Um
leve fio de seda
Minha
vida confortável por vezes me faz esquecer das múltiplas camadas que existem
lado a lado em nossa sociedade. Vivemos num país desigual e tive a sorte,
aliada ao esforço, de estar no lado limpo, organizado e sorridente da vida. Nem
sempre foi assim mas não importa mais.
Minha vida é confortável mas não é uma redoma asséptica e
intransponível. A realidade está sempre ao lado, na calçada ou no ônibus, no asfalto,
no concreto ou na terra suja, no semáforo e debaixo da marquise. O prédio de
luxo e vidro brilhando ao Sol foi assentado sobre a pele e os ossos anônimos
esquecidos pelo tempo.
Demorei um pouco para perceber a real
dimensão do abismo que separa grande parte de nossa sociedade. Fendas tão
largas e profundas, no entanto estão ao alcance das mãos, mas impedem estas
mãos de se tocarem. Não acredito numa sociedade igualitária, mas numa sociedade
solidária. Contudo, o que acredito ou não parece não ter a mínima importância,
apesar do fato de estar no lado produtivo, culto e bem-humorado da vida. O fato
que importa é que numa sexta-feira num início de março, há cerca de 2 anos vim
a saber, voltando para casa, que nosso idoso fora levado para um pronto
socorro. Sua esposa já lá estava desde o dia anterior, e passara a noite a seu
lado. Não havia necessidade de pedir, eu
já sabia que teria de substituí-la, por obrigação moral. E me preparei para
passar a noite em algum lugar desconhecido.
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Sexta-feira e a volta para casa estava como
sempre, lenta por causa do trânsito. Cheguei em casa antes da energia, que
faltava desde cedo. Minha vida é confortável mas o banho teria de ser frio e a
refeição sob os auspícios de uma lanterna. Não gosto de reclamar. Após o banho
preparei uma pequena mochila com alguns itens que poderiam, quem sabe, me
ajudar a passar uma noite em claro num hospital público.
A caminho do hospital fiquei pensando nas
ironias que a vida guarda e nos mostra em momentos inesperados. Nosso idoso não
tem nenhum parentesco comigo. Não é meu sogro, não é meu pai, avô ou tio. No
entanto eu é que estou a caminho, para passar uma noite em claro num hospital
público que eu nem sei onde fica. Sua esposa, minha sogra, está exausta por
passar a sua quota de noites em claro, então cabe a mim parte desta quota. Hoje
é o dia. Ou a noite, sei lá.
Então
cheguei. Me identifiquei na recepção e me dirigi à enfermaria. Como dito
reiteradamente no início da história, eu habito no lado claro e pleno de bem-estar
e saúde da vida. Hospitais públicos não fazem parte da minha existência.
Atravessei o corredor e cheguei no quarto.
Ao
ver o semblante da minha pobre sogra comecei a entender o que aquela noite
significaria. A imagem do desalento se apossara dela, uma sombra pesada de
cansaço e desespero. Tão logo foi possível, ela se retirou daquele ambiente
carregado em busca de um descanso muito mais do que merecido.
Virei a ampulheta de ponta-cabeça e a
areia começou a escorrer, lentamente, grão a grão. Neste momento preciso são 19
horas. Elas se foram e estou só neste quarto. Ao meu redor há cinco leitos,
todos ocupados. A meu dispor uma cadeira de madeira levemente reclinável, a
qual seria minha cama nesta noite. Era março e quente, ainda verão no
hemisfério sul.
Abri a mochila para retirar os objetos que
poderiam facilitar aquela jornada noite adentro. O celular, um notebook e um
livro. Porém... onde está o carregador do notebook? E onde está o carregador do
celular? Em casa, é claro. Mas não aqui. Achei melhor não me aborrecer e me
resignar.
De repente o primeiro grito. O quarto
ainda estava com as luzes acesas e a minha frente num leito de emergência de um
hospital público jazia um rapaz. Foi dele o primeiro grito daquela noite. Nas
grades laterais de sua cama amarras prendiam seus braços. E ele se debatia, se
contorcia e grunhia como um animal. Bem jovem e naquele estado deplorável.
Haviam amarras nas suas pernas também, parecia bem contido naquele leito.
Descabelado, desfigurado, desorientado ele gritava e grunhia, querendo se
soltar daquele leito.
Eu estava sentado naquela cadeira de
madeira observando aquele quadro convulsionado. Logo um gemido longo e áspero
atingiu meu ouvido direito. No leito à direita havia um homem que aparentava
uns cinquenta anos. Gemia de dor e parecia consciente. Clamava pela enfermeira,
pedido remédio que aplacasse aquela dor profunda.
No leito do canto à minha frente e ao lado do
rapaz que gritava amarrado estava um garoto. Inerte, apagado, desfalecido e
também com amarras nos braços e pernas. Nenhum som saía de seus lábios. Nenhum
movimento em seu corpo que, desta forma, fazia um contraponto com seu vizinho
inquieto.
No
canto oposto e também quieto, talvez dormindo, um homem de idade indefinida
tinha seu rosto coberto por uma bandagem que circundava passando debaixo do
queixo, ao lado das orelhas e por cima da cabeça.
E nosso idoso estava semiconsciente, vivendo
em delírio, esquálido e consumido pelo tempo e a demência. Era o único naquele
ambiente com alguém que lhe fazia companhia.
Onde eu vim parar?
E eu havia esquecido os carregadores do
celular e do laptop. Malditos aparelhos que já me criaram dependência
químico-tecnológica. Será que eu já perdi a capacidade de ficar a sós
comigo? Ora, naquele ambiente eu já
havia percebido que seria muito difícil ficar a sós comigo.
Resolvi andar um pouco e conhecer o
hospital onde estava. Cheguei na recepção e era uma lástima. Umas cadeiras
desconfortáveis e ninguém na fila de espera, apenas os plantonistas atrás de
seus monitores. Uma ambulância parada já descarregara sua carga.
Na rua, apesar de cedo ainda, não havia
muito movimento. Olhei ao redor e não havia lugar onde se pudesse fazer uma
refeição, mesmo que indecente, como um salgadinho mergulhado na gordura ou um
pacote de batatas fritas murchas. Voltei para a enfermaria.
Um
médico e uma enfermeira inspecionavam o paciente com a bandagem enrolada na
cabeça. Agora ele estava desperto. Perguntaram-lhe coisas da rotina do
atendimento médico. Não prestei atenção. O tempo engatinhava naquele espaço
insípido. Ameaçava chuva, ainda era verão. 5 seres reunidos sob este teto
manchado, dois inertes, um que urrava de dor periodicamente, outro que se
debatia e tentava arrancar as amarras com os dentes. Então percebi o paciente
da bandagem sentado na cama, olhando para mim. Seus olhos estavam calmos.
Desviei o olhar. Ele então repreendeu o seu vizinho amarrado que gritava e se
debatia: “ô meu, cê tá atrapalhando o descanso do vôzinho”. Pobre do nosso
idoso que nem sabia onde estava, em delírio constante chamando pelos parentes
há muito embarcados na viagem final.
Triste figura a do nosso idoso, era pele e
osso. Sua substância se esvaía aos poucos, de forma inexorável. Pedi a uma
enfermeira que providenciasse água, ela me trouxe um copo e me apontou uma
seringa onde eu poderia saciar sua sede. Deduzi que estivesse com sede, pois
ele não mais respondia. Assim, gota a gota, eu pensava saciar sua sede. Odeio
ver pessoas sofrendo, odeio.
Então
o paciente da bandagem me dirigiu a palavra: “ Tadinho do vôzinho né? Ele é seu
pai? ” “Não, na verdade eu nem tenho parentesco com ele”, respondi. Seus olhos
então se encheram de lágrimas, talvez comovido pela resposta. Iniciamos uma
longa conversa. Impossível relatá-la em toda a extensão. Seu nome era Aguinaldo
e tinha 35 anos. Aparentava uns 50.
-O que houve com você? Perguntei.
- “Ah, sei lá,
sei que eu tava na rua e, de repente, eu tava aqui” respondeu de forma honesta
e quase engraçada. Entre o estar na rua e estar aqui um corte bem profundo
poderia ter tirado sua vida naquela noite, eis o motivo da bandagem que
envolvia sua cabeça. Como havia conseguido aquele corte ele não sabia. Mesmo à
distância de uns três metros percebi o cheiro de álcool.
-“ Quando eu tô
bem eu trabalho de pedreiro, trabalho direitinho viu? Já trabalhei em muita
obra. O ano passado eu fiquei internado quase três meses porque fui atropelado.
Aí hoje eu vim parar aqui. Nem sei dizer como é que foi? ”, me contou de forma
quase angelical e infantil.
-“Você mora em
Osasco mesmo? ”, perguntei.
_”Moro. Moro com
a minha mãe. Ela fica triste comigo. Eu gosto muito dela”.
Conversamos por mais de uma hora até que
resolvi esticar as pernas mais um pouco. Saí do quarto e deixei o Aguinaldo
ainda deitado na cama. Cerca de dez minutos depois retornei e ele não estava mais
lá. Pouco depois uma enfermeira entrou e perguntou se eu sabia do paradeiro
dele. “Eu saí para caminhar um pouco e quando voltei ele não estava mais”. Ele
havia se dado alta hospitalar depois de conversar um pouco comigo. Saiu pela
rua afora somente com a camisola do hospital sobre o corpo esquálido. Sabe-se
lá com quantos mililitros de álcool ele ainda encharcaria sua alma naquela
noite de sexta no verão.
Nesta altura já seria por volta de uma
hora de sábado. Chovia e muito. Percebi que o quarto tinha goteiras. Por sorte
ela pingava no chão e não sobre a cama do nosso idoso ou sobre a cadeira-cama
onde eu me instalara. Tentei dormir um pouco.
Logo
acordei sobressaltado porque o paciente amarrado conseguira soltar uma das mãos
e tentava tirar a outra mão do seu cabresto. Achei prudente procurar alguém da
enfermagem. A enfermeira afixou novamente suas mãos e a sua agonia recomeçou.
Ele se debatia e se contorcia, sacudia a cama quase a ponto de virá-la. Este
rapaz era bem jovem, muito magro e sem nenhuma condição de interagir. Não
articulava nenhuma palavra que eu conseguisse entender. Tive medo e pena, muita
pena dele. Pensei em tantos amigos, filhos de amigos, filhas, sobrinhos, amigos
e amigas das filhas, todos saudáveis, inteligentes, preparados para enfrentar o
mundo. Na minha frente havia um pobre animal contido por amarras.
À minha direita estava o homem que reclamava
de dores. Aparentava uns cinquenta anos. Estava quieto em seu leito, só
reclamava por sentir muitas dores. O resto do tempo dormia. Dormia? Ou estava
anestesiado? Passado o efeito da sedação voltava a sentir as dores e chamava
pela enfermeira. Chamava em voz alta, reclamava em voz alta, gemia em voz mais
alta ainda. Uma boa noite de sono estava fora de questão para mim.
Ao lado do pobre animal que se debatia,
totalmente inerte encontrava-se um garoto. Também atado pelas mãos e pés, muito
embora me parecesse desnecessário, já que se encontrava totalmente inerte, e
assim permaneceu pela noite afora.
O que teria acontecido a estes infelizes?
Onde eu estava? Que hospital era este?
Só descobri depois. Era um pronto-socorro psiquiátrico. Um depósito de
infelizes. Nosso idoso foi levado para lá por acaso ou por azar de ter sido recolhido
por uma ambulância de resgate em final de turno. Nós cuidávamos dele, sua
esposa cuidava dele até quando teve condições para tanto. No entanto, por acaso
e muito azar veio parar aqui.
Eu estou a seu lado. Ele delira e chama pelos
parentes mortos, parece conversar com eles, talvez os sinta próximos. Ele não
sabe que estou a seu lado. Dei-lhe um pouco mais de água, gota a gota. Seu
aspecto é lastimável, nem de longe lembra o senhor que um dia havia sido
imponente, de bom porte e voz forte, o avô mais presente para minhas filhas,
sem ter sido avô.
Mais uma vez fui para a recepção do
hospital. Totalmente deserto e com menos pessoas trabalhando, já era outro
turno. Já era madrugada, nem olho para o relógio, por cansaço ou resignação,
quem sabe ? As cadeiras são desconfortáveis, o lugar é desconfortável. Parou de
chover. Saí do trabalho quase direto para este desastre, com uma pequena parada
em casa com direito a um banho frio e uma frugal refeição no escuro. Voltei
para o quarto e me senti o mais afortunado dos seres ao olhar para os leitos
impessoais coalhado de homens abandonados. Minha vida é confortável e eu tenho
um teto seguro para pensar nestas coisas todas, e sou grato por isso.
Pouco
depois de um breve cochilo, mais por fadiga do que por vontade, outra
enfermeira entrou no quarto e atendeu ao homem das dores lancinantes. Acabei
sabendo que ele havia caído do telhado de seu barraco, resultado de uma grande
concentração etílica em seu sangue. A enfermeira disse que ele estava melhor e
poderia ir para casa. E ele com a voz mais branda perguntou gentilmente se não
poderia ficar mais um pouco, já que ali estava tão bom, mesmo considerando as
goteiras, as formigas que passavam na parede da janela, os gritos do rapaz
amarrado, isso sem falar na energia deprimente que aquele ambiente trazia
carregado em cada partícula de ar. Eis o relativismo em estado bruto, se aquilo
estava bom para ele imagine como seria sua casa? Tudo é relativo, nada é
absoluto. Não aqui embaixo.
Aos poucos fui recolhendo pedaços de
informação. Os dois mais jovens eram aprisionados pelas drogas, os outros eram
escravos do álcool. Nosso idoso não pertencia àquele ambiente, mas caíra no
vácuo e delirava, de certa forma era um alívio que delirasse pois assim não
tinha consciência de onde havia sido entregue, como um pacote de pele e ossos.
Ele em alguns momentos falava mais alto, em
outros só murmurava, chamando pelos seus parentes. Os olhos abertos, mas sem
expressão me davam a impressão de olhar além daquelas paredes neutras. Quem
sabe já estava sendo aguardado do outro lado daquelas paredes impessoais, e
esta fosse sua última provação? Não posso afirmar, eu nada sei, só sei que sua
figura me causava tristeza pelas lembranças destes quase trinta anos de
convívio.
A
noite avançava e meu raciocínio estava desgastado pela falta de sono. As
formigas faziam trilha próximo da janela ao lado de nosso leito. O chão molhado
pelas gotas da chuva que enganaram e atravessaram o concreto do teto. A luz
branca do corredor do hospital. A impossibilidade de reverter aquele quadro. A
constatação do fim próximo. A empatia para com os derrotados pelas armadilhas
da vida terrena. O garoto inerte e o
jovem atado, que retornaria sempre para suas amarras. Os bêbados de plantão, caindo
dos tetos e escapando por pouco da morte nas ruas. E eu que pensava poder
brincar um pouco com meu laptop até vir o sono e quem sabe aproveitar algumas
horas de ócio, criando coisas agradáveis.
Com migalhas de sono e sonhos abreviados com
cortes abruptos, a manhã chegara com a súbita luz branca perfurando meus olhos
cansados. Outro turno teve início. O rapaz atado agora estava calmo e
conversava com outra enfermeira. Ela perguntava se ele tinha família, ou no
mínimo alguém que pudesse vir acompanhá-lo em sua alta. Fiquei sabendo que ele
era paciente habitual daquele local. Fiquei sabendo também que havia outra ala
com pacientes permanentes, abandonados pela família e alguns em estado tão
deplorável que precisavam ficar enjaulados.
A mãe do garoto inerte estava ao seu
lado agora. Ele estava acordado, porém quase não falava. Quanta sorte poder
acordar num sábado de manhã e planejar o fim de semana na praia, no campo, ou
simplesmente não querer fazer nada. Creio que estas opções não estavam
disponíveis para aquela mãe.
Um copo de café com leite estava ao lado do
leito de nosso idoso. Peguei a seringa e enchi, reclinei a cama e ministrei
gota a gota o café da manhã. Olhei para a rua e um sábado nublado era a moldura
correta para aquele momento. Fiquei aguardando o retorno da minha sogra para ir
para casa tomar um banho tranquilo, comer uma refeição tranquila e dormir o
sono dos justos.
Olhei para o nosso idoso antes de me
retirar sem saber que seria a última vez que o veria com vida. Vida? Sua
existência estava se esgarçando como um leve fio de seda em sua máxima tensão
antes de se partir. Tenho quase certeza agora que seus parentes já estavam ao
nosso lado, preparando a acolhida. Só não poderia vê-los pois não tenho esta
habilidade.
Ivan Henrique Roberto
Maio/junho de 2017

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