Gosto
mais de música do que de mim
Não sei não, mas acho que sou um
pouco diferente dos demais, eu sou composto de 70% de água e 10% dos outros
elementos químicos necessários e fundamentais à constituição dos organismos
vivos desta esfera perdida nos arrabaldes do multiverso. O que falta para
completar este mero corpo tão ordinário só pode ser este elemento estranho e
impalpável chamado de música. Para fechar o conteúdo faltam 20%. É, acho que eu
sou 20% formado de música. Venho desconfiando deste fato desde pequeno. Será
que é normal? Ou dito de outra forma, será que eu estou no lugar certo? Senti
um alívio temporário quando, no decorrer destes muitos e longos anos, percebi
que existiam outros seres com características semelhantes às minhas. Tá certo
que eles são meio esquisitos quando se olha de perto, parece que a cabeça gira
em outra direção, e que eles estão olhando para o vazio. No entanto, se eu
tomar esta última afirmativa, e fazer uma análise profunda de mim mesmo, posso
afirmar que eu não olho para o vazio, mas para um mundo diferente. Muito mais
belo do que os arredores. Aprendi no
colégio sobre frequências, então será que é isto? Não será que estes seres esquisitos
vibram em outra frequência? Muito estranho.
As chaves do carro estavam no lugar de
sempre. O traçado do caminho já claro na mente, o tanque cheio, o tempo farto.
O dia límpido. Quinta-feira, 17 de maio, dia de descanso. Vou sair por aí, sem
destino, como aqueles dois de moto no filme. Difícil estar livre nestes dias de
muitos compromissos, muitas atividades, muitas reuniões, minha persona pública
fatiada em inúmeros pedaços para servir de alimento, justificativa, alento, e
também,(eu sei bem que é assim) de alvo para maledicências, desprezo e inveja.
O diabo são os outros, disse o francês estrábico. Acho que ele estava com
razão. Bom, já que fui destinado a aparecer por estas bandas, neste período de
tempo, e não tenho escolha, vamos sempre avante, buscando desviar dos golpes e
dos olhares traiçoeiros, e das palavras mal intencionadas que cruzam o espaço
sonoro por onde eu passo.
Ah o espaço sonoro... Como é entulhado de
lixo! Então me lembro da constituição física incomum que citei há pouco. Todo
este lixo me incomoda, muito mais de que a qualquer outro. Alguma
incompatibilidade de frequências, ondas que se chocam, se repelem. Há tantos
mistérios ao redor, que a cada passo que é dado
mais portas e janelas são abertas para um ambiente impalpável. O espaço
que nos cerca é tão precioso, que deveria ser mais respeitado. Mas não é assim
que acontece.
Fechei as janelas, lacrei meu refúgio.
Plug and play, e logo meus arquivos sonoros tão preciosos tomaram forma. À
esquerda e à direita meus ouvidos acolhem com alegria a companhia tão estimada,
amigos incorpóreos que só existem nos escassos minutos da execução. A música é
muito misteriosa e efêmera, ela não existe de fato, é uma ilusão que se mantém
por teimosia e abnegação de todos estes seres excêntricos que persistem em
mantê-la no ar, como um fogo fraco açoitado por ventos inclementes.
O silêncio é uma força poderosa, que
engole toda a música que ousa desafiá-lo. São muitos insultos ao silêncio,
milhões por segundo. Hoje eu peço licença ao Deus Silêncio, mas meu espaço
vedado será preenchido pelos amigos incorpóreos. Hoje o tempo é só meu, eu me
dei de presente.
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A alameda arborizada é a passarela deste início de
jornada. A inclinação dos raios de Sol entre os galhos cria cortinas de luz
amarela, de grande beleza, mas tornam um pouco mais difícil o ato de dirigir.
Me recorda as manhãs da infância, onde o cheiro do ar era mais doce, pois vinha
filtrado pela inocência. A cortina de luz lembrava a ala de uma catedral, com
paredes forradas de vitrais coloridos. Ainda frio e ainda lento, o carro
desliza pelo piso úmido de orvalho. Lento, pois ainda terá muito chão pela frente.
Automóveis podem ser boas cápsulas sonoras. Fechadas, com boa acústica, se
devidamente equipadas, podem e devem ser um lugar de refúgio, muito além do mero meio de transporte, muito mais
do que a fonte de muita irritação e perigos diversos dentro das cidades e
estradas por este pequeno mundo afora.
A alameda arborizada nada mais é do que um
pequeno capilar deste sistema circulatório convulsionado, que liga ou, cada vez
mais, desliga os vários bairros de minha cidade. Então me volta à lembrança a “cidade
sem fim”. Era isto um conceito ou um capricho ? Ou , menos ainda, uma ideia
desarticulada, dentre inúmeras que eu insisto em jorrar pela mente à fora? “A
cidade sem fim”, onde as ruas chegavam até meus pés, e eu imaginava a mesma rua
serpenteando, com sua pele de asfalto, infinitamente, até o outro extremo.
Extremo de onde? Bairros após bairros,
sempre bairros novos para serem descobertos. A cidade sem fim. A cidade
circular, a curva infinita.
Hoje é um bom motivo para pôr em prática
o conceito da “cidade sem fim”, já que eu não tenho um destino. Desci a
alameda, virei à direita e entrei na
estrada já repleta de veículos. Devagar vou inserindo meu carro neste jorro
contínuo. Veículos diversos no papel de glóbulos vermelhos na circulação do imenso
corpo. Glóbulos de muitas cores e de alguns tamanhos. Os motores em atividade
compõe o fundo sonoro deste imenso corpo.
É hora de começar: “Os pinheiros de
Roma” de Respighi escorrem pelos falantes do carro. Sua 2ªparte: “O pinheiro
próximo à catacumba” chega quase em silêncio. Muito grave, muito lento, se
insinuando, querendo abrir caminho em meio à balbúrdia das buzinas e das
freadas. Grave e solene, respeitoso por estar próximo de uma catacumba, a
morada de um corpo há muito transmutado. O som se agiganta e pede atenção. Já
não pode ficar despercebido. É o início, neste dia e nesta jornada, da batalha
eterna entre a música e o barulho, entre a arte e a confusão. Os vidros
lacrados não impedem a intromissão indesejada do mundo externo. Só atenua. Por
isso vivemos neste plano, pesado, grosseiro e limitado, muito limitado. Então,
por esta razão e por este motivo, devo colher cada grão de leveza, beleza e
sutileza que cruzar meu caminho. Um trabalho infatigável.
Sigo avançando. Devo avançar. “Giant
steps”, de John Coltrane chegou:
Ágil, extenso, quase vertiginoso. Este tema de jazz puro como um diamante
tocado em alta velocidade é quase um deboche frente ao trânsito que desacelera.
As fusas que sustentam as “lâminas sonoras” de Coltrane estão em sexta marcha,
a 10mil rotações por minuto enquanto o motor não passa da segunda marcha, a
meros mil giros por minuto. O trânsito dá uma leve melhorada. Coincidentemente,
eis que de repente entra “Blue Rondo a la Turk” com Dave Brubeck, que
avança e freia, avança e freia, avança e freia, segunda , primeira, segunda,
primeira, dá um tranco e engata um terceira marcha com o solo de Paul Desmond.
O pé esquerdo relaxa um pouco e o carro vai macio como o piano de Brubeck. A vida imita o jazz nesta manhã.
O Sol é inatingível porém seus raios me
atingem. Meus olhos turvam um pouco. Lembrei do eclipse em 1980. Com um filme
preto nas mãos eu olhei direto para a majestade e a imponência e vi um círculo
perfeito. À esquerda estava o Sumaré, com suas costas verdejantes, ao meu lado
meu irmão, meu companheiro. Vimos juntos o eclipse.
O asfalto clareou e convidou a
acelerar de novo. Que tal “Aquatarkus”,
para comemorar a pista mais livre e mais rápida? Emerson, Lake and Palmer,
dinossauros de um período distante. Ou deveria rebatizá-los de Elpassaurus
? Tarkus era um tatu em fusão com um tanque de guerra, criação de um
cientista louco, primeira vítima de sua criatura. Depois de várias batalhas ele
sucumbe frente ao Manticore, um ser misto de leão e alguma coisa com uma cauda
terminada num martelo cheio de pontas. Um ser mitológico. Depois o Tarkus
ressurge como Aquatarkus, que é um solo estrondoso de teclados e uma
bateria tonitroante. Bélico e épico, evocando um espaço aberto e imenso. Mas
basta olhar para fora e ver o espaço todo ocupado com mais e mais carros e
lançamentos de alto luxo, três e quatro quartos espremidos em 70 metros
quadrados. Insuficientes para acomodar o Tarkus, ou mesmo a bateria do Carl
Palmer.
Já que eu não tenho destino e nem
pressa peguei o retorno, pois o outro lado está mais livre. Vou em direção ao “Hotel
California” dos gerentes Don Henlen e Joe Walsh. Só não sei se quero ficar
porque dá para fazer o check-out a qualquer tempo, mas nunca se consegue
sair. Melhor procurar outras acomodações.
Deste lado está mais livre. Mesmo que eu
não tenha pressa nem destino prefiro a fluidez e a distância segura em relação
aos outros veículos. Gosto da fluidez, como em “Boomtown”, de Mark
Knopfler, onde a música escorre solta e calma, uma seiva doce e rica desta
árvore infindável de muitos galhos. Mark Knopfler, com seu fraseado limpo,
fruto de um dedilhado preciso.
Qual o mistério que protege a música? Qual magia foi conjurada há milênios, onde o
primeira pancada num tronco oco, ou o primeiro sopro através de um osso seco,
ou mesmo o vento sacudindo as folhas de uma árvore fez o papel de chave para
este quarto oculto? O poder desta magia poderosa pode estar simbolizada nas
trombetas de Joshua em Jericó. O som articulado vibrando em harmonia foi capaz
de derrubar os muros sólidos. Física? Astúcia? Fé? Ou Orfeu tocando sua lira
que acalmava as feras e os espectros que rondavam e guardavam o Tártaro (não o
do dente, mas aquele mais profundo e vasto, no subsolo da antiga Grécia).
Bem, como esta pergunta jamais será
respondida, a marcação do tanque cheio e da temperatura do motor me inspiram a
prosseguir. Ligo o ar condicionado e aumento o som porque o Rei chegou: “Jailhouse
Rock”: A gang threw a party in the county jail... , e logo depois Eddie
Cochran conclama “C'mom everybody” para se juntar à festa. A festa
transbordou os muros da prisão e tomou as ruas do mundo todo. Ou quase todo,
pois o mundo é muito grande e desigual. Controverso.
As vezes sinto um pouco de inveja de não
ter nascido na infância da música, onde tudo estava por ser pescado ou colhido.
A manhã avança com a certeza absoluta de
que o giro sincronizado deste planeta
pequeno e insignificante não espera surpresas, santificados sejam
Kepler, Galileu e Newton. Caminhões lentos e carregados de produtos bamboleiam
e quase rastejam pelo asfalto afora. Um olho atento à estrada aguça o instinto
de precaução contra os perigos de quem se dispõe a duelar com estes colossos
imprescindíveis à vida moderna e consumista.
Meu catálogo sonoro é muito amplo. E muito
diversificado. Por conta disto ejetei Eddie Cochran e coloquei a Sétima
sinfonia de Beethoven. Ludwig me incita à velocidade, com toda a energia
contida em seu painel sonoro. Gosto da Sétima, não mais do que a Nona, mas a
Nona é um monumento. Engraçado pensar que na estreia ela não agradou. Acho que
pouca gente entendeu. Até hoje não entendem. Um maestro obscuro do início do
século XX disse desta que: “parecia um monte de bois soltos no pasto, sem
controle”. Pérolas e mais pérolas cuspidas de bocas infelizes, que juntas
formam um amplo colar de tolices. Como o executivo daquela gravadora que
recusou os Beatles, por achar que “conjuntos com guitarras não despertam
interesse”. Não é que , no momento em que pensava nisso, subitamente entra “Day
Tripper”?
Já que a estrada segue para o sempre,
segundo as palavras dos Allman Brothers, nada melhor neste momento do que “Road
Trippin” dos Chilli Peppers, seguida de “Road to Nowhere”, com Talking Heads, e
que fecha com “Hit the Road Jack”, do magnífico Ray. Como uma onda de choque
poderosa as vibrações aumentam minha frequência. Quase inconscientemente meu pé
afunda no pedal do acelerador. A sensatez reveste-se de timidez e se esconde, e
o pé fica solto como um animal selvagem. O radar logo adiante é um raio gelado
que me convida a descer à realidade deste mundo de possibilidades limitadas. O
mundo concreto, este rasteiro réptil de tentáculos e gosma pegajosa, que retém
as almas e mentes em sua mesquinha obtusidade.
É hora de beliscar um pouco do sublime: “
O mensch, gib acht” canta a soprano Christa Ludwig, e o mundo em suspensão
da orquestra ao redor ampara esta voz quase celestial. É a Terceira sinfonia de
Mahler. Nada mais há que ser dito. Só ouvido.
A estrada está mais vazia, mais
silenciosa. Por longos minutos o enlêvo, quase um transe, proporcionado pela
música de Gustav Mahler foi suficiente para me manter nutrido. Mas o mundo é a buzina e não a harpa. A transição entre
estes níveis tão díspares ficou a cargo da “Estrada do Sol”, de Tom e Dolores
Duran. Era , de fato, de manhã, ainda. E o Sol e os pingos de chuva que haviam
caído ontem, ainda estavam a brilhar. Ao vento leve que trouxe esta canção,
vieram outras e outras, como “Trem das cores”, “Fadas”, “Canteiros”,
“Nascente”, “Guarde nos olhos””Ponteio””Se eu quiser falar com Deus”, “Terra”,
“Explode coração””Flor da paisagem””Admirável Gado
novo””Romaria””Oceano””Sina””Disritmia””Flores””Nuvem cigana””Cais””Um girassol
da cor do seu cabelo””Amor de índio””Corrida de jangada””Samba do
avião””Detalhes”O bêbado e a equilibrista””Menino bonito”Foi um rio que passou
em minha vida””Aquarela do Brasil””Réu confesso”Sabiá”Feitio de oração””Chega
de saudade””Fita amarela””Modinha””Morena Tropicana””Alagados””Tropicália””Bandolins””Carinhoso”;”Atrás
da porta”Tempo perdido””Fé cega, faca amolada””Arrastão””Volta por cima”,
“Lanterna dos Afogados”;”Palhaço””Máscara negra””Preta pretinha””Mistério do
planeta””Coração selvagem””Brasil Pandeiro”; “Todas elas juntas num só ser”O
pequeno burguês””As rosas não falam”” O segundo Sol”;
“Disparada””Telegrama””Correndo atrás”... (pausa para respirar e trocar de
marcha), “O trenzinho do caipira”, “Rosa de Hiroshima””Chão de estrelas””Juízo
final” “O que é o que é””Pavão mysteriozo”, “ Eu quero é botar meu bloco na
rua”,”Pétala””Apesar de você””Sentado à beira do caminho””Palco” ”Construção”
(depois de “Construção” pouca coisa pode resistir, como se fossem bolas de
sorvete expostas ao Sol do sertão de Asa Branca), “Asa Branca” e a ária da
Bachiana número 5. Feliz deveria ser o país que produziu tudo isto.

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