quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 18)

     A TERCEIRA VEZ


    As nuvens se espalharam um pouco pela vastidão do céu. No horizonte surge uma Lua amarela, enorme, distorcida pelos efeitos óticos da posição em relação à Terra. O ar está fresco, e os incensos parecem estar mais perfumados do que das outras vezes. O grande gongo já está envolto em chamas, os archotes distribuídos ao longo das alamedas fazem companhia com a fogueira. Estandartes com símbolos estranhos compõe a cena deste espetáculo, que procura ser discreto, mas é grandioso ao mesmo tempo. Os grandes tachos já fervem, exalando o aroma característico do chá de Mayaszolote. Pouco a pouco os participantes vão chegando, alguns muito sorridentes, outros mais tensos, talvez por ser a primeira vez, ou por ser a terceira e definitiva. O que prevalece, no entanto é a paz e a serenidade. Isso ninguém tira.


   Oliveira já conhece o ritual. Até se gaba para si próprio que já não é mais um iniciante, olhando com uma certa superioridade para aqueles rostos que não reconhece e que sabe que estão pela primeira vez no recinto. Ele está tranquilo e confiante. Cumprimenta algumas pessoas, anda um pouco pelas alamedas, passa pelo galpão onde estão os tachos fumegantes, só para sentir o aroma que preenche o ar. Sua pulsação acelera lentamente, gradualmente. Ouve o primeiro toque do gongo e já se dirige para o assento reservado. O céu agora está mais claro. Não sente fome nem sede, mas a expectativa. Precisa ver o rosto da sacerdotisa. É o seu Graal. “Será que algum dia ela sorrirá para mim com interesse? ” O lado romântico que habita o coração de muitos garotos que sonham com namoradas inalcançáveis toma de assalto aquele homem já crescido e vivido.      “Ora, que besteira! Estou sonhando demais e muito alto. Eu não vim aqui para isso. Hoje é o dia da prova final. É claro que ela nunca irá reparar em mim”. Esta seca constatação o deixa em dúvidas quanto à certeza de sua vontade de superar a prova. “Eu não posso mais voltar. Eu só posso ir em frente agora”. Esta nova constatação quase o deixa travado e plantado no chão. E o gongo soou por duas vezes mais. A fila já se formava. A montanha russa foi posta em movimento.

  O desânimo, tal qual peçonha poderosa, se infiltrou e gelou seu sangue e o ar ao redor das narinas. As pernas fraquejavam e ele parou de repente hesitando em pegar a fila da bebida, momento crucial da cerimônia. Estes instantes de dúvida e ruptura teimam em acontecer, as vezes com muita frequência nas vidas ao redor deste mundo. Oliveira estava começando a ficar como se à deriva, num barco furado, com a água entrando em grande volume e pressão. Nestes momentos parece que a vista fica turva e as cores desaparecem, os tons se desfazem e fica tudo circulando ao redor de um cinza insuportável. Será isto um presente ou uma praga? Depende do ponto de vista: se é uma praga, largue tudo e desista. Se como presente se apresenta, então depure o veneno, dilua, cuspa fora o bagaço e o veneno o tornará mais forte. Aprumar-se no meio do açoite é a prova definitiva da superação. Quantos conseguem isto?

     Qual caminho tomou Oliveira, o da praga ou do presente? Vejamos:
-Eu só posso ir em frente agora”. Esta sentença determina o caminho.  Logo ele se dirige para o fim da fila. E se apruma. Osíris o observa de longe.

        Eis o copo na mão. Diferente das outras vezes, e apesar de toda a expectativa, não há aquela sofreguidão, aquela pressa de beber. Ele vira o copo com parcimônia, saboreando a bebida. Dirige-se para o seu lugar. E novamente espera a porta abrir...

       A quarta porta se abre lentamente, gentilmente, como se soubesse que momentos antes o hóspede se debatia em conflito. Há uma brancura absoluta, mas logo, e mesmo de olhos fechados, ele distingue muitos tons de branco, tons de muitas frequências, múltiplos e submúltiplos de uma frequência muito leve e inicial. Um branco primordial. As frequências se sobrepõe, e à medida que se desdobram os tons de branco vão encorpando, ficando mais densos, quase sólidos. Há um plano inclinado que parece infinito, e ele dá passos firmes, embora não toque o solo. Cada passo o leva longe. O efeito do veneno depurado logo surge e a confiança aumenta. Os tons de branco ao longo deste plano inclinado vão se tornando dourados, ou algo parecido. Cada passo agora é um grande avanço. Os tons dourados vão ficando mais vivos e brilhantes, cada brilho é um sorriso, cada sorriso é um som novo e harmônico, cada som vai se somando ao anterior para formar uma grande composição, algo que Oliveira jamais ouviu antes, pois não tinha interesse. Mesmo não tendo ouvido antes ele segue contente, ainda que longe ele sabe que tomou o caminho certo. Novamente não há chão ou céu, nem acima ou abaixo, nem fora. Ele já se acostumou e aceitou de boa vontade esta mudança de perspectiva, este ponto de vista diferente. A consciência se expandiu e assimilou com naturalidade.      De repente uma vibração fora dos múltiplos de frequências atrai sua atenção. Num ponto oposto ao plano o branco absoluto vai mudando para um cinza leve, que logo aumenta para um cinza mais pesado, até que numa velocidade de mudança preocupante vira um cinza insuportável. O estado de paz fica comprometido. Suas passadas aumentam, mas não há sinal perceptível de porta ou saída. “Não há volta, devo seguir em frente”, a sentença imperiosa volta com mais força e aumenta subitamente o ímpeto para o avanço. Suas passadas aumentam e o plano muda a inclinação. Não há gravidade, mas a inclinação aumenta o impulso, e com isso aumenta o avanço. O cinza opressivo avança junto, é uma disputa acirrada. As poucos ele aprende sobre esta dimensão extravagante onde de boa vontade adentrou. Não pode olhar para trás, pois o que passou não tem mais volta, são portas que se fecham e se apagam. Ele descobre vasculhando no seu íntimo que uma porta nova está sempre se formando à sua frente. Os olhos antes fechados, agora se tornaram dois faróis potentes e lançam luzes fortes, luzes guia neste corredor. O cinza está bem ao lado, mas não o amedronta mais. O cinza estará sempre ao seu lado, mas basta não dar atenção que o cinza escurece, vira preto, e o preto é a ausência da luz, portanto tende a desaparecer.

    Tendo aprendido esta nova lição, o avanço é mais veloz. Os tons dourados retornam e se subdividem, dobrando a cada instante. Agora é um mergulho com gotas douradas que giram formando espirais. Cada espiral ao fim do ciclo retorna para a posição inicial e reinicia o processo. Neste desenrolar o caminho fica mais claro e mais espesso, embora não haja paredes ou teto. É somente uma impressão.
D
e repente, adiante, a pedra em forma humana reaparece. Há uma surpresa com a súbita lembrança, porém logo percebe que a pedra está diferente. Parece mais polida, mais brilhante, com um formato mais definido. Só que as gotas continuam saindo e vindo em sua direção. Ele aprendeu que deve desviar destas gotas. As outras gotas, as gotas douradas das espirais se reúnem ao redor de seu corpo (ou sua mente, ele não tem certeza), formando uma vestimenta, mais parecida com uma couraça. As primeiras gotas da pedra-homem se chocam contra a couraça dourada. Com o impacto, apesar do suposto sentido contrário, a armadura-couraça dourada ganha mais e mais velocidade. Além das gotas que escaparam da pedra-homem, a própria pedra-homem começa a se deslocar em seu encalço. Ela não só está mais polida, como também mais flexível e fluída, e se contorce e cria membros que se projetam para agarrar sua suposta presa. As gotas douradas se desdobram em velocidade maior, criando um campo de defesa. Além das gotas da pedra, ela agora tem de combater a própria pedra. Sua estratégia é formar uma teia dourada, de fios tão unidos que o brilho intenso ofusca a pedra e as outras gotas. A pedra-homem se agiganta e tenta romper a teia dourada, se contorcendo cada vez mais. Porém a teia cria resistência a partir do atrito, e daí retarda o avanço da pedra-homem. É uma disputa titânica, uma batalha que se desenrola neste ambiente excêntrico, em algum ponto anterior à chegada da quinta porta. As gotas douradas, que se multiplicam à medida que são pressionadas, criam um clarão ígneo, englobando a pedra-homem, suas gotas emulsionadas e o cinza insuportável que se uniu à pedra num último esforço de capturar o viajante indefeso desta planície perpétua.   


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