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Só alguém que estivesse convivendo tão
próximo para perceber em Oliveira a mudança crescente. Será que a bebida subira
tanto assim à sua cabeça? Só um copo daquele líquido e ele, poderíamos dizer,
estava convertido? Não é tarefa fácil, até mesmo diria que impossível, entrar
na mente de alguém, para contar do estado mental e das ideias que percorrem
aquela extensão tão pequena, parte integrante e vital de um corpo humano. A
ansiedade e a expectativa do próximo encontro corriam lado a lado com a
lembrança cada vez mais clara e forte das imagens e supostos lugares onde ele
esteve durante os breves momentos de desligamento da prisão da matéria. As
lágrimas que correram e viraram nuvens limparam sua vista e desobstruíram seu
entendimento. As mudanças muitas vezes
são necessárias e esperadas, mas a velocidade da mudança em Oliveira era fora
do que se espera.
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No trabalho ele começou a ficar, digamos,
desleixado com suas tarefas. No decorrer do primeiro mês após a experiência ele
até que conseguia manter a sua rotina, dando conta de suas metas e dos
clientes. Sua tela de computador que estampava a página da empresa ficou
branca, após a remoção da imagem. Em seu lugar a imagem de um olho. Fixo nele,
como companhia das horas de labuta. No mês seguinte a ansiedade aumentou.
“Quando será o próximo encontro? Por que demora tanto? ” E a ansiedade começou
a cobrar a conta em seu desempenho no trabalho. Demorava a retornar as
ligações, não entregava os relatórios no prazo pedido, ficava disperso nas
reuniões. Um dia, uma quinta-feira, após sair para uma visita à um cliente
importante, ele parou numa praça e ficou sentado por horas procurando nuvens no
céu. O celular desligado, a gravata afrouxada e os pés descalços tocando o
chão. Quando retornou já no final da tarde, sua equipe estava muito apreensiva
com seu sumiço. E como explicar o que acontecera? Ninguém entenderia. Osíris, um pouco distante, sabia o que estava
acontecendo. Porém se calou.
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Sua família, embora não tão presente em sua
vida, também percebeu a mudança de comportamento. Mas não quis se intrometer,
afinal ele era um adulto independente e cioso de sua privacidade. Quando as
contas começaram a atrasar e a ameaças de corte dos serviços ficaram mais
insistentes, ele simplesmente ignorou. Sua aparência por certo também começou a
demonstrar o grau de inquietação, a ansiedade, a mudança que um simples copo de
bebida alucinógena havia iniciado. O cabelo desgrenhado, o rosto sempre por
barbear e as roupas sujas chamaram a atenção até de seu diretor, que o chamou para
uma conversa séria:
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O
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liveira, o que
está havendo com você?
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S
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r. Prado não há
nada errado comigo.
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C
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omo não? Todos
estão reparando em você, que sempre foi tão correto, e agora está deixando a
desejar. Seu desempenho está caindo muito, seus clientes têm reclamado com
frequência, sem falar em sua aparência. Diga-me: o que está acontecendo?
Estamos aqui para ajudar. Você está vivendo alguma crise séria? Você precisa de
uma licença? Pode se abrir e falar francamente.
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S
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inceramente, eu
não vejo nada errado comigo. Só estou me descobrindo, descobrindo coisas que eu
não sabia até então. (Mas achou prudente não falar mais do que isso)
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B
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em, então eu tomo
a iniciativa de colocá-lo em licença para que você se aprume. Eu acho que você
precisa. Dou-lhe um mês. Depois deste prazo conversaremos de novo para
reavaliar o quadro.
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Finalmente Osíris entrou em contato para
dizer que no final da semana haveria outro encontro. Oliveira quase explodiu de
alegria ao saber, e ficou contando os minutos até o sábado. As lembranças
ficavam cada vez mais claras, as imagens da viagem e o rosto encantado da Grã
Sacerdotisa. O medo de sair da realidade agora dava lugar à expectativa de uma
nova jornada de autoconhecimento. Não mais um convidado e nem mais um
iniciante, pois já provara do néctar. Assim ele estava encarando sua segunda
experiência.
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Sábado. Assim como todos os outros
sábados. O mesmo lugar e as mesmas instruções. Já não eram novidade. Aquelas
pessoas já não eram tão estranhas assim, não é mesmo? “Olhe, são pessoas normais,
por que não vi isso antes? Acho que o único estranho aqui sou eu”. “Agora eu
começo a entender a ideia de preconceito. Ao chegar aqui, hoje, eu senti algo
diferente. Algo bom, familiar. Eu estou bem. Eu estou contente. Eu estou
ansioso. Me dê logo isso!

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