terça-feira, 26 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 16)



- Oliveira, me escute por um momento. Eu vim ver o seu progresso. Mas tenha calma. Estas coisas levam tempo, não queira acelerar demais sem freios fortes o bastante para parar no tempo certo. Não desperte o dragão antes de se fortalecer, lembre-se do que eu disse. Vejo o seu esforço para tornar a “loucura” num método. Tudo isto é novo para você, não? Também foi novidade para mim um dia.

-Sim , tudo é novo para mim, é como se eu tivesse nascido agora. Me sinto desperto. Como posso fazer parte disto?
-
-Estudando, praticando, cumprindo tarefas, fazendo o bem acima de tudo.
_
Sem dúvida. E a sacerdotisa, quando poderei vê-la de novo?
_
Não confunda as coisas
-
Confundir o quê?
-
Ela é uma bela mulher, mas não vá por este caminho.
-
Há algo mais do que beleza nela.
-
-Ah, com certeza há, e muito. Ouça, você já foi duas vezes. Porém, a terceira vez é o ponto de ruptura, é a prova final. Só então saberemos se você conseguirá sobreviver.
-
Sobreviver? Agora você me assustou.
_
Sim, sobreviver. Fato.
S
ó que... eu sinto que não há mais volta. Estou certo em pensar assim?
P
erfeitamente. É a quinta porta. Você sente que precisa abrir e passar da quinta porta, não?
S
into.
F
alta pouco agora. Mas antes, vá cuidar da aparência.

    E estalou os dedos na frente dos olhos de Oliveira. Um pequeno susto que serviu como um despertador. O outro se virou e se viu em frente a um espelho na sala. Tomou um choque com o que viu. Se saísse assim na rua é possível que ganhasse uns trocados de piedade.  Osíris saiu em seguida e Oliveira entrou no banheiro para um barbear urgente e uma ducha morna. Mais tarde colocou a casa em ordem, as roupas, as contas, se alimentou direito, ligou para o trabalho para se inteirar de sua situação. E se sentiu satisfeito e mais forte.

     É possível uma pessoa mudar assim tão radicalmente? Eu tenho minhas dúvidas pois a maturidade de certa forma pode enrijecer certas posturas, pode endurecer os membros e deixar uma pessoa inflexível. No lugar de um bambu um poste, e em certos momentos os fios deste poste caem e ficam desligados. A maturidade pode também ser uma desculpa para deixar crescer de vez a erva daninha que sempre teimou em dominar, mas que era podada de tempos em tempos para manter uma imagem mais moderna e arrojada, ainda que falsa. Aquele jardim aparente no fundo era um pântano envenenado, com água pútrida e restos em decomposição. O mal cheiro era ocultado com muito perfume caro. Até que a pintura descasque e as rachaduras aumentem de espessura, e então a construção desaba e o rosto verdadeiro aparece.

     Só que Oliveira está se descobrindo aos poucos. Terá usado, quem sabe, por todo este tempo uma armadura polida, lustrada com esmero para dar brilho, mas sem óleo suficiente entre as juntas para mover os braços, pernas e cabeça, principalmente a cabeça, com naturalidade. São tantas as obrigações, convenções, mandamentos, regras, regulamentos, comportamentos admitidos, horários, padrões, medidas certas, cores combinantes, frases feitas e lugares comuns, que pouco do tempo sobra para se olhar no espelho interior, e se perguntar se “era assim mesmo que você queria? ”. Seria justo dar mais tempo para ele, pobre coitado, quase vítima de uma mudança tão brusca que poucos, muito poucos saberiam lidar e sair desta armadilha de forma positiva. É normal ele ficar tão confuso e eufórico ao mesmo tempo. Tudo é novo para ele, em tão pouco tempo. Sua mente cresceu e não cabe mais em sua cabeça. Por certo este é o melhor diagnóstico neste momento.

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