A visita
Ivan Henrique Roberto
jan/2015- jun/novembro 2023
Posso afirmar com toda certeza que tem para mais de 15 anos que não vejo Tio Zé Raimundo. Quinze anos, convenhamos, é um belo pedaço de existência. Tempo mais do que suficiente para que um país inteiro mude sua condição de vida, para que uma geração apareça e soterre a anterior, para que suas memórias queridas fiquem obsoletas, bem como suas roupas esquecidas no armário e suas convicções ancoradas num solo movediço. Quinze anos, um lapso de tempo com espaço suficiente para superar as inseguranças e incertezas quanto ao futuro, tempo de sobra para se estabelecer e pensar que venceu na vida. Muitos carnavais e passagens de ano, muitas contas vencidas e honradas e o filho que já não depende de você.
Meu tio Zé Raimundo, aquele que abdicou do mundo grande, da cidade moderna, do conforto e das facilidades. Meu tio, figura fascinante da infância longínqua, sempre de chapéu na cabeça e com sua fala engraçada, diferente, dita num ritmo e numa cadência que, de tão raros, estão prestes a desaparecer, sucumbindo ao apelo avassalador de um mundo uniforme. Meu tio, aquele que vive bem atrás da serra, em um vale escondido, com seus bodes e cabras, árvores e córregos ainda limpos. Dois dias de caminhada até a cidade mais próxima, onde ele só vai muito raramente, e muito a contragosto, pois mesmo a “metrópole” de cinquenta mil habitantes é muito grande e agitada para ele.
Mas somos seres humanos e civilizados, que dependem uns dos outros, e nem tudo pode ser provido pela mãe natureza, apesar de sua extrema benevolência e seio farto. Sua existência desmonetizada por vezes é contestada pelas leis vigentes, e os tributos, taxas e obrigações fiscais, bem como uma peça ou objeto que teimam em quebrar o obrigam à longa caminhada até a cidade mais próxima. No mais do tempo é a lida diária com as forças da natureza, com seus animais e plantas, de onde vem sua renda e sua alegria de viver, pois não há companhia melhor neste mundo. No silêncio acolhedor de suas terras ele pode ouvir com clareza a voz oculta que está por trás de tudo, e ter um leve vislumbre da harmonia da criação.
A vida simples e direta sempre embaixo de um Sol absoluto o deixou assim como a terra, que sempre clama por seus dedos e está sempre sendo regada pelo seu suor. Um tom ocre de uma pele curtida, a sola dos pés de derme grossa e adaptada aos rigores e asperezas, pois a terra não é fácil, é generosa, mas não é fácil, há que ser cúmplice e ter respeito.
Seu descanso é a noite estrelada, com todas as luzes distantes de mundos inatingíveis, de vento morno que arrasta as nuvens para um passeio gentil, de sons ritmados dos sapos, dos grilos e da vida noturna das matas, agora que o Sol se recolhe e o ar está mais fresco. É hora de cantar.
Desde jovem ele escolheu este estilo de vida, embora escolha não possa ser o melhor termo para esta situação, melhor dizer que ele seguiu a ordem natural das coisas. De certo modo ele é uma árvore, e árvores não devem ser arrancadas. Seus irmãos e irmãs tomaram rumos diferentes, cada qual com sua escolha, suas raízes não eram assim tão firmes, mais aves do que árvores eles eram, mais sementes carregadas pelos ventos da vida, por assim dizer.
Uma das irmãs veio a ser minha mãe, há muito tempo assentada na cidade grande. Uma vida pacata abençoada com os filhos que ela tanto quis. E então chegamos nós, ao longo dos anos, e cá estou eu, lutando bravamente para seguir em frente de forma honesta e ajuizada. Bem, que posso dizer? Mal não vivo. Sou como todos, ou a maioria, e só posso dizer com certeza que minha cabeça pode seguir erguida.
Como a maioria da população atual eu sou um animal urbano até nas células mais profundas. Meus pés nunca estão descalços, meus dedos apertam teclas a maior parte do tempo, não penso que minha energia vem do alimento e sim das tomadas ao redor, onde a eletricidade corre sem obstáculos. As memórias de infância estão distantes no tempo, onde aqueles momentos de férias e visitas aos parentes do interior se alojaram em algum canto adormecido do cérebro e teimam em parecer um sonho curto numa noite truncada e mal dormida.
A pele de meus pés está tão fina que ganho calos que logo viram bolhas só de andar em casa. Minha pele tem mais afinidade com o tecido das meias que aconchegam meus dedos. Uma vida de conforto e distância dos espinhos e pedrinhas pontiagudas, da areia quente e das folhas secas que teimam em cair das árvores, do barro após a chuva e dos pingos d'água desta chuva, que tão logo se oferece, logo a repelimos com guarda-chuvas, capas, marquises e limpadores de para-brisa. Não que eu esteja errado, só estou de outro lado, do lado que paga o que for preciso para manter o bom humor da mãe natureza. Como se isso estivesse a nosso alcance.
Não quero cansar seus ouvidos, nem quero sua concordância quanto a meu modo de ser, isto é só para me situar dentro deste relato. De uma coisa eu tenho certeza: eu sou um homem de família e prezo muito estas ligações, apesar das distâncias e do tempo escasso, dos afazeres e das tarefas que sempre estão a exigir nossa atenção, e com isso o contato com meus semelhantes vai rareando. A memória da infância distante, em certas ocasiões se impõe, e com isso a saudade me abraça. Por isso tenho lembrado de Tio Zé Raimundo, e ouço sua fala engraçada lacrada em algum canto da cabeça. Em alguns momentos, quase na hora em que o sono vence a disputa, certas imagens de sua propriedade ocupam meus olhos e quase posso sentir o cheiro terroso e forte, sem filtros e aromatizantes, o cheiro das coisas como deve ser. Acho que é hora de uma visita.
Então comecei a planejar a viagem. Pedi duas semanas de férias, conversei com minha mulher e meu filho, expliquei-lhes da necessidade que estava começando a sentir, e do tempo longo demais longe daquela figura importante em minha vida. Tinha visto fotos recentes dele, e é claro que a idade chega para todos, no entanto, apesar das rugas em seu rosto sempre exposto as intempéries, ele me parecia disposto e rijo como uma árvore. Minha mãe e minhas tias sempre me põem ao par de tudo o que acontece, até dos parentes distantes. Mesmo com a dificuldade de comunicação autoimposta por meu tio, apesar de todas as facilidades de nossa vida contemporânea instantânea, a mensagem de que eu chegaria em breve para visitá-lo foi acolhida com surpresa e alegria, nesta ordem.
Pensei no que levar de presente: que tal uma camisa social bonita, um sapato de classe, um relógio com cronômetro e que funciona em mergulhos de até 100 metros? Ou quem sabe uma garrafa de vinho chileno ou australiano? Poderia ser um quadro de algum artista valorizado, ou um smartphone? Sim, um smartphone. É tão útil, facilita tanto nossa vida, pode até fazer ligações como um telefone! A distância apaga estes pequenos detalhes, de gostos e preferências. Sempre fui pouco criativo para compra de presentes, mas esta era uma ocasião especial e eu precisava me esforçar.
Ontem eu fiquei por longos minutos olhando o mapa e tentando localizar a pequena fazenda de meu tio, já traçando o roteiro da viagem. Não era fácil de localizar, mesmo com todos os satélites bisbilhoteiros que cruzam os céus a todo instante. A região progredira bastante nestes últimos anos, as cidades dentro da rota haviam crescido e multiplicado, o apetite voraz sobre as terras era uma ameaça constante para os pequenos proprietários rurais. Muitos sucumbiram e venderam seus alqueires, roçados e criação. Porém meu tio era teimoso e tenaz e já nem atendia mais aos curiosos e interessados. Seus vizinhos foram desaparecendo, se mudando e alguns mudaram de ramo. Poucos permaneceram. Mas ele era feito da terra, comprovando o mito de Adão.
Desentocá-lo seria uma tarefa das mais ingratas, como puderam confirmar os inúmeros corretores quase sempre postos para correr, literalmente, seja para escapar dos alçapões ou dos ferozes e bem treinados cães de guarda, e até de um ou outro disparo de sua velha espingarda, velha, mas sempre lustrada e pronta para uso. O progresso que ficasse longe dele e de sua desconfiança. Seu amor por seu chão era inquebrantável, incondicional e infinito, quase incompreensível neste mundo volátil e volúvel. Um romântico incurável ou um fóssil vivo desafiando a lógica que rege o mundo bem pensante?
Por fim pensei ter localizado sua amada terra. Ampliei e imprimi o mapa, olhei a distância já expressa nas informações adicionais do serviço cartográfico, quantas horas previstas no trajeto, qual o melhor caminho, qual caminho alternativo, quantos pedágios, quais paradas para abastecimento e refeição, onde tinha radar e polícia, nada escapa aos olhos digitais, ah o que seria dos bandeirantes hoje? Quase quinze anos e eu precisava resgatar muitas histórias, memórias e fatos para me preparar para esta visita ao passado. (2015).
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(2023) Hoje é o dia para pegar a estrada e cumprir o que estou me prometendo e obrigando há tempos. Logo cedo dei partida no carro, dei um beijo de despedida em minha mulher e meu filho e o asfalto começou a sentir o gosto dos pneus novos trocados para a viagem. Tanque cheio, carro limpo, um dia de Sol. Em cerca de quarenta minutos alcancei a estrada de início do trajeto. Duas horas, três horas, parei para abastecer e esticar as pernas. Ainda cedo, ainda claro, ainda alegre e cheio de expectativas. Vamos em frente, porque para trás a estrada e a vida já terão mudado para sempre.
Estou à sós com meus pensamentos. Estou sozinho neste veículo e a paisagem vai passando rápido e as árvores vão sendo enfileiradas em paralelo com as faixas pintadas no asfalto ainda fresco, ainda em bom estado. Estou à sós com meus pensamentos e me sinto um pouco intimidado, quem sabe incomodado com todo este tempo vazio ao qual não estou mais acostumado, pois desde que abro os olhos pela manhã até o momento de fechá-los à noite a disputa incessante por atenção, seja de que lado venha, é excruciante. Neste momento me dei conta que me sinto um copo prestes a transbordar, ou mesmo uma bola sendo enchida a ponto de explodir. Um instante após, num átimo de tempo mais breve que um piscar de olhos, talvez como mecanismo de defesa, respirei fundo e estanquei a explosão. Meu pé afundado no acelerador retraiu e vi uma revoada de pássaros. O movimento gracioso, leve e livre abriu um sorriso tão íntimo e interno dentro de mim que me peguei surpreso de ainda conseguir capturar estas fagulhas de beleza soltas pelo mundo.
Então é isso, o sinal estava dado, ainda tenho cura. O tempo vazio merece ser honrado com uma melhor disposição por minha parte, o tempo é o bem mais precioso que nos é ofertado. Não devemos desperdiçá-lo. Por que esta compreensão chegou a mim agora? Não importa, certas perguntas não precisam de resposta. Não agora, quem sabe um dia ou uma noite qualquer.
Quinze anos é muito ou pouco tempo? Quem poderá me tirar esta dúvida? Quem eu era, ou o que eu era há quinze anos? O que eu sou agora? Um marido esforçado, um pai dedicado ou um número num registro? Talvez tudo isso e um pouco mais. Os quilômetros passam e o vento sacode os arbustos e árvores nas margens da rodovia. Em sentido contrário muitos caminhões carregados com todas as coisas imprescindíveis da vida moderna, objetos que não existiam a dois anos e agora muitas pessoas não podem imaginar a vida sem eles. Olho o GPS do carro de forma automática e me sinto seguro de saber que estou na direção certa. Mas eu estava estudando o mapa ainda ontem e não foi o suficiente? Me senti um pouco tolo de pensar que não consigo confiar na minha memória e devo deixar que algum satélite flutuando alto na atmosfera conduza meu destino. Será que a humanidade está regredindo? Estamos retrocedendo à condição de crianças inseguras, diminuindo a estatura, não a estatura física, mas a estatura moral?
Pronto! Agora é oficial, depois do momento pré-explosão e pós-revoada dos pássaros eu entrei no terreno da especulação científica, do devaneio, da mente solta. Se é assim agora então eu vou aproveitar, já que o tempo livre e vazio se apossou de mim. E, cá prá nós, o que eu vou fazer sozinho dentro de um carro em movimento, se deslocando em velocidade moderada, em linha reta com um céu claro e nuvens algodoadas? Cantar não sei. Me pus a pensar, já que pensar é de graça, não dói e ainda não está sendo gravado em arquivos violáveis, sujeitos ao escrutínio sabe-se lá de quem ou do quê.
À medida que o asfalto ia sumindo por trás do automóvel, eu ia sendo tomado por uma vontade renovada de pensar e pensar e pensar em coisas que estavam germinando no solo mais profundo de minha cabeça, mas não havia percebido, em parte por estar sobrecarregado, em parte por ter uma vergonha inconfessável de permitir que a mente atue deste jeito, vejam que coisa mais estúpida e constrangedora a que eu me auto submeti! Será que é reflexo destes tempos conturbados que estamos atravessando? Onde está o iluminismo? Muitas pessoas hoje podem pensar que o iluminismo é uma apropriação da energia elétrica de outrem através de manobras pouco recomendáveis e arriscadas feitas por profissionais da área de eletrotecnia, embora sem a certificação técnica recomendada. Mas eu tenho absoluta certeza de que o iluminismo é um movimento científico do século XVIII que pregava e prezava que a mente fosse iluminada através da educação e do conhecimento, eu aprendi isso na escola e agora veio à minha mente de forma súbita e abrupta. O que está acontecendo? Será que o Tio Zé Raimundo está possuindo a minha mente neste momento? Mas ele sempre foi tão simples, não lembro de nenhuma conversa em que ele despejasse este tipo de conhecimento. Olha o que o tempo livre faz? Lembrei daquele ditado em que é descrito que o Diabo acha trabalho para quem tem as mãos desocupadas. A mente livre e solta pode levar a caminhos pedregosos, onde os pés de pele lisa e macia podem se ferir facilmente. Mas não me importa, o tempo é todo meu agora e eu estou muito contente, a estrada está vazia e tranquila e ainda restam algumas horas até o sítio.
Na semana passada eu ouvi notícias que diziam que no futuro não haverá emprego para todos, que a humanidade atingiria um nível de desenvolvimento tão alto que o trabalho humano, tal qual o conhecemos e que vem assim desde o passado remoto, não teria mais razão de ser neste mundo pós-moderno e altamente tecnológico. Mas então como entreter tantas pessoas? Como fazer com que os seres humanos possam viver e comprar suas coisas tão preciosas, tão necessárias, tão apegadas? Com que dinheiro poderiam contar, se não haverá trabalho para todos? Certas ideias eu não consigo alcançar, minha mente é muito limitada para isso. E volta à lembrança o ditado de momentos atrás: com tantas pessoas de mãos e tempo livre o Diabo vai fazer a festa como jamais terá feito. Olho para o painel do carro e muitos sensores o posicionam de forma a ficar sempre em linha reta em perfeita sincronia com a estrada. Em breve não precisaremos mais dirigir nossos carros. Em breve não precisaremos pensar em mais nada? Em breve seremos dispensáveis e desnecessários? Uma voz impessoal ressoa através do sistema de navegação e me alerta que tenho em torno de 240 Km de autonomia até que o carro desfaleça por falta de combustível. Todavia ainda restam menos de 100Km até meu destino.
Uma nova revoada de pássaros cruza por cima da estrada, quase raspando meu para-brisas. Lembrei de uma série que eu gostava muito de ver na TV, onde era mostrado um cenário de um mundo liberto dos humanos, e como a natureza reagiria à nossa ausência em dias, semanas, meses e anos. Os pássaros não teriam mais o receio de se esborrachar em para-brisas e janelas transparentes. Se em breve não teremos mais trabalho quem vai pagar pelo nosso conforto? Se no futuro não existirem mais humanos qual o sentido de tudo o que foi construído, pensado, planejado, desejado, tudo aquilo que achamos que é nosso por direito e que está por aí desde o início dos tempos? Todo este esforço terá sido em vão? Todo este esforço de pensar está me deixando apreensivo pois uma cortina que se abre sempre pode revelar um panorama cinzento quando ansiávamos por um Sol pleno que cumprisse com a promessa de um novo dia melhor e mais feliz. Mas não, não é isso que eu esperava neste dia tão aguardado, não quero chegar e encontrar o Tio Zé Raimundo para mostrar uma face azeda, não depois de quinze anos sem contato. O Sol está alto no céu e a cortina aberta quer me mostrar isso mesmo, que hoje é um dia calmo e tranquilo com pássaros voando livres. Pensar não é para os fracos.
Acho que farei uma breve pausa pois minhas pernas já estão reclamando por estarem na mesma posição por muito tempo.
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Dois quilômetros a frente havia uma parada grande e moderna, com lanchonetes, sanitários, estacionamentos e muitas bugigangas para serem compradas. Ainda não havia comprado nenhum presente, me perdi em divagações acerca do que seria conveniente levar para agradar meu tio. São quinze anos e uma distância difícil de ser superada.
Parei o carro, me dirigi à uma lanchonete típica, escolhi uma refeição leve, procurei um assento vazio. A lanchonete estava bastante cheia para a ocasião. No meu cotidiano eu não tenho o costume de observar as pessoas, quase sempre elas passam e eu nem percebo, sempre com a mente ocupada pelas questões banais do trabalho ou da vida. Porém hoje algo estava diferente, como pude observar na estrada pois fui tomado por uma vontade incomum de pensar livremente. Assim me pus a lançar um olhar um pouco mais demorado, um pouquinho mais atento ao que estava ao meu redor. E vi as pessoas. Mas que roupas são essas? Mas que cabelos são esses? Quase ninguém conversava, quase não percebi interação. Pessoas sentadas uma ao lado das outras e quase não havia interação. Famílias inteiras agindo desta forma. Todas debruçadas nos seus celulares. Por um momento achei que estivesse num lugar estranho, ou num sonho estranho. Estava cheio, mas reinava um silêncio desproporcional à quantidade de gente. Será que eram todos humanos? Olha que ideia absurda me tomou de assalto! Por certo que são seres humanos.
Um mal-estar me chegou de forma enviesada, após momentos tão tranquilos passados dentro do carro. Será que alguém poderia me dizer o que se passava? Percebi que havia uma parede espelhada e vi meu reflexo, que transparecia uma perplexidade ainda controlada, pois o hábito joga cinturões em volta da persona pública e os anos de convívio adestram as pessoas, portanto a dissimulação se torna uma necessidade em nossa vida civilizada e citadina.
Então pensei que a surpresa de observar aquelas pessoas tenha me atingido como um choque de realidade. Eu estou ficando anestesiado e perdendo o contato com o mundo real? Ou a decisão de realizar esta viagem há tanto esperada, mas sempre protelada tenha deflagrado algum processo mental desconhecido? Meu batimento cardíaco aumentou e minha garganta ficou seca. Olho de novo meu reflexo e percebo um semblante pálido e confuso. Não tenho problemas cardíacos pregressos, mas estou firme em direção à meia idade, então será que ...?
Não, não, calma, respire compassadamente, volte seus pensamentos para o lugar de conforto que você tanto preza. Esta viagem foi pensada para ser agradável e tranquila, e estava sendo até agora. E deve continuar assim. Fiquei alguns minutos em silêncio olhando para meu prato e aos poucos o pensamento voltou a ser como aquela esteira de malas num aeroporto, correndo livre num trilho assentado sobre uma base firme. Não como uma montanha-russa com um trilho torcido que se projeta no espaço vazio, e a queda pode estar logo ali na frente. Assim como a esteira no aeroporto, que logo traz a sua mala em segurança e seus pertences que não serão extraviados, o meu coração voltou ao seu ritmo normal.
Não tenho pressa. Fiquei mais alguns minutos, minutos suficientes para me trazer de volta ao chão e ao centro. Ainda surpreso pelo ataque de pânico, se é que podemos chamar assim, percebi que a lanchonete estava mais vazia. Alguns ônibus seguiram viagem e algumas nuvens mais densas mostraram suas formas no enorme palanque que é o céu.
Paguei minha refeição e mais uma vez esqueci de olhar algum possível presente a ser entregue ao Tio Zé Raimundo.
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Em menos de duas horas eu já poderei estar na companhia de meu tio. Alguns quilômetros e encontra-se uma saída para pegar o acesso à cidade. De lá mais alguns quilômetros de estradas vicinais, depois mais alguns difíceis quilômetros de estrada de terra e enfim o sítio. Quando se é criança o caminho é muito diferente, não temos a lógica e a razão funcionando e então quase sempre a fantasia reina de forma absoluta. Eu me lembro de pensar nesta estrada de terra como o caminho para grandes aventuras, onde a qualquer momento animais exóticos nos cercariam ou tanques de guerra com rodas de bicicleta com canhões que soltavam fumaça colorida e fogos de artifício serviam de cortejo ao carro de meu pai. Muitas vezes na época de chuvas intensas a lama grossa e escorregadia me parecia a superfície de um planeta distante, e logo ao virar a primeira curva pequenos homenzinhos de pele verde e roupas metálicas nos abordariam e fariam nosso carro flutuar para longe e alto, nos livrando deste terreno difícil. Nestas ocasiões meu devaneio quase sempre era interrompido pelos xingamentos de meu pai amaldiçoando a chuva.
Por um momento tentei lembrar quando foi que a fantasia desapareceu de meus pensamentos. Quase certo de que tenha sido quando, ao invés de passar as férias no sítio, eu já preferisse frequentar as primeiras festinhas e os primeiros olhares para as meninas. Me dei conta que a fantasia não havia desaparecido, só havia mudado de foco.
Ao antecipar determinadas situações criamos um cenário propício a nossos propósitos. Quase sempre tendemos a trazer a situação para mais perto de nosso controle, e assim podemos criar diálogos convenientes e controlados. Parte do caminho eu fiquei imaginando o reencontro com o tio. Tinha notícias sobre ele de tempos em tempos, mas sempre filtradas pelo crivo de minhas outras tias e de minha mãe, e é certo que mesmo elas não tiveram um contato mais próximo e demorado com ele nestes últimos anos. O que eu poderia conversar com ele? Esta dúvida me trouxe uma ponta de apreensão. Sou urbano até a medula e me distanciei bastante deste ambiente campestre. Sei conversar sobre muita coisa, quase sempre coisas afeitas aos cidadãos que se espremem nas cidades onde tudo ou quase tudo chega à porta sem atropelos, onde tudo ou quase tudo ficou tão disponível que a maior luta é com a capacidade de pagar as contas desta facilidade na ponta dos dedos,
Faço um esforço extra para me colocar mentalmente na posição de alguém que a cada dia se levanta com a primeira claridade e logo está com seus apetrechos à mão para cumprir suas tarefas diuturnas, e cuidar sempre para que o solo, seu solo tão querido e sagrado, esteja acarinhado e receptivo e desta forma possa retribuir na forma de frutos e folhas, ramos e grãos, talos e caules, sementes e alimento. E que suas criações estejam saudáveis.
Assim já fui criando diálogos onde eu sempre sou o ponto de partida: “Olá tio, então me diga: como vai sua plantação? Tem vendido seus animais com lucro? Seu retorno financeiro está condizente? O que tem feito para aplicar seu dinheiro? Se quiser eu terei o maior prazer de ser seu consultor”, ou coisas do tipo. Como serei recebido? Como eu receberia alguém que estivesse separado no tempo e no espaço, sendo que nem os vizinhos de porta, e que vejo todos os dias, eu consigo imaginar entrando em minha casa, ou os colegas no trabalho, que a muito custo eu confraternizo, e mesmo assim somente aos finais de ano ou nos eventos institucionais obrigatórios. Não que eu seja um eremita ou antissocial, mas tal é o estado de coisas na sociedade. Não sou o único e atestei isso pouco antes na parada para o lanche. Interação. Socialização. Civilidade. Belas palavras, mas na prática...
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Entrei na cidade mais próxima e minha viagem está acabando. Quem sabe estivesse só começando? Vejo que muita coisa está diferente, afinal já são quinze anos. Casas novas, ruas novas, mais automóveis, o comércio mais diversificado. Serão meus olhos ou esta vontade renovada pela viagem é que me pôs lentes mais favoráveis? Vejo sinais de progresso ou é somente uma demão nova de tinta numa parede desgastada?
Olha para as pessoas que transitam ao lado da estrada. De bicicleta, em pequenas motocicletas ou a pé lá vão elas atravessar mais um dia. Estão apressadas, estão atarefadas, será que até aqui o passo acelerado da vida moderna se instalou? Não há mais refúgios de paz neste mundo e esta sentença me chega aos ouvidos como um golpe fatal. Minha certeza sofre um abalo.
Mas não rodei tantos quilômetros para ficar neste estado de alma. Após tantos adiamentos e tantas considerações, tantas providências e tanta espera cá estou. Resolvi parar mais uma vez antes do entroncamento que nos leva à estrada de terra final, e antes da porteira do sítio. Vou vasculhar a memória atrás daquelas lembranças ainda tão saborosas, de todas aquelas férias junto com os primos e primas, amigos e amigas. Quem sabe era o olhar ainda ingênuo de criança, mas eu tenho certeza de que meu tio gostava destes momentos com o sítio cheio. Lembro muito bem dele com sua pele curtida dirigindo a charrete cheia de crianças aos gritos e risos, como se aqueles dias nunca fossem terminar. Ou dos banhos no lago nos dias mais quentes do verão. E às tardes íamos todos pela trilha que dava no alto do morro. Certa vez levamos colchonetes e cobertores para passar a noite sob as estrelas, contando histórias de terror e assombrações. Fizemos fogueira, estouramos pipoca, comemos sanduíches, trememos de medo dizendo que o tremor era do frio e não das histórias, apesar da noite quente de verão. Noites assim não deveriam terminar jamais, e de fato elas nunca terminam na nossa mente, elas guardam um lugar vitalício na memória mais afetiva e profunda.
Me dei conta de que jamais trouxera meu filho, ele nasceu bem depois da última visita. Nem sei ao certo se ele sentiria prazer nestes passeios tão singelos. Também não sei se alguma vez eu contei destes dias com a ênfase merecida. O mundo está ficando virtual e as crianças estão ficando mais inteligentes e minhas cicatrizes não têm o mesmo impacto e interesse que uma tatuagem da moda.
Não importa agora, quero me apegar à estas memórias. Lembrar das minhas tias e das conversas na grande sala com sua grande mesa de madeira e as doze cadeiras, quase sempre ocupadas. Não haviam TV’s para sugar a atenção, portanto as conversas fluíam animadamente até que os bocejos insistentes viessem avisar que a madrugada chegara, e o sono começava a vencer a disputa com os assuntos. Retiravam-se todos pois amanhã tudo de novo, novas conversas e quem sabe jogos e brincadeiras ocupariam a grande mesa de madeira.
Sim, meu tio ficava feliz. Disso eu tenho certeza. Isso eu posso assegurar. Eram os melhores dias? Quem sabe? Só sei que estas lembranças nunca se apagaram e sempre me apegaram. Muitos anos se passaram, poucas pessoas se perderam nas estradas da vida, mas uma reunião nos moldes de antigamente é quase uma miragem, é quase uma impossibilidade porque o mundo, com seus múltiplos e poderosos tentáculos, tem uma predileção especial por separar.
Então eu vim sozinho. E assim será. Meu tio me espera só. Teremos assunto para tanto? Terei a prova de que minha vida terá sido interessante o suficiente para gerar motivos e vontade de contar as novidades?
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“A vida é aquilo que acontece enquanto pagamos as contas do mês”. Esta frase veio cambaleando entre as sinapses da minha mente até chegar na ponta da língua. Mas não foi dita, só foi pensada. E assim o tempo passa, quando terminei de pagar a última conta de um mês já penso na próxima conta, dois dias depois da penúltima. Como será que meu tio lida com estas questões?
Creio que esta viagem está desobstruindo alguns canais adormecidos na minha cabeça, porque eu jamais havia pensado nestes assuntos tão triviais, e somente hoje eu já me deparei com tantas indagações e observações do ambiente ao redor. Será que estou ficando dormente, como um braço que receba todo o peso do corpo durante o sono que quando acordamos parece ser o braço de outra pessoa, apenas um monte de carne flácida? Será que me tornei um monte de carne flácida? Minha pele sempre coberta dos pés à cabeça tem pouco contato com a luz solar, meus pés nunca pisam o chão sem meias para intermediar o impacto. Foi para isso que fomos criados ?
As nuvens estão ficando mais grossas conforme eu observo, aqui, parado em pensamentos desgovernados, ansioso por conta de tudo o que já relatei, pela longa espera, pelas ternas lembranças, pela expectativa, e por que não dizer, por toda a saudade acumulada. Tudo ao redor está diferente. E por que deveria estar igual? “Nada do que foi será de novo, do jeito que já foi um dia”, diz a canção. O que está me segurando? Minhas mãos largaram o volante e de repente pesam dez toneladas. Meus braços ficaram estáticos, alheios à minha vontade. Não vim até aqui para parar e ficar, a vida é movimento, o vento de súbito sopra mais forte e arrasta as nuvens mais grossas. O Sol intenso está de volta com toda a sua beleza, e toda esta beleza cauterizou as correntes que estavam prendendo meus braços, minhas pernas e meu corpo. Engatei a marcha, pisei no acelerador com força e saí daquela encruzilhada. Agora faltam poucos quilômetros de terra batida e seca até a porta do sítio.
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Ao chegar à cancela do sítio lá estava ele. Reconheci de imediato e parece que os quinze anos de hiato não tiveram a menor importância. O chapeuzinho no alto da cabeça, as botinas manchadas de barro, a camisa xadrez, parece que não havia trocado a roupa nesta década e meia de ausência, e isso logo de cara me trouxe um conforto sem paralelo. Igual a um elemental, como se fosse feito de barro e gotas de chuva, adâmico. Desci do carro meio anestesiado, com as pernas meio dormentes, a circulação sanguínea um pouco paralisada, coisas de quem não está acostumado com longas viagens de carro e fui de encontro aos seus braços já estendidos:
- Meu sobrinho!!!
-Tio Zé, que saudade!
Um simples abraço não cura quinze anos de saudades e boas lembranças, pensei que teríamos muito por conversar.
-Entre, vamos, já estava te esperando.
-Entre no carro, não posso deixá-lo aqui fora.
-Ora, ninguém vai mexer no seu carro, depois você pega
-Não Tio, se bem me lembro é um longo estirão até sua casa.
-Está bem então.
Poucos minutos depois estávamos em frente à porta. Com a cabeça transbordando de memórias quase imediatas pois tudo, todos os veios das madeiras e as telhas, todas as janelas, todo o caminho era meu velho conhecido, é impressionante como guardamos tantas coisas num espaço tão reduzido entre os olhos e a nuca. Já era de tarde e percebi que estava com fome.
- Você deve estar com fome.
-Tio, como adivinhou? E como sabia a que horas eu chegaria, para ficar me esperando?
- O vento me avisa, respondeu enigmático e lacônico. Já estou com a mesa posta.
-Temos muito para conversar
-Sim, é claro. Mas somente com a barriga cheia as palavras terão força para pular da língua para os lábios e daí para os ouvidos, não é mesmo?
- O senhor está sempre certo, e rimos bastante com esta imagem inusitada.
Comi como se estivesse me preparando para uma jornada de trabalho no campo. Meu apetite havia despertado feroz e impetuoso, nem lembrei das azias e indisposições, e dos sais de frutas e pastilhas antiácidas que substituíram as balas e jujubas da feliz infância. E ainda tive espaço para as frutas de sobremesa.
- Para arrematar tudo aqui vai uma “marvada” especial, direto do alambique. "Guardei para brindar com meu sobrinho mais querido".
E ao ouvir isto um velho sorriso brotou de algum lugar entre o estômago saciado e o coração acalentado, pulando sem freios para os lábios e os olhos.
- Você deve estar bem cansado. Seu quarto já está preparado. Tire aquela soneca que recupera até o mais judiado dos peões e amanhã nós retomamos do ponto onde havíamos parado.
-Sim, tio. Não tenho como recusar esta oferta. Nestes momentos é que percebo o quanto eu estou fora de forma. A vida no conforto me deixou muito mole.
-Descanse hoje porque amanhã vou colocar você na lida. Vamos crescer uns calos nessas mãos, que estão muito finas.
Fiz questão de deixar as janelas do quarto abertas para que fosse despertado pelos primeiros brilhos da manhã. Um vento forte sacudia as cortinas e o cheiro do campo chegou às minhas narinas antes que meus olhos estivessem abertos. Fiquei vários minutos estirado na cama implorando que a preguiça fosse embora, e quando ela se retirou me levantei bem-disposto e pronto para o que desse e viesse.
Meu tio já me aguardava para a primeira refeição do dia. Pensei comigo mesmo “como ele consegue estar sempre pronto?”. Já bastante curtido pela vida e pelo tempo, eu fiz os cálculos e me dei conta que ele já passava dos setenta anos. Tirando a pele já enrugada pelo tempo e pelos sóis, chuvas e ventos que escorreram neste rosto e corpo ele esbanjava uma vivacidade e uma firmeza incompatíveis com a idade biológica.
- Bom dia Tio, dormiste bem?
-Sim, sempre durmo bem. E você?
-Não lembro de ter dormido assim em muitos e muitos anos. Fiz questão de ser acordado pela alvorada.
-A alvorada é o melhor despertador que conheço, junto com os galos.
-Eu só desperto com meu celular tocando uma trilha suave, feita para induzir o corpo a um tranquilo despertar. Mas troco o toque toda semana pois logo me enjoa e mais tenho de vontade de arremessar o maldito aparelho na parede. Ontem eu lembrei a tempo de cancelar a programação.
- Ah, a vida na cidade é sempre difícil, não é mesmo?
-Nem me diga. A vida moderna está muito difícil, muita gente está ficando doente e nem percebe.
-Mesmo de longe eu acompanho, ou tento acompanhar o que acontece no mundo, e suas tias me contam muitas coisas quando as vejo.
- Foi a vida que escolhi
-Escolheu ou foi escolhido?
-Não sei ao certo.
-Bom, chega por hora. Está disposto ao trabalho?
-Acordei muito bem-disposto, mas não exagere tio. Pega leve comigo, hein?
-Fique tranquilo, eu já reparei nas suas mãos finas.
-Então vamos.
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Busquei trajes mais adequados e logo estávamos na carroça. A grama estava alta e as árvores sacudiam calmamente nesta manhã plena de vento e Sol. Seguimos em silêncio saboreando este momento tão sereno. O ambiente ao redor estava tão envolvido numa paz que os sons de uma voz humana seriam inconvenientes, diria até que seriam nocivos e perturbariam o sutil equilíbrio dos elementos. Eu até tentei falar alguma coisa no início da jornada, mas olhei meu tio ao meu lado e a sua expressão tão benfazeja me transmitiu de imediato um pedido de silêncio sem precisar de palavras. Não me restou nada além de concordar.
Chegamos ao campo arado, já preparado para receber as sementes da próxima safra. Três trabalhadores já estavam em atividade. Reconheci dois deles dos meus tempos de infância e juventude, o Antônio e o Tomé, agora já bastante maduros. Tantas memórias e tantas surpresas. Lembro deles quase garotos, garotos mais velhos do que eu, é claro, e muitas vezes entravam nas brincadeiras e nos passeios junto com o resto da criançada. E aqui estão ainda, depois de tantos anos. Também têm raízes muito profundas, raízes difíceis de serem cortadas, raízes que se dirigem ao coração da terra.
Apeamos da carroça e quase de imediato os dois vieram em minha direção, para me cumprimentar:
- Eita que não é o garoto bom da cidade! Vixe, já tá com cabelo branco!
- Quanto tempo, hein? E vocês ainda lembram de mim!
- E num havera de esquecer! O sobrinho preferido do Seu Zé Raimundo.
- Pois é, depois de quinze anos eu finalmente cheguei aqui. Fiquei muito contente de ver vocês. Vim pronto pra lida!
Reparei que eles deram um sorriso meio zombeteiro quando disse isso e meu tio se meteu na conversa: -Pois é Antonio e Tomé, ele chegou cheio de disposição. Vamos ver quanto dura esta disposição. Todos riram muito e fiquei um pouco sem graça.
Em menos de uma hora de atividade eu já estava vermelho, suando em bicas e com a respiração pesada. Em cerca de duas horas as câimbras começaram a me martirizar. Lá pela terceira hora eu parei e olhei os quatro homens, todos firmes, concentrados e com uma expressão de satisfação nos rostos marcados. Meu tio liderava esta pequena equipe. Seu ritmo era impressionante de acompanhar. Como pode um homem desta idade estar com esta energia toda?
Cheguei rápido à conclusão que cada macaco fica melhor no seu galho. Não fui talhado para esta vida. Brincar e correr nos campos naqueles dias róseos da infância é uma coisa, ganhar a vida nestes mesmos campos é algo bem, bem diferente. Apesar das luvas que estava usando, minhas mãos já carregavam bolhas bem pronunciadas. Quando por fim fui dar um passo e minha perna direita deu aquela contorção marcante de câimbra, caí ao chão e gritei por ajuda, cheio de dor. Eles largaram tudo e correram em minha direção. Pouco depois eu já refeito da dor e do incômodo, só tive condições de dizer: “Eu não posso mais”
- Meu sobrinho eu já sabia, só deixei você vir porque vi a sua alegria e sua boa intenção. Mas não se preocupe, já foi o bastante. Descanse ali debaixo da árvore e se refaça.
Os outros trabalhadores me dirigiram um olhar não de desprezo, mas de uma sagacidade incomum: “Nós, na cidade, também ficaríamos perdidos. Não se pode esperar que um cavalo haja como uma tartaruga, assim como não se pode esperar que uma tartaruga haja como um cavalo”
Embaixo da árvore, já mais calmo e descansado, me peguei a pensar:” de onde me veio esta ideia absurda de achar que poderia trabalhar como um peão de fazenda?” “Eu não piso nem no chão liso de casa com os pés descalços!”. Bastante envergonhado esperei o final do trabalho para voltar para casa e esperar uma noite de sono pesado.

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