sábado, 30 de setembro de 2017

Oto (2ª parte)

  

                                                        Meia noite chega e o silêncio aumenta neste bairro agora tranquilo. O cansaço também chega junto ao novo dia que avança, mas Oto têm um grande acúmulo de serviços pendentes. Senta-se de novo com o Laptop de última geração para continuar suas tarefas. Toma mais uma xícara de café, mas o sono doma-lhe a vontade. Oto começa a cabecear mas cerra os olhos e quer seguir em frente, pois havia prometido entregar esta nova tarefa em três dias, pois todos têm pressa e todos acham que o seu problema é o mais importante, e quando procuram Oto chegam com uma cara nervosa e cheios de amabilidades, pois apesar de sua timidez sua fama de eficiência está se espalhando e sabem que ele é confiável. E ele nunca diz não.
      O café não faz mais efeito e o pensamento de Oto começa a ficar confuso. ¨”Para acomodar a nova caldeira faz-se necessário criar um espaço aberto para dissipação do calor, por onde a circulação dos funcionários terá que ser restrita…O carro está precisando de novos limpadores de para-brisa e, .... minha mãe faz aniversário no dia 16 ou no dia 17? ¨, Hein?! Oto sacode a cabeça e pensa: “ Nossa, eu estava pensando na caldeira da indústria metalúrgica e de repente pensei no carro e depois lembrei da minha mãe, onde estou com a cabeça? ”. O sono é invencível, Hipnos era o Deus grego responsável pelo sono dos mortais daí o termo Hipnótico para coisas que deixam você com o pensamento turvo e descontrolado, indefeso e sem raciocínio. Oto não sabe quem foi Hipnos e precisa seguir em frente: “ A norma regulamentadora do funcionamento de caldeira prevê, entre outras coisas…. Eu estava na aula de química quando aquela menina morena de pernas compridas me pediu a borracha emprestada…. Puxa vida, a conta de luz venceu anteontem e eu não paguei! ”
     Não têm jeito, o sono é invencível e Oto, nesta altura da madrugada, já havia entrado no túnel escuro que conecta a vigília com o plano superior da existência, a zona limítrofe cujas leis terrenas não têm efeito e os desejos correm soltos, sem amarras, sem âncoras, sem relógios. Está de volta ao colégio só que as paredes são de cristal, a sala de aula está no topo de um monte e o mestre traja roupas estranhas. Olha ao redor e seus colegas estão absortos tentando fundir ouro e prata. Ouve uma voz melodiosa e quando se vira ele vê a menina morena de pernas longas que há poucos minutos havia pedido a borracha emprestada. Seu nome é Myrna e seus olhos são como um redemoinho, chispando fagulhas de um brilho incomum. Uma visão paradisíaca lhe entope os sentimentos. Nunca antes havia tido coragem de se aproximar dela, maldita timidez, e jamais se dera conta de toda a sua beleza. “Olá Oto por que você tem faltado às aulas todos estes anos, eu estava esperando pelos seus conselhos? ” Oto não esperava por um momento como este e não conseguia articular uma resposta para uma pergunta tão surpreendente.
         Mas eu não faltei muitas aulas na minha vida?
         Todos sentimos sua falta e tudo está parado esperando que você nos traga a solução.
         Solução de quê?
         Ora você sabe que nós precisamos sair daqui...
         Daqui aonde?
Myrna sorri achando que Oto está brincando...
         Oto deixe de brincadeira pois estamos esperando sua resposta!
   Oto deve estar com uma expressão tão apalermada que até Myrna percebe algo errado. A menina fecha seu sorriso cordial e iluminado e segue: - Então você não tem ideia do que está acontecendo? Nós estamos presos neste mundo e pouco tempo nos resta. Durante muito tempo você sumiu, se esquivou e sempre nos disse um NÃO tão exato simbolizado pela sua ausência que todos estamos tão assustados e pessimistas. As pontes de saída estão destruídas e só você consegue reconstruí-las. As paredes ao norte da escola já sumiram e o escuro avança, e só de pensar no que virá depois me deixa muito triste. O belo rosto da menina perdera o brilho radioso que mostrara há pouco e sua expressão era de uma tristeza imensa e comovedora. Aos poucos Oto adentrara por inteiro neste novo ambiente que era ao mesmo tempo familiar, porém intensamente assustador. Refletia sobre as palavras ditas com tanta emoção por Myrna e ficara muito intrigado com o fato do NÃO, bem destacado por ela.
  ”Eu não entendo, eu nunca nego nada quando me pedem, ainda mais aqui, este lugar que eu tanto gostei. Não lembro de ter estado ausente muito tempo, parece que deixei a escola ontem, ou pode ter sido anteontem. Espera, eu tenho 35 anos, não estou mais na escola! Aonde estou de fato? ”  Oto está completamente confuso e sente sua respiração acelerada. Ouve um ruído longínquo e rouco, um som ameaçador. Olha ao redor e percebe os demais colegas cabisbaixos, olha o mestre de roupas estranhas com o olhar vazio de desalento, e quando se volta para Myrna ela já não é aquela bela figura morena de olhos faiscantes. Na verdade, é uma figura horrível de se ver: Sua face é um quadro tenebroso, de olhos vazios que emanam o vácuo que se aproxima da parede norte da escola. Seus olhos mostram a beira do abismo, seu nariz rouba todo o ar de Oto, suas mãos lembram duas garras prontas a apertar e dilacerar a carne macia de um ser humano. E quando volta a falar um arrepio percorre a coluna vertebral de Oto.
  - Venha comigo, eu estive esperando este tempo todo, não me abandone agora!
      Uma voz como que surgida do fundo do abismo mais escuro substituía aquela voz tão doce de momentos atrás. Oto sente seu coração tão rápido e sua respiração tão ofegante e vê aquela imagem assustadora se aproximar. Sua própria voz parecia sumir dentro da garganta e o ruído crescia e se aproximava. Olhou mais uma vez ao redor e todos os colegas agora se voltavam para ele, com figuras tão horrendas e tristes quanto Myrna.  Avançavam por todos os lados cercando-o. O céu parecia descer rapidamente sobre sua cabeça. Seu corpo tremia tanto que ele não sabia se conseguiria aguentar por mais tempo. Quando Myrna chegou com as mãos de Fúria perto de sua garganta, pronta para rasgá-la de um lado a outro Oto deu um grito imenso.
         NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÕOOOOOOOOO.

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