sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Gosto mais de música do que de mim (1ª parte)

Gosto mais de música do que de mim


           Não sei não, mas acho que sou um pouco diferente dos demais, eu sou composto de 70% de água e 10% dos outros elementos químicos necessários e fundamentais à constituição dos organismos vivos desta esfera perdida nos arrabaldes do multiverso. O que falta para completar este mero corpo tão ordinário só pode ser este elemento estranho e impalpável chamado de música. Para fechar o conteúdo faltam 20%. É, acho que eu sou 20% formado de música. Venho desconfiando deste fato desde pequeno. Será que é normal? Ou dito de outra forma, será que eu estou no lugar certo? Senti um alívio temporário quando, no decorrer destes muitos e longos anos, percebi que existiam outros seres com características semelhantes às minhas. Tá certo que eles são meio esquisitos quando se olha de perto, parece que a cabeça gira em outra direção, e que eles estão olhando para o vazio. No entanto, se eu tomar esta última afirmativa, e fazer uma análise profunda de mim mesmo, posso afirmar que eu não olho para o vazio, mas para um mundo diferente. Muito mais belo do que os arredores.  Aprendi no colégio sobre frequências, então será que é isto? Não será que estes seres esquisitos vibram em outra frequência? Muito estranho.
       As chaves do carro estavam no lugar de sempre. O traçado do caminho já claro na mente, o tanque cheio, o tempo farto. O dia límpido. Quinta-feira, 17 de maio, dia de descanso. Vou sair por aí, sem destino, como aqueles dois de moto no filme. Difícil estar livre nestes dias de muitos compromissos, muitas atividades, muitas reuniões, minha persona pública fatiada em inúmeros pedaços para servir de alimento, justificativa, alento, e também,(eu sei bem que é assim) de alvo para maledicências, desprezo e inveja. O diabo são os outros, disse o francês estrábico. Acho que ele estava com razão. Bom, já que fui destinado a aparecer por estas bandas, neste período de tempo, e não tenho escolha, vamos sempre avante, buscando desviar dos golpes e dos olhares traiçoeiros, e das palavras mal intencionadas que cruzam o espaço sonoro por onde eu passo.
   Ah o espaço sonoro... Como é entulhado de lixo! Então me lembro da constituição física incomum que citei há pouco. Todo este lixo me incomoda, muito mais de que a qualquer outro. Alguma incompatibilidade de frequências, ondas que se chocam, se repelem. Há tantos mistérios ao redor, que a cada passo que é dado  mais portas e janelas são abertas para um ambiente impalpável. O espaço que nos cerca é tão precioso, que deveria ser mais respeitado. Mas não é assim que acontece.
      Fechei as janelas, lacrei meu refúgio. Plug and play, e logo meus arquivos sonoros tão preciosos tomaram forma. À esquerda e à direita meus ouvidos acolhem com alegria a companhia tão estimada, amigos incorpóreos que só existem nos escassos minutos da execução. A música é muito misteriosa e efêmera, ela não existe de fato, é uma ilusão que se mantém por teimosia e abnegação de todos estes seres excêntricos que persistem em mantê-la no ar, como um fogo fraco açoitado por ventos inclementes. 
     O silêncio é uma força poderosa, que engole toda a música que ousa desafiá-lo. São muitos insultos ao silêncio, milhões por segundo. Hoje eu peço licença ao Deus Silêncio, mas meu espaço vedado será preenchido pelos amigos incorpóreos. Hoje o tempo é só meu, eu me dei de presente.

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       A alameda  arborizada é a passarela deste início de jornada. A inclinação dos raios de Sol entre os galhos cria cortinas de luz amarela, de grande beleza, mas tornam um pouco mais difícil o ato de dirigir. Me recorda as manhãs da infância, onde o cheiro do ar era mais doce, pois vinha filtrado pela inocência. A cortina de luz lembrava a ala de uma catedral, com paredes forradas de vitrais coloridos. Ainda frio e ainda lento, o carro desliza pelo piso úmido de orvalho. Lento, pois ainda terá muito chão pela frente. Automóveis podem ser boas cápsulas sonoras. Fechadas, com boa acústica, se devidamente equipadas, podem e devem ser um lugar de refúgio, muito  além do mero meio de transporte, muito mais do que a fonte de muita irritação e perigos diversos dentro das cidades e estradas por este pequeno mundo afora.
     A alameda arborizada nada mais é do que um pequeno capilar deste sistema circulatório convulsionado, que liga ou, cada vez mais, desliga os vários bairros de minha cidade. Então me volta à lembrança a “cidade sem fim”. Era isto um conceito ou um capricho ? Ou , menos ainda, uma ideia desarticulada, dentre inúmeras que eu insisto em jorrar pela mente à fora? “A cidade sem fim”, onde as ruas chegavam até meus pés, e eu imaginava a mesma rua serpenteando, com sua pele de asfalto, infinitamente, até o outro extremo. Extremo de onde?  Bairros após bairros, sempre bairros novos para serem descobertos. A cidade sem fim. A cidade circular, a curva infinita.
       Hoje é um bom motivo para pôr em prática o conceito da “cidade sem fim”, já que eu não tenho um destino. Desci a alameda, virei à direita e  entrei na estrada já repleta de veículos. Devagar vou inserindo meu carro neste jorro contínuo. Veículos diversos no papel de glóbulos vermelhos na circulação do imenso corpo. Glóbulos de muitas cores e de alguns tamanhos. Os motores em atividade compõe o fundo sonoro deste imenso corpo.
       É hora de começar: “Os pinheiros de Roma” de Respighi escorrem pelos falantes do carro. Sua 2ªparte: “O pinheiro próximo à catacumba” chega quase em silêncio. Muito grave, muito lento, se insinuando, querendo abrir caminho em meio à balbúrdia das buzinas e das freadas. Grave e solene, respeitoso por estar próximo de uma catacumba, a morada de um corpo há muito transmutado. O som se agiganta e pede atenção. Já não pode ficar despercebido. É o início, neste dia e nesta jornada, da batalha eterna entre a música e o barulho, entre a arte e a confusão. Os vidros lacrados não impedem a intromissão indesejada do mundo externo. Só atenua. Por isso vivemos neste plano, pesado, grosseiro e limitado, muito limitado. Então, por esta razão e por este motivo, devo colher cada grão de leveza, beleza e sutileza que cruzar meu caminho. Um trabalho infatigável.
      Sigo avançando. Devo avançar. “Giant steps”, de  John Coltrane chegou: Ágil, extenso, quase vertiginoso. Este tema de jazz puro como um diamante tocado em alta velocidade é quase um deboche frente ao trânsito que desacelera. As fusas que sustentam as “lâminas sonoras” de Coltrane estão em sexta marcha, a 10mil rotações por minuto enquanto o motor não passa da segunda marcha, a meros mil giros por minuto. O trânsito dá uma leve melhorada. Coincidentemente, eis que de repente entra “Blue Rondo a la Turk” com Dave Brubeck, que avança e freia, avança e freia, avança e freia, segunda , primeira, segunda, primeira, dá um tranco e engata um terceira marcha com o solo de Paul Desmond. O pé esquerdo relaxa um pouco e o carro vai macio como o piano de Brubeck.  A vida imita o jazz nesta manhã.
         O Sol é inatingível porém seus raios me atingem. Meus olhos turvam um pouco. Lembrei do eclipse em 1980. Com um filme preto nas mãos eu olhei direto para a majestade e a imponência e vi um círculo perfeito. À esquerda estava o Sumaré, com suas costas verdejantes, ao meu lado meu irmão, meu companheiro. Vimos juntos o eclipse.
         O asfalto clareou e convidou a acelerar de novo.  Que tal “Aquatarkus”, para comemorar a pista mais livre e mais rápida? Emerson, Lake and Palmer, dinossauros de um período distante. Ou deveria rebatizá-los de Elpassaurus ? Tarkus era um tatu em fusão com um tanque de guerra, criação de um cientista louco, primeira vítima de sua criatura. Depois de várias batalhas ele sucumbe frente ao Manticore, um ser misto de leão e alguma coisa com uma cauda terminada num martelo cheio de pontas. Um ser mitológico. Depois o Tarkus ressurge como Aquatarkus, que é um solo estrondoso de teclados e uma bateria tonitroante. Bélico e épico, evocando um espaço aberto e imenso. Mas basta olhar para fora e ver o espaço todo ocupado com mais e mais carros e lançamentos de alto luxo, três e quatro quartos espremidos em 70 metros quadrados. Insuficientes para acomodar o Tarkus, ou mesmo a bateria do Carl Palmer.
          Já que eu não tenho destino e nem pressa peguei o retorno, pois o outro lado está mais livre. Vou em direção ao “Hotel California” dos gerentes Don Henlen e Joe Walsh. Só não sei se quero ficar porque dá para fazer o check-out a qualquer tempo, mas nunca se consegue sair. Melhor procurar outras acomodações.
      Deste lado está mais livre. Mesmo que eu não tenha pressa nem destino prefiro a fluidez e a distância segura em relação aos outros veículos. Gosto da fluidez, como em “Boomtown”, de Mark Knopfler, onde a música escorre solta e calma, uma seiva doce e rica desta árvore infindável de muitos galhos. Mark Knopfler, com seu fraseado limpo, fruto de um dedilhado preciso.
     Qual o mistério que protege a música?  Qual magia foi conjurada há milênios, onde o primeira pancada num tronco oco, ou o primeiro sopro através de um osso seco, ou mesmo o vento sacudindo as folhas de uma árvore fez o papel de chave para este quarto oculto? O poder desta magia poderosa pode estar simbolizada nas trombetas de Joshua em Jericó. O som articulado vibrando em harmonia foi capaz de derrubar os muros sólidos. Física? Astúcia? Fé? Ou Orfeu tocando sua lira que acalmava as feras e os espectros que rondavam e guardavam o Tártaro (não o do dente, mas aquele mais profundo e vasto, no subsolo da antiga Grécia).
     Bem, como esta pergunta jamais será respondida, a marcação do tanque cheio e da temperatura do motor me inspiram a prosseguir. Ligo o ar condicionado e aumento o som porque o Rei chegou: “Jailhouse Rock”: A gang threw a party in the county jail... , e logo depois Eddie Cochran conclama “C'mom everybody” para se juntar à festa. A festa transbordou os muros da prisão e tomou as ruas do mundo todo. Ou quase todo, pois o mundo é muito grande e desigual. Controverso.
    As vezes sinto um pouco de inveja de não ter nascido na infância da música, onde tudo estava  por ser pescado ou colhido.
     A manhã avança com a certeza absoluta de que o giro sincronizado deste planeta  pequeno e insignificante não espera surpresas, santificados sejam Kepler, Galileu e Newton. Caminhões lentos e carregados de produtos bamboleiam e quase rastejam pelo asfalto afora. Um olho atento à estrada aguça o instinto de precaução contra os perigos de quem se dispõe a duelar com estes colossos imprescindíveis à vida moderna e consumista.
    Meu catálogo sonoro é muito amplo. E muito diversificado. Por conta disto ejetei Eddie Cochran e coloquei a Sétima sinfonia de Beethoven. Ludwig me incita à velocidade, com toda a energia contida em seu painel sonoro. Gosto da Sétima, não mais do que a Nona, mas a Nona é um monumento. Engraçado pensar que na estreia ela não agradou. Acho que pouca gente entendeu. Até hoje não entendem. Um maestro obscuro do início do século XX disse desta que: “parecia um monte de bois soltos no pasto, sem controle”. Pérolas e mais pérolas cuspidas de bocas infelizes, que juntas formam um amplo colar de tolices. Como o executivo daquela gravadora que recusou os Beatles, por achar que “conjuntos com guitarras não despertam interesse”. Não é que , no momento em que pensava nisso, subitamente entra “Day Tripper”?
    Já que a estrada segue para o sempre, segundo as palavras dos Allman Brothers, nada melhor neste momento do que “Road Trippin” dos Chilli Peppers, seguida de “Road to Nowhere”, com Talking Heads, e que fecha com “Hit the Road Jack”, do magnífico Ray. Como uma onda de choque poderosa as vibrações aumentam minha frequência. Quase inconscientemente meu pé afunda no pedal do acelerador. A sensatez reveste-se de timidez e se esconde, e o pé fica solto como um animal selvagem. O radar logo adiante é um raio gelado que me convida a descer à realidade deste mundo de possibilidades limitadas. O mundo concreto, este rasteiro réptil de tentáculos e gosma pegajosa, que retém as almas e mentes em sua mesquinha obtusidade.
  É hora de beliscar um pouco do sublime: “ O mensch, gib acht” canta a soprano Christa Ludwig, e o mundo em suspensão da orquestra ao redor ampara esta voz quase celestial. É a Terceira sinfonia de Mahler. Nada mais há que ser dito. Só ouvido.

       A estrada está mais vazia, mais silenciosa. Por longos minutos o enlêvo, quase um transe, proporcionado pela música de Gustav Mahler foi suficiente para me manter nutrido. Mas o mundo é  a buzina e não a harpa. A transição entre estes níveis tão díspares ficou a cargo da “Estrada do Sol”, de Tom e Dolores Duran. Era , de fato, de manhã, ainda. E o Sol e os pingos de chuva que haviam caído ontem, ainda estavam a brilhar. Ao vento leve que trouxe esta canção, vieram outras e outras, como “Trem das cores”, “Fadas”, “Canteiros”, “Nascente”, “Guarde nos olhos””Ponteio””Se eu quiser falar com Deus”, “Terra”, “Explode coração””Flor da paisagem””Admirável Gado novo””Romaria””Oceano””Sina””Disritmia””Flores””Nuvem cigana””Cais””Um girassol da cor do seu cabelo””Amor de índio””Corrida de jangada””Samba do avião””Detalhes”O bêbado e a equilibrista””Menino bonito”Foi um rio que passou em minha vida””Aquarela do Brasil””Réu confesso”Sabiá”Feitio de oração””Chega de saudade””Fita amarela””Modinha””Morena Tropicana””Alagados””Tropicália””Bandolins””Carinhoso”;”Atrás da porta”Tempo perdido””Fé cega, faca amolada””Arrastão””Volta por cima”, “Lanterna dos Afogados”;”Palhaço””Máscara negra””Preta pretinha””Mistério do planeta””Coração selvagem””Brasil Pandeiro”; “Todas elas juntas num só ser”O pequeno burguês””As rosas não falam”” O segundo Sol”; “Disparada””Telegrama””Correndo atrás”... (pausa para respirar e trocar de marcha), “O trenzinho do caipira”, “Rosa de Hiroshima””Chão de estrelas””Juízo final” “O que é o que é””Pavão mysteriozo”, “ Eu quero é botar meu bloco na rua”,”Pétala””Apesar de você””Sentado à beira do caminho””Palco” ”Construção” (depois de “Construção” pouca coisa pode resistir, como se fossem bolas de sorvete expostas ao Sol do sertão de Asa Branca), “Asa Branca” e a ária da Bachiana número 5. Feliz deveria ser o país que produziu tudo isto.

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