Nunca deixará de ser somente especulação
se o que ocorre é um efeito colateral do princípio ativo da erva sagrada, ou se
a ação deste princípio ativo atingiu um ponto específico do cérebro que
permitiu deflagrar a mudança acelerada neste adulto até então inflexível. Não
há registros de problemas mentais no histórico familiar, mas quem pode saber se
havia uma bomba relógio embutida em sua mente, pronta para explodir e derrubar
a construção, sólida até hoje, e assim poder revelar sua verdadeira face? Este
processo ele está atravessando sozinho. Não é fácil.
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Nesta noite ele demorou a dormir, mais
do que o normal de agora, cujo padrão é pregar os olhos de exaustão quase na
alvorada. A madrugada é um campo fértil para a reflexão e a concentração, para
elaborar questões e tentar respondê-las. O silêncio envolvido pelo escuro da
noite torna mais clara e audível a voz interior. Tudo isto é novo para ele, que
simplesmente via TV até o sono vencer a queda de braço e acordar no próximo dia
para cumprir a rotina confortável. Neste formato novo o silêncio é como um
banho quente no inverno. O silêncio as vezes parece ser a antessala da quinta
porta. O silêncio, ainda que um ente incorpóreo, agora estende seus braços para
recebê-lo. E ele se entrega contente, aprendendo dia a dia o valor desta
acolhida.
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As duas semanas seguintes transcorreram em
certa calma. Ainda de licença Oliveira aproveitava bem o tempo livre no
processo de descoberta. Ele retornou à livraria e, pasmem, procurou livros
sobre o que estava vivenciando, pois queria aprender, queria ver tudo, queria
conversar sobre isto, queria entender e tinha pressa. Osíris, um dia, encontrou
o agora curioso colega dentro da livraria Árvore do saber. Chegou de mansinho e
ficou observando Oliveira, que folheava um livro sobre sociedades secretas.
Achou por bem não interromper, mas lembrou-se que precisava avisá-lo da próxima
reunião. Enquanto se debatia entre o anúncio e a curiosidade, Oliveira levantou
os olhos e se virou.
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-Osíris, que surpresa!
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O
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h, olá Oliveira.
Que bom que te encontrei. Eu precisava mesmo falar com você.
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P
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ois então fale.
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S
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ábado teremos
outra cerimônia.
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F
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inalmente. nsioso ?.
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M
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uito.
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P
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reparado ?
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S
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im (sem titubear)
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G
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ostei da firmeza
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É
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o teste final, não é mesmo?
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S
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im.
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N
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ão tenho medo.
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S
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erá difícil.
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E
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u espero que seja
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S
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e você falhar eu
terei falhado.
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N
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ão tenho medo, eu
vi agora que o caminho é meu, só meu.
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É
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um bom começo, mas, você tem certeza?
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A
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bsoluta.
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O
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absoluto está muito além de nossas
capacidades.
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M
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as a vontade está
clara e forte em minha mente
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Q
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ue assim seja
então.
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Sexta-feira, noite em claro em preparação.
Quem o ensinou? Ele próprio. Não se deve mais duvidar de sua capacidade. O
tempo é curto para caber nesta história? O tempo é um mistério profundo e
insolúvel, medido em relógios de velocidades diferentes.
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O sábado surgiu nublado, mortiço, embaçado.
A comida desceu quase sem gosto, foi só para manter o corpo nutrido. As ruas ao
redor do prédio não tinham mais atrativos. As pessoas passavam como fantasmas.
Todavia, dentro dele o Sol brilhava. As nuvens densas agora eram familiares e
aconchegantes, carruagens acolchoadas que percorriam os caminhos celestes. Por
vezes pairavam acima de sua cabeça, como se estivessem acompanhando seu
raciocínio.
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A tarde o observou, ele com uma ansiedade
além do comum, com o espírito elevado e a vontade mais firme que as fundações
um arranha-céu. Os minutos demoravam-se entre os ponteiros e os dígitos do
relógio na cozinha. Um lanche frugal e um breve sono, sentado na cadeira e a
cabeça sobre a mesa. Uma sirene ao longe o despertou num susto. É hora de
partir.

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