Oto
Janeiro/fevereiro
2009
Oto respira como
se precisasse deixar entrar em seu peito um punhado do paraíso prometido aos
homens de boa vontade. O ar que desceu pela sua laringe não estava melhor do
que em qualquer ponto daquele bairro sempre agitado, mas naquele momento, dado
o seu desconforto, um sopro de ar por ínfimo que fosse pareceria a salvação. Um
momento de perplexidade tomou seus olhos e suas mãos, desceu pela garganta,
empurrou sua pulsação para níveis nunca antes atingido. Mas por que isto? Ele
estava como sempre estivera pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, a mão
direita calculando as dívidas, a mão esquerda planejando a solução para
pequenos problemas domésticos, o pé direito se apoiando numa escada fincada em
solo móvel e o pé esquerdo doía pela pancada dada num raro momento de
destempero. Oto era como todos, um pequeno grão dentro de um celeiro imenso,
mais uma semente do grande plano por trás de tudo.
Por muitas
manhãs seguidas ele acordava sem sentir que havia descansado, seu sono cada vez
mais intranquilo povoado por sonhos nebulosos que ele não conseguia lembrar por
completo. Levantava-se e corria para o banheiro para tentar melhorar o aspecto,
tarefa que ficava mais difícil com o acúmulo dos anos pesando na pele do rosto.
Ele apenas seguia em frente, pois segundo a maioria avassaladora das opiniões
era assim que deveria ser, pois a sociedade moderna é assim mesmo, cheia de
compromissos, cheia de atividades, ninguém tem o direito de ficar parado com
apenas um lado sendo exercido, esta é a era multifuncional onde todos têm de
estar girando seus 360 graus a todo momento. Afinal de contas se existem 10
níveis de inteligência, por que não tê-los todos ao mesmo tempo? É simples
assim.
“Quero mais ar,
preciso de mais ar” ele pensa. O sufocamento existe mesmo, ou é uma
impressão? Ou será que é seu nariz que
está entupido e ele nem percebeu? Muitos detalhes mínimos passam despercebidos
na enxurrada de sensações, sons, imagens, pensamentos, ordens, desejos que
circundam a existência diária dos habitantes desta era de tempo dividido e
superposto. Por cerca de um mês Oto pensara estar com uma alergia persistente
nas narinas, sugava o ar com cada vez mais força e não parecia ser suficiente.
Recorreu a um descongestionante, mas não obteve resultado, anotou o telefone de
um médico recomendado e sempre deixava para depois a ligação para marcação da
consulta. Sempre surgia algum assunto mais urgente, sempre de outros e não do
seu interesse e sua saúde poderia esperar para depois.
Oto não havia
percebido que perdera o controle sobre sua vida. Muito solícito e afável pouco
a pouco rompera a fina casca que separa o espaço essencial onde a
individualidade procura refúgio e deve manter seu território, o santuário
sagrado sem acesso aos outros e de onde emana a energia que revigora e regenera
a alma individual. Como ele chegara neste estado de coisas não saberia dizer,
nem saberia dizer com precisão tampouco quando foi a última vez que estivera
sozinho, em companhia apenas de seus pensamentos.
Uma consultoria
urgente foi solicitada, e por ser tão urgente foi praticamente ordenada, pois
alguém relapso e preguiçoso havia cometido algum erro grosseiro e Oto estava lá
para consertar. Devido à urgência e como a roda dos negócios não pode parar
nunca, apenas dois dias de prazo foram estipulados para solução do problema,
muito embora muito sensatamente fossem necessárias pelo menos duas semanas para
a correção. Oto foi chamado e por ser sempre muito solícito aceitou o prazo
insano que lhe foi dado, não obstante o fato de que já estava acumulando 3
outras tarefas urgentes, com prazos tão curtos quanto a paciência dos
contratantes. Sua formação tecnicista de alguma forma lhe assegurava que tudo
era possível, que tudo poderia ser equacionado, que todo o peso poderia ser
distribuído numa superfície, e acima de tudo, que ele sempre deveria ser capaz
de dar resposta para os pedidos, e que ele nunca poderia dizer não.
O acúmulo de
tarefas roubava-lhe o tempo de viver sua vida, ele pesquisara muito sobre o
desgaste de materiais tão diversos, mas nunca percebera que o seu material
estava muito desgastado. Suava com facilidade à medida que se cansava com
facilidade, e o ar estava ficando mais ralo e curto. Terça-feira de manhã já
debruçado sobre o teclado de seu laptop não tinha certeza se era terça ou
segunda, ou mesmo domingo, os dias estavam ficando todos iguais. A xícara de
café já esfriara. O queijo azedara e a pera escurecera na fruteira, as
refeições eram um incômodo para ele, só faziam perder seu tempo tão precioso,
com tantas tarefas se acumulando em sua gaveta.
A qualidade de seu raciocínio revelava o seu cansaço
avolumado, muitas vezes ao ler uma simples linha de algum dos relatórios que o
encaravam ele não conseguia mais terminar na mesma concentração que iniciara.
“Opa, preciso de uma xícara de café”, sacudia a cabeça e recomeçava.
Oto decidira
fazer seus serviços em casa, saudando as novas tecnologias de comunicação
colocadas à disposição dos pobres mortais, que desta forma se tornavam
convencidos de que tomavam controle absoluto sobre suas vidas, já que tudo
estava tão a mão, tudo tão fácil, automático e colorido. Dois celulares já não
estavam satisfazendo suas necessidades de mandar e receber recados, dois
laptops já estavam quase cheios de arquivos, planilhas, fotos e mensagens que
se auto apagavam porque era impossível que ele lesse tudo que chegasse, talvez
com um dia com 48 horas. Mas como ele estava decidido a trabalhar em casa pesou
os prós e contras, achou que ficaria isolado para poder exercer com maestria
suas habilidades, enchia a geladeira no início de cada semana e desligava a
televisão. Como a novidade é sempre estimulante, nas primeiras semanas tudo
parecia se encaixar.
A noite segue firme
e o prazo da tarefa urgente vai escorrendo pelo ar. Um terço do trabalho
já foi realizado, com Oto a todo vapor se esforçando mais do que pode para dar
conta dos pedidos que chovem em sua
caixa postal. Alguma linha de produção que emperrara toma toda sua atenção
neste momento, uma indústria com um grande contrato precisava aumentar em muito
sua capacidade produtiva e um nó havia surgido para atravancar o bom andamento
das previsões. Então pensaram em Oto, muito aplicado, muito dedicado, para
resolver este impasse. Muitos milhões em jogo e isso ficou particularmente
claro para ele, quando lhe foi apresentado o problema. Alguns clientes muito
nervosos e muito pressionados repassaram-lhe todo o nervosismo e toda a
pressão, por um valor aquém do seria cobrado pelo mercado. Mas Oto aceitava
pois não costumava dizer não. No momento da apresentação do problema seu nariz
havia se fechado levemente porém ele não se importara, pensou nas impurezas
retidas no ar condicionado, na poeira em suspensão e nas fibras do carpete como
causa de sua alergia, e nunca poderia cogitar que toda a tensão suspensa no ar,
toda a urgência dos negócios, todo o dinheiro que servia de justificativa para
aquele ambiente insuportável quem sabe, talvez, poderiam ser a causa de sua
inquietude refletida no nariz que teimava em dispor de menos ar do que ele precisava.
Ao término da reunião
Oto por uns breves momentos ficara a sós, mas não poderia admitir que tal
tarefa era pesada demais para ser resolvida em tão pouco tempo. Bastava fechar
seus olhos para se lembrar dos rostos sérios, tensos e hostis dos homens de
negócios que o haviam contratado, por um preço baixo pelos valores de mercado,
para livrar seus pescoços dos caninos ávidos dos acionistas. Todos já haviam se
retirado, mais leves e confiantes. Oto para no banheiro e abre a torneira. Lava
suas mãos que respingam gotas por causa do tremor, mas que tremor é este? Oto pensa que seu braço estivera um pouco
dormente após tantos minutos numa cadeira ouvindo o medo e a tensão estampados
nos astutos homens de negócios preocupados com o possível fracasso. “Por isso
minha mão treme, é claro” Por isso o nariz fecha, por isso a mão treme, por
isso que ele não sabe que hoje é quinta-feira mas poderia ser sexta. Por isso
também é que ele chega na rua e não se situa, não sabe onde está. “Nossa, nunca
me aconteceu isto antes. Eu ando por estas ruas há tanto tempo, como posso ter
esquecido de onde estou? ” Sacode os ombros e sorri brevemente. “Opa, já
passou. Meu carro está a duas quadras daqui”.
Volta para casa por
volta das 20:30 hs. Já delineando as linhas gerais do que pretendia fazer para
resolver a grande encrenca em que se metera. Seus neurônios já estavam muito
absorvidos e voltados para o desatar do nó que se instalara naquela indústria
tão temerosa de não cumprir os prazos acordados. Com o corpo inundado de
adrenalina a fome se escondera e o banho fora tão rápido quanto possível para
não interromper o raciocínio. Muito trabalho o espera.
Sua cafeteira
elétrica havia se tornado uma grande companheira e uma grande bengala, pois Oto
dependia em grande parte do café que tomava avidamente, acreditando que o pó
divino sempre lhe traria forças que lhe empurrava para a solução dos variados
problemas, tarefas e encrencas em que se metia, pois não sabia dizer não e
acreditava que nunca poderia dizer não. Então se atirou em seu trabalho,
desenhando linhas, esquemas e soluções para desafogar o fluxo da linha de
produção. Agora são 23:00 hs e após
tanto esforço Oto sente um grande alívio por ter avançado muito na solução do
problema tão sério e com tanto capital envolvido. Sorri para si mesmo e se auto
congratula.
Oto vive sozinho
num apartamento pequeno e adequado para ele, um rapaz recluso por conta de
tanto trabalho assumido. Há muito havia passado dos trinta anos e se refugiara
no trabalho, em parte por ser tão responsável, em parte por ser eficiente, em
parte pela timidez excessiva, que o impedia de dizer não muitas e muitas vezes
e ofuscava seu real valor, recebendo menos do que merecia. Como tinha muito
serviço seus ganhos eram suficientes para seu estilo de vida quase monástico.
Raramente entrava em contato com sua família, seus dois irmãos e seu pai
moravam num sítio no interior. Sua mãe era falecida. Sua timidez excessiva
contribuía para sua reclusão, namorara muito pouco e tinha um círculo limitado
de amizades. Era um exemplar da moderna fauna urbana que engrossa as
estatísticas da solidão nas grandes metrópoles.
Uma bela noite
mostra seus ares e brilhos do lado de fora com bares, restaurantes, boates e
motéis cheios de gente feliz ou ocultando a infelicidade com sorrisos dúbios,
litros de álcool e sabe-se lá o que mais para garantir tanta euforia. Oto está
cansado e com o nariz entupido, corre para a janela para deixá-la totalmente
aberta querendo com isso deixar entrar o ar que não lhe chega em quantidade
suficiente. Volta para seu teclado e se depara com muitos gráficos coloridos,
tabelas elaboradas e um relatório extenso, que ele pensa que poderá trazer de
volta o sorriso e o alívio àqueles homens tão tensos e temerosos. Apesar de sua
timidez ele pensa consigo próprio “Vejam só, eu resolvi em um dia uma grande
encrenca, me sinto orgulhoso disto mas sei que no máximo vão me agradecer de
modo frio e vão demorar uma semana para me pagarem. Sei que deveria ter pedido
mais dinheiro pelo meu esforço, mas não consigo. O que está errado comigo? Eu
me olho no espelho e ensaio uma grande entrada, me vejo colocando os pés em
cima da mesa falando duro e exigindo o triplo do que me oferecem, mas na hora H
meus lábios tremem e meu nariz fecha”. Num momento toda a euforia passa e a
melancolia se apossa do Oto sozinho num minúsculo apartamento.

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