terça-feira, 26 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 14)


     A fila do chá de novo. Não é mais o último da fila, mas o primeiro. “Encha todo o copo, por favor”

   A voz da Grã Sacerdotisa entoou o mesmo canto. O silêncio era como uma seda que envolvia a todos num abraço macio, deixando os ouvidos e mentes num ponto de relaxamento tal que a melodia os conduzia para a porta de saída. Cada qual com sua porta. A Lua já não estava visível no céu neste sábado, porém o clima continuava agradável e propício. Após os minutos de praxe depois da ingestão da beberagem, Oliveira se acalmou e esperou. O mesmo tremor, o mesmo suor e a variação brusca de temperatura corporal. E então....

       A voz da sacerdotisa se transformou numa mão que segurou firme a mão do garoto. A primeira porta se abriu e a mão e ele adentraram aquele território. Luzes, luzes, como ondas, como nuvens, como uma estrada. Não havia chão ou céu, só a mão firme que puxava cada vez mais rápido. Luzes, luzes, como ondas cada vez mais altas e envolventes. Luzes que cercaram o menino e o rodeavam como se fossem vesti-lo com trajes adequados para enfrentar a viagem. A segunda porta se aproximava, não era retangular ou redonda. É difícil descrever as formas neste território. A geometria estava transfigurada. A porta parece de fogo líquido, um fogo que não assusta. É um fogo que atrai e o calor aumenta. A porta parece se fechar e puxa o menino com mais vigor. A mão o empurra com firmeza e ele passa pela segunda porta.


   No próximo nível o território é mais denso. As luzes permanecem, porém são mais intensas. E um pouco mais escuras. Ele flutua sem medo e está de olhos fechados. Não precisa dos olhos abertos para sentir. A mão não está presente, agora voltou a ser a voz macia que o guia neste segundo nível. O garoto ficara para trás e o adulto ganha substância neste segundo passo da viagem. Nuvens se formam e chovem lágrimas que se misturam com as cores incomuns e indescritíveis. Ele se vira e percebe formas como rochas. Estavam atrás e eram muito disformes. No avanço dentro deste território ele vai observando as formas rochosas. Uma formação em especial chama sua atenção, pois parece um corpo de homem que toma um banho com um líquido espesso. O banho começa a dissolver a formação, espalhando gotas que flutuam e avançam em sua direção. Algo lhe alerta que estas gotas não podem grudar em sua pele. Em seu avanço ele aumenta a velocidade. O alerta veio da voz, que o instiga a fugir das gotas que o perseguem:-Estas gotas não fazem mais parte de você”


        Com um ânimo novo e forte ele flutua em direção a terceira porta, que se apresenta agora com uma luminosidade mais clara. Mais uma vez a porta vai se fechando e ele tem de se apressar. As gotas aumentam de tamanho, número e velocidade. Por uma fração de tempo e espaço ele mergulha na terceira porta, que se fecha e engole as gotas persecutórias.


        “-Não há mais volta e o caminho ascende”


       O terceiro passo é muito estranho, bem como são estranhos todos outros, todavia aqui há muita incerteza. O corpo de adulto que flutua não segue numa direção muito precisa. Este território parece um labirinto, com cores contrastantes e luzes cambiantes. Ele não sabe, e nem sente se há uma quarta porta, e se o caminho ascende, como disse a voz-guia, por que não percebe a subida? É tudo muito confuso neste terceiro passo. Há um sentimento de dúvida e uma vontade que fraqueja. Por quê, se logo antes havia tanta pressa e ânimo? O corpo que flutua (ou seria a mente?) vai sem direção. Onde está a voz?

      De repente lá está o olho de novo. Ele quer desviar, mas o olho parece ser onipresente. Só que desta vez o olhar não é severo ou vazio. Não está presente aquele medo de que o olho o esteja reprovando. Há um brilho, mesmo que muito tênue e distante. Há uma vontade de incentivo, mesmo que pouco perceptível ainda que seja neste mundo de regras diferentes. Dito claramente, há uma vontade de dizer “sim” com o olhar. O ânimo foi insuflado novamente e o prumo foi retomado.A ascensão começa e o labirinto fica para trás. As luzes ficam mais firmes e giram em espiral. O corpo flutua agora com tranquilidade e certeza, numa mudança brusca de perspectiva. Este território é mesmo muito estranho, onde tudo se processa de modo diferente.

      “ - Você está pronto para a quarta porta. ”, e desta vez a voz era diferente. Parecia vir do olho. Uma fonte de luz muita mais intensa do que antes surge no que parece ser uma nova porta, ou saída. Esta luz-guia exerce uma atração irresistível, mas ao invés de puxá-lo com mais força, aparenta uma desaceleração. O corpo leve, tão leve que não parece ter peso ou massa, vai ao sabor do acaso. A pressa de antes desaparece e não há urgência. A luz brilhante aguarda e só há calma, uma calma que exerce o papel de blocos de construção, e estes blocos sustentam todo este território agora. Um palácio feito de calma. Por que sair daqui então?

    “-Vá para a quarta porta. ”

       “Não quero”. Não é um diálogo, é só a vontade que prevalece. “Aqui é tão bom, por que sair? Sinto que aqui eu poderia ficar para sempre”.


   “-Vá para a quarta porta”

      “Não quero. Eu gostaria de ficar aqui para sempre. ”

  “-Você precisa ir para a quarta porta”

     “Por que esta insistência? Eu estou contente. ”

   “- A terceira porta está voltando, você precisa sair! ” E o olho antes tão claro, agora mostra um tom mais lúgubre. “Se a terceira porta voltar e lhe alcançar tudo voltará ao que era. ”

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