sábado, 30 de setembro de 2017

Oto (2ª parte)

  

                                                        Meia noite chega e o silêncio aumenta neste bairro agora tranquilo. O cansaço também chega junto ao novo dia que avança, mas Oto têm um grande acúmulo de serviços pendentes. Senta-se de novo com o Laptop de última geração para continuar suas tarefas. Toma mais uma xícara de café, mas o sono doma-lhe a vontade. Oto começa a cabecear mas cerra os olhos e quer seguir em frente, pois havia prometido entregar esta nova tarefa em três dias, pois todos têm pressa e todos acham que o seu problema é o mais importante, e quando procuram Oto chegam com uma cara nervosa e cheios de amabilidades, pois apesar de sua timidez sua fama de eficiência está se espalhando e sabem que ele é confiável. E ele nunca diz não.
      O café não faz mais efeito e o pensamento de Oto começa a ficar confuso. ¨”Para acomodar a nova caldeira faz-se necessário criar um espaço aberto para dissipação do calor, por onde a circulação dos funcionários terá que ser restrita…O carro está precisando de novos limpadores de para-brisa e, .... minha mãe faz aniversário no dia 16 ou no dia 17? ¨, Hein?! Oto sacode a cabeça e pensa: “ Nossa, eu estava pensando na caldeira da indústria metalúrgica e de repente pensei no carro e depois lembrei da minha mãe, onde estou com a cabeça? ”. O sono é invencível, Hipnos era o Deus grego responsável pelo sono dos mortais daí o termo Hipnótico para coisas que deixam você com o pensamento turvo e descontrolado, indefeso e sem raciocínio. Oto não sabe quem foi Hipnos e precisa seguir em frente: “ A norma regulamentadora do funcionamento de caldeira prevê, entre outras coisas…. Eu estava na aula de química quando aquela menina morena de pernas compridas me pediu a borracha emprestada…. Puxa vida, a conta de luz venceu anteontem e eu não paguei! ”
     Não têm jeito, o sono é invencível e Oto, nesta altura da madrugada, já havia entrado no túnel escuro que conecta a vigília com o plano superior da existência, a zona limítrofe cujas leis terrenas não têm efeito e os desejos correm soltos, sem amarras, sem âncoras, sem relógios. Está de volta ao colégio só que as paredes são de cristal, a sala de aula está no topo de um monte e o mestre traja roupas estranhas. Olha ao redor e seus colegas estão absortos tentando fundir ouro e prata. Ouve uma voz melodiosa e quando se vira ele vê a menina morena de pernas longas que há poucos minutos havia pedido a borracha emprestada. Seu nome é Myrna e seus olhos são como um redemoinho, chispando fagulhas de um brilho incomum. Uma visão paradisíaca lhe entope os sentimentos. Nunca antes havia tido coragem de se aproximar dela, maldita timidez, e jamais se dera conta de toda a sua beleza. “Olá Oto por que você tem faltado às aulas todos estes anos, eu estava esperando pelos seus conselhos? ” Oto não esperava por um momento como este e não conseguia articular uma resposta para uma pergunta tão surpreendente.
         Mas eu não faltei muitas aulas na minha vida?
         Todos sentimos sua falta e tudo está parado esperando que você nos traga a solução.
         Solução de quê?
         Ora você sabe que nós precisamos sair daqui...
         Daqui aonde?
Myrna sorri achando que Oto está brincando...
         Oto deixe de brincadeira pois estamos esperando sua resposta!
   Oto deve estar com uma expressão tão apalermada que até Myrna percebe algo errado. A menina fecha seu sorriso cordial e iluminado e segue: - Então você não tem ideia do que está acontecendo? Nós estamos presos neste mundo e pouco tempo nos resta. Durante muito tempo você sumiu, se esquivou e sempre nos disse um NÃO tão exato simbolizado pela sua ausência que todos estamos tão assustados e pessimistas. As pontes de saída estão destruídas e só você consegue reconstruí-las. As paredes ao norte da escola já sumiram e o escuro avança, e só de pensar no que virá depois me deixa muito triste. O belo rosto da menina perdera o brilho radioso que mostrara há pouco e sua expressão era de uma tristeza imensa e comovedora. Aos poucos Oto adentrara por inteiro neste novo ambiente que era ao mesmo tempo familiar, porém intensamente assustador. Refletia sobre as palavras ditas com tanta emoção por Myrna e ficara muito intrigado com o fato do NÃO, bem destacado por ela.
  ”Eu não entendo, eu nunca nego nada quando me pedem, ainda mais aqui, este lugar que eu tanto gostei. Não lembro de ter estado ausente muito tempo, parece que deixei a escola ontem, ou pode ter sido anteontem. Espera, eu tenho 35 anos, não estou mais na escola! Aonde estou de fato? ”  Oto está completamente confuso e sente sua respiração acelerada. Ouve um ruído longínquo e rouco, um som ameaçador. Olha ao redor e percebe os demais colegas cabisbaixos, olha o mestre de roupas estranhas com o olhar vazio de desalento, e quando se volta para Myrna ela já não é aquela bela figura morena de olhos faiscantes. Na verdade, é uma figura horrível de se ver: Sua face é um quadro tenebroso, de olhos vazios que emanam o vácuo que se aproxima da parede norte da escola. Seus olhos mostram a beira do abismo, seu nariz rouba todo o ar de Oto, suas mãos lembram duas garras prontas a apertar e dilacerar a carne macia de um ser humano. E quando volta a falar um arrepio percorre a coluna vertebral de Oto.
  - Venha comigo, eu estive esperando este tempo todo, não me abandone agora!
      Uma voz como que surgida do fundo do abismo mais escuro substituía aquela voz tão doce de momentos atrás. Oto sente seu coração tão rápido e sua respiração tão ofegante e vê aquela imagem assustadora se aproximar. Sua própria voz parecia sumir dentro da garganta e o ruído crescia e se aproximava. Olhou mais uma vez ao redor e todos os colegas agora se voltavam para ele, com figuras tão horrendas e tristes quanto Myrna.  Avançavam por todos os lados cercando-o. O céu parecia descer rapidamente sobre sua cabeça. Seu corpo tremia tanto que ele não sabia se conseguiria aguentar por mais tempo. Quando Myrna chegou com as mãos de Fúria perto de sua garganta, pronta para rasgá-la de um lado a outro Oto deu um grito imenso.
         NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÕOOOOOOOOO.

Oto (1ª parte)



                                                          Oto     
                                            Janeiro/fevereiro 2009

      Oto respira como se precisasse deixar entrar em seu peito um punhado do paraíso prometido aos homens de boa vontade. O ar que desceu pela sua laringe não estava melhor do que em qualquer ponto daquele bairro sempre agitado, mas naquele momento, dado o seu desconforto, um sopro de ar por ínfimo que fosse pareceria a salvação. Um momento de perplexidade tomou seus olhos e suas mãos, desceu pela garganta, empurrou sua pulsação para níveis nunca antes atingido. Mas por que isto? Ele estava como sempre estivera pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, a mão direita calculando as dívidas, a mão esquerda planejando a solução para pequenos problemas domésticos, o pé direito se apoiando numa escada fincada em solo móvel e o pé esquerdo doía pela pancada dada num raro momento de destempero. Oto era como todos, um pequeno grão dentro de um celeiro imenso, mais uma semente do grande plano por trás de tudo.
        Por muitas manhãs seguidas ele acordava sem sentir que havia descansado, seu sono cada vez mais intranquilo povoado por sonhos nebulosos que ele não conseguia lembrar por completo. Levantava-se e corria para o banheiro para tentar melhorar o aspecto, tarefa que ficava mais difícil com o acúmulo dos anos pesando na pele do rosto. Ele apenas seguia em frente, pois segundo a maioria avassaladora das opiniões era assim que deveria ser, pois a sociedade moderna é assim mesmo, cheia de compromissos, cheia de atividades, ninguém tem o direito de ficar parado com apenas um lado sendo exercido, esta é a era multifuncional onde todos têm de estar girando seus 360 graus a todo momento. Afinal de contas se existem 10 níveis de inteligência, por que não tê-los todos ao mesmo tempo? É simples assim.
      “Quero mais ar, preciso de mais ar” ele pensa. O sufocamento existe mesmo, ou é uma impressão?  Ou será que é seu nariz que está entupido e ele nem percebeu? Muitos detalhes mínimos passam despercebidos na enxurrada de sensações, sons, imagens, pensamentos, ordens, desejos que circundam a existência diária dos habitantes desta era de tempo dividido e superposto. Por cerca de um mês Oto pensara estar com uma alergia persistente nas narinas, sugava o ar com cada vez mais força e não parecia ser suficiente. Recorreu a um descongestionante, mas não obteve resultado, anotou o telefone de um médico recomendado e sempre deixava para depois a ligação para marcação da consulta. Sempre surgia algum assunto mais urgente, sempre de outros e não do seu interesse e sua saúde poderia esperar para depois.
       Oto não havia percebido que perdera o controle sobre sua vida. Muito solícito e afável pouco a pouco rompera a fina casca que separa o espaço essencial onde a individualidade procura refúgio e deve manter seu território, o santuário sagrado sem acesso aos outros e de onde emana a energia que revigora e regenera a alma individual. Como ele chegara neste estado de coisas não saberia dizer, nem saberia dizer com precisão tampouco quando foi a última vez que estivera sozinho, em companhia apenas de seus pensamentos.
       Uma consultoria urgente foi solicitada, e por ser tão urgente foi praticamente ordenada, pois alguém relapso e preguiçoso havia cometido algum erro grosseiro e Oto estava lá para consertar. Devido à urgência e como a roda dos negócios não pode parar nunca, apenas dois dias de prazo foram estipulados para solução do problema, muito embora muito sensatamente fossem necessárias pelo menos duas semanas para a correção. Oto foi chamado e por ser sempre muito solícito aceitou o prazo insano que lhe foi dado, não obstante o fato de que já estava acumulando 3 outras tarefas urgentes, com prazos tão curtos quanto a paciência dos contratantes. Sua formação tecnicista de alguma forma lhe assegurava que tudo era possível, que tudo poderia ser equacionado, que todo o peso poderia ser distribuído numa superfície, e acima de tudo, que ele sempre deveria ser capaz de dar resposta para os pedidos, e que ele nunca poderia dizer não.
      O acúmulo de tarefas roubava-lhe o tempo de viver sua vida, ele pesquisara muito sobre o desgaste de materiais tão diversos, mas nunca percebera que o seu material estava muito desgastado. Suava com facilidade à medida que se cansava com facilidade, e o ar estava ficando mais ralo e curto. Terça-feira de manhã já debruçado sobre o teclado de seu laptop não tinha certeza se era terça ou segunda, ou mesmo domingo, os dias estavam ficando todos iguais. A xícara de café já esfriara. O queijo azedara e a pera escurecera na fruteira, as refeições eram um incômodo para ele, só faziam perder seu tempo tão precioso, com tantas tarefas se acumulando em sua gaveta.
A qualidade de seu raciocínio revelava o seu cansaço avolumado, muitas vezes ao ler uma simples linha de algum dos relatórios que o encaravam ele não conseguia mais terminar na mesma concentração que iniciara. “Opa, preciso de uma xícara de café”, sacudia a cabeça e recomeçava.
      Oto decidira fazer seus serviços em casa, saudando as novas tecnologias de comunicação colocadas à disposição dos pobres mortais, que desta forma se tornavam convencidos de que tomavam controle absoluto sobre suas vidas, já que tudo estava tão a mão, tudo tão fácil, automático e colorido. Dois celulares já não estavam satisfazendo suas necessidades de mandar e receber recados, dois laptops já estavam quase cheios de arquivos, planilhas, fotos e mensagens que se auto apagavam porque era impossível que ele lesse tudo que chegasse, talvez com um dia com 48 horas. Mas como ele estava decidido a trabalhar em casa pesou os prós e contras, achou que ficaria isolado para poder exercer com maestria suas habilidades, enchia a geladeira no início de cada semana e desligava a televisão. Como a novidade é sempre estimulante, nas primeiras semanas tudo parecia se encaixar.
    A noite segue firme e o prazo da tarefa urgente vai escorrendo pelo ar. Um terço do trabalho já foi realizado, com Oto a todo vapor se esforçando mais do que pode para dar conta dos pedidos que    chovem em sua caixa postal. Alguma linha de produção que emperrara toma toda sua atenção neste momento, uma indústria com um grande contrato precisava aumentar em muito sua capacidade produtiva e um nó havia surgido para atravancar o bom andamento das previsões. Então pensaram em Oto, muito aplicado, muito dedicado, para resolver este impasse. Muitos milhões em jogo e isso ficou particularmente claro para ele, quando lhe foi apresentado o problema. Alguns clientes muito nervosos e muito pressionados repassaram-lhe todo o nervosismo e toda a pressão, por um valor aquém do seria cobrado pelo mercado. Mas Oto aceitava pois não costumava dizer não. No momento da apresentação do problema seu nariz havia se fechado levemente porém ele não se importara, pensou nas impurezas retidas no ar condicionado, na poeira em suspensão e nas fibras do carpete como causa de sua alergia, e nunca poderia cogitar que toda a tensão suspensa no ar, toda a urgência dos negócios, todo o dinheiro que servia de justificativa para aquele ambiente insuportável quem sabe, talvez, poderiam ser a causa de sua inquietude refletida no nariz que teimava em dispor  de menos ar do que ele precisava.
    Ao término da reunião Oto por uns breves momentos ficara a sós, mas não poderia admitir que tal tarefa era pesada demais para ser resolvida em tão pouco tempo. Bastava fechar seus olhos para se lembrar dos rostos sérios, tensos e hostis dos homens de negócios que o haviam contratado, por um preço baixo pelos valores de mercado, para livrar seus pescoços dos caninos ávidos dos acionistas. Todos já haviam se retirado, mais leves e confiantes. Oto para no banheiro e abre a torneira. Lava suas mãos que respingam gotas por causa do tremor, mas que tremor é este?  Oto pensa que seu braço estivera um pouco dormente após tantos minutos numa cadeira ouvindo o medo e a tensão estampados nos astutos homens de negócios preocupados com o possível fracasso. “Por isso minha mão treme, é claro” Por isso o nariz fecha, por isso a mão treme, por isso que ele não sabe que hoje é quinta-feira mas poderia ser sexta. Por isso também é que ele chega na rua e não se situa, não sabe onde está. “Nossa, nunca me aconteceu isto antes. Eu ando por estas ruas há tanto tempo, como posso ter esquecido de onde estou? ” Sacode os ombros e sorri brevemente. “Opa, já passou. Meu carro está a duas quadras daqui”.
    Volta para casa por volta das 20:30 hs. Já delineando as linhas gerais do que pretendia fazer para resolver a grande encrenca em que se metera. Seus neurônios já estavam muito absorvidos e voltados para o desatar do nó que se instalara naquela indústria tão temerosa de não cumprir os prazos acordados. Com o corpo inundado de adrenalina a fome se escondera e o banho fora tão rápido quanto possível para não interromper o raciocínio. Muito trabalho o espera.
     Sua cafeteira elétrica havia se tornado uma grande companheira e uma grande bengala, pois Oto dependia em grande parte do café que tomava avidamente, acreditando que o pó divino sempre lhe traria forças que lhe empurrava para a solução dos variados problemas, tarefas e encrencas em que se metia, pois não sabia dizer não e acreditava que nunca poderia dizer não. Então se atirou em seu trabalho, desenhando linhas, esquemas e soluções para desafogar o fluxo da linha de produção.      Agora são 23:00 hs e após tanto esforço Oto sente um grande alívio por ter avançado muito na solução do problema tão sério e com tanto capital envolvido. Sorri para si mesmo e se auto congratula.
    Oto vive sozinho num apartamento pequeno e adequado para ele, um rapaz recluso por conta de tanto trabalho assumido. Há muito havia passado dos trinta anos e se refugiara no trabalho, em parte por ser tão responsável, em parte por ser eficiente, em parte pela timidez excessiva, que o impedia de dizer não muitas e muitas vezes e ofuscava seu real valor, recebendo menos do que merecia. Como tinha muito serviço seus ganhos eram suficientes para seu estilo de vida quase monástico. Raramente entrava em contato com sua família, seus dois irmãos e seu pai moravam num sítio no interior. Sua mãe era falecida. Sua timidez excessiva contribuía para sua reclusão, namorara muito pouco e tinha um círculo limitado de amizades. Era um exemplar da moderna fauna urbana que engrossa as estatísticas da solidão nas grandes metrópoles.

    Uma bela noite mostra seus ares e brilhos do lado de fora com bares, restaurantes, boates e motéis cheios de gente feliz ou ocultando a infelicidade com sorrisos dúbios, litros de álcool e sabe-se lá o que mais para garantir tanta euforia. Oto está cansado e com o nariz entupido, corre para a janela para deixá-la totalmente aberta querendo com isso deixar entrar o ar que não lhe chega em quantidade suficiente. Volta para seu teclado e se depara com muitos gráficos coloridos, tabelas elaboradas e um relatório extenso, que ele pensa que poderá trazer de volta o sorriso e o alívio àqueles homens tão tensos e temerosos. Apesar de sua timidez ele pensa consigo próprio “Vejam só, eu resolvi em um dia uma grande encrenca, me sinto orgulhoso disto mas sei que no máximo vão me agradecer de modo frio e vão demorar uma semana para me pagarem. Sei que deveria ter pedido mais dinheiro pelo meu esforço, mas não consigo. O que está errado comigo? Eu me olho no espelho e ensaio uma grande entrada, me vejo colocando os pés em cima da mesa falando duro e exigindo o triplo do que me oferecem, mas na hora H meus lábios tremem e meu nariz fecha”. Num momento toda a euforia passa e a melancolia se apossa do Oto sozinho num minúsculo apartamento.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Gosto mais de música do que de mim (2ª parte)

  Ufa!  Depois desta Saramaguização, e com a garganta seca de emoção e sede resolvi dar uma pequena parada para tomar uma água de coco. No meu caso, por volta desta hora da manhã e após a sequência musical apresentada, é muito natural que eu apresente um estado alterado de consciência.
O gosto da água em contato com a língua se converte na nota fá sustenido. A cor da cobertura da barraca de água de coco soa como o acorde de Dó sustenido menor . O rosto duro do vendedor me lembra um naipe de contrabaixos tocando na região grave. Não espero que alguém entenda o que eu estou falando. Este momento não pertence ao mundo real. Fico alguns minutos fazendo longos círculos para poder pousar com suavidade em solo pedregoso.
     De volta ao carro retorno lentamente para a posição de decolagem. Um quarto de tanque evaporou nesta brincadeira. Recomeço de forma bem tranquila, quase em silêncio com “Hermitage” de Pat Metheny.  Logo depois “Focus II”, do Focus, tão gentil quanto um mousse de chocolate.  “Kathy's Song” de Paul Simon é uma sequência coerente, e depois “Guinevere”, de Crosby, Stills and Nash; “Ten year's gone”, do Led Zeppelin. “Tomorrow”, de Paul McCartney. “No backstage pass” do Caravan, “Fat old sun” do Pink Floyd, “The Lamia” do Genesis, “Riders on the storm” do Doors, “She's leaving home”, dos Beatles;”1974” do Terço, “Impressioni di Setembre” da Premiata Forneria Marconi, deixando uma pitada de sabor italiano nesta salada. Todas músicas tranquilas  Ah! E é claro “Autobahn” do Kraftwerk, os robôs teutônicos, parafraseando minha viagem.
   Quanto tempo poderia durar esta viagem? Quanta música poderia caber num só dia? Ou qual extensão do planeta poderia ser forrada com todas as partituras já escritas? Quanto dinheiro já foi gasto nesta indústria? Quanto prazer e quanta dor estão inseridos, misturados, derramados, depurados, injetados, devotados, enclausurados, declarados, ocultos, confessados, expelidos e expiados em entes incorpóreos, que só existem quando lhe damos ouvidos? Não pergunto para saber. Na verdade nem quero. Só quero seguir até o fim da vida dando ouvidos. E tendo ouvidos.
  “Achille's last stand”, uma apoteose de guitarras, a preferida de James Patrick Page. “Oh the sweet refrain, Soothes the soul, calms the pain; Oh Albion remains, sleeping now to rise again”. Minha temperatura sobe de novo. Ao ouvir bem de perto surge o fascínio de perceber a sutil arquitetura das várias camadas de guitarra sobrepostas. Um músico assume o papel de ourives, por vezes de garimpeiro, arquiteto,  em outros momentos é um tecelão de sons e não de linhas de tecido. Como Michael Oldfield em “Ommadawn” e em “Tubular Bells”, sozinho num estúdio, fazendo cantar os fantasmas dos druidas célticos. Ou Hermeto Paschoal, um mago moderno, figura branca e bizarra, quase etéreo vertido em pianos e chaleiras. Ele deve ser quase 100% só música. Miles Davis, Michel Legrand, Chic Corea, Duke Ellington, Bernard Herrmann, Nino Rota, Bernstein, Charles Mingus, Piazzola, George Martin,  Ravi Shankar, Fela Kuti, Vaughn-Willians, Fauré, Carl Orff, Camargo Guarnieri, Ernesto Nazareth, Muddy Waters, Django Rheinhardt, Les Paul, John Mayall, Prokofiev, Egberto Gismonti, Marvin Gaye, James Brown, Sam Cooke, Duane Allman, Peter Gabriel também são 100% música.

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   Apesar do Sol caminhar célere mas sereno, e por conta disto as horas avançarem, não sinto fome. Uma incomum saciedade me acompanha neste dia. A cidade sem fim ficou para trás, mas a mente em estado alterado se mantém. Sinto os dedos gelados, não sei se por causa do ar condicionado ou do êxtase.
       A paisagem já mudou bastante, agora com várias propriedades rurais que se sucedem. Uma visão bucólica  em contraponto à feição urbana de grande parte das estradas que penetram profundamente no corpo imenso das megalópolis. “Música urbana”,” Babylon by bus” e a meiga ironia de “Nothing but flowers” do Talking Heads, onde David Byrne canta de forma invertida a nostalgia de um observador saudoso da paisagem urbana num mundo dominado pela natureza revirginada. O  mundo não pode escapar das megacidades. Alguns dizem que elas são a solução para o sociedade moderna e futura. Quem sou eu para negar esta afirmação, eu que nasci na metrópole, mesmo que tenha sido em sua periferia ?.
    A tarde chega e é o momento calmo antes da tempestade, antes das resoluções do dia, dos fechamentos de negócios. O Sol já se inclina cortejando o Oeste, olhando já de esguelha para o mundo que corre desesperado. Hora de aumentar o volume para espantar o sono que se insinua. Estou bem longe de casa, já é hora de retornar. “Red House”, de Jimi Hendrix, versão “Hendrix in the West”. Creio que a melhor, se não uma das melhores performances de guitarra já materializadas neste mundo ingrato. Onde está Hendrix hoje? Quem foi Hendrix?, podem perguntar estas infindáveis legiões nascidas na Era da Informação, que plugam guitarras de brinquedo em vídeo games. Ele o mago, a ponte entre o ruído e a música, entre o caos e a harmonia, abruptamente retirado de nosso convívio. Onde andará  Jimi Hendrix?
     “Jumpin' Jack Flash, it's a gas, gas, gas”, outro riff imortal do pirata-da-perna-de-pau Keith Richards. Um sobrevivente. Esta geração aos poucos vai partindo, pois nosso tempo de vôo é muito curto. Richard Wright, Lou Reed, George Harrison, Jon Lord, Syd Barret, John Entwistle, Raul Seixas, Joey Ramone, Marvin Gaye, Miles Davis e James Brown velam por nós.  Então, como um réquiem para estes mortos ilustres, eu vou de “Baba O'Riley”, The Who. Outro riff poderoso. “Don't cry, don't raise your eyes, it's only teenage wasteland”; “Não chore mais” enxertada na ponte. Gil, Towshend e Marley de comum acordo. Não chore mais, pois a terra devastada da adolescência não pode virar a terra estéril da maturidade. A terra abençoada da adolescência é a matriz de nossa alegria perpétua, a colheita feliz na maturidade. Quem, como eu, cresceu nutrido e embebido em tão  saborosa fonte não tem motivos para se lamentar, só para celebrar.
   Na  faixa da direita, atrás de um ônibus de excursão, começou a tocar “Jokerman” de Bob Dylan, seguida de “The times they are a-changin”. É verdade, os tempos estão sempre a mudar. E como mudaram! “Changes” de David Bowie, veio corroborar esta afirmativa. Ele o camaleão, sempre trocando peles e estilos. Pedras que rolam não criam limo, não é verdade? Caetano também, velho mas novo ao mesmo tempo. Toquei “O estrangeiro”, “Língua” , “Eu sou neguinha” e “ O quereres”, obra-prima. “Ah bruta flor do querer, ah bruta flor! “Seu olhar” do Gil, vou ouvir até morrer: “eu quisera ter tantos anos-luz quantos fosse precisar, prá cruzar o túnel do tempo e do seu olhar”.
    Acelero. Os contornos da cidade já se avolumam no horizonte. O ar mais denso, o ruído crescente, o volume de tráfego, os carros novos, os carros mal conservados, os ônibus já cheios, saída de escola, final de turno de trabalho, pessoas cruzando as passarelas. As nuvens dançam e deslizam no céu ainda azul, mas que vai enegrecendo, repelindo o Sol que se afasta mais e mais. O crepúsculo logo chega, é a hora da reflexão, das sombras longas, do medo atávico da noite.
   Eu gosto demais de “Deacon blues”, do Steely Dan. Me dá um nó na garganta quando Donald Fagem canta : “I cried when I wrote this song, sue me if I play too long. This brother is free, I be where I want to be” e o refrão “ I learn to work the saxophone, and I play just what I fell; drink scotch whisky all night long and die behind the wheels: they got a name for the winners in the world, I want a name when I lose. They call Alabama the crimson tide. Call me Deacon blues”. Fagen e Becker, uma das melhores duplas na música. Mas me enche de melancolia também. Desligo o som por uns instantes. O dia se foi, a noite chega
    Chegou a hora , chegou quem estava faltando: Frank Vincent Zappa, uma escola inteira de música. “Black Napkins” e seu lancinante solo de guitarra. “The black page”, uma estrutura inusitada e vertiginosa construída sobre um solo de bateria. Coisa para gente grande tocar. Quase uma outra dimensão. “Zombie Whoof”, com suas idas e vindas, uma pulsação quase hipnótica e muito carnívora. “Don't mess with the zombie whoof”, canta o coro feminino quase no final. Mais um pouco e eu me transformaria no monstro. Depois “Don't eat the yellow snow”, “Illinois enema bandit”, “City of tiny lights”, “Montana”, “We're turning again”, “Uncle remus”, “Andy””Cosmic debris”, “Sofa”, “Wild love”, “Be bop tango”, “Evil prince”, “Caroline hardcore ecstasy”, “The torture never stops”, “The idiot bastard son”, “Jesus thinks you're a jerk”, “Peaches in regalia” e muito, muito mais. Zappa foi único, um sistema solar dentro de si mesmo, criador de música para sonhadores em ambiente hostil.

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       Meu objetivo foi alcançado. Este dia foi singular. Uma viagem musical, uma viagem dentro de uma viagem. Uma homenagem. Meu tanque abaixo de um quarto me faz voltar ao mundo real, as luzes dos freios piscam incessantemente, as setas como vaga-lumes nesta floresta  móvel. Um dia comum para a larga maioria dos motoristas que comigo dividem o asfalto. Tal qual o refluxo de uma grande maré os automóveis e seus ocupantes voltam para suas garagens e casas. Amanhã tudo de novo, a vida segue seu roteiro.
     Estaciono meu carro e fico por longos minutos em silêncio. O silêncio, este estado de perfeita harmonia, o desafio permanente dos compositores, tão precioso quanto raro. Quem precisa de música nestes instantes?

                                                         
                                                                            Ivan Henrique Roberto
                                                                                abril de 2014

Gosto mais de música do que de mim (1ª parte)

Gosto mais de música do que de mim


           Não sei não, mas acho que sou um pouco diferente dos demais, eu sou composto de 70% de água e 10% dos outros elementos químicos necessários e fundamentais à constituição dos organismos vivos desta esfera perdida nos arrabaldes do multiverso. O que falta para completar este mero corpo tão ordinário só pode ser este elemento estranho e impalpável chamado de música. Para fechar o conteúdo faltam 20%. É, acho que eu sou 20% formado de música. Venho desconfiando deste fato desde pequeno. Será que é normal? Ou dito de outra forma, será que eu estou no lugar certo? Senti um alívio temporário quando, no decorrer destes muitos e longos anos, percebi que existiam outros seres com características semelhantes às minhas. Tá certo que eles são meio esquisitos quando se olha de perto, parece que a cabeça gira em outra direção, e que eles estão olhando para o vazio. No entanto, se eu tomar esta última afirmativa, e fazer uma análise profunda de mim mesmo, posso afirmar que eu não olho para o vazio, mas para um mundo diferente. Muito mais belo do que os arredores.  Aprendi no colégio sobre frequências, então será que é isto? Não será que estes seres esquisitos vibram em outra frequência? Muito estranho.
       As chaves do carro estavam no lugar de sempre. O traçado do caminho já claro na mente, o tanque cheio, o tempo farto. O dia límpido. Quinta-feira, 17 de maio, dia de descanso. Vou sair por aí, sem destino, como aqueles dois de moto no filme. Difícil estar livre nestes dias de muitos compromissos, muitas atividades, muitas reuniões, minha persona pública fatiada em inúmeros pedaços para servir de alimento, justificativa, alento, e também,(eu sei bem que é assim) de alvo para maledicências, desprezo e inveja. O diabo são os outros, disse o francês estrábico. Acho que ele estava com razão. Bom, já que fui destinado a aparecer por estas bandas, neste período de tempo, e não tenho escolha, vamos sempre avante, buscando desviar dos golpes e dos olhares traiçoeiros, e das palavras mal intencionadas que cruzam o espaço sonoro por onde eu passo.
   Ah o espaço sonoro... Como é entulhado de lixo! Então me lembro da constituição física incomum que citei há pouco. Todo este lixo me incomoda, muito mais de que a qualquer outro. Alguma incompatibilidade de frequências, ondas que se chocam, se repelem. Há tantos mistérios ao redor, que a cada passo que é dado  mais portas e janelas são abertas para um ambiente impalpável. O espaço que nos cerca é tão precioso, que deveria ser mais respeitado. Mas não é assim que acontece.
      Fechei as janelas, lacrei meu refúgio. Plug and play, e logo meus arquivos sonoros tão preciosos tomaram forma. À esquerda e à direita meus ouvidos acolhem com alegria a companhia tão estimada, amigos incorpóreos que só existem nos escassos minutos da execução. A música é muito misteriosa e efêmera, ela não existe de fato, é uma ilusão que se mantém por teimosia e abnegação de todos estes seres excêntricos que persistem em mantê-la no ar, como um fogo fraco açoitado por ventos inclementes. 
     O silêncio é uma força poderosa, que engole toda a música que ousa desafiá-lo. São muitos insultos ao silêncio, milhões por segundo. Hoje eu peço licença ao Deus Silêncio, mas meu espaço vedado será preenchido pelos amigos incorpóreos. Hoje o tempo é só meu, eu me dei de presente.

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       A alameda  arborizada é a passarela deste início de jornada. A inclinação dos raios de Sol entre os galhos cria cortinas de luz amarela, de grande beleza, mas tornam um pouco mais difícil o ato de dirigir. Me recorda as manhãs da infância, onde o cheiro do ar era mais doce, pois vinha filtrado pela inocência. A cortina de luz lembrava a ala de uma catedral, com paredes forradas de vitrais coloridos. Ainda frio e ainda lento, o carro desliza pelo piso úmido de orvalho. Lento, pois ainda terá muito chão pela frente. Automóveis podem ser boas cápsulas sonoras. Fechadas, com boa acústica, se devidamente equipadas, podem e devem ser um lugar de refúgio, muito  além do mero meio de transporte, muito mais do que a fonte de muita irritação e perigos diversos dentro das cidades e estradas por este pequeno mundo afora.
     A alameda arborizada nada mais é do que um pequeno capilar deste sistema circulatório convulsionado, que liga ou, cada vez mais, desliga os vários bairros de minha cidade. Então me volta à lembrança a “cidade sem fim”. Era isto um conceito ou um capricho ? Ou , menos ainda, uma ideia desarticulada, dentre inúmeras que eu insisto em jorrar pela mente à fora? “A cidade sem fim”, onde as ruas chegavam até meus pés, e eu imaginava a mesma rua serpenteando, com sua pele de asfalto, infinitamente, até o outro extremo. Extremo de onde?  Bairros após bairros, sempre bairros novos para serem descobertos. A cidade sem fim. A cidade circular, a curva infinita.
       Hoje é um bom motivo para pôr em prática o conceito da “cidade sem fim”, já que eu não tenho um destino. Desci a alameda, virei à direita e  entrei na estrada já repleta de veículos. Devagar vou inserindo meu carro neste jorro contínuo. Veículos diversos no papel de glóbulos vermelhos na circulação do imenso corpo. Glóbulos de muitas cores e de alguns tamanhos. Os motores em atividade compõe o fundo sonoro deste imenso corpo.
       É hora de começar: “Os pinheiros de Roma” de Respighi escorrem pelos falantes do carro. Sua 2ªparte: “O pinheiro próximo à catacumba” chega quase em silêncio. Muito grave, muito lento, se insinuando, querendo abrir caminho em meio à balbúrdia das buzinas e das freadas. Grave e solene, respeitoso por estar próximo de uma catacumba, a morada de um corpo há muito transmutado. O som se agiganta e pede atenção. Já não pode ficar despercebido. É o início, neste dia e nesta jornada, da batalha eterna entre a música e o barulho, entre a arte e a confusão. Os vidros lacrados não impedem a intromissão indesejada do mundo externo. Só atenua. Por isso vivemos neste plano, pesado, grosseiro e limitado, muito limitado. Então, por esta razão e por este motivo, devo colher cada grão de leveza, beleza e sutileza que cruzar meu caminho. Um trabalho infatigável.
      Sigo avançando. Devo avançar. “Giant steps”, de  John Coltrane chegou: Ágil, extenso, quase vertiginoso. Este tema de jazz puro como um diamante tocado em alta velocidade é quase um deboche frente ao trânsito que desacelera. As fusas que sustentam as “lâminas sonoras” de Coltrane estão em sexta marcha, a 10mil rotações por minuto enquanto o motor não passa da segunda marcha, a meros mil giros por minuto. O trânsito dá uma leve melhorada. Coincidentemente, eis que de repente entra “Blue Rondo a la Turk” com Dave Brubeck, que avança e freia, avança e freia, avança e freia, segunda , primeira, segunda, primeira, dá um tranco e engata um terceira marcha com o solo de Paul Desmond. O pé esquerdo relaxa um pouco e o carro vai macio como o piano de Brubeck.  A vida imita o jazz nesta manhã.
         O Sol é inatingível porém seus raios me atingem. Meus olhos turvam um pouco. Lembrei do eclipse em 1980. Com um filme preto nas mãos eu olhei direto para a majestade e a imponência e vi um círculo perfeito. À esquerda estava o Sumaré, com suas costas verdejantes, ao meu lado meu irmão, meu companheiro. Vimos juntos o eclipse.
         O asfalto clareou e convidou a acelerar de novo.  Que tal “Aquatarkus”, para comemorar a pista mais livre e mais rápida? Emerson, Lake and Palmer, dinossauros de um período distante. Ou deveria rebatizá-los de Elpassaurus ? Tarkus era um tatu em fusão com um tanque de guerra, criação de um cientista louco, primeira vítima de sua criatura. Depois de várias batalhas ele sucumbe frente ao Manticore, um ser misto de leão e alguma coisa com uma cauda terminada num martelo cheio de pontas. Um ser mitológico. Depois o Tarkus ressurge como Aquatarkus, que é um solo estrondoso de teclados e uma bateria tonitroante. Bélico e épico, evocando um espaço aberto e imenso. Mas basta olhar para fora e ver o espaço todo ocupado com mais e mais carros e lançamentos de alto luxo, três e quatro quartos espremidos em 70 metros quadrados. Insuficientes para acomodar o Tarkus, ou mesmo a bateria do Carl Palmer.
          Já que eu não tenho destino e nem pressa peguei o retorno, pois o outro lado está mais livre. Vou em direção ao “Hotel California” dos gerentes Don Henlen e Joe Walsh. Só não sei se quero ficar porque dá para fazer o check-out a qualquer tempo, mas nunca se consegue sair. Melhor procurar outras acomodações.
      Deste lado está mais livre. Mesmo que eu não tenha pressa nem destino prefiro a fluidez e a distância segura em relação aos outros veículos. Gosto da fluidez, como em “Boomtown”, de Mark Knopfler, onde a música escorre solta e calma, uma seiva doce e rica desta árvore infindável de muitos galhos. Mark Knopfler, com seu fraseado limpo, fruto de um dedilhado preciso.
     Qual o mistério que protege a música?  Qual magia foi conjurada há milênios, onde o primeira pancada num tronco oco, ou o primeiro sopro através de um osso seco, ou mesmo o vento sacudindo as folhas de uma árvore fez o papel de chave para este quarto oculto? O poder desta magia poderosa pode estar simbolizada nas trombetas de Joshua em Jericó. O som articulado vibrando em harmonia foi capaz de derrubar os muros sólidos. Física? Astúcia? Fé? Ou Orfeu tocando sua lira que acalmava as feras e os espectros que rondavam e guardavam o Tártaro (não o do dente, mas aquele mais profundo e vasto, no subsolo da antiga Grécia).
     Bem, como esta pergunta jamais será respondida, a marcação do tanque cheio e da temperatura do motor me inspiram a prosseguir. Ligo o ar condicionado e aumento o som porque o Rei chegou: “Jailhouse Rock”: A gang threw a party in the county jail... , e logo depois Eddie Cochran conclama “C'mom everybody” para se juntar à festa. A festa transbordou os muros da prisão e tomou as ruas do mundo todo. Ou quase todo, pois o mundo é muito grande e desigual. Controverso.
    As vezes sinto um pouco de inveja de não ter nascido na infância da música, onde tudo estava  por ser pescado ou colhido.
     A manhã avança com a certeza absoluta de que o giro sincronizado deste planeta  pequeno e insignificante não espera surpresas, santificados sejam Kepler, Galileu e Newton. Caminhões lentos e carregados de produtos bamboleiam e quase rastejam pelo asfalto afora. Um olho atento à estrada aguça o instinto de precaução contra os perigos de quem se dispõe a duelar com estes colossos imprescindíveis à vida moderna e consumista.
    Meu catálogo sonoro é muito amplo. E muito diversificado. Por conta disto ejetei Eddie Cochran e coloquei a Sétima sinfonia de Beethoven. Ludwig me incita à velocidade, com toda a energia contida em seu painel sonoro. Gosto da Sétima, não mais do que a Nona, mas a Nona é um monumento. Engraçado pensar que na estreia ela não agradou. Acho que pouca gente entendeu. Até hoje não entendem. Um maestro obscuro do início do século XX disse desta que: “parecia um monte de bois soltos no pasto, sem controle”. Pérolas e mais pérolas cuspidas de bocas infelizes, que juntas formam um amplo colar de tolices. Como o executivo daquela gravadora que recusou os Beatles, por achar que “conjuntos com guitarras não despertam interesse”. Não é que , no momento em que pensava nisso, subitamente entra “Day Tripper”?
    Já que a estrada segue para o sempre, segundo as palavras dos Allman Brothers, nada melhor neste momento do que “Road Trippin” dos Chilli Peppers, seguida de “Road to Nowhere”, com Talking Heads, e que fecha com “Hit the Road Jack”, do magnífico Ray. Como uma onda de choque poderosa as vibrações aumentam minha frequência. Quase inconscientemente meu pé afunda no pedal do acelerador. A sensatez reveste-se de timidez e se esconde, e o pé fica solto como um animal selvagem. O radar logo adiante é um raio gelado que me convida a descer à realidade deste mundo de possibilidades limitadas. O mundo concreto, este rasteiro réptil de tentáculos e gosma pegajosa, que retém as almas e mentes em sua mesquinha obtusidade.
  É hora de beliscar um pouco do sublime: “ O mensch, gib acht” canta a soprano Christa Ludwig, e o mundo em suspensão da orquestra ao redor ampara esta voz quase celestial. É a Terceira sinfonia de Mahler. Nada mais há que ser dito. Só ouvido.

       A estrada está mais vazia, mais silenciosa. Por longos minutos o enlêvo, quase um transe, proporcionado pela música de Gustav Mahler foi suficiente para me manter nutrido. Mas o mundo é  a buzina e não a harpa. A transição entre estes níveis tão díspares ficou a cargo da “Estrada do Sol”, de Tom e Dolores Duran. Era , de fato, de manhã, ainda. E o Sol e os pingos de chuva que haviam caído ontem, ainda estavam a brilhar. Ao vento leve que trouxe esta canção, vieram outras e outras, como “Trem das cores”, “Fadas”, “Canteiros”, “Nascente”, “Guarde nos olhos””Ponteio””Se eu quiser falar com Deus”, “Terra”, “Explode coração””Flor da paisagem””Admirável Gado novo””Romaria””Oceano””Sina””Disritmia””Flores””Nuvem cigana””Cais””Um girassol da cor do seu cabelo””Amor de índio””Corrida de jangada””Samba do avião””Detalhes”O bêbado e a equilibrista””Menino bonito”Foi um rio que passou em minha vida””Aquarela do Brasil””Réu confesso”Sabiá”Feitio de oração””Chega de saudade””Fita amarela””Modinha””Morena Tropicana””Alagados””Tropicália””Bandolins””Carinhoso”;”Atrás da porta”Tempo perdido””Fé cega, faca amolada””Arrastão””Volta por cima”, “Lanterna dos Afogados”;”Palhaço””Máscara negra””Preta pretinha””Mistério do planeta””Coração selvagem””Brasil Pandeiro”; “Todas elas juntas num só ser”O pequeno burguês””As rosas não falam”” O segundo Sol”; “Disparada””Telegrama””Correndo atrás”... (pausa para respirar e trocar de marcha), “O trenzinho do caipira”, “Rosa de Hiroshima””Chão de estrelas””Juízo final” “O que é o que é””Pavão mysteriozo”, “ Eu quero é botar meu bloco na rua”,”Pétala””Apesar de você””Sentado à beira do caminho””Palco” ”Construção” (depois de “Construção” pouca coisa pode resistir, como se fossem bolas de sorvete expostas ao Sol do sertão de Asa Branca), “Asa Branca” e a ária da Bachiana número 5. Feliz deveria ser o país que produziu tudo isto.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 19)

   

  Num último esforço o viajante indefeso para por um instante, se volta e contempla a batalha que deu causa.  Já não ostenta a couraça-dourada. O clarão de fogo aumenta, se apodera de toda a planície perpétua e cria um redemoinho incontrolável, que começa a destruir o caminho que ficou para trás. O viajante vira-se de novo, vê mais à frente a quinta porta e flutua até ela.

       Na soleira desta nova porta uma voz o interroga:

   “-Diga a senha”. Qual senha? Ele hesita por um momento.

   “-Diga a senha”. Ele fica apreensivo.

  “-Diga a senha ou permaneça para sempre onde está”.

      A porta começa a desaparecer.

   “- O dragão acordou”, ele fala finalmente.

   “-Adeus”.


     Pela terceira vez ele abre lentamente seus olhos, e olha o rosto familiar de Osíris, que o recebe de volta com um sorriso cúmplice. Atrás de si o ainda não muito familiar rosto de João Hermes. E na outra ponta do triângulo o rosto severo, mas sereno de Isis, a Grã-Sacerdotisa. Mais recuados, um pouco na penumbra, as dezenas de rostos dos demais membros da ordem, prontos a receber de braços abertos o novo companheiro. Caso este queira, é claro!

   “- Seja bem-vindo de volta. Você passou na prova”, e estas frases vieram abraçadas à voz firme e doce de Isis. Neste momento, já com os olhos abertos e acostumados à penumbra ele percebe no olhar daquela mulher a sua superação. Havia dois quadros simultâneos dentro de um mesmo olhar: aquele olhar vazio do transe, não mais do que uma outra porta para dimensões estranhas e difíceis, com novos enigmas e a incerteza sempre um passo adiante, e que neste momento trazia um cansaço maior do que o desejo. O outro quadro, o oposto do transe, era a certeza de que ele estivera enganado em sua intenção quando chegou na primeira reunião, e viu pela primeira vez o rosto de Ísis, tão atraente e encantador. No fundo ela fora apenas uma isca. E estava fisgado, de fato. Entrara num caminho sem volta. Todavia, não ficou incomodado pois percebeu que o dragão estava desperto. Agora entendera o sentido da frase e ficou grato à Osíris, acima de tudo. O polimento da pedra deveria continuar. Por quanto tempo? Não importa. Ísis importa agora?  Não mais. Ela não era o caminho, seu rosto e voz eram as placas que indicavam o início do caminho. Osíris havia lhe dado o mapa e cabia a ele continuar o caminho. Que não tinha mais volta.

    O mesmo Osíris esperou os outros membros da tríade se afastarem para conversar a sós com Oliveira. Ele observou atentamente seu discípulo, pois isto é o que Oliveira era neste contexto. Um exame final, nesta terceira rodada de aprendizado intenso, deu-lhe a certeza do estado seguro em que seu colega de trabalho estava. Desde o último encontro que Osíris carregava uma ponta de incerteza quanto ao estado mental do ansioso e guloso iniciante, antes tão cético e refratário e agora mergulhado de forma intensa no caminho difícil do autoconhecimento. Oliveira estava bastante mudado. Neste espaço de tempo entre a conversa na livraria e o presente, algo se transformara dentro dele, e o olhar era o testemunho mais evidente desta mudança. Aquele olhar morno, comum aos muitos que se penduram nas alças da vida e são arrastados no turbilhão das coisas mundanas, ganhara em intensidade e argúcia, como se tivesse lutado e derrotado o olhar que o perseguira por toda a vida, e agora portava este mesmo olhar como troféu ou despojo de guerra. O brilho deste olhar agora poderia ofuscar e intimidar aos fracos de pensamento e vontade. Usá-lo ou não como arma cabia ao seu renovado arbítrio. Arma de quê? Arma ou ferramenta? O objeto não é o sujeito, o objeto é a extensão do sujeito. Mas isto tudo ainda estava a ser descoberto por ele. 

E então Oliveira, o que você tem para me dizer?
-
Que eu vi o quanto me falta, mas também vi que não há mais volta.
-
Você despertou o dragão enfim.
-
Sim, agora quero montar nele e domá-lo.
-
Ele não se deixa domar facilmente.
-
Eu percebi. Mas não tenho mais medo. Sinto que ele gosta de mim.
-
Ele gosta dos que se dispõe a conquistá-lo.
-
Ele é velho e sua pele é macia.
-
Você embarcará conosco?
-
Se for necessário, sim. Eu gostei daqui, afinal.
-
Você é bem-vindo.
-
Nunca me senti tão bem antes.
-
Eu lhe avisei.
-
Agora é a hora de ir.
-
Acho que é a hora certa para ficar.
-
Que seja então.


     A Lua ia alta no céu, tão longe, mas não tão longe que não pudesse servir de testemunha deste diálogo hermético, quase cifrado. No mais, o que foi dito foram somente as palavras de despedida normais de uma convivência civilizada. Depois foi cada um para o seu carro, cada um para sua casa, pensar nos afazeres triviais que podem ou não fazer a alegria de muita gente. O passo estava dado e a tarefa cumprida.

      Um domingo diferente de todos os outros domingos de toda a sua vida. Um dia em que acordou e olhou bem dentro de seus olhos com o ânimo renovado. O dia em que começou a remover a casca grossa que o mantivera preso por tanto tempo, tantos anos quantos todos os de sua vida até este momento. Uma pele nova para substituir aquela pele velha, rompida como as cobras rompem porque crescem. O dia um do ano um do resto de seu tempo nesta estação escondida na borda da galáxia, pequeno ponto azul ofuscado por uma estrela de quinta grandeza. Sorriu com todo seu corpo e experimentou uma nova liberdade. Desceu as escadas de seu prédio, chegou na calçada e saiu andando sem direção certa ou destino, apenas pelo prazer de olhar para tudo.

   

         

  

A cerimônia (capítulo 18)

     A TERCEIRA VEZ


    As nuvens se espalharam um pouco pela vastidão do céu. No horizonte surge uma Lua amarela, enorme, distorcida pelos efeitos óticos da posição em relação à Terra. O ar está fresco, e os incensos parecem estar mais perfumados do que das outras vezes. O grande gongo já está envolto em chamas, os archotes distribuídos ao longo das alamedas fazem companhia com a fogueira. Estandartes com símbolos estranhos compõe a cena deste espetáculo, que procura ser discreto, mas é grandioso ao mesmo tempo. Os grandes tachos já fervem, exalando o aroma característico do chá de Mayaszolote. Pouco a pouco os participantes vão chegando, alguns muito sorridentes, outros mais tensos, talvez por ser a primeira vez, ou por ser a terceira e definitiva. O que prevalece, no entanto é a paz e a serenidade. Isso ninguém tira.


   Oliveira já conhece o ritual. Até se gaba para si próprio que já não é mais um iniciante, olhando com uma certa superioridade para aqueles rostos que não reconhece e que sabe que estão pela primeira vez no recinto. Ele está tranquilo e confiante. Cumprimenta algumas pessoas, anda um pouco pelas alamedas, passa pelo galpão onde estão os tachos fumegantes, só para sentir o aroma que preenche o ar. Sua pulsação acelera lentamente, gradualmente. Ouve o primeiro toque do gongo e já se dirige para o assento reservado. O céu agora está mais claro. Não sente fome nem sede, mas a expectativa. Precisa ver o rosto da sacerdotisa. É o seu Graal. “Será que algum dia ela sorrirá para mim com interesse? ” O lado romântico que habita o coração de muitos garotos que sonham com namoradas inalcançáveis toma de assalto aquele homem já crescido e vivido.      “Ora, que besteira! Estou sonhando demais e muito alto. Eu não vim aqui para isso. Hoje é o dia da prova final. É claro que ela nunca irá reparar em mim”. Esta seca constatação o deixa em dúvidas quanto à certeza de sua vontade de superar a prova. “Eu não posso mais voltar. Eu só posso ir em frente agora”. Esta nova constatação quase o deixa travado e plantado no chão. E o gongo soou por duas vezes mais. A fila já se formava. A montanha russa foi posta em movimento.

  O desânimo, tal qual peçonha poderosa, se infiltrou e gelou seu sangue e o ar ao redor das narinas. As pernas fraquejavam e ele parou de repente hesitando em pegar a fila da bebida, momento crucial da cerimônia. Estes instantes de dúvida e ruptura teimam em acontecer, as vezes com muita frequência nas vidas ao redor deste mundo. Oliveira estava começando a ficar como se à deriva, num barco furado, com a água entrando em grande volume e pressão. Nestes momentos parece que a vista fica turva e as cores desaparecem, os tons se desfazem e fica tudo circulando ao redor de um cinza insuportável. Será isto um presente ou uma praga? Depende do ponto de vista: se é uma praga, largue tudo e desista. Se como presente se apresenta, então depure o veneno, dilua, cuspa fora o bagaço e o veneno o tornará mais forte. Aprumar-se no meio do açoite é a prova definitiva da superação. Quantos conseguem isto?

     Qual caminho tomou Oliveira, o da praga ou do presente? Vejamos:
-Eu só posso ir em frente agora”. Esta sentença determina o caminho.  Logo ele se dirige para o fim da fila. E se apruma. Osíris o observa de longe.

        Eis o copo na mão. Diferente das outras vezes, e apesar de toda a expectativa, não há aquela sofreguidão, aquela pressa de beber. Ele vira o copo com parcimônia, saboreando a bebida. Dirige-se para o seu lugar. E novamente espera a porta abrir...

       A quarta porta se abre lentamente, gentilmente, como se soubesse que momentos antes o hóspede se debatia em conflito. Há uma brancura absoluta, mas logo, e mesmo de olhos fechados, ele distingue muitos tons de branco, tons de muitas frequências, múltiplos e submúltiplos de uma frequência muito leve e inicial. Um branco primordial. As frequências se sobrepõe, e à medida que se desdobram os tons de branco vão encorpando, ficando mais densos, quase sólidos. Há um plano inclinado que parece infinito, e ele dá passos firmes, embora não toque o solo. Cada passo o leva longe. O efeito do veneno depurado logo surge e a confiança aumenta. Os tons de branco ao longo deste plano inclinado vão se tornando dourados, ou algo parecido. Cada passo agora é um grande avanço. Os tons dourados vão ficando mais vivos e brilhantes, cada brilho é um sorriso, cada sorriso é um som novo e harmônico, cada som vai se somando ao anterior para formar uma grande composição, algo que Oliveira jamais ouviu antes, pois não tinha interesse. Mesmo não tendo ouvido antes ele segue contente, ainda que longe ele sabe que tomou o caminho certo. Novamente não há chão ou céu, nem acima ou abaixo, nem fora. Ele já se acostumou e aceitou de boa vontade esta mudança de perspectiva, este ponto de vista diferente. A consciência se expandiu e assimilou com naturalidade.      De repente uma vibração fora dos múltiplos de frequências atrai sua atenção. Num ponto oposto ao plano o branco absoluto vai mudando para um cinza leve, que logo aumenta para um cinza mais pesado, até que numa velocidade de mudança preocupante vira um cinza insuportável. O estado de paz fica comprometido. Suas passadas aumentam, mas não há sinal perceptível de porta ou saída. “Não há volta, devo seguir em frente”, a sentença imperiosa volta com mais força e aumenta subitamente o ímpeto para o avanço. Suas passadas aumentam e o plano muda a inclinação. Não há gravidade, mas a inclinação aumenta o impulso, e com isso aumenta o avanço. O cinza opressivo avança junto, é uma disputa acirrada. As poucos ele aprende sobre esta dimensão extravagante onde de boa vontade adentrou. Não pode olhar para trás, pois o que passou não tem mais volta, são portas que se fecham e se apagam. Ele descobre vasculhando no seu íntimo que uma porta nova está sempre se formando à sua frente. Os olhos antes fechados, agora se tornaram dois faróis potentes e lançam luzes fortes, luzes guia neste corredor. O cinza está bem ao lado, mas não o amedronta mais. O cinza estará sempre ao seu lado, mas basta não dar atenção que o cinza escurece, vira preto, e o preto é a ausência da luz, portanto tende a desaparecer.

    Tendo aprendido esta nova lição, o avanço é mais veloz. Os tons dourados retornam e se subdividem, dobrando a cada instante. Agora é um mergulho com gotas douradas que giram formando espirais. Cada espiral ao fim do ciclo retorna para a posição inicial e reinicia o processo. Neste desenrolar o caminho fica mais claro e mais espesso, embora não haja paredes ou teto. É somente uma impressão.
D
e repente, adiante, a pedra em forma humana reaparece. Há uma surpresa com a súbita lembrança, porém logo percebe que a pedra está diferente. Parece mais polida, mais brilhante, com um formato mais definido. Só que as gotas continuam saindo e vindo em sua direção. Ele aprendeu que deve desviar destas gotas. As outras gotas, as gotas douradas das espirais se reúnem ao redor de seu corpo (ou sua mente, ele não tem certeza), formando uma vestimenta, mais parecida com uma couraça. As primeiras gotas da pedra-homem se chocam contra a couraça dourada. Com o impacto, apesar do suposto sentido contrário, a armadura-couraça dourada ganha mais e mais velocidade. Além das gotas que escaparam da pedra-homem, a própria pedra-homem começa a se deslocar em seu encalço. Ela não só está mais polida, como também mais flexível e fluída, e se contorce e cria membros que se projetam para agarrar sua suposta presa. As gotas douradas se desdobram em velocidade maior, criando um campo de defesa. Além das gotas da pedra, ela agora tem de combater a própria pedra. Sua estratégia é formar uma teia dourada, de fios tão unidos que o brilho intenso ofusca a pedra e as outras gotas. A pedra-homem se agiganta e tenta romper a teia dourada, se contorcendo cada vez mais. Porém a teia cria resistência a partir do atrito, e daí retarda o avanço da pedra-homem. É uma disputa titânica, uma batalha que se desenrola neste ambiente excêntrico, em algum ponto anterior à chegada da quinta porta. As gotas douradas, que se multiplicam à medida que são pressionadas, criam um clarão ígneo, englobando a pedra-homem, suas gotas emulsionadas e o cinza insuportável que se uniu à pedra num último esforço de capturar o viajante indefeso desta planície perpétua.