quinta-feira, 29 de abril de 2021

Prazeirosamente

 

  Prazeirosamente

( C'est nuit/It's all right)

 

     C'est nuit baby!

 

Tive a chance de ficar sozinho

E sentir o quanto é bom ficar sozinho

 

  It's all right ma, i'm not bleeding, i'm just floating high up, close to the moon!

 

Estou sem gravidade, estou voando.

Deixei aquela máscara de aspecto grave esperando por dias tristes

que certamente virão.

 

Que química desconexa! Estou sozinho e fechado no quarto,

e tudo parece justo e perfeito

As estrelas parecem dançar e me olhar

Como se eu fosse a razão do universo

 

     C'est nuit baby! Nem há um mundo lá fora,

Só há um mundo aqui e eu o controlo, benevolente ditador.

Ditei constituições, todas as leis fluiram da arte,

Compus sistemas políticos no violão.

O poder amava a sapiência

A sapiência amava a imortalidade

A imortalidade desejava o poder,

e ficaram nesse jogo a rodar, rodar, rodar.....

 

Existe o mundo interior e eu fiquei espreitando

Estudando seus caminhos e suas leis.

(C'est nuit. Le grand monde c'est mom)

Eu estou contente, observo o lado do prazer, este território cegamente explorado

Cheio de armadilhas, cheio de artimanhas, artes e manhas.

 

C'est nuit! Grandes sonhos nos esperam!

A vanguarda do tempo nos acode quando estamos inseguros

Existe sempre uma música nova quando estamos tristes

Nossas cabeças são o cume do trabalho dos deuses

E isto é motivo para sorrir durante séculos.

 

It's all right, em todos os arquipélagos deste mundo

It's all right, em todos os hotéis deste mundo

It's all right, todos foram se divertir neste mundo

 

                                                   Ivan Henrique Roberto

                                                  10 de novembro de 1984

Luísa

 

Luísa

 

 

Quando Luísa sorri

O Sol congela

a música para

e o vento canta

 

Quando Luísa acorda

a noite encerra

e sepulta pesadelos

extingue o desânimo.

 

Quando Luísa brinca

Vejo que tudo está certo

e que tudo pode ser certo

E eu preciso me superar

 

Quando Luísa dorme

queria sonhar o que ela sonha

e descansar para preparar seu caminho

 

Quando Luísa nasceu

Eu morri e renasci

 

 

 

Ivan Henrique Roberto

10 de dezembro de 1990

O salto

 

O Salto

 

As águas plácidas forram varridas por ventos inesperados,

mas pressentidos.

Bastava ter olhado o céu ao Sul para ver tormentas se formando.

Tentei correr mas a fúria dos ventos me pegou ao relento,

Desatento, despreparado, sem botas de nenhuma légua e sem abrigo.

 

Eu estava a caminho, atarefado, com contas a acertar.

Cheio de boas intenções.

Mas o céu nublado me traiu, eu que o adorava.

Ela desabou pesado, cruel

Não meu deu chance de sorrir, respirar e correr.

 

(Fiquei com medo de usar o telefone,

apreensivo pela hora do almoço que não vinha,

Inquieto por ser o pólo de dois triângulos)

 

Logo escurece, mais eu abro os olhos, mais longe se afasta meu abrigo

Eu tentei um salto mas escorreguei.....

 

( E a noite virou um labirinto, cheio de paredes ponteagudas.

Com mãos que me evitam e olhares reprovadores)

 

                                       Ivan Henrique Roberto

                                         12 de janeiro de 1989

Na véspera

 

Na véspera

 

 

As composições estão prontas

Esperando o reconhecimento público

As composições estão soltas

Esperando que alguém as revele

 

A imaginação está por aí

explodindo à flor da pele

Imortal e sólida como nos primeiros tempos

Fertilizando as cabeças escolhidas

 

O talento está latente

Necessitando de subsídios e luz que o conduza à utilidade

 

A beleza das coisas se esconde atrás de um pouco de pó

Ela está além dos julgamentos desonestos

Acima das fortunas feitas em seu nome

 

A beleza despreza os conceitos e as opiniões sobre ela

Pois foi uma das primeiras crias do Caos

 

A arte é tão secreta

Tão intrinsecamente polêmica

Tão dispendiosa e antiga

Muito difícil e muito simples

 

A felicidade talvez exista

Encerrada nas paredes de algum convento,

ou nas reuniões de algum asilo

No dia em que você se amar

 

(Na véspera de mais um ano eu fiquei em casa olhando as paredes

E uma noite tenra foi-me dada de presente.

A noite me chamou mas eu quis ficar em casa)

 

 

 

                                                                        Ivan Henrique Roberto

                                                                              14.04.1984

Melhor assim

 

                                                                Melhor assim

 

 

 

Muitas vezes é preciso a distância para um melhor enfoque

Certas vezes as aparências são como miragens aos olhos cansados de um viajante

E quantas são as surpresas que os dias nos trazem!

 

Ainda bem , melhor assim...

 

Certos rostos nascem e crescem com o dom de multiplicar os sinais de bonança

que se espalham ao redor

dispersos e despercebidos

 

Algumas faces são pinturas impossíveis

melodias escondidas nas florestas

A senha para esquecer as mazelas de um mundo reticente

 

A chave de um paraíso imaginado...

 

Poucas pessoas merecem toda a atenção e desvelo

Poucas pessoas florescem às vistas de nossos mais sinceros sorrisos

Poucas pessoas são dignas de compartilhar de nossa árdua sensibilidade

 

 

E quantas surpresas a vida nos deve

E, as vezes, dá.

 

 

Ivan Henrique Roberto

1º de fevereiro de 1989

O céu está macio

 

   O céu está macio

 

O céu está tão macio

que eu poderia esfregar feridas

sem receio de estragar minha nova pele

e deixar fugir para o espaço minha história

 

O céu está tão claro

que um rosto transtornado pela ira refletiria suas ternuras submersas

e explodiria numa gargalhada salutar,

que faria as estrelas um pouco mais jovens.

 

A noite está tão calma

que só permite gritos de prazer e conversas amenas de beira-mar.

O dedo tenso no gatilho aliviou e foi discar o telefone

Para pedir bebida para o brinde e o descanso.

 

A noite está em paz

E assim parece ilusão

 

 

                         Ivan Henrique Roberto

                          11 de março de 1990

Dédalus e Prometeu

         Dédalus e Prometeus

 

 

 

Minha distância do convívio humano acentuou-se

quando roubei a personalidade das águias e dos demônios

e de todos os seres alados.

Quando fugi da realidade terrestre e construí asas

Para poder decifrar os labirintos.

 

 

Me elevei corajosamente,

Ousei majestosamente,

E me aproximo hereticamente dos deuses.

 

 

Minha visão dos tetos das casas e dos templos, dos topos de colinas

traduz minha orgulhosa arrogância.

As flechas dos arqueiros tocaram de leve a minha gloriosa engenharia.

 

 

Mas pássaros espertos não se deixam engaiolar.

 

 

Então voei muito alto e vi o mundo de cima, até me aproximar do Sol,

e o Sol derreteu a cera da máscara do meu caráter.

Na queda, num delírio, misto de dor e libertação eu vi Prometeu,

cujo crime foi a busca do conhecimento, brincando com a abutre.

 

 

Mergulhei no mar e minha consciência rodopiou e sumiu,

devorada pela fome dos espectros rotineiros.

 

 

 

                                                                       Ivan Henrique Roberto

                                                                            24.05.1983

  

segunda-feira, 12 de abril de 2021

O ato de esperar (7ª parte)

   O             FIM

                        A porta da face norte do casarão estava escancarada. A água barrenta fluía com facilidade e rapidez. Quase tão rápido quanto subira, ganhando terreno com velocidade constante, a água agora retornava por onde viera. A manhã  clara e fresca em nada lembrava a noite calamitosa da véspera, cujos índices pluviométricos registraram um recorde difícil de ser batido. A enchente em si não era novidade naquela região, tendo sido verificado em pelo menos quatro ocasiões na última década, mas não naquela proporção. Os que acompanharam pelo noticiário, e sendo mais crentes nas Escrituras, juraram de pé de junto que Noé existia de fato e fora o responsável. Enfim, sendo verdade ou não, agora era a hora do rescaldo, de contabilizar os prejuízos, de reconstruir a paisagem humana seriamente danificada.          O nível da água baixa e logo passa da primeira prateleira. Em seguida o sofá imprestável retorna ao solo. A escada encharcada está visível de novo. E um corpo inerte pousa suavemente nas tábuas envelhecidas do piso superior deste casarão, que em tempos idos costumava receber turistas aos montes, em busca de lanches rápidos e artesanato local no caminho para a cidade. Em questão de poucas horas o rio terá voltado ao seu tamanho normal, contido em seu leito esculpido ao longo de eras e estações esquecidas, em tempos onde nenhum ser humano jamais havia colocado seus pés para refrescar a pele na água corrente após longas caminhadas, pois o rio era jovem e os humanos nem existiam ainda. Mas isso foi há muito tempo, e a paisagem mudara inúmeras vezes, só o Sol estava lá por testemunha.         No lado de fora da propriedade um lamaçal era tudo o que existia, e também um automóvel seriamente avariado na lataria, e de cor indefinida ; somente após uma lavagem muito caprichada é que se poderia saber sua verdadeira cor. O conteúdo do carro também estava imprestável, encharcado, sujo e inoperante, perda total sem dúvida nenhuma. Dado ao estado de abandono da propriedade, antes do pequeno dilúvio, a tendência a permanecer do jeito que estava era muito 

grande, a lama secaria por certo e a parte desabada do casarão ficaria como um souvenir, um instantâneo do momento. 

                             AINDA NÃO É O FIM

        Os olhos foram abertos com cautela. Ainda pareciam colados, os cílios entrelaçados, a imagem bastante turva, tudo desfocado e incerto, com contornos indistintos. Um peso exagerado nestas pálpebras cerradas por longo tempo, não se pode saber por quanto. Era quase preciso pegar dois dedos para auxiliar no movimento que é tão natural e automático. Contudo os dedos também estavam parados, contraídos, tensionados, crispados, bem como os braços e as pernas. Os sons começaram a tomar forma lentamente, em parte por que o mundo ao redor estava esquecido e silencioso e em parte porque a água encharcara até os tímpanos. E enfim o movimento da respiração e do batimento cardíaco. Tudo estava tão calmo agora e em silêncio. Havia consciência neste momento? Difícil responder.     Após longos minutos, muito longos, tão longos que romperam a barreira das convenções estabelecidas pelos laboratórios ao redor do mundo, minutos que poderiam ter sido horas; enfim aquele esquecido trabalhador, que confessara suas fraquezas e expusera seus medos para ninguém em especial, despertara deste torpor, deste transe, daquele pesadelo onde terminaria sepultado em água. O destino traz em seus bolsos cheios alguns truques e desvios, como abrir portas onde não se sabe que existam, e concede uma segunda chance para aqueles que ainda precisam aprender muitas lições.      Após relaxar e recuperar seus movimentos ele permaneceu imóvel, apenas sentindo sua respiração acalmada e seu coração no ritmo que melhor lhe convinha. Estava preocupado e apreensivo? Não mais. Tinha bastante tempo para pensar numa saída agora. 

domingo, 11 de abril de 2021

 

Observando

 

 

Triste destino o nosso

Viver em rota de colisão entre um futuro correto e um passado corroído

Triste realidade a nossa, sempre viver no presente

 Recebendo golpes que pesam como pragas do Egito.

 

Como castigo recebemos cinco sentidos e uma inteligência

Como herança um senso de justiça e de moral

e a capacidade de julgar e ver que a vitória cega e é tênue, vaga, amorfa e pode ser comprada.

 

O presente é um presente que pesa nas mãos

Perturba os sentidos e renega a inteligência

Longa vida aos ignorantes, surdos e cegos.

 

Estou observando os fatos que se sucedem em cadeia

Tão lógico quanto sórdido, tão fétido quanto apreensivo

Tornando esperança em ceticismo,

Envelhecendo e apodrecendo os entes da floresta antes que maturem.

 

(Mas, seria um interlúdio?)

 

E ganhamos a estupenda (des) graça de viver sempre no presente?

 

Entre um silêncio e um grito de horror

Entre um lamento e uma gargalhada histérica

Vamos catando migalhas e surpreendendo sorrisos esparsos

Vivendo um dia após o outro (Por que não viver seis grandes dias e desaparecer um?)

Hora após hora de dias seccionados

 

Vou lendo, lendo, até ter indigestão.

Vou vendo, vendo, até ter de fechar os olhos para enxergar

Vou ouvindo, ouvindo e não gosto, fecho a cara para poder resguardar um pouco de suavidade

e gentileza para meus irmãos e irmãs

 

(So the story goes...the show must go on)

 

Campos minados nas nossas vizinhanças, campos minados

Mãos fechadas, ofensivas, palavras de negação, nunca um sim.

O não é a senha dessas prisões sem grades aparentes

Nunca vire as costas, pois logo se armam ataques desonestos

Ao sorrir tenha cuidado! Podem confundi-lo com a presa.

Darwinismo social-admitem da forma mais cínica possível

 

Essa é a sabedoria popular que passa de geração a geração, muitas vezes à força.

Essa é a lei do universo, resignam-se todos.... Ou quase todos.

 

Ondas que batem sempre com força nas pedras

Os mariscos já se acostumaram com a força das marés

E os peixes maiores, que vivem fugindo dos peixes ainda maiores e em buscas de peixes menores

Talvez o sertão tenha sempre sido o mar, a selva e o deserto migrando sempre para a cidade

E a civilização, uma mentira, uma ilusão

Mercadejada por espertos e ávidos homens de negócios,

Que casaram o oportunismo com a conivência dos ditos inocentes,

que se lambuzam com pequenas mentiras para amenizar a rotina.

 

Será a história uma lamentável piada?

Uma desculpa para dar apoio às leis da divisão?

Cada macaco no seu galho? Por que nos galhos mais fracos?

Os macacos mais espertos já desceram da árvore há muito tempo

Cortaram-na e venderam a madeira por um preço acima do valor de mercado.

Embarcaram num avião e foram para Las Vegas

Rindo muito e vivendo despreocupados.

 

 

 

Ivan Henrique Roberto

26 de outubro de 1987

 

Além

 

Além

 

Nada do que eu falo é novidade

Os assuntos estão a um palmo de distância

Vários deles são evitados

Outros são lacrados e expurgados

Cobertos com ínfimos disfarces

Como elefantes escondidos na planície calva

 

Os tabus permanecem, pois são importantes para a ordem social

Acho que tudo deve ocorrer de modo que os arranjos não traiam os maestros

E as vigas não caiam na cabeça dos engenheiros

 

“Mantenham a qualquer custo todas as farsas.

Devemos divertir o público e fazer de conta que nada de errado houve ou haverá”

 

As leis cuidam do bem-estar dos exploradores

E a eterna escravidão dos produtores

A ilusão subversiva dos sonhadores age nos alicerces da sociedade

Martelando devagar, em pontos vulneráveis,

Num trabalho paciente e comovente

Consumindo horas intermináveis de sonhos quase esquecidos

Deixando de lado todas as dores, que são mitigadas em nome de um objetivo maior

e mais nobre

 

Pensar no futuro traz um inconveniente: O de não ter certeza no prazer palpável,

Apenas a imaginação de que daremos aos próximos o melhor que não nos deixaram ter,

E o conforto de ser dono de uma consciência livre e autônoma,

A qual de certa forma florescerá, antes que a aridez abundante e o medo irracional destruam

aquelas sementes.

 

Alguns desesperados e outros tantos visionários e iluminados

talvez saibam ver os sinais de mudança,

Pinçados aqui e ali, em algum sorriso ou algum gesto repudiado hoje

Estaremos atrelados a uma Nova Filosofia

Imersos por completo na grande fonte de Cultura

Pensando e fazendo Amor

 

 

Ivan Henrique Roberto

2 de outubro de 1985