quê? Por quê esta mudança tão brusca e súbita? Fiquei assustado, fiquei decepcionado, fiquei desamparado, e toda a solidez e segurança que julgava ter alcançado na vida escorreu das minhas mãos de forma melancólica neste topo de morro, onde tantas lembranças alegres deveriam ser celebradas neste retorno. Fiquei deitado e imóvel por não sei quanto tempo. Adormeci profundamente, quem sabe se por conta do esforço e do cansaço, certamente por isso. Prefiro esta hipótese à ideia de que pudesse minha vida estar sendo um logro todo este tempo e só hoje me dei conta?
Quando despertei o céu estrelado ocupava toda a abóboda celeste, num espetáculo que parecia estar se manifestando somente a alguns metros acima da minha cabeça. O vento havia parado mas eu sentia frio. E sentia um gosto amargo na boca, assim como sentia um peso enorme sobre as costas. Sobretudo pressentia que uma reflexão mais profunda precisava ser encarada por mim. Quem sabe os fantasmas protagonistas daquelas histórias de terror que tanto nos aterrorizavam quando montávamos barracas para passar a noite aqui estão ao redor para mais uma vez me assustar. Porém fantasmas não existem, só a vida real existe. Só existe aquela vida mundana de restrições e escassez, de compromissos e obrigações, de aborrecimentos e decepções.
“Mas é só isso mesmo?” Pensei enquanto levantava e me aprumava, porque precisava voltar para o casarão e repousar num colchão macio forrado com lençóis limpos. Já devia ser por volta das nove horas da noite e o caminho de volta seria mais longo porque escuro se fazia.
Desci rapidamente, escorregando muitas vezes, tropeçando, me arranhando, impelido pelo impacto de momentos tão intensos. Apesar do escuro e da noite alta meus olhos não encontraram muitas dificuldades em achar o caminho de volta para o casarão. Cheguei perto das onze horas e meu tio me recebeu um tanto preocupado.
-Meu sobrinho, o que houve ?
-Ah tio, tive um dia bem intenso e estranho hoje. Fui até o lago e depois subi ao topo do morro. Quis matar as saudades e acabei adormecendo no alto do morro. Em resumo foi esse o meu dia.
-Você deve estar com fome e muito cansado.
-Nem sei dizer se estou com fome, mas cansado eu estou e muito, pois vim tateando o caminho no escuro, caí algumas vezes e estou com arranhões, mas nada de mais. Acho que vou tomar um banho e dormir.
- Hoje eu preparei a água quente para você.
-Ah, vai cair muito bem nesta carcaça cansada! Obrigado e boa noite tio.
-Boa noite.
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A água morna foi como um abraço de boas vindas e uma recompensa pela aventura. Pedi perdão pelo desperdício mas fiquei muitos minutos somente com a água quente a me acariciar, cansado demais para qualquer reflexão. Em outro momento eu vou pensar sobre tudo o que aconteceu hoje. Visto de fora, por um observador imparcial, o dia havia sido apenas prosaico, diria mesmo que banal, apenas um homem que sai de manhã sozinho, anda muito, chega num lago, mergulha, sai do lago, anda muito mais, sobe um morro, fica parado olhando a paisagem daquele ponto de vista altaneiro, o dia escurece, aquele homem adormece no alto do morro, desperta, desce o morro e volta para casa.
Mas visto de dentro parece que algo se rompeu, como um coágulo que tivesse se soltado dentro de um corpo. Será este o preço que se paga por estar completamente sozinho, sem nenhuma distração, sem nenhum subterfúgio, sem desculpas, o espelho em 360 graus que reflete de forma implacável a verdadeira imagem, não aquele que escolhemos ver ?
Foi uma noite de sono profundo mas intranquilo. O despertar assim amargo, quase uma queda da cama, expulsório. O corpo ainda cansado e ferido pede por mais tempo mas as obrigações impedem. Quantas horas dormidas? Não tenho ideia de que horas possam ser, porém já batem à minha porta avisando que o café está posto. Já passam das dez horas e eu não costumo dormir tanto assim. Vamos para mais um dia. O que será que me espera hoje? O que eu havia planejado para esta visita? Me dei conta que não havia planejado nada, apenas a vontade acumulada em quinze anos de voltar, mas não havia roteiro. Então se é assim vou deixar o acaso conduzir meu dia.
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O cheiro amistoso de um café fresco, novo, quente, pronto para amolecer o coração mais duro e os pães me receberam à mesa. Que estava mais uma vez posta com ingredientes simples e saborosos, nem luxo nem míngua, o sabor sem disfarces de uma casa sincera.
Meu corpo se ressente de um preparo melhor, alguns tombos que passaram despercebidos pela urgência da volta para casa no escuro agora estão em primeiro plano, e cobrando minha atenção. Acho que tudo dói, não somente as pernas, a sola do pé abrasada pela caminhada tão longa parece que vai rasgar a qualquer momento, e as mãos carregam arranhões e unhas ainda sujas, um banho só mesmo demorado e aliviador não foi suficiente.
Ó animal urbano relaxado e amolecido, eis o preço de tamanho conforto buscado a todo custo! A terra é bela mas parece querer se vingar de seus filhos que lhe viram a cara e que lhe desprezam achando que tudo está dominado. O acaso vai conduzir o dia e agora o primeiro impulso é sair correndo, sumir deste ambiente rude e voltar para o piso frio de desenho e estilo requintado, para as paredes pintadas em cores suaves, para a iluminação controlada remotamente pelo celular, para a tela plana da TV de 70 polegadas, para a água previsível de meu banho diário, para a geladeira que avisa que os legumes estão acabando e para a rotina mecânica que me deixou de herança um trilho inamovível.
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- Meu sobrinho, que olhar perdido é este? Eu perguntei o que você quer fazer hoje mas parece que você não me ouviu.
- Tio, me desculpe mas acho que fiquei tão cansado com a caminhada ontem que ainda não me recuperei. Não ouvi o que disse.
- Reparei que você está com vários arranhões…
- É, eu acabei caindo várias vezes, tropeçando nas raízes, galhos soltos e pedras, porque eu adormeci no alto do morro e quando acordei já estava escuro. Fiquei preocupado de você estar preocupado e desci mais rápido do que podia. Hoje estou mais quebrado do que arroz de terceira, como dizem.
- Está recuperando as lembranças?
- Sim. Ontem, apesar dos percalços, foi um dia muito especial para mim, com momentos intensos, difíceis mas intensos. Esta viagem está me purificando, e ao mesmo tempo me dando um banho de realidade. Não deveria ter demorado tanto para voltar aqui.
- Pois então aproveite cada momento. Sabe, eu estou curtido pelas intempéries e consigo enxergar longe e fundo. Você esteve ausente por muito tempo mas eu percebo suas expressões e sinto e leio cada linha de seu rosto. Você, para mim, ainda é e sempre será aquele garoto alegre, cheio de energia, de olhar atento, pronto para correr e pular, pronto para escutar as conversas e os casos, com fome de vida, com fome de saber sobre tudo, que queria pegar o Sol com as mãos, que dormia contando as estrêlas, que acordava com os galos e que dava muito contentamento. Eu não tive filhos meus e você preenchia este vazio. Eu sei que a vida pesa sobre todos os ombros e a vida separa. Sei que você estava no caminho certo e fez o que se espera de todos ou quase todos. Mas também sei que sempre falta algo, ninguém é completo. Eu me casei com a minha terra, eu me uni com este pedaço de chão e fui feliz porque sei do meu espaço e dos meus limites, sei que fora daqui eu não sobreviveria. E cada um tem o seu mister, o seu quinhão, seu destino. Não espero por muito mais e nem por muito tempo, só espero humildemente que minha partida seja rápida e justa, pois sempre fui justo e de bons pensamentos, e então só espero ser recompensado no momento final por isto. No mais é só manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo, enquanto o coração durar e bater.
- Tio, espero que você não esteja se despedindo de mim.
- Não, não, mas nunca se sabe. São apenas pensamentos soltos de um velho sozinho na maior parte do tempo. E então, o que você quer fazer hoje?
- Eu quero ficar quieto e em silêncio.
- Eu esperava que você dissesse isto. Eu não vou mais te incomodar por hoje.
- Não, tio. Você nunca me incomoda.
Terminamos o café da manhã, demos um abraço longo e afetuoso e me dirigi para o alpendre da casa. O Sol um tanto mais pálido nesta manhã parecia entender o meu estado de espírito. Um Sol mais tímido e reservado que não inspirava movimentos mais expansivos. Um vagar, uma instropecção, o comedimento, depois de um dia pleno de esforço, emoções viscerais, choque e espanto. Além do mais é preciso ouvir o que o corpo pede, e o corpo hoje pede descanso, não contrarie o seu veículo, pois seu veículo sabe por instinto até onde pode te levar. A mente controla o corpo ou o corpo controla a mente? Eu não sei. Só sei que minhas contusões são reais e eu vou ficar neste dia de hoje como um animal ferido lambendo suas feridas até que cicatrizem.
E assim transcorreu a maior parte do dia, comigo sentado numa rústica cadeira de balanço a farejar o vento que trazia pequenas porções de aromas, alguns familiares e outros mais distantes e ignorados. Meu tio havia saído para sua labuta diuturna, junto com os demais empregados. Nem por um segundo me passou pela cabeça a vontade de ajudar na lida. Diria mais atrapalhar a lida. Estava precisando deste descanso.
Hoje é o quarto dia desde a chegada. Tenho tido momentos muito intensos, muito distantes da minha rotina, e a conta de tanto esforço chegou mais rápido do que esperava. Hoje é o dia do descanso, o dia de ficar de pernas para o ar, de sentir o cheiro do vento, de escutar os sons inaudíveis, os imperceptíveis, de treinar as narinas e as orelhas. Não quero pensar em nada muito profundo, isto será feito em outro momento. Fiquei assustado com o raio que me partiu a convicção arraigada? Certamente que sim, mas refletirei em outro momento e não agora, agora é o momento de sentir o cheiro da grama e do esterco dos animais, da terra remexida que acolheu as sementes, da lenha empilhada no galpão, das galinhas ciscando e a fumaça branda lambendo a chaminé. As horas passam devagar.
Acho que o que estou fazendo é meditação, mas não tenho certeza. Sei que a dor passa e uma tranquilidade se apossa do coração. Minha respiração é lenta e compassada, a tal ponto que eu presto atenção nela, coisa que não lembro de ter feito nunca. Talvez devesse estar incomodado com esta situação, em dias normais eu estaria incomodado, eu estaria ansioso por estar perdendo tempo sem produzir nada de útil. Útil para quem? Meu tempo em dias normais é como uma grade em que prendem várias tarefas que precisam ser cumpridas. Ao final do dia a sensação de que as tarefas continuam presas na grade me traz grande dissabor, e mais um antiácido desce garganta abaixo para aplacar o azedume do estômago.
Só que hoje não, hoje a grade sumiu e eu não quero saber onde está. Só quero identificar que cheiro foi esse que o vento trouxe. Um cheiro distante de fogueiras crepitando, um cheiro passageiro de folhas arrastadas pela brisa de primavera, o cheiro insuspeito do lago evaporando suas águas em pleno Sol de meio-dia, as plantas deitadas em sua margem cumprindo sua rotina de processos bioquímicos, tudo isso ao mesmo tempo e tudo isso está por aqui como sempre esteve, escapando aos sentidos entorpecidos e desatentos. Tudo parece tão simples e natural e no entanto tudo se reveste de um caráter sobrenatural. Despertei hoje de um sono pesado imposto pelas molduras de concreto, vidro e aço da vida moderna, tão grades quanto as barras de uma cela de prisão.
Me distraio por um segundo e olho meus pés feridos. A pele está queimada pelo Sol intenso. Olho meus braços e um tom avermelhado está visível. Gosto da cor! Passo a mão pelo rosto e os pelos de barba arranham minhas mãos. Devo estar com os cabelos desgrenhados e com uma aparência de desleixo e rusticidade. Que se foda! Estou longe de casa e longe da vida, daquela vida civil e insípida. Estou feliz? Nunca sei dizer se estou feliz mas estou contente, ah isso eu estou! Está valendo o esforço? Creio que sim, creio intensamente que sim. É uma fuga, é só um momento, eu sei, é só uma viagem, mas quantas emoções e sensações em tão pouco espaço de tempo! São muitos anos comprimidos em quatro dias, Será que toda a vida passada nestes muitos anos poderiam ser expressas por apenas quatro dias ?
Se for assim eu sinto muito, mas não tenho como recuperar todo o tempo perdido. Só tenho que aceitar o que agora é imutável, e este é um momento crítico em qualquer vida, o momento de um balanço profundo, de avaliação de muitas decisões tomadas consciente ou inconscientemente que definiram o mapa da vida. Fiz o que queria ou o que podia? Fiz o que devia ou fiz o que fui forçado a fazer, dadas as circunstâncias? Fiz o que o livre arbítrio me ditava ou fiz arbitrariamente coisas duvidosas? Fiz para agradar ou fiz para me agradar? Que poder eu tenho ?
Ôpa, péra um pouco! Ainda não estou no fim da linha, quer dizer, acho que não estou. Pela média e pelo andar desta carruagem nas previsíveis trilhas de uma vida pacata eu tenho quem sabe uns quarenta anos de vida pela frente. Sacudo a cabeça, abro os olhos, respiro fundo e resolve deixar para um outro momento tão profundas, sérias e difíceis resoluções e respostas. Respostas que jamais serão definitivas.
E com isso a tarde chegou e um sono malandro me cercou, e me convidou a esquecer tantas agruras e tantas indagações. Melhor neste momento é a companhia de um bom colchão, um travesseiro macio e o corpo na posição horizontal.
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Quando acordei a noite já estava alta. O cheiro do jantar se insinuou sorrateiro, sedutor e irresistível por entre as frestas da porta. Desci para a sala de jantar onde meu tio me aguardava para compartilhar uma ótima refeição.
-Meu sobrinho, eu vi que você achou melhor recuperar as energias em casa. Não quis te acordar, achei melhor deixá-lo em silêncio. Descansou?
-Muito! E como eu precisava, e como estou revigorado, parece que eu remocei uns vinte anos. Mas o cheiro da comida é mortal. Qual o segredo?
-Nenhum segredo, é uma comida caseira.
-Ela é especial.
-O que você fez hoje?
-Fiquei sentindo os cheiros que o vento trazia. E fiquei pensando, matutando, remoendo pensamentos. Fiquei comigo mesmo, fiquei me testando, fiquei me julgando, mas não cheguei a nenhuma conclusão. -Eu já estive nesta situação inúmeras vezes. Depois de algum tempo eu resolvi não mais me importar, porque cheguei a conclusão que não tinha resposta. E aceitei. Vi que era pequeno e simples demais para tamanha tarefa. E segui em frente. Algumas coisas estão além de nosso alcance.
- Eu estou em paz por agora. Não sei se em outro momento voltarei a ser atormentado por estas questões, talvez sim porque agora elas fazem parte de mim. De fato eu não sei se em algum momento antes da viagem eu me peguei pensando nestas questões. Acho que o ritmo da minha vida não deixa, e hoje, ou nestes dias em que cá estou alguma coisa diferente aconteceu comigo. No caminho para cá, na estrada, eu fui invadido por alguns pensamentos incomuns, algumas reflexões, algumas observações que jamais me ocorreram. Esta viagem está sendo reveladora para mim, de como eu estava inerte e automatizado.
- Pois é meu querido sobrinho. Eu sou só um matuto, lavrador, que não sabe muito das coisas do mundo, mas eu observo. E vejo que os moradores da cidade estão em busca de alguma coisa que nunca sabem, só percebem que falta uma parte, mas não sabem o quê. Com você não é diferente. Está no olhar, está na postura rígida dos corpos, está numa inquietude, num desassossego. Estão doentes e nem sabem. Estão se envenenando em pequenas doses diárias, mas tomam o veneno com gosto e justificativa. Não dormem bem, não comem bem, não se nutrem, não respiram de forma correta, não estão em paz e jamais estarão. Estão gastando seu dinheiro em coisas sem importância, se endividando em coisas sem sentido, dando nós nas cordas que lhe servirão de pêndulo no final. Mas eu não sei de nada e nada posso fazer, só receber de coração aberto e dar refúgio a quem me pede. Fiquei muito feliz com a sua vinda e vejo que neste momento você está bem. Procure manter este estado de coisas, o máximo que puder. Venha sempre que quiser, enquanto eu estiver por aqui.
- Meu tio acho que você disse tudo. Eu não tenho nada mais a dizer.
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Estas palavras entraram direto na mente e no coração. E por um momento muito breve eu senti uma tristeza imensa de saber que meu tio não estaria mais por aqui um dia destes. E neste momento muito breve eu percebi o quanto eu o amava. Ao mesmo tempo eu percebi uma força imensa e uma paz ainda mais luminosa. Quem sabe é o resultado desta força indefinível traduzida na palavra gasta chamada Amor, palavra de uso tão leviano e desleixado, de significado tão denso e profundo que é quase incompreensível para os meros mortais. Estava de novo no colo deste homem tão íntegro, da mesma forma de quando era criança e ele me amparava nos braços, e me levava nos ombros para passear pelos campos, rindo satisfeito, me mostrando as plantas, as flôres, as árvores, os insetos, assobiando querendo imitar o vento. Era um tempo feliz.
Senti que estava na hora de voltar para casa. Algo havia completado seu ciclo. Poderia, quem sabe, ser o ponto de mudança, de estar consciente, de buscar o que faltava. Quem sabe? Quem poderia saber? Só sei que continuava em paz e queria manter este estado indefinidamente. Esta viagem é o elixir da longa vida, quem sabe? Quem poderia saber? Ninguém, mas caberia a mim descobrir.
Me dirigi para o quarto em silêncio e fui arrumar minhas coisas. Não trouxera muito. Olhei as paredes, as janelas e a porta e já uma saudade enorme cobriu meu coração. Mas tinha certeza que era o momento de dizer adeus, mais do que isso eu já seria um incômodo e apesar de tudo, o resto da vida me espera em casa. Já era noite, resolvi dormir mais uma vez nesta cama aconchegante como um abraço. O sono veio rápido e certeiro. Sonhos em lugares paradisíacos ficaram em cartaz nesta noite especial.
Uma vez mais o cheiro insinuante do café chegou às minhas narinas com um suave despertar. As dores todas haviam passado e um banho matinal fez surgir novas energias neste corpo preguiçoso. Olhei a mala pronta no chão e um Sol sorria pela janela. Desci pela última vez a escada que levava até a cozinha. Meu tio já me aguardava com a mesa posta e um sorriso no rosto. Antes que eu dissesse qualquer palavra ele já me disse:
- Então já está na hora de ir embora e deixar seu velho tio para trás?
- Sim, tio. Com uma enorme dor no coração e na alma, mas a vida me espera.
- Eu sei. Você não faz ideia de quanto me fez bem vindo me visitar.
- O senhor também não faz ideia de quanto eu estou revigorado em ter vindo.
- Então vamos comemorar com este belo café da manhã, porque você precisa de energia e a estrada é longa.
E nos sentamos, comemos, bebemos, rimos, gargalhamos e nos emocionamos com velhas histórias e boas lembranças.
Chegou o momento de dizer adeus. Qualquer palavra, gesto ou frase não seria suficiente para expressar o sentimento. Poucos dias em quantidade, mas muito intensos em qualidade. Muitos anos de espera para um momento que passou muito rápido. É sempre assim.
- Tio, já vou. Está na hora de ir. Mais eu não posso dizer, porque as comportas de lágrimas estão prestes a se romper. - Ora, ora, porque segurar lágrimas? Lágrimas são feitas para limpar os corações e mentes, desde que sejam lágrimas sentidas e sinceras. Molhe meus ombros com esta água divina.
E o abraço mais sincero, apertado, caloroso e fraternal foi trocado entre aqueles dois homens simples, de sentimentos nobres, de alma pura, tão pura quanto possa para seres enviados para viver neste mundo imperfeito. Lágrimas rolavam pelas faces, pelos ombros, lágrimas de afeição, lágrimas de saudades, lágrimas sinceras de um amor incondicional. Lágrimas de pai para filho, mesmo que não sejam. Em momentos assim o Céu toca a Terra.
Ele me levou até o local onde meu carro estava parado me esperando. Abri, coloquei minha bagagem, dei partida no motor e deixei um breve aceno de mão indicando minha despedida. Ao passar pelo portão decidi não olhar para trás. No íntimo mais profundo, lá onde as convicções mais arraigadas teimam em criar raízes, eu soube que aquela seria a última vez.
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Estou de volta à casa e de volta para aquela rotina tão previsível quanto tranquilizadora. O hábito molda o corpo e afeta a alma. Não sou imune aos efeitos da pressão de um mundo avassalador, ninguém é. Todos os dias, qualquer dia, é dia de ganhar o pão, porque o pão não nos é dado de mão beijada, esse foi o legado que Adão deixou para sua descendência. Será que a maçã primordial pelo menos estava saborosa? Meses se passam sem alterações significativas, sempre o mesmo roteiro já decorado. Sou um número, sou uma célula, outro dente da engrenagem, outro contribuinte anônimo, outro transeunte deixando suas pegadas a serem apagadas pelos próximos passos que se sobrepõe aos meus. Assim vivemos felizes e satisfeitos. As solas dos meus pés afinaram de novo, lisas e brancas, limpas e asseadas. O tom de pele retrocedeu à sua trincheira, onde trava uma luta diária contra os efeitos malévolos de um Sol tornado inimigo pelos mais recentes estudos dermatológicos. Não posso mais sentir o vento e a quentura de um dia pleno de verão sem que a consciência cumpra seu papel de guardiã das melhores práticas de saúde. O topo da colina é coisa do passado.
Olho descuidadamente para minha caixa postal à espera das contas que chegam com regularidade, ou para a publicidade indesejada. Novidades tão inúteis que já não me dou ao trabalho de ler seus apelos, afinal quem precisa de uma lanterna do Exército americano que ilumina um bosque inteiro?
Até que numa sexta-feira qualquer recebo a notícia da passagem de meu Tio Zé Raimundo. A morte veio recebê-lo em um pequeno momento de descanso após o almoço no meio de um dia comum de trabalho em sua terra tão amada. Ninguém presenciou, pois um momento tão íntimo como este não precisa de testemunhas, mas se por algum efeito, truque, ou quem sabe sortilégio um espectador dotado de poderes além de nossa imaginação tivesse a capacidade de ver a cena, teria visto quem sabe um facho de luz brilhante porém cálida a envolver meu tio num abraço pleno de ternura e amparo, dizendo-lhe sem palavras audíveis que seu caminho estava pronto e sua hora chegara finalmente. E ele em sua singeleza e sapiência teria assentido e acenado com a cabeça, se despedindo de sua amada terra e seus amados amigos.

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