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A fila do chá de novo. Não é mais o último
da fila, mas o primeiro. “Encha todo o copo, por favor”
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A voz da Grã Sacerdotisa entoou o mesmo
canto. O silêncio era como uma seda que envolvia a todos num abraço macio,
deixando os ouvidos e mentes num ponto de relaxamento tal que a melodia os
conduzia para a porta de saída. Cada qual com sua porta. A Lua já não estava
visível no céu neste sábado, porém o clima continuava agradável e propício.
Após os minutos de praxe depois da ingestão da beberagem, Oliveira se acalmou e
esperou. O mesmo tremor, o mesmo suor e a variação brusca de temperatura
corporal. E então....
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A voz da sacerdotisa se transformou numa
mão que segurou firme a mão do garoto. A primeira porta se abriu e a mão e ele
adentraram aquele território. Luzes, luzes, como ondas, como nuvens, como uma
estrada. Não havia chão ou céu, só a mão firme que puxava cada vez mais rápido.
Luzes, luzes, como ondas cada vez mais altas e envolventes. Luzes que cercaram
o menino e o rodeavam como se fossem vesti-lo com trajes adequados para
enfrentar a viagem. A segunda porta se aproximava, não era retangular ou
redonda. É difícil descrever as formas neste território. A geometria estava
transfigurada. A porta parece de fogo líquido, um fogo que não assusta. É um
fogo que atrai e o calor aumenta. A porta parece se fechar e puxa o menino com
mais vigor. A mão o empurra com firmeza e ele passa pela segunda porta.
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No próximo nível o território é mais denso.
As luzes permanecem, porém são mais intensas. E um pouco mais escuras. Ele
flutua sem medo e está de olhos fechados. Não precisa dos olhos abertos para
sentir. A mão não está presente, agora voltou a ser a voz macia que o guia
neste segundo nível. O garoto ficara para trás e o adulto ganha substância
neste segundo passo da viagem. Nuvens se formam e chovem lágrimas que se
misturam com as cores incomuns e indescritíveis. Ele se vira e percebe formas
como rochas. Estavam atrás e eram muito disformes. No avanço dentro deste
território ele vai observando as formas rochosas. Uma formação em especial
chama sua atenção, pois parece um corpo de homem que toma um banho com um
líquido espesso. O banho começa a dissolver a formação, espalhando gotas que
flutuam e avançam em sua direção. Algo lhe alerta que estas gotas não podem
grudar em sua pele. Em seu avanço ele aumenta a velocidade. O alerta veio da
voz, que o instiga a fugir das gotas que o perseguem: -Estas gotas não
fazem mais parte de você”
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Com um ânimo novo e forte ele flutua em
direção a terceira porta, que se apresenta agora com uma luminosidade mais
clara. Mais uma vez a porta vai se fechando e ele tem de se apressar. As gotas
aumentam de tamanho, número e velocidade. Por uma fração de tempo e espaço ele
mergulha na terceira porta, que se fecha e engole as gotas persecutórias.
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“-Não há mais volta e o caminho
ascende”
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O terceiro passo é muito estranho, bem
como são estranhos todos outros, todavia aqui há muita incerteza. O corpo de
adulto que flutua não segue numa direção muito precisa. Este território parece
um labirinto, com cores contrastantes e luzes cambiantes. Ele não sabe, e nem
sente se há uma quarta porta, e se o caminho ascende, como disse a voz-guia,
por que não percebe a subida? É tudo muito confuso neste terceiro passo. Há um
sentimento de dúvida e uma vontade que fraqueja. Por quê, se logo antes havia
tanta pressa e ânimo? O corpo que flutua (ou seria a mente?) vai sem direção.
Onde está a voz?
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De repente lá está o olho de novo. Ele
quer desviar, mas o olho parece ser onipresente. Só que desta vez o olhar não é
severo ou vazio. Não está presente aquele medo de que o olho o esteja
reprovando. Há um brilho, mesmo que muito tênue e distante. Há uma vontade de
incentivo, mesmo que pouco perceptível ainda que seja neste mundo de regras
diferentes. Dito claramente, há uma vontade de dizer “sim” com o olhar. O ânimo
foi insuflado novamente e o prumo foi retomado. A ascensão começa
e o labirinto fica para trás. As luzes ficam mais firmes e giram em espiral. O
corpo flutua agora com tranquilidade e certeza, numa mudança brusca de
perspectiva. Este território é mesmo muito estranho, onde tudo se processa de
modo diferente.
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“ - Você está pronto para a quarta porta.
”, e desta vez a voz era diferente. Parecia vir do olho. Uma fonte de luz muita
mais intensa do que antes surge no que parece ser uma nova porta, ou saída.
Esta luz-guia exerce uma atração irresistível, mas ao invés de puxá-lo com mais
força, aparenta uma desaceleração. O corpo leve, tão leve que não parece ter
peso ou massa, vai ao sabor do acaso. A pressa de antes desaparece e não há
urgência. A luz brilhante aguarda e só há calma, uma calma que exerce o papel
de blocos de construção, e estes blocos sustentam todo este território agora.
Um palácio feito de calma. Por que sair daqui então?
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“-Vá para a quarta porta. ”
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“Não quero”. Não é um diálogo, é só a
vontade que prevalece. “Aqui é tão bom, por que sair? Sinto que aqui eu poderia
ficar para sempre”.
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“-Vá para a quarta porta”
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“Não quero. Eu gostaria de ficar aqui
para sempre. ”
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“-Você precisa ir para a quarta porta”
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“Por que esta insistência? Eu estou
contente. ”
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“- A terceira porta está voltando, você
precisa sair! ” E o olho antes tão claro, agora mostra um tom mais lúgubre. “Se
a terceira porta voltar e lhe alcançar tudo voltará ao que era. ”

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