segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 8)


      O grande gongo soou pela terceira vez. Sua vibração se elevou no ar por alguns minutos. Depois fez-se silêncio. A Grã Sacerdotisa iniciou um cântico em voz solo, uma melodia mântrica ondulante, calma, aconchegante; um cântico evocando um útero, um abrigo, uma fonte de calor, uma carícia aos ouvidos convertidos em fiéis depositários de verdades antigas e incontestáveis. Por longos minutos foi só o que se ouviu naquela propriedade coalhada de árvores grandiosas, onde o mal, a cobiça, a inveja não poderiam entrar sem ser convidados. E pela vontade da maioria não seriam jamais.

     Então o grande gongo soou uma vez mais. Era o quarto toque. Os grupos de sete se desfizeram e começaram a ser formadas as filas para compartilhar a bebida sagrada. Nos galpões do sítio outros auxiliares preparavam a infusão, onde em grandes tachos a bebida borbulhava exalando um cheiro acre, não muito agradável, pelo menos às narinas desacostumadas. Cinco grandes tachos cheios seriam suficientes para atender àquela pequena multidão de iniciados e os poucos convidados, que poderiam ou não ingerir o néctar.

   Osíris, um dos segundos sacerdotes, neste momento liberado de suas incumbências, foi ter com Oliveira. O homem descrente e reticente estava ainda num estado entre o choque e o encantamento pela voz e pela presença da Grã Sacerdotisa. O primeiro olhar que ela lhe dirigiu ainda o queimava e gelava simultaneamente. Ele pouco acompanhou do restante da cerimônia até aquele momento, também em função da repulsa que este tipo de atividade o acometia. Balbuciar é o que se poderia dizer do som que jorrou de sua boca, quando Osíris chegou e perguntou:


 -E então, o que está achando? Não lhe falei que seria um momento bonito e de muita tranquilidade?

 Ehhhh, eu, eu,eu, não sei......É tudo novo pra mim, eu não entendo aonde isso vai....
N
ós só buscamos o conhecimento, a paz, a convivência harmônica, o equilíbrio com o mundo natural.
A
h sei.
A
gora é a hora da comunhão. Nossa hóstia é a Mayaszolote. Você se decidiu a experimentar?

    Se a comunhão de alguma forma fizesse com que Oliveira pudesse se aproximar da Grã Sacerdotisa, então sua hesitação estava enfraquecendo rapidamente. Seu medo de perder contato com a realidade estava em conflito com algo que ele não saberia expressar em palavras no momento, mas uma força maior o atraía para um terreno desconhecido.
S
im, eu vou experimentar.
E
ntão pode se dirigir para a fila. Após a ingestão, apenas lembre-se de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo (onde foi que eu ouvi esta frase?).

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