sábado, 30 de setembro de 2017

Oto (1ª parte)



                                                          Oto     
                                            Janeiro/fevereiro 2009

      Oto respira como se precisasse deixar entrar em seu peito um punhado do paraíso prometido aos homens de boa vontade. O ar que desceu pela sua laringe não estava melhor do que em qualquer ponto daquele bairro sempre agitado, mas naquele momento, dado o seu desconforto, um sopro de ar por ínfimo que fosse pareceria a salvação. Um momento de perplexidade tomou seus olhos e suas mãos, desceu pela garganta, empurrou sua pulsação para níveis nunca antes atingido. Mas por que isto? Ele estava como sempre estivera pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, a mão direita calculando as dívidas, a mão esquerda planejando a solução para pequenos problemas domésticos, o pé direito se apoiando numa escada fincada em solo móvel e o pé esquerdo doía pela pancada dada num raro momento de destempero. Oto era como todos, um pequeno grão dentro de um celeiro imenso, mais uma semente do grande plano por trás de tudo.
        Por muitas manhãs seguidas ele acordava sem sentir que havia descansado, seu sono cada vez mais intranquilo povoado por sonhos nebulosos que ele não conseguia lembrar por completo. Levantava-se e corria para o banheiro para tentar melhorar o aspecto, tarefa que ficava mais difícil com o acúmulo dos anos pesando na pele do rosto. Ele apenas seguia em frente, pois segundo a maioria avassaladora das opiniões era assim que deveria ser, pois a sociedade moderna é assim mesmo, cheia de compromissos, cheia de atividades, ninguém tem o direito de ficar parado com apenas um lado sendo exercido, esta é a era multifuncional onde todos têm de estar girando seus 360 graus a todo momento. Afinal de contas se existem 10 níveis de inteligência, por que não tê-los todos ao mesmo tempo? É simples assim.
      “Quero mais ar, preciso de mais ar” ele pensa. O sufocamento existe mesmo, ou é uma impressão?  Ou será que é seu nariz que está entupido e ele nem percebeu? Muitos detalhes mínimos passam despercebidos na enxurrada de sensações, sons, imagens, pensamentos, ordens, desejos que circundam a existência diária dos habitantes desta era de tempo dividido e superposto. Por cerca de um mês Oto pensara estar com uma alergia persistente nas narinas, sugava o ar com cada vez mais força e não parecia ser suficiente. Recorreu a um descongestionante, mas não obteve resultado, anotou o telefone de um médico recomendado e sempre deixava para depois a ligação para marcação da consulta. Sempre surgia algum assunto mais urgente, sempre de outros e não do seu interesse e sua saúde poderia esperar para depois.
       Oto não havia percebido que perdera o controle sobre sua vida. Muito solícito e afável pouco a pouco rompera a fina casca que separa o espaço essencial onde a individualidade procura refúgio e deve manter seu território, o santuário sagrado sem acesso aos outros e de onde emana a energia que revigora e regenera a alma individual. Como ele chegara neste estado de coisas não saberia dizer, nem saberia dizer com precisão tampouco quando foi a última vez que estivera sozinho, em companhia apenas de seus pensamentos.
       Uma consultoria urgente foi solicitada, e por ser tão urgente foi praticamente ordenada, pois alguém relapso e preguiçoso havia cometido algum erro grosseiro e Oto estava lá para consertar. Devido à urgência e como a roda dos negócios não pode parar nunca, apenas dois dias de prazo foram estipulados para solução do problema, muito embora muito sensatamente fossem necessárias pelo menos duas semanas para a correção. Oto foi chamado e por ser sempre muito solícito aceitou o prazo insano que lhe foi dado, não obstante o fato de que já estava acumulando 3 outras tarefas urgentes, com prazos tão curtos quanto a paciência dos contratantes. Sua formação tecnicista de alguma forma lhe assegurava que tudo era possível, que tudo poderia ser equacionado, que todo o peso poderia ser distribuído numa superfície, e acima de tudo, que ele sempre deveria ser capaz de dar resposta para os pedidos, e que ele nunca poderia dizer não.
      O acúmulo de tarefas roubava-lhe o tempo de viver sua vida, ele pesquisara muito sobre o desgaste de materiais tão diversos, mas nunca percebera que o seu material estava muito desgastado. Suava com facilidade à medida que se cansava com facilidade, e o ar estava ficando mais ralo e curto. Terça-feira de manhã já debruçado sobre o teclado de seu laptop não tinha certeza se era terça ou segunda, ou mesmo domingo, os dias estavam ficando todos iguais. A xícara de café já esfriara. O queijo azedara e a pera escurecera na fruteira, as refeições eram um incômodo para ele, só faziam perder seu tempo tão precioso, com tantas tarefas se acumulando em sua gaveta.
A qualidade de seu raciocínio revelava o seu cansaço avolumado, muitas vezes ao ler uma simples linha de algum dos relatórios que o encaravam ele não conseguia mais terminar na mesma concentração que iniciara. “Opa, preciso de uma xícara de café”, sacudia a cabeça e recomeçava.
      Oto decidira fazer seus serviços em casa, saudando as novas tecnologias de comunicação colocadas à disposição dos pobres mortais, que desta forma se tornavam convencidos de que tomavam controle absoluto sobre suas vidas, já que tudo estava tão a mão, tudo tão fácil, automático e colorido. Dois celulares já não estavam satisfazendo suas necessidades de mandar e receber recados, dois laptops já estavam quase cheios de arquivos, planilhas, fotos e mensagens que se auto apagavam porque era impossível que ele lesse tudo que chegasse, talvez com um dia com 48 horas. Mas como ele estava decidido a trabalhar em casa pesou os prós e contras, achou que ficaria isolado para poder exercer com maestria suas habilidades, enchia a geladeira no início de cada semana e desligava a televisão. Como a novidade é sempre estimulante, nas primeiras semanas tudo parecia se encaixar.
    A noite segue firme e o prazo da tarefa urgente vai escorrendo pelo ar. Um terço do trabalho já foi realizado, com Oto a todo vapor se esforçando mais do que pode para dar conta dos pedidos que    chovem em sua caixa postal. Alguma linha de produção que emperrara toma toda sua atenção neste momento, uma indústria com um grande contrato precisava aumentar em muito sua capacidade produtiva e um nó havia surgido para atravancar o bom andamento das previsões. Então pensaram em Oto, muito aplicado, muito dedicado, para resolver este impasse. Muitos milhões em jogo e isso ficou particularmente claro para ele, quando lhe foi apresentado o problema. Alguns clientes muito nervosos e muito pressionados repassaram-lhe todo o nervosismo e toda a pressão, por um valor aquém do seria cobrado pelo mercado. Mas Oto aceitava pois não costumava dizer não. No momento da apresentação do problema seu nariz havia se fechado levemente porém ele não se importara, pensou nas impurezas retidas no ar condicionado, na poeira em suspensão e nas fibras do carpete como causa de sua alergia, e nunca poderia cogitar que toda a tensão suspensa no ar, toda a urgência dos negócios, todo o dinheiro que servia de justificativa para aquele ambiente insuportável quem sabe, talvez, poderiam ser a causa de sua inquietude refletida no nariz que teimava em dispor  de menos ar do que ele precisava.
    Ao término da reunião Oto por uns breves momentos ficara a sós, mas não poderia admitir que tal tarefa era pesada demais para ser resolvida em tão pouco tempo. Bastava fechar seus olhos para se lembrar dos rostos sérios, tensos e hostis dos homens de negócios que o haviam contratado, por um preço baixo pelos valores de mercado, para livrar seus pescoços dos caninos ávidos dos acionistas. Todos já haviam se retirado, mais leves e confiantes. Oto para no banheiro e abre a torneira. Lava suas mãos que respingam gotas por causa do tremor, mas que tremor é este?  Oto pensa que seu braço estivera um pouco dormente após tantos minutos numa cadeira ouvindo o medo e a tensão estampados nos astutos homens de negócios preocupados com o possível fracasso. “Por isso minha mão treme, é claro” Por isso o nariz fecha, por isso a mão treme, por isso que ele não sabe que hoje é quinta-feira mas poderia ser sexta. Por isso também é que ele chega na rua e não se situa, não sabe onde está. “Nossa, nunca me aconteceu isto antes. Eu ando por estas ruas há tanto tempo, como posso ter esquecido de onde estou? ” Sacode os ombros e sorri brevemente. “Opa, já passou. Meu carro está a duas quadras daqui”.
    Volta para casa por volta das 20:30 hs. Já delineando as linhas gerais do que pretendia fazer para resolver a grande encrenca em que se metera. Seus neurônios já estavam muito absorvidos e voltados para o desatar do nó que se instalara naquela indústria tão temerosa de não cumprir os prazos acordados. Com o corpo inundado de adrenalina a fome se escondera e o banho fora tão rápido quanto possível para não interromper o raciocínio. Muito trabalho o espera.
     Sua cafeteira elétrica havia se tornado uma grande companheira e uma grande bengala, pois Oto dependia em grande parte do café que tomava avidamente, acreditando que o pó divino sempre lhe traria forças que lhe empurrava para a solução dos variados problemas, tarefas e encrencas em que se metia, pois não sabia dizer não e acreditava que nunca poderia dizer não. Então se atirou em seu trabalho, desenhando linhas, esquemas e soluções para desafogar o fluxo da linha de produção.      Agora são 23:00 hs e após tanto esforço Oto sente um grande alívio por ter avançado muito na solução do problema tão sério e com tanto capital envolvido. Sorri para si mesmo e se auto congratula.
    Oto vive sozinho num apartamento pequeno e adequado para ele, um rapaz recluso por conta de tanto trabalho assumido. Há muito havia passado dos trinta anos e se refugiara no trabalho, em parte por ser tão responsável, em parte por ser eficiente, em parte pela timidez excessiva, que o impedia de dizer não muitas e muitas vezes e ofuscava seu real valor, recebendo menos do que merecia. Como tinha muito serviço seus ganhos eram suficientes para seu estilo de vida quase monástico. Raramente entrava em contato com sua família, seus dois irmãos e seu pai moravam num sítio no interior. Sua mãe era falecida. Sua timidez excessiva contribuía para sua reclusão, namorara muito pouco e tinha um círculo limitado de amizades. Era um exemplar da moderna fauna urbana que engrossa as estatísticas da solidão nas grandes metrópoles.

    Uma bela noite mostra seus ares e brilhos do lado de fora com bares, restaurantes, boates e motéis cheios de gente feliz ou ocultando a infelicidade com sorrisos dúbios, litros de álcool e sabe-se lá o que mais para garantir tanta euforia. Oto está cansado e com o nariz entupido, corre para a janela para deixá-la totalmente aberta querendo com isso deixar entrar o ar que não lhe chega em quantidade suficiente. Volta para seu teclado e se depara com muitos gráficos coloridos, tabelas elaboradas e um relatório extenso, que ele pensa que poderá trazer de volta o sorriso e o alívio àqueles homens tão tensos e temerosos. Apesar de sua timidez ele pensa consigo próprio “Vejam só, eu resolvi em um dia uma grande encrenca, me sinto orgulhoso disto mas sei que no máximo vão me agradecer de modo frio e vão demorar uma semana para me pagarem. Sei que deveria ter pedido mais dinheiro pelo meu esforço, mas não consigo. O que está errado comigo? Eu me olho no espelho e ensaio uma grande entrada, me vejo colocando os pés em cima da mesa falando duro e exigindo o triplo do que me oferecem, mas na hora H meus lábios tremem e meu nariz fecha”. Num momento toda a euforia passa e a melancolia se apossa do Oto sozinho num minúsculo apartamento.

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