segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 9)


   Oliveira ficou no final da fila. Num clima de congraçamento os participantes vertiam os copos em suas bocas com grande alegria. As conversas durante o intervalo da cerimônia transcorriam num volume baixo e respeitoso, como se as pessoas não quisessem deixar escapar aquela paz que ocupava seus corações. Os iniciantes estavam ansiosos para fazer parte daquele estado, tão bem descrito pelos mais experientes, que os haviam convidado, cada um com sua experiência particular, pois não se pode transmitir de forma completa o que cada um sente, é uma jornada muito particular e intransferível.

      Finalmente chega a vez de Oliveira. Ele está tenso, mas por fim se convenceu de que deveria experimentar. “Em Roma, como os romanos, é o que dizem”. No fundo a real motivação dele agora era outra. Pode ser que o ambiente campestre de certa forma tenha estimulado algum canto animal mantido escondido à custa de muito esforço, e que agora quer dar as caras. Não se sabe, pois a vida em sociedade impõe muitas amarras e convenções, decerto necessárias para manter animais em jaulas de consciência. A outra opção é a barbárie, que foi banida, a menos que os valores monetários envolvidos sejam relevantes. Mas isto é antropologia, ou quem sabe sociologia, corroborada pela economia, assuntos que não entendo.

     Ele segura o copo com receio. A bebida está quente e o cheiro não é lá muito atraente, parece sopa rala misturada com peças de roupas suadas. A cor é terrosa e o aspecto desagradável. “Credo, o que será que este povo vê nisto !? Isso tem de ser muito bom, tem que valer muito a pena. Será que eu consigo? Será que eu não vou vomitar? Seria o maior vexame. ” O rosto da Grã Sacerdotisa veio de novo em sua mente, e foi o impulso para virar de uma vez a beberagem garganta abaixo. “Ahhhhh, o gosto é forte. Mas... até que não é ruim. É, não é ruim. O gosto é adocicado. Acho que vou tomar mais um copo. Não senti nada de diferente. ”

    Enquanto os últimos participantes tomavam sua cota de Mayaszolote, o grande gongo soou pela quinta vez. Uma grande fogueira foi acesa e já iluminava o pátio onde os iniciados voltavam aos círculos de sete. Agora estavam todos compenetrados, todos voltados para si. O efeito da bebida difere de acordo com o grau de intimidade e consciência de cada um. Aos mais sensíveis e aos iniciantes se recomenda meio copo para começar. Oliveira tomou um copo cheio. Osíris o acompanhava de longe. Estava muito curioso para ver a reação de seu colega descrente. Coisas estranhas poderiam acontecer.

    A Grã Sacerdotisa pediu silêncio e dirigiu a palavra à seus seguidores. A música cessou por completo e o vento era apenas uma brisa muito leve e suave. Com voz era forte e direta ele pronunciou:

“Meus pares, eis o momento de nossa introspecção. Calem sua mente, aquietem seu coração, aqueçam sua alma e respirem com tranquilidade. A unidade se apresenta, o raio mais puro da Lua agora toca o alto de suas cabeças, a porta se abre. Deixem passar.”

   O silêncio era absoluto, somente o som do fogo crepitando era permitido. As chamas ondulantes criavam ornamentos luminosos refletidos nos rostos serenos e quase imóveis dos participantes da cerimônia.


     Oliveira estava sentado numa almofada, quase no mesmo ponto onde estivera sentado durante a primeira parte do evento. O gosto adocicado da bebida deixara-o tranquilo, e nos primeiros minutos após a ingestão nada de diferente havia acontecido. A princípio ele achou que tudo não passava de uma fraude, que era tudo fingimento, tudo teatrinho barato e manipulação. Começou mesmo a ficar decepcionado. Até que......

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