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Num último esforço o viajante indefeso para
por um instante, se volta e contempla a batalha que deu causa. Já não ostenta a couraça-dourada. O clarão de
fogo aumenta, se apodera de toda a planície perpétua e cria um redemoinho
incontrolável, que começa a destruir o caminho que ficou para trás. O viajante
vira-se de novo, vê mais à frente a quinta porta e flutua até ela.
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Na soleira desta nova porta uma voz o
interroga:
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“-Diga a senha”. Qual senha? Ele hesita por
um momento.
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“-Diga a senha”. Ele fica apreensivo.
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“-Diga a senha ou permaneça para sempre onde
está”.
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A porta começa a desaparecer.
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“- O dragão acordou”, ele fala finalmente.
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“-Adeus”.
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Pela terceira vez ele abre lentamente seus
olhos, e olha o rosto familiar de Osíris, que o recebe de volta com um sorriso
cúmplice. Atrás de si o ainda não muito familiar rosto de João Hermes. E na
outra ponta do triângulo o rosto severo, mas sereno de Isis, a Grã-Sacerdotisa.
Mais recuados, um pouco na penumbra, as dezenas de rostos dos demais membros da
ordem, prontos a receber de braços abertos o novo companheiro. Caso este
queira, é claro!
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“- Seja bem-vindo de volta. Você passou na
prova”, e estas frases vieram abraçadas à voz firme e doce de Isis. Neste
momento, já com os olhos abertos e acostumados à penumbra ele percebe no olhar
daquela mulher a sua superação. Havia dois quadros simultâneos dentro de um
mesmo olhar: aquele olhar vazio do transe, não mais do que uma outra porta para
dimensões estranhas e difíceis, com novos enigmas e a incerteza sempre um passo
adiante, e que neste momento trazia um cansaço maior do que o desejo. O outro
quadro, o oposto do transe, era a certeza de que ele estivera enganado em sua
intenção quando chegou na primeira reunião, e viu pela primeira vez o rosto de
Ísis, tão atraente e encantador. No fundo ela fora apenas uma isca. E estava
fisgado, de fato. Entrara num caminho sem volta. Todavia, não ficou incomodado
pois percebeu que o dragão estava desperto. Agora entendera o sentido da frase
e ficou grato à Osíris, acima de tudo. O polimento da pedra deveria continuar.
Por quanto tempo? Não importa. Ísis importa agora? Não mais. Ela não era o caminho, seu rosto e
voz eram as placas que indicavam o início do caminho. Osíris havia lhe dado o
mapa e cabia a ele continuar o caminho. Que não tinha mais volta.
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O mesmo Osíris esperou os outros membros da
tríade se afastarem para conversar a sós com Oliveira. Ele observou atentamente
seu discípulo, pois isto é o que Oliveira era neste contexto. Um exame final,
nesta terceira rodada de aprendizado intenso, deu-lhe a certeza do estado
seguro em que seu colega de trabalho estava. Desde o último encontro que Osíris
carregava uma ponta de incerteza quanto ao estado mental do ansioso e guloso
iniciante, antes tão cético e refratário e agora mergulhado de forma intensa no
caminho difícil do autoconhecimento. Oliveira estava bastante mudado. Neste
espaço de tempo entre a conversa na livraria e o presente, algo se transformara
dentro dele, e o olhar era o testemunho mais evidente desta mudança. Aquele
olhar morno, comum aos muitos que se penduram nas alças da vida e são
arrastados no turbilhão das coisas mundanas, ganhara em intensidade e argúcia,
como se tivesse lutado e derrotado o olhar que o perseguira por toda a vida, e
agora portava este mesmo olhar como troféu ou despojo de guerra. O brilho deste
olhar agora poderia ofuscar e intimidar aos fracos de pensamento e vontade.
Usá-lo ou não como arma cabia ao seu renovado arbítrio. Arma de quê? Arma ou
ferramenta? O objeto não é o sujeito, o objeto é a extensão do sujeito. Mas
isto tudo ainda estava a ser descoberto por ele.
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E então Oliveira,
o que você tem para me dizer?
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Que eu vi o
quanto me falta, mas também vi que não há mais volta.
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Você despertou o
dragão enfim.
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Sim, agora quero
montar nele e domá-lo.
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Ele não se deixa
domar facilmente.
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Eu percebi. Mas
não tenho mais medo. Sinto que ele gosta de mim.
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Ele gosta dos que
se dispõe a conquistá-lo.
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Ele é velho e sua
pele é macia.
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Você embarcará
conosco?
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Se for
necessário, sim. Eu gostei daqui, afinal.
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Você é bem-vindo.
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Nunca me senti
tão bem antes.
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Eu lhe avisei.
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Agora é a hora de
ir.
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Acho que é a hora
certa para ficar.
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Que seja então.
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A Lua ia alta no céu, tão longe, mas não
tão longe que não pudesse servir de testemunha deste diálogo hermético, quase
cifrado. No mais, o que foi dito foram somente as palavras de despedida normais
de uma convivência civilizada. Depois foi cada um para o seu carro, cada um
para sua casa, pensar nos afazeres triviais que podem ou não fazer a alegria de
muita gente. O passo estava dado e a tarefa cumprida.
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Um domingo diferente de todos os outros
domingos de toda a sua vida. Um dia em que acordou e olhou bem dentro de seus
olhos com o ânimo renovado. O dia em que começou a remover a casca grossa que o
mantivera preso por tanto tempo, tantos anos quantos todos os de sua vida até
este momento. Uma pele nova para substituir aquela pele velha, rompida como as
cobras rompem porque crescem. O dia um do ano um do resto de seu tempo nesta
estação escondida na borda da galáxia, pequeno ponto azul ofuscado por uma
estrela de quinta grandeza. Sorriu com todo seu corpo e experimentou uma nova
liberdade. Desceu as escadas de seu prédio, chegou na calçada e saiu andando
sem direção certa ou destino, apenas pelo prazer de olhar para tudo.
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