sábado, 23 de setembro de 2017

A cerimônia (capítulo 2)

        A vida seguira seu curso e levara consigo a criança, que se transformara em jovem, que se descobrira adulto em algum momento de reflexão ou susto, e que agora, assim como todos os que sustentam a existência humana em suas mãos, trabalhava e ganhava seu pão com seu suor, embora trabalhasse num escritório confortável com ar condicionado e vista para o mar, que ninguém é de ferro. Casara, descasara, namorara, viajara a trabalho e nunca se interessou muito por outras coisas além do âmbito de seu labor. Como dito antes era um sujeito educado, honesto e cético, que via a folhinha mudar de ano para ano sem dar muita importância para a mudança das estações.
      Chegou pontualmente à sua estação de trabalho às 08:30h. Se inteirou das prioridades do dia, leu suas mensagens e alguns relatórios, tomou um café, fez alguns telefonemas, participou de uma reunião, isto tudo até a hora do almoço. Saiu para comer em algum restaurante por quilo nos arredores do prédio. Quando voltava para o escritório uma chuva inesperada desabou por sobre a cabeça de todos. É claro que não trouxera guarda-chuvas, ninguém esperava uma chuva assim não anunciada e tão inconveniente, justamente na hora do almoço.
     Para se proteger da chuva forte ele correu para debaixo de uma marquise. Uma marquise qualquer. A chuva engrossava e poderia demorar mais do que devia. Ele então reparou que estava defronte a um sebo de livros chamado “ A árvore do saber”, especializado em livros e publicações de inclinação mística e religiosa, ao lado de livros didáticos e romances mais apelativos, pois a vida não está fácil e era preciso pagar o aluguel do ponto, ainda mais neste setor tão valorizado da cidade. Oliveira nunca reparara nesta livraria, pois não era de seu interesse, apenas a chuva forte o obrigara a parar por aqui, nesta hora do dia. Era um cético e um materialista, todavia o germe da curiosidade sempre estivera encubado no seu íntimo, encapsulado naquele corpo sem muitos arroubos de criatividade e transgressão. Ele entrou na loja para passar o tempo e a chuva.
       

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