terça-feira, 26 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 15)


     O alerta chegou como um choque que abalou o palácio da calma. Aquele estado de sono dos justos, dos que não devem mais nada, foi interrompido com frieza. Seus olhos fechados foram abertos pela urgência da mensagem. Ele se volta e vê com apreensão ao longe, (ou perto, não se pode ter certeza das distâncias neste território) a porta que volta, agora em fúria ígnea, acompanhada da chuva de gotas. A respiração acelera.

     Ele quer flutuar de novo, mas não consegue. As paredes do palácio da calma parecem descer e se aproximar para imprensá-lo. Um peso insuportável surgiu assim para convencê-lo que, não importa onde ou de que maneira, se você deseja ficar num estado de paz e tranquilidade, isto não é possível, isto não está permitido. E se não está permitido, está proibido, portanto um empuxo violento não se sabe partindo do que o lança numa espiral veloz em direção à quarta porta, contra sua vontade. Há uma turbulência crescente, um tremor incontrolável, um medo que até então não se apresentara. Parece mais uma reentrada na atmosfera terrestre, onde a pressão aumenta e a rarefação diminui, diminui, diminui... E a quarta porta chega finalmente.

-Acorde, acorde! Com veemência a Grã Sacerdotisa o sacode, pois, sua respiração estava muito intensa e entrecortada, e seu batimento cardíaco estava muito acelerado, criando preocupação para o trio condutor da cerimônia. Osíris, de forma mais evidente, demonstrava mais desconforto com o estado de seu colega-convidado, agora já não mais tão despreparado. Ou não?

    Oliveira se recolheu ao chão numa posição fetal, semiacordado. Ainda ofegante, ele mal consegue dizer qualquer coisa. Os olhos piscam e os lábios tremem, e ele está encharcado de suor. Uma paralisia toma conta de seus membros. A repetição da experiência foi recheada de novidades. Cada vez é uma viagem diferente, onde se conhece a entrada, mas nunca a saída.

      Uma análise acurada de sua mente, partindo do ponto 'a', o ponto “a” sendo a descoberta deste mundo, e o ponto “b”, sendo o agora, mostra-nos uma evolução. Aquele homem tolhido, de curto alcance mental agora estava no chão, contorcido como um elástico no momento anterior ao disparo. A carga derramada em sua mente e em seu entendimento havia sido intensa. Para muitas pessoas seria suficiente para terminar seus dias num estado catatônico.

“ _ Eu quero voltar”, ele disse. “Há um trabalho em andamento. Eu não posso parar agora. Falta a quinta porta. Onde está a quinta porta? O olho agora está do meu lado. A leveza é tão boa!”. Este discurso desarticulado jorrava de sua boca antes mesmo de se levantar do chão. O trio condutor da cerimônia, formando um triângulo ao redor dele, olhava com atenção para o mesmo homem que havia chegado com desconfiança e desdém na primeira vez. Uma grande mudança, inesperado até para quem ao longo dos anos acompanhou um sem número de iniciantes que passaram pelas mesmas provas, e que regressaram modificados sem dúvida, mas ao longo de um trajeto gradual. Tudo nele estava sendo muito urgente e muito brusco.


“- Eu quero beber de novo, eu quero voltar... para lixar a pedra que eu fui. Eu preciso voltar para o segundo plano. É isso, a pedra sou eu. Eu estou enxergando melhor agora. Eu vi. Eu quero voltar”

     O alerta chegou como um choque que abalou o palácio da calma. Aquele estado de sono dos justos, dos que não devem mais nada, foi interrompido com frieza. Seus olhos fechados foram abertos pela urgência da mensagem. Ele se volta e vê com apreensão ao longe, (ou perto, não se pode ter certeza das distâncias neste território) a porta que volta, agora em fúria ígnea, acompanhada da chuva de gotas. A respiração acelera.

     Ele quer flutuar de novo, mas não consegue. As paredes do palácio da calma parecem descer e se aproximar para imprensá-lo. Um peso insuportável surgiu assim para convencê-lo que, não importa onde ou de que maneira, se você deseja ficar num estado de paz e tranquilidade, isto não é possível, isto não está permitido. E se não está permitido, está proibido, portanto um empuxo violento não se sabe partindo do que o lança numa espiral veloz em direção à quarta porta, contra sua vontade. Há uma turbulência crescente, um tremor incontrolável, um medo que até então não se apresentara. Parece mais uma reentrada na atmosfera terrestre, onde a pressão aumenta e a rarefação diminui, diminui, diminui... E a quarta porta chega finalmente.

-Acorde, acorde! Com veemência a Grã Sacerdotisa o sacode, pois, sua respiração estava muito intensa e entrecortada, e seu batimento cardíaco estava muito acelerado, criando preocupação para o trio condutor da cerimônia. Osíris, de forma mais evidente, demonstrava mais desconforto com o estado de seu colega-convidado, agora já não mais tão despreparado. Ou não?

    Oliveira se recolheu ao chão numa posição fetal, semiacordado. Ainda ofegante, ele mal consegue dizer qualquer coisa. Os olhos piscam e os lábios tremem, e ele está encharcado de suor. Uma paralisia toma conta de seus membros. A repetição da experiência foi recheada de novidades. Cada vez é uma viagem diferente, onde se conhece a entrada, mas nunca a saída.

      Uma análise acurada de sua mente, partindo do ponto 'a', o ponto “a” sendo a descoberta deste mundo, e o ponto “b”, sendo o agora, mostra-nos uma evolução. Aquele homem tolhido, de curto alcance mental agora estava no chão, contorcido como um elástico no momento anterior ao disparo. A carga derramada em sua mente e em seu entendimento havia sido intensa. Para muitas pessoas seria suficiente para terminar seus dias num estado catatônico.

“ _ Eu quero voltar”, ele disse. “Há um trabalho em andamento. Eu não posso parar agora. Falta a quinta porta. Onde está a quinta porta? O olho agora está do meu lado. A leveza é tão boa!”. Este discurso desarticulado jorrava de sua boca antes mesmo de se levantar do chão. O trio condutor da cerimônia, formando um triângulo ao redor dele, olhava com atenção para o mesmo homem que havia chegado com desconfiança e desdém na primeira vez. Uma grande mudança, inesperado até para quem ao longo dos anos acompanhou um sem número de iniciantes que passaram pelas mesmas provas, e que regressaram modificados sem dúvida, mas ao longo de um trajeto gradual. Tudo nele estava sendo muito urgente e muito brusco.

“- Eu quero beber de novo, eu quero voltar... para lixar a pedra que eu fui. Eu preciso voltar para o segundo plano. É isso, a pedra sou eu. Eu estou enxergando melhor agora. Eu vi. Eu quero voltar”   “- Por hoje é só. ” E as palavras definitivas da Grã Sacerdotisa, tal como um tapa ou uma bebida forte restauraram a lucidez do pobre homem. Qual o poder daquela voz?

  “-Venha, levante-se. Siga-me até seu carro. Você precisa de um descanso agora. ” Disse Osíris.

    E então a segunda experiência de Oliveira termina por hoje. Os demais participantes já haviam se retirado, o fogo ardia fraco e as brasas quase se apagavam, como se estivessem em sincronia com a duração da cerimônia. O céu sisudo vestido de nuvens grossas indicava um dia cinzento por nascer. A paz mantida naquele território estava em contradição com a respiração ainda alterada e o coração apreensivo do pobre homem em transformação. Osíris o carregava pelo braço, pelo caminho até o automóvel. Ao chegar certificou-se se o motorista conduziria em segurança, pois muitos quilômetros separavam o sítio da casa de Oliveira, e o estado dele inspirava alguma atenção.
_Não se preocupe, eu já estou desperto. Há algo nesta mulher que me intriga”. E se foi.

  O processo de transformação já estava em andamento e isso incluía uma incompatibilidade crescente com o trabalho e os demais aspectos da vida prática. A semana seguinte ao segundo encontro foi por demais penosa para ele. Ainda de licença, mas com a cabeça já em outro ponto, ele se debateu entre as lembranças, ou melhor, entre as sensações que impregnaram todo seu corpo e já não se apagavam, muito pelo contrário, a todo momento novas sensações afloravam, inoculadas durante o ritual. Trancado em casa, ele que sempre fora avesso ao devaneio, se entregara de forma quase obsessiva à coleta e catalogação, se assim podemos dizer, das memórias embebidas em Mayaszolote. Uma mistura de nuvens, lágrimas, luzes, portas e formas, cores e sons intraduzíveis eram transpostas em folhas de papel, na forma de garranchos, sinais gráficos, borrões, palavras soltas, desenhos toscos (uma vez que ele nunca tivera o mínimo pendor para isso), em setas e retas, curvas e círculos imperfeitos. Desligara o telefone, não ligara mais a televisão nem o rádio, parecia um eremita num apartamento de um edifício. Duas semanas neste jejum.

  No final da segunda semana toca o interfone: “Sr. Oliveira, está na portaria o Sr. Osíris, posso deixar subir?” Alguns segundos de hesitação e silêncio seguidos por um “Sim, pode deixar”.

     Osíris fica surpreso e muito impressionado com o aspecto do colega antes tão polido e civilizado. Cabelo grande, despenteado, sujo, barba enorme, roupa imunda e um olhar assustador.
-
- Osíris, que bom que veio! Tenho tantas coisas para perguntar. Quando poderei ver a sacerdotisa de novo? Quando teremos outra cerimônia? Que tem naquela bebida? Veja, veja... meus escritos, minhas lembranças, veja. Eu estou criando um método para descrever o mundo que eu vi. Leia, talvez eu precise explicar melhor, ainda está tosco, mas eu estou aprimorando. Como poderia chamar? É difícil colocar em palavras. E as cores, as cores! Havia rostos estranhos também, havia muita coisa. Havia uma paz enorme e eu não queria sair de lá. E o olhar que me acompanha. Sabe, uma vez quando era criança eu vi uma velha na praia e ela me olhou de um jeito muito estranho que eu nunca esqueci. E sonhei muitas vezes com a cena. Agora eu sei que era um ritual de magia. Agora eu entendo, eu entendo muita coisa. O meu medo vem daí, agora eu sei. Eu sei, eu sei!.   Osíris procura acalmar Oliveira. Uma torrente de palavras, uma descarga verbal, uma avalanche é o que sai de sua boca, da boca daquele ser eufórico e transtornado. Osíris sabe que tem sua quota de responsabilidade nesta situação. Teria avaliado assim tão mal o colega?  Não poderia saber, é óbvio, o quão sensível ele era. Apenas dois copos, dois copos. Ou talvez ele fosse uma represa cheia até o topo, com rachaduras invisíveis. Qualquer peteleco produziria o mesmo efeito. Mas, enfim, eis aí o seu discípulo. Uma pedra bruta.

Nenhum comentário: