A loja não era
grande mas bem organizada, com prateleiras bem dispostas e acessíveis. Passou
sem muito entusiasmo pelo setor de livros didáticos, pelas revistas antigas e
não tão antigas, pelas estantes de CD's e LP's e foi para a parte mais ao fundo
do estabelecimento onde ficava o ponto forte e que mais atraía a clientela.
Além de Oliveira havia outros clientes, não muitos mas atentos aos livros,
alguns muito raros que faziam a fama da “Árvore do saber”. Ele começou a
perceber os demais frequentadores e não gostou nem um pouco do que via. Pessoas
estranhas, vestidas com roupas esquisitas, a maioria composta por homens, porém
poucas mulheres, também com roupas não muito usuais. Alguns usavam chapéus e
emblemas com símbolos desconhecidos, camisas de bandas de rock antigas e
capotes apesar do calor. Havia um sujeito desgrenhado, com uma longa barba já
embranquecida, com uma bata colorida bastante surrada e mais apropriada para
uso na década de 70 do século XX. As mulheres usavam saias compridas e cabelos
descoloridos, maquiagem carregada nos olhos e bijuterias intrincadas, entre
outros detalhes. Ele mais do que nunca parecia um peixe fora d'água, com suas
roupas neutras para não dizer insípidas. Uma aversão instintiva mas inexplicada
invadia sua mente, uma repulsa automática àquelas pessoas diferentes, que mais
pareciam ter brotado da terra já dentro da loja. No entanto era ele o diferente
naquele ambiente. Neste instante ele se vira para sair daquele setor quando
repara num rosto familiar quase escondido atrás de uma pilastra. Demorou um
pouco para lembrar-se de onde conhecia aquela pessoa, mas era o Osíris, que também
trabalhava na mesma empresa, em outro departamento. Por seguir as normas de
vestimenta recomendadas no trabalho, Osíris também estava discreto dentre
aquele grupo tão excêntrico, e por isso parecia um pouco escondido. Não que
tivesse intimidade com ele, mas uma referência num ambiente desconhecido é
sempre um alento. Ao longo destes oito anos em que trabalha na Praetorius podia
contar nos dedos as vezes em que trocara algumas palavras com ele, meramente
cumprimentos protocolares em aniversários ou festas de fim de ano. Mas a
curiosidade falou mais alto.
“O que será que este cara está fazendo aqui?
Ele parece tão comum! Ele está bastante concentrado naquele livro velho. Bom,
vou puxar conversa “
- Olá Osíris!
Osíris toma quase um susto, pois estava
literalmente mergulhado até a cintura no livro.
–
Olá Oliveira, que surpresa !
–
A chuva me pegou no meio do caminho e então eu
entrei nesta livraria para me esconder e passar o tempo até a chuva diminuir e
voltar para o escritório.
–
Ah sim. Eu frequento esta livraria há muitos
anos, sou até amigo do dono.
–
Estava olhando as estantes. Parece que só tem
livros sobre coisas esotéricas.
–
Sim, poucas lojas na cidade tem o acervo que
eles tem.
–
Eu não acredito nestas coisas
–
Eu acredito e gosto muito destes assuntos. Mas é
questão de gosto, não é mesmo?
–
Sei lá, não creio que seja questão de gosto,
acho que é questão de formação.
–
Como assim formação. Formação religiosa?
–
Não religiosa, digo formação de personalidade.
Eu só creio naquilo que vejo.
–
Ah então você é uma pessoa materialista.
–
Talvez seja, mas pensar em algo que eu não possa
medir, pesar ou atestar me deixa desconfortável, sei lá, me deixa inseguro.
–
Você é um cartesiano?
–
Sim, talvez seja. “Penso, logo existo”
–
Eu penso também, e logo insisto em pensar que as
coisas não são tão simples, tão preto no branco como parecem a primeira vista.
–
Acho que sou uma pessoa simples, que gosta de tudo nos “conformes”, como dizem.
–
Sim, cada um na sua praia, é verdade. Mas veja
bem: você só acredita naquilo que vê, não é? Então você não acredita na
televisão ou no rádio, pois não vemos as ondas que carregam a informação, seja
imagem ou som, ou som e imagem ao mesmo tempo...
–
Não, não sou assim tão burro. Só não acredito em
vida após a morte, fantasmas, espíritos, ET's, e coisas do gênero, ou
charlatões que enganam essas pessoas muito crédulas.
–
Chegamos a um acordo, pois também não gosto de
charlatões. Por isso é sempre bom buscar mais conhecimento e não somente
informação. E abrir a mente às coisas novas, não somente às novidades
passageiras, mas coisas novas que possam enriquecer sua mente. Quanto mais
desperto menos chances temos de ser enganados.
–
É verdade. Mas estas ideias de sair da mente,
sair do corpo me causam irritação.
–
Seria por medo do desconhecido?
–
Sei lá, pode ser, mas eu gosto é dos pés no
chão, da realidade.
–
Desta realidade ?
–
E há outra ? Eu só conheço esta.
–
Pode haver, mas é uma questão de crença, ou de
intuição e imaginação. Criatividade.
–
Sei não. Como eu te disse, eu só acredito em
fatos e números, principalmente números.
–
Os números podem ser muito misteriosos, não
acha?
–
Misteriosos como? Números são números, 1, 2, 3,
20. 340, 72000, qual mistério há nisso?São símbolos gráficos somente.
–
Tá certo, vamos deixar este assunto de lado,
pois não sou especialista, só aficcionado.
–
É, acho que a chuva está passando. Temos que
voltar para o trabalho.
–
Claro, claro. Escuta Oliveira, eu gostei desta
conversa sabe? Eu nunca havia conversado com você antes. Você aceitaria um
convite?
–
Convite? Que tipo de convite?
–
É o seguinte: eu frequento um grupo de estudos
destes assuntos, que você vê nestes livros em grande número nesta loja. Não é
um grupo religioso, nem uma seita. Poderíamos chamar de uma Ordem. Que se chama
“Ordus Frateorum Celestiae”. Na semana que vem haverá uma festa num sítio não
muito longe. Se você quiser poderá ir como meu convidado para conhecer. Talvez
você possa mudar um pouco seus conceitos, e olhar por outro ângulo. Pode ficar
tranquilo que não haverá sacrifícios humanos, nem de animais hahahahahah. São
apenas cantos, danças, música e leituras.
–
Ah não, não creio que vá gostar. Obrigado pelo
convite, mas acho que não vou aceitar.
–
Sem problema, mas pense melhor a respeito e
depois me responda. Vamos que a chuva já passou.
–
Passou? Como você sabe? Não tem janelas aqui.
–
Ahahahahah, há mais coisas entre o céu e a Terra
do que supõe nossa vã filosofia, conhece esta frase?
–
Acho que é do Chacrinha.
–
Ahahahah, gostei da piada.

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