sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Gosto mais de música do que de mim (2ª parte)

  Ufa!  Depois desta Saramaguização, e com a garganta seca de emoção e sede resolvi dar uma pequena parada para tomar uma água de coco. No meu caso, por volta desta hora da manhã e após a sequência musical apresentada, é muito natural que eu apresente um estado alterado de consciência.
O gosto da água em contato com a língua se converte na nota fá sustenido. A cor da cobertura da barraca de água de coco soa como o acorde de Dó sustenido menor . O rosto duro do vendedor me lembra um naipe de contrabaixos tocando na região grave. Não espero que alguém entenda o que eu estou falando. Este momento não pertence ao mundo real. Fico alguns minutos fazendo longos círculos para poder pousar com suavidade em solo pedregoso.
     De volta ao carro retorno lentamente para a posição de decolagem. Um quarto de tanque evaporou nesta brincadeira. Recomeço de forma bem tranquila, quase em silêncio com “Hermitage” de Pat Metheny.  Logo depois “Focus II”, do Focus, tão gentil quanto um mousse de chocolate.  “Kathy's Song” de Paul Simon é uma sequência coerente, e depois “Guinevere”, de Crosby, Stills and Nash; “Ten year's gone”, do Led Zeppelin. “Tomorrow”, de Paul McCartney. “No backstage pass” do Caravan, “Fat old sun” do Pink Floyd, “The Lamia” do Genesis, “Riders on the storm” do Doors, “She's leaving home”, dos Beatles;”1974” do Terço, “Impressioni di Setembre” da Premiata Forneria Marconi, deixando uma pitada de sabor italiano nesta salada. Todas músicas tranquilas  Ah! E é claro “Autobahn” do Kraftwerk, os robôs teutônicos, parafraseando minha viagem.
   Quanto tempo poderia durar esta viagem? Quanta música poderia caber num só dia? Ou qual extensão do planeta poderia ser forrada com todas as partituras já escritas? Quanto dinheiro já foi gasto nesta indústria? Quanto prazer e quanta dor estão inseridos, misturados, derramados, depurados, injetados, devotados, enclausurados, declarados, ocultos, confessados, expelidos e expiados em entes incorpóreos, que só existem quando lhe damos ouvidos? Não pergunto para saber. Na verdade nem quero. Só quero seguir até o fim da vida dando ouvidos. E tendo ouvidos.
  “Achille's last stand”, uma apoteose de guitarras, a preferida de James Patrick Page. “Oh the sweet refrain, Soothes the soul, calms the pain; Oh Albion remains, sleeping now to rise again”. Minha temperatura sobe de novo. Ao ouvir bem de perto surge o fascínio de perceber a sutil arquitetura das várias camadas de guitarra sobrepostas. Um músico assume o papel de ourives, por vezes de garimpeiro, arquiteto,  em outros momentos é um tecelão de sons e não de linhas de tecido. Como Michael Oldfield em “Ommadawn” e em “Tubular Bells”, sozinho num estúdio, fazendo cantar os fantasmas dos druidas célticos. Ou Hermeto Paschoal, um mago moderno, figura branca e bizarra, quase etéreo vertido em pianos e chaleiras. Ele deve ser quase 100% só música. Miles Davis, Michel Legrand, Chic Corea, Duke Ellington, Bernard Herrmann, Nino Rota, Bernstein, Charles Mingus, Piazzola, George Martin,  Ravi Shankar, Fela Kuti, Vaughn-Willians, Fauré, Carl Orff, Camargo Guarnieri, Ernesto Nazareth, Muddy Waters, Django Rheinhardt, Les Paul, John Mayall, Prokofiev, Egberto Gismonti, Marvin Gaye, James Brown, Sam Cooke, Duane Allman, Peter Gabriel também são 100% música.

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   Apesar do Sol caminhar célere mas sereno, e por conta disto as horas avançarem, não sinto fome. Uma incomum saciedade me acompanha neste dia. A cidade sem fim ficou para trás, mas a mente em estado alterado se mantém. Sinto os dedos gelados, não sei se por causa do ar condicionado ou do êxtase.
       A paisagem já mudou bastante, agora com várias propriedades rurais que se sucedem. Uma visão bucólica  em contraponto à feição urbana de grande parte das estradas que penetram profundamente no corpo imenso das megalópolis. “Música urbana”,” Babylon by bus” e a meiga ironia de “Nothing but flowers” do Talking Heads, onde David Byrne canta de forma invertida a nostalgia de um observador saudoso da paisagem urbana num mundo dominado pela natureza revirginada. O  mundo não pode escapar das megacidades. Alguns dizem que elas são a solução para o sociedade moderna e futura. Quem sou eu para negar esta afirmação, eu que nasci na metrópole, mesmo que tenha sido em sua periferia ?.
    A tarde chega e é o momento calmo antes da tempestade, antes das resoluções do dia, dos fechamentos de negócios. O Sol já se inclina cortejando o Oeste, olhando já de esguelha para o mundo que corre desesperado. Hora de aumentar o volume para espantar o sono que se insinua. Estou bem longe de casa, já é hora de retornar. “Red House”, de Jimi Hendrix, versão “Hendrix in the West”. Creio que a melhor, se não uma das melhores performances de guitarra já materializadas neste mundo ingrato. Onde está Hendrix hoje? Quem foi Hendrix?, podem perguntar estas infindáveis legiões nascidas na Era da Informação, que plugam guitarras de brinquedo em vídeo games. Ele o mago, a ponte entre o ruído e a música, entre o caos e a harmonia, abruptamente retirado de nosso convívio. Onde andará  Jimi Hendrix?
     “Jumpin' Jack Flash, it's a gas, gas, gas”, outro riff imortal do pirata-da-perna-de-pau Keith Richards. Um sobrevivente. Esta geração aos poucos vai partindo, pois nosso tempo de vôo é muito curto. Richard Wright, Lou Reed, George Harrison, Jon Lord, Syd Barret, John Entwistle, Raul Seixas, Joey Ramone, Marvin Gaye, Miles Davis e James Brown velam por nós.  Então, como um réquiem para estes mortos ilustres, eu vou de “Baba O'Riley”, The Who. Outro riff poderoso. “Don't cry, don't raise your eyes, it's only teenage wasteland”; “Não chore mais” enxertada na ponte. Gil, Towshend e Marley de comum acordo. Não chore mais, pois a terra devastada da adolescência não pode virar a terra estéril da maturidade. A terra abençoada da adolescência é a matriz de nossa alegria perpétua, a colheita feliz na maturidade. Quem, como eu, cresceu nutrido e embebido em tão  saborosa fonte não tem motivos para se lamentar, só para celebrar.
   Na  faixa da direita, atrás de um ônibus de excursão, começou a tocar “Jokerman” de Bob Dylan, seguida de “The times they are a-changin”. É verdade, os tempos estão sempre a mudar. E como mudaram! “Changes” de David Bowie, veio corroborar esta afirmativa. Ele o camaleão, sempre trocando peles e estilos. Pedras que rolam não criam limo, não é verdade? Caetano também, velho mas novo ao mesmo tempo. Toquei “O estrangeiro”, “Língua” , “Eu sou neguinha” e “ O quereres”, obra-prima. “Ah bruta flor do querer, ah bruta flor! “Seu olhar” do Gil, vou ouvir até morrer: “eu quisera ter tantos anos-luz quantos fosse precisar, prá cruzar o túnel do tempo e do seu olhar”.
    Acelero. Os contornos da cidade já se avolumam no horizonte. O ar mais denso, o ruído crescente, o volume de tráfego, os carros novos, os carros mal conservados, os ônibus já cheios, saída de escola, final de turno de trabalho, pessoas cruzando as passarelas. As nuvens dançam e deslizam no céu ainda azul, mas que vai enegrecendo, repelindo o Sol que se afasta mais e mais. O crepúsculo logo chega, é a hora da reflexão, das sombras longas, do medo atávico da noite.
   Eu gosto demais de “Deacon blues”, do Steely Dan. Me dá um nó na garganta quando Donald Fagem canta : “I cried when I wrote this song, sue me if I play too long. This brother is free, I be where I want to be” e o refrão “ I learn to work the saxophone, and I play just what I fell; drink scotch whisky all night long and die behind the wheels: they got a name for the winners in the world, I want a name when I lose. They call Alabama the crimson tide. Call me Deacon blues”. Fagen e Becker, uma das melhores duplas na música. Mas me enche de melancolia também. Desligo o som por uns instantes. O dia se foi, a noite chega
    Chegou a hora , chegou quem estava faltando: Frank Vincent Zappa, uma escola inteira de música. “Black Napkins” e seu lancinante solo de guitarra. “The black page”, uma estrutura inusitada e vertiginosa construída sobre um solo de bateria. Coisa para gente grande tocar. Quase uma outra dimensão. “Zombie Whoof”, com suas idas e vindas, uma pulsação quase hipnótica e muito carnívora. “Don't mess with the zombie whoof”, canta o coro feminino quase no final. Mais um pouco e eu me transformaria no monstro. Depois “Don't eat the yellow snow”, “Illinois enema bandit”, “City of tiny lights”, “Montana”, “We're turning again”, “Uncle remus”, “Andy””Cosmic debris”, “Sofa”, “Wild love”, “Be bop tango”, “Evil prince”, “Caroline hardcore ecstasy”, “The torture never stops”, “The idiot bastard son”, “Jesus thinks you're a jerk”, “Peaches in regalia” e muito, muito mais. Zappa foi único, um sistema solar dentro de si mesmo, criador de música para sonhadores em ambiente hostil.

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       Meu objetivo foi alcançado. Este dia foi singular. Uma viagem musical, uma viagem dentro de uma viagem. Uma homenagem. Meu tanque abaixo de um quarto me faz voltar ao mundo real, as luzes dos freios piscam incessantemente, as setas como vaga-lumes nesta floresta  móvel. Um dia comum para a larga maioria dos motoristas que comigo dividem o asfalto. Tal qual o refluxo de uma grande maré os automóveis e seus ocupantes voltam para suas garagens e casas. Amanhã tudo de novo, a vida segue seu roteiro.
     Estaciono meu carro e fico por longos minutos em silêncio. O silêncio, este estado de perfeita harmonia, o desafio permanente dos compositores, tão precioso quanto raro. Quem precisa de música nestes instantes?

                                                         
                                                                            Ivan Henrique Roberto
                                                                                abril de 2014

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