A vida seguira seu curso e levara
consigo a criança, que se transformara em jovem, que se descobrira adulto em
algum momento de reflexão ou susto, e que agora, assim como todos os que
sustentam a existência humana em suas mãos, trabalhava e ganhava seu pão com
seu suor, embora trabalhasse num escritório confortável com ar condicionado e
vista para o mar, que ninguém é de ferro. Casara, descasara, namorara, viajara
a trabalho e nunca se interessou muito por outras coisas além do âmbito de seu
labor. Como dito antes era um sujeito educado, honesto e cético, que via a
folhinha mudar de ano para ano sem dar muita importância para a mudança das
estações.
Chegou pontualmente à sua estação de
trabalho às 08:30h. Se inteirou das prioridades do dia, leu suas mensagens e
alguns relatórios, tomou um café, fez alguns telefonemas, participou de uma
reunião, isto tudo até a hora do almoço. Saiu para comer em algum restaurante
por quilo nos arredores do prédio. Quando voltava para o escritório uma chuva
inesperada desabou por sobre a cabeça de todos. É claro que não trouxera
guarda-chuvas, ninguém esperava uma chuva assim não anunciada e tão
inconveniente, justamente na hora do almoço.
Para se proteger da chuva forte ele correu
para debaixo de uma marquise. Uma marquise qualquer. A chuva engrossava e
poderia demorar mais do que devia. Ele então reparou que estava defronte a um
sebo de livros chamado “ A árvore do saber”, especializado em livros e
publicações de inclinação mística e religiosa, ao lado de livros didáticos e
romances mais apelativos, pois a vida não está fácil e era preciso pagar o
aluguel do ponto, ainda mais neste setor tão valorizado da cidade. Oliveira
nunca reparara nesta livraria, pois não era de seu interesse, apenas a chuva
forte o obrigara a parar por aqui, nesta hora do dia. Era um cético e um
materialista, todavia o germe da curiosidade sempre estivera encubado no seu
íntimo, encapsulado naquele corpo sem muitos arroubos de criatividade e
transgressão. Ele entrou na loja para passar o tempo e a chuva.

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