Ufa!
Depois desta Saramaguização, e com a garganta seca de emoção e sede
resolvi dar uma pequena parada para tomar uma água de coco. No meu caso, por
volta desta hora da manhã e após a sequência musical apresentada, é muito
natural que eu apresente um estado alterado de consciência.
O gosto da água
em contato com a língua se converte na nota fá sustenido. A cor da cobertura da
barraca de água de coco soa como o acorde de Dó sustenido menor . O rosto duro
do vendedor me lembra um naipe de contrabaixos tocando na região grave. Não
espero que alguém entenda o que eu estou falando. Este momento não pertence ao
mundo real. Fico alguns minutos fazendo longos círculos para poder pousar com
suavidade em solo pedregoso.
De volta ao carro retorno lentamente para
a posição de decolagem. Um quarto de tanque evaporou nesta brincadeira.
Recomeço de forma bem tranquila, quase em silêncio com “Hermitage” de Pat
Metheny. Logo depois “Focus II”, do
Focus, tão gentil quanto um mousse de chocolate. “Kathy's Song” de Paul Simon é uma sequência
coerente, e depois “Guinevere”, de Crosby, Stills and Nash; “Ten year's gone”,
do Led Zeppelin. “Tomorrow”, de Paul McCartney. “No backstage pass” do Caravan,
“Fat old sun” do Pink Floyd, “The Lamia” do Genesis, “Riders on the storm” do
Doors, “She's leaving home”, dos Beatles;”1974” do Terço, “Impressioni di
Setembre” da Premiata Forneria Marconi, deixando uma pitada de sabor italiano
nesta salada. Todas músicas tranquilas
Ah! E é claro “Autobahn” do Kraftwerk, os robôs teutônicos,
parafraseando minha viagem.
Quanto tempo poderia durar esta viagem?
Quanta música poderia caber num só dia? Ou qual extensão do planeta poderia ser
forrada com todas as partituras já escritas? Quanto dinheiro já foi gasto nesta
indústria? Quanto prazer e quanta dor estão inseridos, misturados, derramados,
depurados, injetados, devotados, enclausurados, declarados, ocultos,
confessados, expelidos e expiados em entes incorpóreos, que só existem quando
lhe damos ouvidos? Não pergunto para saber. Na verdade nem quero. Só quero
seguir até o fim da vida dando ouvidos. E tendo ouvidos.
“Achille's last stand”, uma apoteose de
guitarras, a preferida de James Patrick Page. “Oh the sweet refrain, Soothes
the soul, calms the pain; Oh Albion remains, sleeping now to rise again”. Minha
temperatura sobe de novo. Ao ouvir bem de perto surge o fascínio de perceber a
sutil arquitetura das várias camadas de guitarra sobrepostas. Um músico assume
o papel de ourives, por vezes de garimpeiro, arquiteto, em outros momentos é um tecelão de sons e não
de linhas de tecido. Como Michael Oldfield em “Ommadawn” e em “Tubular Bells”,
sozinho num estúdio, fazendo cantar os fantasmas dos druidas célticos. Ou
Hermeto Paschoal, um mago moderno, figura branca e bizarra, quase etéreo
vertido em pianos e chaleiras. Ele deve ser quase 100% só música. Miles Davis,
Michel Legrand, Chic Corea, Duke Ellington, Bernard Herrmann, Nino Rota,
Bernstein, Charles Mingus, Piazzola, George Martin, Ravi Shankar, Fela Kuti, Vaughn-Willians,
Fauré, Carl Orff, Camargo Guarnieri, Ernesto Nazareth, Muddy Waters, Django
Rheinhardt, Les Paul, John Mayall, Prokofiev, Egberto Gismonti, Marvin Gaye,
James Brown, Sam Cooke, Duane Allman, Peter Gabriel também são 100% música.
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Apesar do Sol caminhar célere mas sereno, e
por conta disto as horas avançarem, não sinto fome. Uma incomum saciedade me
acompanha neste dia. A cidade sem fim ficou para trás, mas a mente em estado
alterado se mantém. Sinto os dedos gelados, não sei se por causa do ar
condicionado ou do êxtase.
A paisagem já mudou bastante, agora com
várias propriedades rurais que se sucedem. Uma visão bucólica em contraponto à feição urbana de grande
parte das estradas que penetram profundamente no corpo imenso das megalópolis.
“Música urbana”,” Babylon by bus” e a meiga ironia de “Nothing but flowers” do
Talking Heads, onde David Byrne canta de forma invertida a nostalgia de um
observador saudoso da paisagem urbana num mundo dominado pela natureza
revirginada. O mundo não pode escapar
das megacidades. Alguns dizem que elas são a solução para o sociedade moderna e
futura. Quem sou eu para negar esta afirmação, eu que nasci na metrópole, mesmo
que tenha sido em sua periferia ?.
A tarde chega e é o momento calmo antes da
tempestade, antes das resoluções do dia, dos fechamentos de negócios. O Sol já
se inclina cortejando o Oeste, olhando já de esguelha para o mundo que corre
desesperado. Hora de aumentar o volume para espantar o sono que se insinua.
Estou bem longe de casa, já é hora de retornar. “Red House”, de Jimi Hendrix,
versão “Hendrix in the West”. Creio que a melhor, se não uma das melhores
performances de guitarra já materializadas neste mundo ingrato. Onde está
Hendrix hoje? Quem foi Hendrix?, podem perguntar estas infindáveis legiões
nascidas na Era da Informação, que plugam guitarras de brinquedo em vídeo
games. Ele o mago, a ponte entre o ruído e a música, entre o caos e a harmonia,
abruptamente retirado de nosso convívio. Onde andará Jimi Hendrix?
“Jumpin' Jack Flash, it's a gas, gas,
gas”, outro riff imortal do pirata-da-perna-de-pau Keith Richards. Um
sobrevivente. Esta geração aos poucos vai partindo, pois nosso tempo de vôo é
muito curto. Richard Wright, Lou Reed, George Harrison, Jon Lord, Syd Barret,
John Entwistle, Raul Seixas, Joey Ramone, Marvin Gaye, Miles Davis e James
Brown velam por nós. Então, como um
réquiem para estes mortos ilustres, eu vou de “Baba O'Riley”, The Who. Outro
riff poderoso. “Don't cry, don't raise your eyes, it's only teenage
wasteland”; “Não chore mais” enxertada na ponte. Gil, Towshend e Marley de
comum acordo. Não chore mais, pois a terra devastada da adolescência não pode
virar a terra estéril da maturidade. A terra abençoada da adolescência é a
matriz de nossa alegria perpétua, a colheita feliz na maturidade. Quem, como
eu, cresceu nutrido e embebido em tão
saborosa fonte não tem motivos para se lamentar, só para celebrar.
Na
faixa da direita, atrás de um ônibus de excursão, começou a tocar
“Jokerman” de Bob Dylan, seguida de “The times they are a-changin”. É verdade,
os tempos estão sempre a mudar. E como mudaram! “Changes” de David Bowie, veio
corroborar esta afirmativa. Ele o camaleão, sempre trocando peles e estilos.
Pedras que rolam não criam limo, não é verdade? Caetano também, velho mas novo
ao mesmo tempo. Toquei “O estrangeiro”, “Língua” , “Eu sou neguinha” e “ O
quereres”, obra-prima. “Ah bruta flor do querer, ah bruta flor! “Seu olhar” do
Gil, vou ouvir até morrer: “eu quisera ter tantos anos-luz quantos fosse
precisar, prá cruzar o túnel do tempo e do seu olhar”.
Acelero. Os contornos da cidade já se
avolumam no horizonte. O ar mais denso, o ruído crescente, o volume de tráfego,
os carros novos, os carros mal conservados, os ônibus já cheios, saída de
escola, final de turno de trabalho, pessoas cruzando as passarelas. As nuvens
dançam e deslizam no céu ainda azul, mas que vai enegrecendo, repelindo o Sol
que se afasta mais e mais. O crepúsculo logo chega, é a hora da reflexão, das
sombras longas, do medo atávico da noite.
Eu gosto demais de “Deacon blues”, do Steely
Dan. Me dá um nó na garganta quando Donald Fagem canta : “I cried when I
wrote this song, sue me if I play too long. This brother is free, I be where
I want to be” e o refrão “ I learn to work the saxophone, and I play
just what I fell; drink scotch whisky all night long and die behind the
wheels: they got a name for the winners in the world, I want a name when I
lose. They call Alabama the crimson tide. Call me Deacon blues”. Fagen e
Becker, uma das melhores duplas na música. Mas me enche de melancolia também. Desligo
o som por uns instantes. O dia se foi, a noite chega
Chegou a hora , chegou quem estava
faltando: Frank Vincent Zappa, uma escola inteira de música. “Black Napkins” e
seu lancinante solo de guitarra. “The black page”, uma estrutura inusitada e vertiginosa
construída sobre um solo de bateria. Coisa para gente grande tocar. Quase uma
outra dimensão. “Zombie Whoof”, com suas idas e vindas, uma pulsação quase
hipnótica e muito carnívora. “Don't mess with the zombie whoof”, canta o
coro feminino quase no final. Mais um pouco e eu me transformaria no monstro.
Depois “Don't eat the yellow snow”, “Illinois enema bandit”, “City of tiny
lights”, “Montana”, “We're turning again”, “Uncle remus”, “Andy””Cosmic
debris”, “Sofa”, “Wild love”, “Be bop tango”, “Evil prince”, “Caroline hardcore
ecstasy”, “The torture never stops”, “The idiot bastard son”, “Jesus thinks
you're a jerk”, “Peaches in regalia” e muito, muito mais. Zappa foi único, um
sistema solar dentro de si mesmo, criador de música para sonhadores em ambiente
hostil.
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Meu objetivo foi alcançado. Este dia foi
singular. Uma viagem musical, uma viagem dentro de uma viagem. Uma homenagem.
Meu tanque abaixo de um quarto me faz voltar ao mundo real, as luzes dos freios
piscam incessantemente, as setas como vaga-lumes nesta floresta móvel. Um dia comum para a larga maioria dos
motoristas que comigo dividem o asfalto. Tal qual o refluxo de uma grande maré
os automóveis e seus ocupantes voltam para suas garagens e casas. Amanhã tudo
de novo, a vida segue seu roteiro.
Estaciono meu carro e fico por longos
minutos em silêncio. O silêncio, este estado de perfeita harmonia, o desafio
permanente dos compositores, tão precioso quanto raro. Quem precisa de música
nestes instantes?
Ivan Henrique Roberto
abril
de 2014

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