sábado, 23 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 3)

     A loja não era grande mas bem organizada, com prateleiras bem dispostas e acessíveis. Passou sem muito entusiasmo pelo setor de livros didáticos, pelas revistas antigas e não tão antigas, pelas estantes de CD's e LP's e foi para a parte mais ao fundo do estabelecimento onde ficava o ponto forte e que mais atraía a clientela. Além de Oliveira havia outros clientes, não muitos mas atentos aos livros, alguns muito raros que faziam a fama da “Árvore do saber”. Ele começou a perceber os demais frequentadores e não gostou nem um pouco do que via. Pessoas estranhas, vestidas com roupas esquisitas, a maioria composta por homens, porém poucas mulheres, também com roupas não muito usuais. Alguns usavam chapéus e emblemas com símbolos desconhecidos, camisas de bandas de rock antigas e capotes apesar do calor. Havia um sujeito desgrenhado, com uma longa barba já embranquecida, com uma bata colorida bastante surrada e mais apropriada para uso na década de 70 do século XX. As mulheres usavam saias compridas e cabelos descoloridos, maquiagem carregada nos olhos e bijuterias intrincadas, entre outros detalhes. Ele mais do que nunca parecia um peixe fora d'água, com suas roupas neutras para não dizer insípidas. Uma aversão instintiva mas inexplicada invadia sua mente, uma repulsa automática àquelas pessoas diferentes, que mais pareciam ter brotado da terra já dentro da loja. No entanto era ele o diferente naquele ambiente. Neste instante ele se vira para sair daquele setor quando repara num rosto familiar quase escondido atrás de uma pilastra. Demorou um pouco para lembrar-se de onde conhecia aquela pessoa, mas era o Osíris, que também trabalhava na mesma empresa, em outro departamento. Por seguir as normas de vestimenta recomendadas no trabalho, Osíris também estava discreto dentre aquele grupo tão excêntrico, e por isso parecia um pouco escondido. Não que tivesse intimidade com ele, mas uma referência num ambiente desconhecido é sempre um alento. Ao longo destes oito anos em que trabalha na Praetorius podia contar nos dedos as vezes em que trocara algumas palavras com ele, meramente cumprimentos protocolares em aniversários ou festas de fim de ano. Mas a curiosidade falou mais alto.
   “O que será que este cara está fazendo aqui? Ele parece tão comum! Ele está bastante concentrado naquele livro velho. Bom, vou puxar conversa “
       - Olá Osíris!
       Osíris toma quase um susto, pois estava literalmente mergulhado até a cintura no livro.
        Olá Oliveira, que surpresa !
        A chuva me pegou no meio do caminho e então eu entrei nesta livraria para me esconder e passar o tempo até a chuva diminuir e voltar para o escritório.
        Ah sim. Eu frequento esta livraria há muitos anos, sou até amigo do dono.
        Estava olhando as estantes. Parece que só tem livros sobre coisas esotéricas.
        Sim, poucas lojas na cidade tem o acervo que eles tem.
        Eu não acredito nestas coisas
        Eu acredito e gosto muito destes assuntos. Mas é questão de gosto, não é mesmo?
        Sei lá, não creio que seja questão de gosto, acho que é questão de formação.
        Como assim formação. Formação religiosa?
        Não religiosa, digo formação de personalidade. Eu só creio naquilo que vejo.
        Ah então você é uma pessoa materialista.
        Talvez seja, mas pensar em algo que eu não possa medir, pesar ou atestar me deixa desconfortável, sei lá, me deixa inseguro.
        Você é um cartesiano?
        Sim, talvez seja. “Penso, logo existo”
        Eu penso também, e logo insisto em pensar que as coisas não são tão simples, tão preto no branco como parecem a primeira vista.
        Acho que sou uma pessoa simples, que gosta  de tudo nos “conformes”, como dizem.
        Sim, cada um na sua praia, é verdade. Mas veja bem: você só acredita naquilo que vê, não é? Então você não acredita na televisão ou no rádio, pois não vemos as ondas que carregam a informação, seja imagem ou som, ou som e imagem ao mesmo tempo...
        Não, não sou assim tão burro. Só não acredito em vida após a morte, fantasmas, espíritos, ET's, e coisas do gênero, ou charlatões que enganam essas pessoas muito crédulas.
        Chegamos a um acordo, pois também não gosto de charlatões. Por isso é sempre bom buscar mais conhecimento e não somente informação. E abrir a mente às coisas novas, não somente às novidades passageiras, mas coisas novas que possam enriquecer sua mente. Quanto mais desperto menos chances temos de ser enganados.
        É verdade. Mas estas ideias de sair da mente, sair do corpo me causam irritação.
        Seria por medo do desconhecido?
        Sei lá, pode ser, mas eu gosto é dos pés no chão, da realidade.
        Desta realidade ?
        E há outra ? Eu só conheço esta.
        Pode haver, mas é uma questão de crença, ou de intuição e imaginação. Criatividade.
        Sei não. Como eu te disse, eu só acredito em fatos e números, principalmente números.
        Os números podem ser muito misteriosos, não acha?
        Misteriosos como? Números são números, 1, 2, 3, 20. 340, 72000, qual mistério há nisso?São símbolos gráficos somente.
        Tá certo, vamos deixar este assunto de lado, pois não sou especialista, só aficcionado.
        É, acho que a chuva está passando. Temos que voltar para o trabalho.
        Claro, claro. Escuta Oliveira, eu gostei desta conversa sabe? Eu nunca havia conversado com você antes. Você aceitaria um convite?
        Convite? Que tipo de convite?
        É o seguinte: eu frequento um grupo de estudos destes assuntos, que você vê nestes livros em grande número nesta loja. Não é um grupo religioso, nem uma seita. Poderíamos chamar de uma Ordem. Que se chama “Ordus Frateorum Celestiae”. Na semana que vem haverá uma festa num sítio não muito longe. Se você quiser poderá ir como meu convidado para conhecer. Talvez você possa mudar um pouco seus conceitos, e olhar por outro ângulo. Pode ficar tranquilo que não haverá sacrifícios humanos, nem de animais hahahahahah. São apenas cantos, danças, música e leituras.
        Ah não, não creio que vá gostar. Obrigado pelo convite, mas acho que não vou aceitar.
        Sem problema, mas pense melhor a respeito e depois me responda. Vamos que a chuva já passou.
        Passou? Como você sabe? Não tem janelas aqui.
        Ahahahahah, há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia, conhece esta frase?
        Acho que é do Chacrinha.
        Ahahahah, gostei da piada.

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