segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 10)

     Sua respiração ficou levemente ofegante, e a transpiração aumentou de repente. Ondas de calor e frio intenso se revezavam em seu corpo, que começava a tremer. Ele tentou conter o tremor, mas em vão. Suas mãos começavam a formigar e ficar geladas. Uma paralisia crescente foi tomando de assalto aquele homem trêmulo. Ao mesmo tempo e num efeito estranho para alguém tão acostumado a se manter alerta, sua mente foi como que escorregando numa cama macia forrada com lençóis de cetim. Ele não opôs a mínima resistência, e sentindo-se leve, cada vez mais leve, um sorriso interno apagou o calor e o frio do início, e o tremor incontrolável já não existia. Agora ele estava de pé pisando em uma superfície que parecia gelatina translúcida, enquanto clarões de uma luz alaranjada pulsavam ao longe, ou atrás de sua cabeça, ou entre seus dedos, ou atravessavam sua cabeça, ele não tinha certeza. Poderia ser tudo ao mesmo tempo. Qual tempo? A luz agora verde azulada estava dentro de seu corpo. Ele olhou ao redor a não viu nada nem ninguém. “Como é o nada?”, e este pensamento percorreu sua mente. Mas sua mente não estava ali, ele via sua mente como ondas de calor e raios, uma tempestade eletromagnética à distância. “Onde está o horizonte?”, e o horizonte era curvo e voltava para dentro de si, o que estava longe parecia perto e o que estava perto mudava de forma e cor a todo momento. Ele via o nada, que estava perto e longe ao mesmo tempo, em cima e em baixo no mesmo plano, plano este que não era reto nem curvo, uma abóboda e uma esfera dentro de um buraco escuro, onde a luz escapara. Ele viu um garoto e um velho que tinham a mesma face, e um par de olhos que pareciam ocupar todo o espaço, olhando para ele que não tinha como se esconder, e os olhos o englobaram, agora era um olho somente, que via o garoto e o velho num mesmo corpo que ocupava todo o espaço. Dentro do olho ele viu o rosto espantado do garoto, que com medo procurava desviar daquele olhar que parecia fitá-lo e ao mesmo tempo não olhava para nada. Olhava para o nada. “Ainda não sei como é o nada”, e uma voz longínqua sussurrava: “Você ainda não está preparado”. A tempestade, que era sua mente, pulsava em fagulhas de luz numa velocidade alarmante, luz que escapara do buraco negro que engolira a abóboda e a esfera, que agora voltava girando e mostrava uma projeção. Era a vida do velho ao contrário. A esfera pára de repente e mostra o garoto espantado, numa praia vazia, onde a água flutua e o horizonte é curvo. O garoto se funde a ele, que sai e voa para um ponto distante, e no mesmo momento ele se enxerga de longe, muito longe, tão pequeno quanto um átomo, mas não gosta do que vê e fica triste. “Como poderei consertá-lo?” e a voz sussurrante retorna  e fala “Você ainda não está pronto, apenas aceite” .

   As lágrimas começaram a descer pelas bochechas, e ao cair viravam nuvens densas que passavam rápido em redemoinho. Muitas lágrimas brotavam de seus olhos e o redemoinho aumentava de tamanho e velocidade, agora já um turbilhão de nuvens, que o convidavam a entrar e girar em espiral descendente até o centro. Centro de quê?  As dimensões estavam embaralhadas em sua mente. Não havia chão ou céu, apenas um fluxo constante que o carregava sem direção. As lágrimas começaram a criar um invólucro ao redor de seu corpo, e isto parecia para ele uma capa protetora. Esta capa ia grudando e retirando as camadas superficiais, até que todo o seu corpo ficou exposto. Agora estava claro e luminoso e sua luz começou a sair e ganhar volume. As lágrimas pararam de cair e a luz que emanava de seu corpo tingiu as nuvens em espiral de um tom claro e suave. Reconfortante.


      Ele estava mais confiante e tranquilo, e uma onda de calor e alegria penetrou o alto de sua cabeça, descendo pelo corpo. A voz sussurrante chega mais uma vez ao seu ouvido : “ Por agora chega. É o momento certo para voltar. Seu primeiro dia terminou. Mas você não está pronto ainda. Acorde”.

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