quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 17)

      Nunca deixará de ser somente especulação se o que ocorre é um efeito colateral do princípio ativo da erva sagrada, ou se a ação deste princípio ativo atingiu um ponto específico do cérebro que permitiu deflagrar a mudança acelerada neste adulto até então inflexível. Não há registros de problemas mentais no histórico familiar, mas quem pode saber se havia uma bomba relógio embutida em sua mente, pronta para explodir e derrubar a construção, sólida até hoje, e assim poder revelar sua verdadeira face? Este processo ele está atravessando sozinho. Não é fácil.

       Nesta noite ele demorou a dormir, mais do que o normal de agora, cujo padrão é pregar os olhos de exaustão quase na alvorada. A madrugada é um campo fértil para a reflexão e a concentração, para elaborar questões e tentar respondê-las. O silêncio envolvido pelo escuro da noite torna mais clara e audível a voz interior. Tudo isto é novo para ele, que simplesmente via TV até o sono vencer a queda de braço e acordar no próximo dia para cumprir a rotina confortável. Neste formato novo o silêncio é como um banho quente no inverno. O silêncio as vezes parece ser a antessala da quinta porta. O silêncio, ainda que um ente incorpóreo, agora estende seus braços para recebê-lo. E ele se entrega contente, aprendendo dia a dia o valor desta acolhida.


   As duas semanas seguintes transcorreram em certa calma. Ainda de licença Oliveira aproveitava bem o tempo livre no processo de descoberta. Ele retornou à livraria e, pasmem, procurou livros sobre o que estava vivenciando, pois queria aprender, queria ver tudo, queria conversar sobre isto, queria entender e tinha pressa. Osíris, um dia, encontrou o agora curioso colega dentro da livraria Árvore do saber. Chegou de mansinho e ficou observando Oliveira, que folheava um livro sobre sociedades secretas. Achou por bem não interromper, mas lembrou-se que precisava avisá-lo da próxima reunião. Enquanto se debatia entre o anúncio e a curiosidade, Oliveira levantou os olhos e se virou.

      -Osíris, que surpresa!
O
h, olá Oliveira. Que bom que te encontrei. Eu precisava mesmo falar com você.
P
ois então fale.
S
ábado teremos outra cerimônia.
F

inalmente.nsioso ?.
M
uito.
P
reparado ?
S
im (sem titubear)
G
ostei da firmeza
É
 o teste final, não é mesmo?
S
im.
N
ão tenho medo.
S
erá difícil.
E
u espero que seja
S
e você falhar eu terei falhado.
N
ão tenho medo, eu vi agora que o caminho é meu, só meu.
É
 um bom começo, mas, você tem certeza?
A
bsoluta.
O
 absoluto está muito além de nossas capacidades.
M
as a vontade está clara e forte em minha mente
Q
ue assim seja então.


    Sexta-feira, noite em claro em preparação. Quem o ensinou? Ele próprio. Não se deve mais duvidar de sua capacidade. O tempo é curto para caber nesta história? O tempo é um mistério profundo e insolúvel, medido em relógios de velocidades diferentes.

   O sábado surgiu nublado, mortiço, embaçado. A comida desceu quase sem gosto, foi só para manter o corpo nutrido. As ruas ao redor do prédio não tinham mais atrativos. As pessoas passavam como fantasmas. Todavia, dentro dele o Sol brilhava. As nuvens densas agora eram familiares e aconchegantes, carruagens acolchoadas que percorriam os caminhos celestes. Por vezes pairavam acima de sua cabeça, como se estivessem acompanhando seu raciocínio.

   A tarde o observou, ele com uma ansiedade além do comum, com o espírito elevado e a vontade mais firme que as fundações um arranha-céu. Os minutos demoravam-se entre os ponteiros e os dígitos do relógio na cozinha. Um lanche frugal e um breve sono, sentado na cadeira e a cabeça sobre a mesa. Uma sirene ao longe o despertou num susto. É hora de partir.

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