terça-feira, 26 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 13)




        Só alguém que estivesse convivendo tão próximo para perceber em Oliveira a mudança crescente. Será que a bebida subira tanto assim à sua cabeça? Só um copo daquele líquido e ele, poderíamos dizer, estava convertido? Não é tarefa fácil, até mesmo diria que impossível, entrar na mente de alguém, para contar do estado mental e das ideias que percorrem aquela extensão tão pequena, parte integrante e vital de um corpo humano. A ansiedade e a expectativa do próximo encontro corriam lado a lado com a lembrança cada vez mais clara e forte das imagens e supostos lugares onde ele esteve durante os breves momentos de desligamento da prisão da matéria. As lágrimas que correram e viraram nuvens limparam sua vista e desobstruíram seu entendimento.  As mudanças muitas vezes são necessárias e esperadas, mas a velocidade da mudança em Oliveira era fora do que se espera.

      No trabalho ele começou a ficar, digamos, desleixado com suas tarefas. No decorrer do primeiro mês após a experiência ele até que conseguia manter a sua rotina, dando conta de suas metas e dos clientes. Sua tela de computador que estampava a página da empresa ficou branca, após a remoção da imagem. Em seu lugar a imagem de um olho. Fixo nele, como companhia das horas de labuta. No mês seguinte a ansiedade aumentou. “Quando será o próximo encontro? Por que demora tanto? ” E a ansiedade começou a cobrar a conta em seu desempenho no trabalho. Demorava a retornar as ligações, não entregava os relatórios no prazo pedido, ficava disperso nas reuniões. Um dia, uma quinta-feira, após sair para uma visita à um cliente importante, ele parou numa praça e ficou sentado por horas procurando nuvens no céu. O celular desligado, a gravata afrouxada e os pés descalços tocando o chão. Quando retornou já no final da tarde, sua equipe estava muito apreensiva com seu sumiço. E como explicar o que acontecera? Ninguém entenderia.  Osíris, um pouco distante, sabia o que estava acontecendo. Porém se calou.

    Sua família, embora não tão presente em sua vida, também percebeu a mudança de comportamento. Mas não quis se intrometer, afinal ele era um adulto independente e cioso de sua privacidade. Quando as contas começaram a atrasar e a ameaças de corte dos serviços ficaram mais insistentes, ele simplesmente ignorou. Sua aparência por certo também começou a demonstrar o grau de inquietação, a ansiedade, a mudança que um simples copo de bebida alucinógena havia iniciado. O cabelo desgrenhado, o rosto sempre por barbear e as roupas sujas chamaram a atenção até de seu diretor, que o chamou para uma conversa séria:
O
liveira, o que está havendo com você?
S
r. Prado não há nada errado comigo.
C
omo não? Todos estão reparando em você, que sempre foi tão correto, e agora está deixando a desejar. Seu desempenho está caindo muito, seus clientes têm reclamado com frequência, sem falar em sua aparência. Diga-me: o que está acontecendo? Estamos aqui para ajudar. Você está vivendo alguma crise séria? Você precisa de uma licença? Pode se abrir e falar francamente.
S
inceramente, eu não vejo nada errado comigo. Só estou me descobrindo, descobrindo coisas que eu não sabia até então. (Mas achou prudente não falar mais do que isso)
B
em, então eu tomo a iniciativa de colocá-lo em licença para que você se aprume. Eu acho que você precisa. Dou-lhe um mês. Depois deste prazo conversaremos de novo para reavaliar o quadro.

  Finalmente Osíris entrou em contato para dizer que no final da semana haveria outro encontro. Oliveira quase explodiu de alegria ao saber, e ficou contando os minutos até o sábado. As lembranças ficavam cada vez mais claras, as imagens da viagem e o rosto encantado da Grã Sacerdotisa. O medo de sair da realidade agora dava lugar à expectativa de uma nova jornada de autoconhecimento. Não mais um convidado e nem mais um iniciante, pois já provara do néctar. Assim ele estava encarando sua segunda experiência.

     Sábado. Assim como todos os outros sábados. O mesmo lugar e as mesmas instruções. Já não eram novidade. Aquelas pessoas já não eram tão estranhas assim, não é mesmo? “Olhe, são pessoas normais, por que não vi isso antes? Acho que o único estranho aqui sou eu”. “Agora eu começo a entender a ideia de preconceito. Ao chegar aqui, hoje, eu senti algo diferente. Algo bom, familiar. Eu estou bem. Eu estou contente. Eu estou ansioso. Me dê logo isso! 


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