quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Tirem-os de lá até sexta-feira (final)

          Os sinais de mudança no cenário político já estavam bem claros, quando uma nova legislação foi aos poucos sendo implantada, e um crescente endurecimento das instituições foi ficando mais visível. Grande parte da opinião pública já não tinha mais opinião nenhuma, encharcados e abarrotados pela bonança duradoura. O sono cheio de sonhos de conforto e abundância embriagou com o ópio do bem-estar material a geração que admitiu de bom grado transferir sua independência de pensamento e opinião para aqueles que lhes garantissem a vida livre dos percalços da escassez.
      A conta chegara agora na figura do novo Messias, que nos meandros escuros da cooptação, adulação, cumplicidade ou mera extorsão, conseguira atingir seu objetivo por meios legais. Naquela manhã a propriedade da carga genética da humanidade estava de posse de um novo dono. E tudo dentro dos conformes e dos ditames da Lei.
      Em poucos anos a mudança drástica no jogo político varreu da sociedade qualquer vontade de mudança ou contestação. Pouco a pouco a vontade majoritária do pensamento econômico-tecnológico-catastrofista se impôs aos países, que se aglomeravam em blocos cada vez maiores, e cada vez mais unidos e homogêneos. A questão toda foi tornada oficial quando o próprio Ministro da Saúde, por intermédio do diretor do Controle Genético, como porta-voz, anunciou:

  “ -É meu dever anunciar a todos os cidadãos sobre as novas regras que a legislação sobre o controle e aproveitamento dos recursos espaciais e biológicos impõe. Desta data em diante, conforme a vontade de nosso excelso legislador, todos os habitantes deverão se submeter ao engenhoso método de nano reengenharia corporal. Desde o anúncio feito pela prestigiosa Styx Enterprises, poucos anos antes, que o sucesso da medida se mostra cada vez mais evidente. Foram observados casos residuais de efeitos colaterais indesejados, o que acarretou o reassentamento da ínfima população atingida. Mas a estatística comprova a aceitação da maioria absoluta da população, medida através dos institutos oficiais de pesquisa. A diminuição do percentual estabelecido entre 40% e 70% do tamanho dos seres humanos nesta nova era implicou em redução considerável dos recursos naturais. Onde antes cabiam 10 pessoas, hoje cabem de 20 a 30 pessoas, que consomem roupas menores, carros menores, menos comida, entre outros fatores positivos. A extensão da aplicação das medidas depende da boa vontade e dever cívico de cada cidadão. Há um prazo estabelecido para que todo o conjunto da população esteja convertido no novo modelo de Homem. Dissidências serão tratadas com rigor. Contestações são ilegais. Esta é a vontade de nosso grande inspirador e nosso grande modelo, Sr. John Peeble. Seja feita sua vontade”. 

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        “ -Aqui estamos na New Town Harlow, quase não dá para reconhecer os antigos quarteirões desta que outrora foi uma comunidade modesta e tranquila. Este pequeno distrito se tornou mundialmente conhecido por ter sido o projeto piloto do maior acontecimento científico da civilização humana. As novas construções erguidas para servir de moradia, totalmente adaptadas às novas dimensões do gênero humano, e construídas a um custo 60% inferior aos antigos métodos construtivos, são o cartão de visitas mais vistoso da Organização Styx”, assim começava a mais nova peça publicitária divulgada na Rede Estatal de Teletransmissão. Como o controle acionário da rede estava de posse da Styx, durante vários intervalos da programação as vantagens e benefícios do projeto eram divulgados para a plateia cativa, quase como um mantra audiovisual, com suas belas imagens e sons envolventes,
            Poucos conseguiam ficar indiferentes ao apelo, pois a complacência havia se tornado uma atitude corrente naquela sociedade saciada e com pouquíssimo apetite para a contestação. Aliás, a contestação, além de ilegal, não era vista com bons olhos pelos semelhantes. Afinal, por quê abrir mão de todo o conforto e realizações importantes que foram conseguidas num breve espaço de tempo?
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      A Sra. Barrow estava em sua minúscula sala, diminuindo a medida de suas roupas, reaproveitando suas estimadas peças de vestuário. Seus rendimentos escassos ainda não haviam permitido trocar toda a sua mobília. Algumas peças ainda no tamanho antigo atravancavam seu espaço. Uma pequena escada para alcançar a cama velha fora sua última aquisição. Cada vez mais solitária ela tinha muitas dificuldades em aceitar a nova situação, mas guardava em silêncio profundo sua amargura. Ao espetar o dedo ela subitamente recordou-se daquele sonho estranho que tivera havia alguns anos, onde um turbilhão de vento arrastava a todos, e à medida que voltavam ao chão, todos iam diminuindo de tamanho. Sua campainha toca, e ela reconhece o rosto insípido do coletor de aluguéis no monitor.
        Boa tarde Sra. Barrow, sinto informar-lhe que desde a última vez que conversamos, nós chegamos à conclusão que precisaremos aumentar o aluguel de novo, só um pouquinho. Obrigado e passe bem.
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  “Oh não, não posso crer nisto! Oh Mary, e pensar que nós aceitamos tudo isto! “. Seu lamento ecoou pelas paredes de sua moradia, como se pudesse ser ouvido pela filha, cujo paradeiro ela não tivera mais notícia, desde que Mary passou a integrar o contingente residual das pessoas sujeitas aos efeitos colaterais do experimento, e desaparecera dos registros oficiais. Sua tristeza e suas preocupações não atraíam a atenção dos vizinhos, tão ocupados em aproveitar as novidades tecnológicas, e que passaram a desconfiar que sua filha havia se tornado algum monstro renegado e contagioso, quando na manhã daquele agosto sombrio e já longínquo havia sido retirada de casa de forma pouco amistosa pelos fiscais da Secretaria para Ordenação das Novas Diretrizes Habitacionais, amarrada e amordaçada. A partir daí a então a pacata senhora fora instada a desistir de sua procura, quando sutilmente fora advertida de que poderia ter sua pensão suspensa por tempo indeterminado, caso insistisse em saber do paradeiro de pessoa suspeita de portar anomalia impeditiva da adaptação ao novo paradigma social. Desde então a solidão e a saudade passaram a fazer parte da sua rotina.
    O isolamento é um mecanismo eficiente para evitar a disseminação de ideias, sentimentos, pensamentos impuros, atividade suspeitas, atitudes que não podem ser aceitas de acordo com o novo código moral da nova era onde o tamanho importa, desde que seja o tamanho oficial. O isolamento é a norma nesta sociedade, e o isolamento foi o que restou a Sra. Barrow.

              Mark Hall descia as escadas com certa dificuldade, a perna esquerda doía um pouco. A idade começava a pesar em sua estrutura. Encerrara mais um dia monótono na empresa que escolhera dedicar a vida. Os anos foram escoando e ele um dia se dera conta de que seu esforço e sua devoção de nada ajudariam no progresso que traçara. Ele desconfiava que mais do que diminuir o tamanho das pessoas, as hoje notórias pesquisas genéticas também serviram para prolongar a vida do seu patrão tão querido e estimado. De fato, ele parecia tão firme e resoluto quanto há 20 anos, quando Mark entrou por estas portas pela primeira vez. Quanto anos ele teria? Ninguém sabia, e ninguém tivera a coragem de perguntar. Os olhos azuis flamejantes cheios de cobiça e volúpia continuavam cada vez com mais volúpia e cobiça, e ele parecia ter crescido ao invés de reduzido de tamanho.
   Mark pouco havia visto seu querido e amado patrão nestes últimos anos, em que a realidade se tornara mais fantástica do que a ficção. A maturidade havia chegado, e com ela a morte das ilusões. Ser o presidente da Styx Enterprise saíra da sua lista de desejos. Ser o preferido do chefe também, bem como muitos outros itens que ficaram para trás, da mesma forma que todas as pessoas as quais ele ludibriara em nome de sua dedicação e empenho. Cada noite ao deitar ele repetia para si: “ Só cumpri o meu dever”, a complacência se unindo à negação para justificar tudo. Ele não se lembrava mais dos sonhos, nas infindáveis noites em que o sono, irmão da morte, chegava na exaustão daquele corpo cansado e gasto e destruía em migalhas, um pouco a cada dia que passava, sua mera existência.

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   A Styx Enterprises reluzia à noite em seu edifício iluminado, destacado no conjunto de construções mais baixas e opacas na área central da cidade. As linhas austeras do prédio contrastavam com a exuberância das luzes noturnas, num simbolismo evidente e didático, que fazia com que o povo jamais esquecesse de quem havia trazido o futuro e a salvação.  No alto, no topo, mirando o horizonte, sem obstáculos, sem contestação, sem dúvidas, Mr. John Peebles, agora Sir John Peeble contemplava a obra de sua vida, na extensão de seus domínios.
     Sem interlocutores, apenas subordinados, ele produzia monólogos que ecoavam pelas paredes de seu escritório-moradia. Sua palavra passara a ter a força de lei, quase um dogma. Quem haveria de se contrapor ao maior exemplo de sucesso que a humanidade conhecera?  Os livros de história sutilmente eram retirados do mercado, os livros didáticos reescritos. Onde a memória se escondera?  Apesar de toda a velocidade de mudanças que a sociedade moderna já se habituara, nada pudera se comparar com esta vertigem, este turbilhão, quase uma obsessão pela mudança, que culminara na apropriação do patrimônio genético da população nas mãos de um único homem e sua vontade, a ponto de tudo se tornar normal, e tudo ser permitido, desde que não se toque no cerne da questão: o conforto e a comodidade como valor máximo e inquebrantável da civilização.
    Lá estava ele, com um copo na mão brindando a si mesmo. Bebeu um gole, olhou para baixo, voltou a olhar para frente. Não precisava de ninguém. Onde aprendera isto? Ou quando percebera que não precisava de ninguém? Só dos subordinados. Alguém que lhe trouxesse sua refeição ou seu copo cheio. Alguém que só atendesse ao comando. Estava satisfeito. Estava saciado? Ninguém poderia dizer. O isolamento aos indesejados, como norma da sociedade que erigira, lhe cabia como uma pele perfeita, sem máculas, sem o dissabor da repugnância que causava aos seus próximos, em sua juventude, com sua pele pálida e seus olhos azuis ofuscantes. Decidiu a partir daí criar um mundo em que seria o senhor, e não precisaria mais sentir os olhares de censura e asco.
      Enfim conseguira, e nesta noite ele celebra apenas consigo. Olha a Lua ao longe e pensa o quanto ela valeria. E sonha, ainda que acordado, com o universo todo, como se fosse possível. Pensa, mesmo que não saiba, sobre o reino de todas as possibilidades. Limites. A embriaguez do sucesso lhe turva o raciocínio, a insanidade logo ao lado. Ele não tem espelho, só o infinito a sua frente.
      A noite está bela, as nuvens deslizam suaves, um vento calmo as empurra como um trenó. A noite chega e vai embora, e não quer saber dos sonhos mesquinhos ou delirantes, a noite a todos envolve e será assim até o fim.

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       No dia seguinte, depois de um sono dos justos, ou dos que não tem remorsos, depois de um belo desjejum servido em bandejas de prata e louça fina, Sir John chama seu outrora fiel cão de guarda, seu prestativo funcionário, agora envelhecido e diminuto, para mais uma missão.
        Mark, meu obstinado colaborador, tenho um serviço perfeito para você, para reviver aqueles velhos tempos de expansão e conquista, que você tanto gostava. Eu descobri que ainda há algumas propriedades que não me pertencem. Algumas estão desabitadas. E vi que era hora de mandar meu querido “pisca-pisca” para trabalhar um pouco mais. He,he,he,he.
       Em outros tempos Mark ainda teria sorrido, mas hoje ele somente curva seu corpo em sinal de obediência e sai para cumprir mais uma ordem. Antes que ele fechasse a porta Sir John lhe dá um conselho valioso.
        Mark marque minhas palavras: Com terras na sua mão você será feliz sobre a Terra... ou então invista na sua igreja para alcançar o seu Céu.



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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Tirem-os de lá até sexta-feira (3ª parte)

  A reunião começou pontualmente às 17:00hs. Presentes na sala soturna do Edifício Peebles, anexa ao salão  de reuniões do 30º andar, somente o Sr. John e os Drs.Vassili Narotov e Florian Gordulescu, responsáveis diretos pela tal pesquisa secreta, que por anos instigou a imaginação, e fermentou as especulações sobre quais mudanças estavam em andamento no quartel general da Styx. Dois renomados, orgulhosos e ambiciosos cientistas, seduzidos pelas promessas do Sr. John, e  facilmente atraídos para seu campo gravitacional. Afinal, quem jamais pensou em ser deus por um dia? – Senhores, como vai meu projeto? Posso anunciar finalmente a maior mudança já imaginada pela humanidade? Posso dizer aos quatro cantos do mundo, finalmente, que o problema de espaço e de superpovoamento das metrópoles está com os dias contados? – Errrr, creio que sim Mr. Pebble, estamos tão somente finalizando os últimos protocolos, detalhes insignificantes. O projeto está pronto, disse o Dr. Narotov, num tom quase trinfante. – Veja só Mr. Peebles, o Sr. é um homem de visão. Não é a minha área, mas por que dispender tanto dinheiro em material de construção para construir mais e mais, quando podemos diminuir as pessoas, de forma que caibam duas onde cabe uma? Sim, foi uma grande ideia, e fico muito agradecido de ter participado neste processo. Disse então o Dr. Gordulescu, cujas ideias avançadas e humanitárias vinham de longa data, desde o tempo em que contribuía de forma voluntária e dedicada ao regime do Dr. Ceausescu, em sua Romênia natal. Agora, já em estado decrépito, buscava deixar uma marca indelével nas conquistas da humanidade. Seu colega e amigo de longa data, o Dr. Narotov, havia fugido quando o regime comunista desabara, e ele sentiu que não mais poderia trabalhar envolto em mantos de mistério. – Obrigado aos queridos colaboradores. Quando poderei anunciar nossa grande conquista? – Convoque a imprensa tão logo queira, disseram em uníssono os dois laureados pesquisadores. 
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                  Os telejornais, rádios, todos os tipos de mídia, ecoaram a divulgação do comunicado feito através do assessor de imprensa da Styx Enterprises. O grau de estupefação que logo tomou conta de todos os envolvidos, assim como de todos os círculos bem pensantes (e não tão bem pensantes assim) se espraiou e assustou a opinião pública, incrédula em saber o nível de ousadia a que chegara o notório Sr John Peebles. Eis o resumo do comunicado:
      “ Quero comunicar à toda a imprensa, bem como a todos os círculos que possam se interessar
por tal assunto, que a Styx Enterprises, personificada na figura do Sr. John Peebles, presidente e líder supremo de seus empreendimentos, vêm a público divulgar o resultado dos anos de pesquisa séria e dedicada, levadas a termo pelos Drs. Vassili Narotov e Florian Gordulescu, responsáveis técnicos pelos resultados finais, pesquisa esta que por todo este tempo suscitou tantas especulações e  rumores. Sabedores que somos que o problema habitacional e de ocupação do espaço nas grandes metrópoles é de alto grau de preocupação para toda a sociedade, trazemos para toda esta sociedade a solução para este grave problema. A solução é simples: Temos agora os meios para alterar na base genética, a determinação do tamanho dos seres humanos, de forma que, doravante, o tamanho médio dos humanóides seja diminuído pela metade, ou mesmo menos do que isso. O resultado da pesquisa é de tal magnitude, que mesmo pessoas já adultas poderão ser diminuídas, sem que disto resulte grandes transtornos de ordem física para as mesmas.    O sigilo absoluto requerido no andamento da pesquisa fez com que alguns protocolos mundialmente aceitos pela comunidade científica precisassem ser desprezados, pois o fim a que se destina, em face da gravidade do problema habitacional e ambiental, têm importância maior do que as regras ditadas pelo rigor acadêmico.    O que alcançaremos com isto? Simples e claro, onde cabe um ser humano caberão dois, ou com um pouco de boa vontade, três. Nosso carro chefe são os empreendimentos imobiliários, e tomamos como piloto, e pesquisa de campo o subúrbio de Harlow. Já está em andamento a aplicação prática de nossa pesquisa. Na recente aquisição de toda aquela região, ficou estipulado nos novos contratos de locação que, de forma voluntária, (conforme o pequeno inciso colocado ao pé da página 5, em tamanho 4), que todos os novos inquilinos serão submetidos ao novo tratamento. Paralelo a isto, é sabido por todos que a recente lei de reordenação do espaço urbano, cuja inspiração partiu da mente fértil do Sr. John Peeble, foi votada e aprovada na Câmara, em que pese toda a crítica da imprensa hostil e ignorante, cuja alegação de que a votação foi feita à portas fechadas e de madrugada, mediante vultosas transferências em espécie, não procede.       O que estamos contemplando hoje é o surgimento de uma nova era, onde indivíduos menores demandarão menos recursos, tão escassos estes recursos se apresentam já em nosso presente, o que nos dirá no futuro? Se não tomarmos já iniciativas que projetem um futuro com menos conflitos, poderemos num curto espaço de tempo ser testemunhas do caos  e da destruição completa de nossa bela civilização. Devemos estar cientes de que haja um esforço de boa vontade por parte de todas as vozes discordantes dos nossos pontos de vista, ou então não hesitaremos de utilizar dos meios a nosso dispor que faça com que a aceitação de nossa visão gloriosa seja completa. Não há meio de escapar, o futuro chegou por nossas mãos, e o oferecemos a todos os bons cidadãos. O debate e a livre discussão de ideias cessam quando um perigo maior se antepõe a todos. A discordância, neste momento, é um sinal claro de rebeldia e egoísmo por parte daqueles que pregam soluções mais
utópicas e inaplicáveis, cujo humanismo e ecologismo não podem ser cogitados em face da crise iminente que já  vemos no horizonte, etc etc etc”
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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Tirem-os de lá até sexta-feira (2ª parte)

      “Oh não, não posso acreditar nisto. Oh não, eles estão nos mandando embora! ”, e o lamento da Sra. Barrow ecoou pela vizinhança. “ Após todo este tempo eles nos pedem para sair deste jeito? Nem perguntam se podemos pagar ou não, mesmo que dobrem o aluguel! ”. “Mary, é verdade o que estou ouvindo? ”
        Sim, mãe, é verdade. Não se fala de outra coisa.
        Oh não, não posso acreditar nisto! Nós nem concordamos com isto!
        Estou com medo, e se não tivermos lugar para ir? Não dá para alugar nada deste padrão, com a renda que nós temos, nem em Polkland, nem em Highchester, lugar nenhum... Fora esta estória esquisita de experiências genéticas que estão falando.
        Que estória é esta filha?
        Sei lá, está correndo um boato, e isto eu soube também no escritório, de que o dono desta Styx Enterprises tem um laboratório secreto onde fazem experiências terríveis, e que o governo sabe, mas faz vista grossa, porque ele foi o maior financiador das últimas campanhas eleitorais.
        Meu deus!!! Isto é possível?
        Olha se é possível eu não sei, mas tudo está muito confuso e nebuloso.
 
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        Tirem-os de lá até sexta-feira, ah ah ah ah ah! Pensando bem é um bom lema para estimular meus funcionários. Eu sempre disse, e aprendi há muito tempo, quando comecei nesta vida de empresário, que a grana sempre ajuda a fazer bem as coisas que precisam ser feitas. O trabalho pode e deve ser recompensador, principalmente para mim! Rá, rá , rá. É só molhar bem molhadinha algumas mãos encaloradas e sedentas, que logo seus problemas desaparecerão, ah que maravilha!! Bastaram algumas fotografias e 400 libras, só 400 libras, e todo aquele pedaço encardido de mundo agora é meu, todo meu! Meu caro Mark, não esqueça do agradinho que prometi para o tabelião do Registro de Imóveis de Harlow. Veja bem, só 400 libras, hein! Não vá desperdiçar meu suado dinheirinho, he hehehehehehehe!!.
        Sim, Sr. Peeble, pode deixar comigo, o Sr. conhece a minha dedicação, não é mesmo?
        Tenho que admitir que você até hoje jamais me desapontou, meu caro Mark. Acho que você tem futuro. Às vezes você me lembra a mim mesmo quando jovem. Eu sempre fui obcecado e comprometido com o meu sucesso, ninguém podia ficar na minha frente, qualquer pequeno obstáculo era um estímulo para ser atropelado. Todos os fatos até hoje me deram razão. Eu sou “O” sucesso personificado, ahhh. Se tivesse nascido na antiguidade, naquele tempo sem estas regras de civilidade e humanismo, bahhh, eu teria sido um conquistador, um imperador, o mundo seria meu!!!
   Mark ficava olhando embevecido para seu mestre. Dizem até as más línguas que ele mantem um poster de seu adorado chefe na parede de seu quarto, vejam só a que ponto chega a dedicação deste rapaz! Talvez ele tivesse o interesse de subir cada vez mais na hierarquia da empresa, ou quem sabe, num momento de extrema ousadia em seus pensamentos, ele sonhasse em suceder ao grande patrão, que não tinha herdeiros nem descendentes, muito menos família. “Minha família é a minha empresa” repetia aos seus interlocutores o Sr. Peeble. Não creio que alguém tolerasse conviver intimamente com tão respeitada figura.
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   Em pouquíssimo tempo as desapropriações começaram. Pesados caminhões, tratores, gruas, guindastes, operários, tudo se instalara em Harlow. Com pesados investimentos, e todas as facilidades que estes investimentos trazem,quando se trata de conseguir licenças e documentos que facilitem as coisas para um empreendedor poderoso, a feição antiga e acolhedora, embora um tanto insossa do subúrbio de Harlow, começou a mudar radicalmente.  

      Os moradores atônitos quase não conseguiam entender as mudanças pelas quais passava seu território. Muitos saíram, muitos foram praticamente expulsos, e o restante assinou o tal termo de linguagem dúbia, que prometia facilidades e garantias de contrato caso consentissem em participar das experiências em curso, promovidas pelo instituto Peeble Styx.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Tirem-os de lá até sexta-feira

Tirem-os de lá até sexta-feira
       (Baseado livremente na música “Get them out by Friday”, do grupo Genesis, álbum Foxtrot de 1972)







-   Tirem-nos de lá até sexta-feira, se não, não pagarei vocês! Já dei a ordem para que sejam removidos, espero ter sido bem claro. O projeto já está correndo e o tempo não vai ficar esperando passar a preguiça de vocês. Espero que todo mundo tenha recebido suas instruções e tenha entendido. Não quero e não suporto moleza! Este projeto é revolucionário, é uma maravilha, o mundo inteiro vai ficar de queixo caído!!! Tirem-nos de lá até sexta-feira, ou então não vão receber um mísero puto, e não adianta ficar reclamando depois, nem ir na justiça, a justiça a gente controla.
     Assim costumava falar com seus subordinados o Sr. John Peeble, a cabeça por trás da Styx Enterprises, empresa incorporadora e sede do conglomerado, sempre ávida por novos terrenos, novos espaços, novas oportunidades de negócios. “O mundo é uma selva, e só os animais mais espertos e fortes sobrevivem” era o lema do Sr. John, frase que pontuava sempre os seus discursos, quase um slogan permanente associado com a imagem de seu rosto flácido e pálido, com olhos azuis perfurantes encharcados de uma volúpia e uma avidez pecaminosa. Um homem de sucesso entre seus pares, condecorado com o título de empresário do ano por três edições consecutivas. Seu lema, em princípio aplicado ao mundo dos negócios, acabou por ser usado em cada aspecto de sua vida. A Styx Enterprises, mais do que sua empresa, era a sua própria extensão, sua razão de ser nesta encarnação.
     Seu mais recente empreendimento era um projeto novo, um novo conceito de moradia voltado aos novos tempos que surgiriam, com a aplicação de recentes descobertas feitas pela pesquisa genética aplicada, conduzida pelo Instituto Peeble Styx, cercada de grande sigilo e muita expectativa. O segredo por trás da pesquisa fez surgir diversas especulações. A curiosidade era estimulada pelo Sr. John, com dissimulações, negativas, falsos boatos postos para circular por meio de seus contatos na imprensa. Dizia-se que uma nova espécie estava surgindo, ou que a manipulação genética criaria seres superdotados a serviço da Styx Enterprise, guiados pela vontade soberana de seu mentor, cuja ambição não conhecia limites. Ele não dizia sim, muito menos não, deixava fermentando este “bolo”, e quanto mais boatos mais as ações de sua empresa ficavam valorizadas.
      A base onde ficaria assentado este novo empreendimento imobiliário ficava no pequeno subúrbio de Harlow, muitos quilômetros longe do centro, um lugar até então meio esquecido pela onda da especulação imobiliária que jogara os preços dos terrenos nas alturas. Harlow não chamava a atenção, era um lugar de pessoas simples, discretas, pouco abonadas, em sua maioria inquilinos e poucos proprietários. Grande parte dos blocos residenciais tinha aquecimento central e um pequeno jardim coletivo, motivo de orgulho dos moradores, que se esmeravam para cuidar, e até criaram um campeonato de jardinagem, cujo resultado era ansiosamente aguardado ao final de cada ano e divulgado numa grande festa.
     A Styx Enterprise há muito vinha comprando propriedades nos arredores de Harlow. O instinto aguçado de John Peeble dizia-lhe que a bola da vez seria aquela região, justamente por ser tão esquecida. Ninguém dava muita atenção aquele subúrbio sem graça, então a Styx Enterprise pulou na frente e quando os demais jogadores daquele mercado se deram conta, John Peeble já era o dono do pedaço. Dentre seus inúmeros colaboradores, ou seus asseclas, se considerarmos o ponto de vista dos adversários, o mais destacado era Mark Hall.
    Mark havia adquirido um tique nervoso que o fazia piscar com frequência, logo passaram a chamar-lhe (pelas costas, é claro) de Pisca-Pisca. Com uma personalidade magnética ao contrário, se sentia atraído e anulado quase sempre, quando em presença de alguém mais firme. Mimeticamente passava a utilizar gestos, frases, jeito de vestir, opiniões das pessoas que admirava. Um simulacro de indivíduo, bastante útil como instrumento a serviço de interesses no mínimo escusos, ou como pau mandado, quando a ação a ser executada era banal, insossa ou suja. Em síntese, Mark Hall sujava suas mãos para que as mãos de Peeble ficassem imaculadas.  Existem muitos como ele. A evolução das espécies deve ter alguma explicação para a existência deste tipo de indivíduo.
      Mark Hall já estava pronto e de pé numa segunda-feira nublada, fria, com nuvens baixas prontas a desabar sobre os ombros dos infelizes obrigados à labuta diária, para alcançar o pão de cada dia, que neste dia parecia chegar encharcado nas mãos comuns dos trabalhadores anônimos. Mark olhava pela sua janela ensaiando as frases copiadas de seu patrão e mentor, naquela missão especial conforme lhe dissera Mr. Peeble.
        “Mark, meu fiel cão de guarda, quero que você vá até Harlow e comunique aos moradores que eles precisam arrumar já um lugar para se mudarem. Esta semana eu finalizei a compra de praticamente todos os “cortiços” daquele pedaço inútil, e portanto, meu projeto precisa acelerar. Diga aos que quiseram ficar, que continuarão inquilinos, só que MEUS inquilinos, e que se quiserem participar como voluntários do meu projeto, deverão assinar um termo de cessão de direitos, coisa simples. Eu tenho uma minuta para você mostrar, caso alguém pergunte do que se trata. Diga-lhes que é de interesse da humanidade.
        Sim senhor Pebble, mas você poderia me adiantar alguma coisa desse seu projeto, para que eu possa explicar melhor? Sabe, todos estão muito curiosos, há muitos rumores circulando...
        Que tipo de rumores?
        Bem, ah sabe... estão dizendo que o senhor pretende criar uma nova espécie, sei lá... não entendo bem estas coisas de genética. Tem gente assustada, mas com medo de perguntar, e então pediram que eu tentasse descobrir alguma coisa...
        Ah, ah,ah,ah meu caro Mark! Você é um bom colaborador, mas este assunto não é da sua competência. Cuide de fazer sua parte, o resto você saberá depois, na hora certa. A revolução está a caminho!!.
        Mark sabia que seria inútil conseguir qualquer coisa dali. Levantou-se e foi cumprir sua tarefa.

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      A mesma segunda-feira cinzenta nascera para a Senhora Barrow. As mesmas nuvens pesadas, tão comuns naquela região, que servem para dar bom dia aos trabalhadores modestos de Harlow. O sono intranquilo a deixara apreensiva. Ela dava muita atenção a seus avisos. Chamem de premonição ou qualquer outro termo, mas ela vinha tendo sonhos repetidos onde ela e seus vizinhos eram lançados no ar por torvelinhos de vento, e ao descer para o chão todos iam diminuindo de tamanho. Acordava assustada e chamava por Mary, sua filha solteira, a única e que morava com ela, esta enfermeira aposentada, que à custa de muito sacrifício e abnegação conseguira criar Mary sozinha.
      Toda manhã Mary andava pelas quadras calmas de Harlow, até o terminal de ônibus que a leva para o trabalho. Como moram há bastante tempo, assim como quase todos os vizinhos, não há perigo nas ruas. Uma rotina com pouquíssimas alterações, uma comunidade pacata e, diria até, bastante conservadora, que começou a notar a presença cada vez mais constante de alguns homens desconhecidos. De início só ficavam andando pelas ruas, e logo começaram a abordar alguns moradores, principalmente a turma que se reunia no pub local. Depois de muitas cervejas as línguas ficam mais relaxadas, e os estranhos começaram a demonstrar um interesse especial por aquele pedaço afastado de subúrbio.
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         Bom dia, posso pagar uma rodada de Guiness ?
        Por quê? Respondeu Joe Ordinary ao forasteiro que não parava de piscar.
        Deixe me apresentar: meu nome é Mark Hall e eu represento a empresa de um cavalheiro, que recentemente adquiriu este prédio e quase todas as casas ao longo da avenida. Estou fazendo um trabalho de aproximação e convencimento aos moradores deste bairro. A Styx Enterprises está interessada nesta região. Há um projeto grandioso em andamento, e eu fui incumbido de trazer as novidades para os moradores. Digamos que eu seja o porta-voz do Sr. Peeble, meu chefe.
        Que projeto é este, quem são vocês, que história é essa de comprarem todas as casas?!
        Olha, os detalhes do projeto só o Sr. Peeble sabe, infelizmente ele é muito centralizador. Antes de vir para cá eu tentei descobrir alguma coisa, pois achei que seria melhor, para poder responder perguntas como a sua, mas ele não disse nada, só falou que era um projeto revolucionário, que o mundo ficaria espantado. Eu vim com a missão de dizer-lhes que, quem quiser pode continuar sendo inquilino, faremos novos contratos de locação, e junto com os novos contratos há uma cláusula de consentimento que será melhor explicada depois.
        Consentimento para que? Olhe, não estou gostando nada dessa conversa...
        Fique calmo, tudo se resolve. A Styx Enterprises é uma empresa idônea, não vamos prejudicar ninguém, te dou minha palavra!
        Ora bolas, eu nem lhe conheço, como vou saber se sua palavra vale alguma coisa?
        Tudo bem, por hora é só o que eu posso dizer. É só um contato preliminar. Voltarei com mais detalhes na próxima semana. Só lhe peço um favor: espalhe entre seus vizinhos o que acabei de contar.
   Joe Ordinary ficou muito ressabiado com aquele encontro e começou a contar para os vizinhos a estranha conversa que havia tido. Logo um clima de inquietude e muitas dúvidas cresceu dentro dos quarteirões de Harlow. Um dos vizinhos foi checar no cartório se de fato as casas haviam sido vendidas. Quando ficou constatado que não só as casas da avenida principal, mas 90% das casas haviam mudado de dono houve aumento da sensação de insegurança. Pouquíssimos moradores eram proprietários. Como num passe de mágica, quase que da noite para o dia, a maioria dos moradores de Harlow havia mudado de senhorio. Ninguém havia sido consultado.

     Na semana seguinte, não somente Mark Hall havia retornado, como se fazia acompanhar por um carro com alto-falantes que transmitia as novidades: “Senhores moradores de Harlow, como já é do conhecimento de vocês a Empresa Styx se tornou proprietária de toda esta região. Iniciaremos em breve um grandioso projeto imobiliário, acompanhado de um ambicioso projeto de pesquisa genética a ser aplicada neste bairro. Solicitamos aos atuais moradores, que, caso haja interesse em participar como voluntário neste projeto, garantimos a continuidade de seus contratos de locação antigos. Aos demais moradores que não tiverem interesse em participar informamos que já arrumamos um lugar melhor para onde vocês possam ir, já que este projeto é de interesse da humanidade. ”  

domingo, 8 de outubro de 2017

Um dia inesquecível (parte 3)

                          O Executivo municipal meio tardiamente começou a se mover, mas a situação já se mostrava fora de controle. A articulação requerida para fazer frente à esta demanda gigantesca estava prejudicada pela demora, pela dificuldade de comunicação e pela dificuldade de locomoção. Centenas de ligações por celular já estavam sendo feitas, e dezenas de celulares dos mais altos escalões da prefeitura já estavam descarregados, sem bateria e sem possibilidade de serem recarregados. Muitas pessoas a esta altura até ficariam felizes de tomar um pequeno choque elétrico se encostassem numa tomada exposta, mas nada de energia. Quem por precaução mantinha um estoque de velas em casa muito que bem, estava garantido, porque com a maioria dos supermercados, mercados de bairro e padarias fechados se a situação se prolongasse pela noite adentro teríamos uma pequeníssima amostra da Idade das Trevas em plena Era da Informação, nossa era atual com todo o aparato tecnológico que enchia de orgulho toda uma geração de pessoas nascidas na bonança mantida por controle remoto.
      Dentro dos prédios com seus elevadores parados, as pessoas foram arrombando as portas automáticas e abrindo à força as portas dos andares e as saídas de emergência para libertar o número incalculável  de pessoas presas, muitas desmaiadas, muitas em estado de choque, descompostas, descabeladas, suadas, muitas brigas acontecidas pelo contato muito próximo entre os cidadãos polidos, educados e contidos até que a contrariedade vencesse a polidez e a educação, forçados é claro pela situação extrema a que foram levados. Um dia inesquecível, um dia para ficar na história.
        De volta ao marco zero, no estopim da confusão, Edgar tão desconcertado, que já nem se importava mais com nada, vendo o redemoinho ao seu redor. Depois de muito esforço, muito empurra-empurra, muita sirene os carros de bombeiros conseguiram chegar no local da explosão e do incêndio. Com este reforço muito bem-vindo o ataque às chamas agora começava a surtir efeito, e a situação finalmente começava a mudar. Um ânimo renovado dominava o ar. Até Edgar foi contagiado pelo entusiasmo que pairava agora ao redor. De repente ele lembrou de alguém que poderia reverter aquela situação: O Dr. Christallos Peidonides, seu professor na extensão universitária, um engenheiro-físico-enxadrista, entre outros atributos, grego de nascimento e viajante internacional, cujo conhecimento certamente traria uma solução rápida para interromper aquele efeito dominó de desligamento da energia. Edgar verificou seu celular que ainda tinha carga suficiente e ligou para o Dr. Peidonides.
- Alô Dr. Peidonides?
- Prronto, quem serrr?
- É o Edgar da Cia. de eletricidade, lembra de mim? É uma urgência!!!
-Sim, sim, lembrrei, o que está a acontecerr?
-Em resumo, houve uma explosão na central de distribuição de energia, toda a rede foi afetada, e que me lembre o senhor têm soluções rápidas para situações de crise como esta.
- Nom me digas! Sim, sim, por Téos, porrisso esta confusón que se escuta da janela?
-Sim, preciso de sua ajuda.
-Cerrto, diga-me, a estaçón foi parra burraco?
-Sim, está ardendo em chamas.
-Entón eu vou parra estaçón mais perrto de mim, e alterro programa e deixo estaçón como neo centralis de enérgon. Você poderria ir junto?
- Não creio que consiga chegar, porque o trânsito está uma calamidade.
- Nom serrr prroblemum, posso fazerrr sozinho, só avise segurrança que estoi a camino,si?
                     -Sim, é claro professor, muito obrigado pela sua ajuda.
    O prof. Peidonides largou seu bouzouki, onde aprendia uma velha melodia grega e foi imediatamente para uma das estações secundárias, que funcionava em rede. Dirigiu-se para a sala de controle, acessou o servidor, introduziu seu programa de contenção e gerenciamento para situações de crise e em poucos minutos a estação era religada. Num efeito dominó reverso as outras estações foram sendo religadas e a energia aos poucos ressuscitou naquela cidade imersa num colapso. O relógio marcava 18:18 h. À medida que a energia voltava e as lâmpadas acendiam ouviam-se gritos, assovios, palmas, uma sensação de alívio, pessoas choravam, outras se abraçavam, estava afastada a entrada naquela zona de trevas que traz no íntimo de cada um o medo ancestral do escuro com toda a insegurança e espectros imaginários embutidos nas células dos seres humanos. Apenas o perímetro em torno da estação acidentada continuou sem eletricidade. A cidade começou a voltar à sua normalidade, de milhões de pessoas apressadas, de milhões de veículos lutando por espaço no asfalto, de milhões em negócios feitos e desfeitos, de um sem número de encontros e desencontros de pessoas a procura de algo ou alguém, a rotina tão conhecida e tão confortadora.
      Edgar respirava compassadamente traçando um roteiro do que deveria ser dito para explicar o que havia acontecido e de seus infortúnios, e das sugestões que faria para evitar que algo semelhante acontecesse novamente, de como era estúpido e perigoso deixar tanta responsabilidade nas mãos de somente duas pessoas. Perto dali um ajudante de pedreiro sonhador e assustado decidiu calar para sempre sobre seu ato impensado e algo mecânico de testar a pontaria com cascas de frutas. Apesar de ser ajudante de pedreiro ele era esperto e inteligente o suficiente para perceber a sequência de fatos e a consequência destes fatos, e viu que poderia ser acusado de ter sido o causador daquela confusão monumental e dos prejuízos incalculáveis decorrentes daquele dia infernal. Ficou tão agastado que, num reflexo sutil e não percebido de pronto, jamais comeu outra banana em sua vida, assim como ficou bastante tempo sem olhar para o céu em contemplação.
      A noite chegara límpida, estrelada, inspirando calma; sem saber o que havia acontecido durante o dia, toda a balbúrdia, toda a consequência de uma rotina quando sai dos trilhos, a noite não precisa saber destas coisas. Uma cidade exausta foi dormir para acordar no dia seguinte e contabilizar seus prejuízos materiais e morais. Edgar chegou cedo a seu departamento pronto para assimilar todos os golpes que sabia que iria receber. Já um batalhão de repórteres se apossava do hall de entrada e da sala de imprensa e um diretor com cara de pouquíssimos amigos fuzilara-o com o olhar, o mesmo diretor que não fora localizado no dia anterior, pois saíra para almoçar com uma atraente lobista de uma empresa alemã de equipamentos elétricos e desligara seus celulares para não ser incomodado.
       O Dr. Cristallos Peidonides candidamente havia enviado para a Secretaria de Fazenda, com cópia para o gabinete do Prefeito, uma correspondência relatando como havia conseguido estancar o problema, usando de seus vastos conhecimentos e de sua presteza em atender ao pedido de seu atento aluno, e a título de gratificação pelo serviço prestado cobrava a módica quantia de Um milhão de euros, uma ninharia perto dos prejuízos ocorridos, finalizava ele em sua correspondência com alguns erros de português, fato este bastante desculpável pelo fato de sua origem, sua poliglossia e por ser o Português uma língua difícil.
     

                                                                                 Ivan Henrique Roberto   maio/2008

Um dia inesquecível (parte 2)

                                                                             Uma linha traçada desde o zênite até esta cabeça de homem em pé no meio-fio não serviria para nada, a não ser para, de alguma forma, traduzir o estado de desalento e impotência deste homem e levá-la de volta para lugar nenhum, pois mesmo que houvesse alguém ou algo para receber esta mensagem, de nada adiantaria, pois, nada nem ninguém poderia acudi-lo quando o estrondo da explosão foi ouvido pelos dois homens, assim como por milhares de pessoas que moravam num raio de três quilômetros.
      Um grande estrondo ressoava pelo ar, logo centenas de pássaros revoavam atordoados, os cachorros ganiam desesperados e se encolhiam procurando abrigo. O som da explosão foi sumindo e em seguida e por um breve instante pareceu ter havido um silêncio inédito naquela cidade que não silenciava nem durante a noite. Um momento em suspensão como um lapso de tempo. Mas logo voltou aquele ruído de fundo que nunca pára, aquele emaranhado de sons, alguns próximos, outros mais distantes. Os moradores das casas vizinhas começaram a aparecer, querendo entender o que havia acontecido, já aos celulares para saber dos vizinhos e moradores próximos o que estava acontecendo. Hipóteses começaram a brotar; uns dizendo que era um ataque terrorista, outro dizia que tinha ouvido um avião voando baixo, um terceiro achou que era um meteoro vindo do espaço sideral, uma senhora já rezava fervorosamente dizendo no intervalo das frases da oração que era castigo divino pelos pecados inumeráveis daquela vizinhança, não obstante serem pessoas comuns vivendo dentro das normas sociais aceitas. Um bêbado trôpego enrolando a língua dizia que havia passado da conta porque aquele último trago tinha dado um estrondo no seu ouvido.
     Com as mãos na cabeça e olhar perdido Edgar pensava nas consequências daquele evento, e no que teria de dizer para explicar porque não havia impedido que uma estação tão moderna e segura tivesse dado aquela pane. Pedrinho ao seu lado já um pouco mais refeito se prontificou a acompanhá-lo até a estação, num impulso para minorar uma situação que ele sabia ter implicação direta, e sem nem se dar conta que poderiam se deparar com um inferno de chamas.
- Vamos senhor, vamos ver o que está acontecendo.
- Sim, vamos. Ligarei para a brigada de incêndio, ligarei para os bombeiros, ligarei para o meu diretor, preciso fazer alguma coisa!
        Três quadras adiante já se podiam ver os rolos de fumaça escura subindo para as nuvens, assim como já se ouviam as sirenes dos primeiros carros de bombeiro que chegavam. Com bastante rapidez já começaram a isolar a área e agir para contornar o problema. Muitos curiosos já se aglomeravam no local e helicópteros sobrevoavam para dar notícias em primeira mão para as rádios locais. Logo os primeiros semáforos começavam a apagar e piscar intermitentes, e a primeira colisão aconteceu. Num efeito dominó tão preciso quanto terrível os semáforos foram se apagando, e os motoristas, que muito se assemelham a um rebanho descontrolado que precisam de um pastor que o conduza, logo perceberam a confusão que se instalava. Buzinas dos mais diversos sons e formatos já eram ouvidas próximas e à distância e mais e mais colisões aconteciam.
       A estação acidentada servia de central de comando para as demais subestações da rede, era considerada como sendo muito avançada tecnologicamente, tão avançada que quase prescindia da presença de seres humanos para operá-la, era motivo de orgulho da empresa de energia e até motivo de visitação turística para o bairro antes tão tranquilo. Mas nem tudo pode ser previsto pelos engenheiros e analistas e a mensagem truncada que havia chegado ao laptop de Edgar era o resultado dessa imprevisibilidade. Agora ela ardia em chamas e os primeiros carros de bombeiros que chegaram não conseguiam dar conta de tamanha tarefa. A brigada de incêndio foi localizada, o quartel dos bombeiros foi avisado. Porém a reação em cadeia havia começado, o trânsito em questão de minutos já saíra de controle e as novas viaturas dos bombeiros já tinham muita dificuldade para avançar. A energia ia sendo desligada à medida que as subestações iam sendo bloqueadas após o acidente com a central. Menos de quinze minutos se passaram após a explosão e já metade da cidade estava com os semáforos desligados. Eram 12:30Hs quando a explosão aconteceu, a esta altura centenas de elevadores já estavam parados nos edifícios com milhares de pessoas em seu interior.
        A sociedade humana moderna é um espanto de avanços tecnológicos, artifícios engenhosos que deixam muitos de queixo caído e enchem de orgulho os otimistas que creem cegamente no progresso material da humanidade, e muitas vezes parece que ao subirem demais largaram a escada para trás. Tantas pessoas presas nos elevadores modernos a esta altura devem estar pensando: O que foi que aconteceu? Porque está demorando tanto? Eu tenho compromissos inadiáveis e não posso faltar, eu tenho uma entrevista em meia-hora, eu tenho que ir ao dentista, eu tenho medo de ficar apertado, eu tenho medo de ficar junta com todas estas pessoas, porque está demorando tanto?
        As linhas telefônicas de atendimento de emergência da distribuidora de energia já estavam congestionadas, mas ainda não se sabia ao certo o que havia acontecido. Os escritórios movidos a computadores começavam a parar, os supermercados conectados em rede começavam a parar, ainda era dia muito claro, mas a informação nos caminhos virtuais começava a escassear sem a energia para carregá-la nas costas e chegar aos seus destinatários, todos ávidos e dependentes da informação e da tecnologia mais avançada para disciplinar suas vidas. Muitos braços começavam a ser cruzados, sem ter o que fazer, e com isso crescia a ansiedade. Muitos rostos já estavam debruçados nas janelas olhando a balbúrdia dos carros.
       Nas ruas reinava uma confusão total, nenhum semáforo estava funcionando, atravessar um cruzamento era questão de sorte ou de fazer valer a lei do mais forte. Os pedestres, coitados, dificilmente conseguiam chegar na outra calçada, o caos em comunhão com a discórdia fatalmente lega a gentileza e a civilidade a um segundo plano, salve-se quem puder é a norma de comportamento, num ponto onde séculos de cultura, a busca do refinamento e da educação e as regras de boa convivência são apagadas em pouquíssimo tempo.
       De volta ao local da explosão, Edgar tentava um contato com seu diretor, que a esta altura já havia saído para almoçar. Seu celular estava fora de área, suas tentativas foram em vão, ninguém estava disponível para auxiliá-lo nesta confusão. “Maldita casca de banana” pensou, “teria chegado a tempo; quem foi o desgraçado que a jogou na rua? Agora tô eu aqui na pior, e o que eu vou dizer? Daqui a pouco a imprensa chega e logo vai querer saber a causa da explosão, e todos sabem que no final sobra no lado mais fraco da corda”. Todavia a imprensa não conseguia chegar preto, ninguém conseguia chegar perto, só os helicópteros no alto davam notas esparsas a partir de seu ponto de vista. Como as coisas costumam acontecer em cadeia, os hidrantes próximos apresentavam defeitos, com pouca vazão de água, canos furados por falta de manutenção decente, desvios de água, entre os principais problemas, sem contar que até uma Kombi velha já havia sido achado na tubulação de água, quem dirá a quantidade de coisas menores que ficam entulhadas nos canos? Os bombeiros que já estavam no local logo perceberam que a batalha era inglória e as outras equipes não chegavam.
      Duas horas já haviam escorrido pelo ralo daquele dia que já estava infernal. As escolas começavam a interromper as aulas, as lojas prudentemente desciam e fechavam suas portas, os ônibus nem conseguiam trafegar, mas já estavam lotados, e nem era hora do rush ainda. Muitos motoristas largavam seus carros e saíam andando, até uma Maseratti de 500 CV, tão potente e tão veloz, parada num cruzamento, estática, mostrando suas belas formas de design italiano poderia ser ultrapassada por um ciclista em sua modesta companheira de 2 rodas movida a tração humana. Ambulâncias com sirenes no máximo de volume e a muito custo conseguiam abrir caminho. Poucas delas conseguiram chegar aos hospitais e clínicas, os obituários dos jornais no dia seguinte tiveram suas colunas aumentadas.
       Os rumores circulavam, se espalhavam, criando vida própria de acordo com o interlocutor: dizia-se que era um ataque terrorista, ou que um bando armado havia tomado de assalto um shopping de luxo, mantendo dezenas de reféns, ou mesmo que um vazamento radioativo havia se espalhado após o tombamento de um enorme caminhão-tanque, já com muitas vítimas fatais num raio de 2 Km do acidente. A tensão subia em espiral, o medo já se espalhava e contagiava os cidadãos já tão sobrecarregados com os problemas cotidianos. Muitos que tinham ouvido a explosão reforçavam a ideia de um ataque terrorista, mesmo que nunca tenha havido nenhum registro deste tipo na história recente desta cidade, nem na história mais recuada.
        A unidade de gerenciamento de crise da prefeitura havia sido avisada do que de fato havia acontecido, e procurava divulgar mensagens na tentativa de orientar, articular uma saída, estabelecer um pouco de ordem no que parecia ser, a esta altura, um quadro de calamidade pública, só que mais da metade da cidade já estava sem energia e os comunicados por televisão não poderiam ser divulgados. Por rádio somente nos automóveis, caminhões, vans, táxis, etc., é que poderiam ter um alcance maior, porém ninguém conseguia se locomover. A articulação estava bastante dificultada, só os celulares ainda tinham algum poder de comunicação rápida.
       Quatro horas da tarde o fornecimento de água já estava ficando comprometido, pois as bombas, na grande maioria elétricas estavam impavidamente paradas, as que funcionavam a diesel gastavam rapidamente seu combustível. Nesta altura do dia começaram os primeiros saques, muitas lojas que teimavam em ficar abertas ficaram desguarnecidas e o policiamento lutava desesperadamente para conseguir controlar o incontrolável, então vários bandos se aproveitavam da situação, como cães selvagens que cercam a presa aturdida pela espiral frenética de confusão e desordem. Daí para o confronto foi um pulo, pois várias brigadas das forças de segurança já haviam conseguido se deslocar. Na zona de comércio mais popular por volta das 16:30 hs. o som de garrafas quebradas, vidros quebrados, gritos, correria, já era a tônica. Carros saqueados, lojas saqueadas, ambulantes atacados, pessoas roubadas; a pilhagem já começava a correr solta, o tênue equilíbrio da vida em sociedade estava por um fio, com uma facilidade muito além do aceitável este equilíbrio muitas vezes é rompido. Balas de borracha, gás de pimenta, gás lacrimogênio entupiam o ar e uma praça de guerra se apossou de uma praça onde artigos para consumo, presentes, mimos, brinquedos, eram vendidos e compradas pacificamente , levando alegria e satisfação para tantas pessoas.

Um dia inesquecível (parte 1)

                                            Um dia inesquecível  
                                         maio/2008

          “Nosso campo de visão é muito pequeno, nosso tamanho é tal que só vemos uma minúscula fração de uma grande teia, dentro de uma teia muito maior, que alguns só de pensar nela perderam sua sanidade, e outros, só de tentar se cansaram logo, desistiram e foram tomar café. Quando olho para o céu traço uma reta entre minha cabeça e o zênite, e penso se esta reta teria fim ou se tocaria o solo de alguma estrela ou planeta distante. Acho que no máximo rasparia em algum satélite em órbita, ou menos ainda, esbarraria num avião muito alto em sua rota, insuficiente para derrubá-lo, não, Deus me livre de pensar numa maldade desta! Neste momento acho melhor para de pensar em tanta besteira, que não sou pago para isto, e comer minha banana saborosa. ”
        “Acho que vou jogar a casca lá no chão da rua, ninguém está vendo mesmo”. Tal discutível ato de falta de civilidade, para não dizer de falta de higiene teve lugar nesta rua tranquila onde uma casa estava em reforma, e na laje do segundo andar Pedrinho Júpiter, auxiliar de pedreiro e astrônomo nas horas vagas, assentava a massa da construção. Esta era uma combinação pouco comum, uma pessoa ser ao mesmo tempo auxiliar de pedreiro e astrônomo, mas Pedrinho Júpiter sempre gostou de olhar o céu, o céu o fascinava. Não que ele fosse astrônomo de verdade, daqueles que estudaram física a sério e fizeram estágio no Monte Palomar ou no Havaí, ele só gostava de ler sobre o assunto e ver programas na televisão que mostravam belas imagens dos planetas e das luas, das estrelas, das galáxias. De tanto olhar o céu, mesmo nos horários de trabalho, é que Pedrinho ganhou o “sobrenome” Júpiter.
        A casca de banana foi se instalar na calçada, próxima do meio-fio. Ao mesmo tempo um homem havia dobrado a esquina, e vinha andando próximo dos muros e portões das casas, com bastante pressa, quase correndo. Na casa vizinha à casa em reforma uma pedra solta fez com que desviasse em direção ao meio-fio. O homem desviou da pedra, mas como estava andando muito rápido não teve tempo de desviar da casca de banana e vupt! Pisou em cheio e escorregou feio. Caiu estatelado, de queixo no chão, largando sua pasta que bateu com força também e espalhou seu conteúdo: diversos papéis voaram pela rua vazia, alguns até caíram num bueiro colado ao meio-fio.
O homem desmaiou ao bater com o queixo no chão, mas naquela rua vazia e sem trânsito naquela hora ninguém presenciou esta cena.
      Bem, uma pessoa viu a cena. Pedrinho Júpiter viu a consequência de seu ato. No momento ficou pasmo e ao mesmo tempo envergonhado quando viu o homem caído no chão. Passados alguns minutos, ao se dar conta de que ninguém aparecia para socorrer o homem, resolveu descer para ajudar pois sabia que também ninguém o havia visto jogar a casca. Chegou próximo ao sujeito que começava a acordar, com o queixo raspado e sangrando de leve. - Olá amigo, que tombo feio hein? Você está bem?
       -Sssimm acho que estou... estou só um pouco tonto…onde está minha pasta?
       -Aqui está sua pasta.
        O homem recobrava sua consciência e sua memória, e quase deu um salto...
      -Meu Deus, onde está o papel com a senha??? Gritou desesperado, mexendo nos papéis que havia juntado, nem sentia a dor no queixo quase quebrado.-Eu preciso da senha! Olhou no relógio e ficou mais pálido ainda.
      -Quanto tempo eu fiquei caído aqui?
      -Cerca de cinco Minutos, disse-lhe Pedrinho já assustado.
      -Ai caramba, não vai dar tempo, vai ser o caos total! Total! Total!
        A cerca de dois minutos dali existia uma estação de energia, que servia como uma chave de segurança para o sistema de distribuição, e que atendia à cidade e as cidades menores ao redor. O homem acidentado estava se dirigindo para ela, ele era o operador mestre do sistema e carregava consigo a pasta com as senhas de segurança, pois havia recebido um aviso em seu laptop que uma falha muito incomum havia ocorrido e ele precisava chegar a tempo para tentar corrigir. O pneu de seu carro havia estourado duas ruas antes desta, ao passar sobre um parafuso que caíra de um caminhão. A esta altura já bastante nervoso largou o carro onde estava e saiu quase correndo pela rua.
    A estação era quase automática, poucos funcionários trabalhavam no local e só Edgar (este era o nome do homem) no momento tinha acesso irrestrito ao sistema e às senhas. Outro colega seu, com o outro código de acesso estava de férias.
      Pedrinho começou a ficar realmente preocupado, apesar de ser auxiliar de pedreiro ele sabia bem o significado da palavra caos, e sabia também que o tal do caos tinha alguma coisa haver com ele, pois sem aquela casca de banana Edgar teria chegado na tal estação. Teria chegado mesmo?
-Senhor, a que caos o senhor está querendo dizer?
-Estou dizendo que agora é tarde e eu não vou conseguir acessar o sistema e conseguir impedir a explosão.
“Explosão”. Agora Pedrinho gelou por dentro, a mal conseguiu balbuciar...
-Ex..Ex....plosão, tipo explosão com muito barulho, destruição, fogo?
-Sim, mas não que vá atingir as casas próximas, só que a energia vai ser cortada e eu não sei por quanto tempo vamos ficar sem energia, nós eu quero dizer todo mundo, toda esta cidade, com seus milhões de habitantes, elevadores, hospitais, semáforos, geladeiras, computadores, lojas, indústrias, ........
-Mas, e os geradores?
-Os geradores só garantem por algum tempo, e eu estou falando de muito tempo sem energia, entende? 
     Pedrinho se aprumou um pouco e falou: - Venha, que eu o ajudo a chegar lá, talvez dê tempo?
- Mas sem o papel com a senha principal não adianta!
           Pedrinho olhou para dentro do bueiro nesta hora e viu um papel pardo, só que todo molhado e sujo.
-É um papel pardo?
-Sim, ele está aí?
-É, mas...acho que já era...
        Edgar já de pé olhou para dentro do bueiro e constatou o óbvio:
-Fudeu!!!!!

domingo, 1 de outubro de 2017

Oto (3ª parte)

Quando se levantou num susto, Oto deixara cair um dos relatórios que estavam cobrindo sua cabeça, abafando-o. Eram 00:45 h já na madrugada e seu peito parecia uma turbina dentro de uma indústria. Levou alguns segundos para se recompor e se lembrar que estivera sonhando. Um sonho lindo à princípio que se transformara num pesadelo assustador. Oto apruma-se no sofá e pensa tantas coisas ao mesmo tempo, como uma vertigem. Como o abismo que estivera prestes a cair segundos atrás. Ainda respira com dificuldade, mas pouco a pouco coloca seus pensamentos em ordem. E a palavra mágica voltou na memória: “ Eu disse um NÃO muito firme e o foi o que me salvou. Quando foi que eu disse um não deste tamanho? Acho que nunca”. Ele estava um tanto surpreso consigo próprio, o súbito despertar parece ter pego Oto num momento em que sua guarda estava totalmente baixa, ele estava indefeso para os rótulos que se prendem às pessoas e naquele momento, mesmo que uma fração infinitesimal do tempo, ele experimentou a possibilidade de ser completamente diferente do que vinha sendo por tantos anos. A madrugada abriga em seu cerne esta estranha propriedade ambivalente, de clarear a mente elucidando questões complexas e arraigadas no mais profundo íntimo, e ao mesmo tempo desmascarar as amarras sutis ainda que perversas, que tolhem os movimentos das muitas pessoas incompletas, cujo brilho fica mais e mais baço e terminam por abrir mão de seus sonhos e seus desejos, por medo, vergonha ou o quer que seja.
     Esta fração minúscula de vida logo passou e Oto já se levanta, esfrega os olhos e custa a acreditar que tal pensamento tenha ousado cruzar seu cérebro tão organizado. Ainda com o coração acelerado e intranquilo ele se depara com a grande quantidade de relatórios, pedidos e anotações que preenchem sua rotina. O sono volta a requerer sua atenção, mas ele estava um pouco assustado com a experiência e com as lembranças muito vívidas, ali como se defronte de seus olhos. Aquele rosto moreno e atraente deixara-o desorientado. A Lua muito clara parece encará-lo, pedindo uma resposta. Mas que resposta? A madrugada é um território que Oto não têm muita afinidade, o território dos boêmios, sonhadores e românticos, o oposto de sua figura pública tão ordeira e convencional, quase insípida diriam alguns. Oto liga seu sistema de som bem baixinho para não incomodar os vizinhos e tenta arrumar companhia na forma de música. Sua cafeteira elétrica está de novo em ação. Seu senso de dever e sua retidão falaram mais alto e ele já está recomposto, com energia revigorada para enfrentar mais algumas horas de trabalho árduo ainda que gratificante, segundo seu ponto de vista. Bom, é a vida, dinheiro não brota de um cartão magnético simplesmente.
     Quatro horas da manhã e quase três horas de trabalho ininterrupto são testemunha da grande quantidade de relatórios, gráficos e soluções elegantes para problemas enervantes que Oto têm a oferecer à seus clientes. O cansaço finalmente interrompe esta sequência frenética e Oto praticamente desmaia, e desta vez dorme por horas à fio. Acorda às 11:30 h de uma sexta-feira normal, toma um banho restaurador e um café da manhã farto e saboroso, como há muito não fazia. Ouviu seu rádio por um bom tempo e decidiu voltar ao trabalho, havia avançado muito nas suas pendências, mas ainda faltava bastante. Rotina, não mais que rotina.
             Já estava escurecendo e a cidade já se preparava para uma agradável noite de sexta-feira, milhares de ligações simultâneas arrumavam os passeios, programas, festas, noitadas, diversão saudável ou não. O telefone de Oto como sempre estava mudo, quase inútil nestas horas, e ele seguia firme como um nadador olímpico que draga uma piscina com suas braçadas firmes e largas. A memória de seu laptop ia ganhando mais e mais arquivos e gráficos, relatórios e recomendações, e Oto estava muito contente consigo, seu trabalho fluía e seu orgulho crescia.
    Dez horas e Oto firme, com seus dedos velozes no teclado. Onze horas e Oto boceja um pouco, a máquina range um pouquinho, precisa de óleo? Lá vai a cafeteira de novo esguichar o bom e quente líquido, que fez fama e fortuna de muitos neste Brasil. Um copo, dois copos, onze e meia da noite Oto acha que têm a força. “Para melhorar a iluminação do galpão duas carreiras de lâmpadas econômicas correndo paralelas podem proporcionar um aumento de até 30% na visibilidade, permitindo um incremento na produtividade dos trabalhadores envolvidos diretamente no manuseio........O Everest é uma homenagem aos colonizadores ingleses, o verdadeiro nome da montanha mais alta do mundo é Chomolugma, é injusto que deem este nome estrangeiro.........É impressão minha ou eu estou sendo perseguido por um dragão de escamas vermelhas e púrpura?.....Ahnnn? Oto sacode a cabeça e pensa: “De novo? Meu pensamento já está escorregando de novo”. Ele fica apreensivo ao se lembrar da noite anterior e do sonho aterrador que vivenciara. De um salto se levanta da mesa e percebe que o ar está mais difícil, sua narina direita se fechara um pouco, sua língua está um pouco ressecada. “Água, água pura, um grande gole vou tomar. Que sede! Só percebi agora! Tanto trabalho que eu até esqueço de beber água, esqueço de comer e de marcar consulta no médico. Esse nariz está me atrapalhando”. Oto teima em continuar após matar a sede e respirar fundo, assoando o nariz com força para ver se respira melhor daí em diante. Já seus dedos voltam para seu teclado bastante gasto com tantos toques frenéticos, falta pouco trabalho agora e ele pensa em terminar ainda esta noite e se possível deixar o fim de semana para um merecido descanso. Poucas frases restam para completar o último trabalho do dia. Ou da noite? Oto nem sabe ao certo que horas são. Pequenos pontos luminosos dançam e se sacodem nos cantos de seus olhos, talvez pelo cansaço, muito pelo esforço, pela dedicação de querer sempre cumprir os prazos que se auto impõe. Oto têm princípios sérios e sólidos, mas tudo custa um preço, seja pela ausência, pela falta de uma vida social, pelo descuido com a saúde, pelo adiamento constante de antigos projetos, planos e sonhos quase apagados da memória. Aquele rosto moreno não abandonava mais seu pensamento.
      Só mais uma frase e mais um cliente satisfeito, que com sorte lhe pagará com somente uma semana de atraso. Sua cabeça bamboleia e Oto sucumbe à uma agradável sensação de desligamento da realidade. A última frase não é finalizada. Oto agora estirado no sofá deixa cair seu laptop no chão, mas nem percebe, nem liga, nem escuta. A viagem começa............

      Dentro de uma densa camada de neblina que pulsa como se tivesse vida palpável, emitindo clarões de uma luz fraca e laranja entremeada com fagulhas vermelhas, o chão se move como se fosse uma esteira rolante levando Oto para algum lugar desconhecido. Ele não teme nada, apenas sente aquela sensação agradável de desligamento da realidade, que vai se tornando mais forte à medida em que ele se dirige para um grande maciço de pedra escura e disforme. Logo começa a atravessar um túnel pequeno e afunilado, seu corpo inclinado como uma lança. No outro lado da parede uma claridade cresce, mas não ofusca seus olhos, uma claridade multicolorida que dança como chamas de um fogo frio. É de uma beleza estonteante e traz uma curiosidade seguida de uma sensação de conforto, que logo chega, cerca Oto e o banha de uma luz suave. Uma recepção cordial e aconchegante que carrega junto uma sensação de leveza e repouso. A neblina densa ficara do outro lado do muro de pedra escura. Oto acomoda seus olhos ao novo ambiente, um vale deserto com pedras dispostas num desenho geométrico. Com surpresa ele começa a perceber o padrão na disposição daquelas pedras, algumas muito claras, outras de um tom cinza grafite. Nenhuma vegetação aparente somente pedras num chão macio. Este ambiente apesar de agradável é um tanto estranho, nada natural. As pedras dispostas desta maneira lembram um santuário e ele lembra-se de Stonehenge. Aproxima-se de uma das pedras e quando toca em sua superfície um som agudo penetra-lhe os ouvidos. No centro da formação rochosa as pedras maiores começam a se mover e um buraco no chão aparece. A curiosidade superou o medo, Oto se aproxima e vê uma escada que se perde no escuro. Um som como um canto melodioso se faz ouvir, um som que puxa irresistivelmente o curioso Oto para dentro daquele buraco.
      Os degraus são macios e quando pisados emitem luzes de variados matizes, a parede brilha como se estivesse cravejada de cristais e brilhantes, o som melodioso cresce e aguça a curiosidade de Oto. A escada parece interminável ainda que suave e agradável. As amarras que prendem Oto às convenções foram retiradas e ele parece flutuar, experimentando uma sensação de liberdade desconhecida até então. Ao final da escada ele se depara com uma porta sem tranca nem fechaduras aparentes, daí ele se vira para olhar para trás e uma escuridão absoluta tomou conta do caminho. Volta-se para a porta fechada e agora ela emite uma sequência de luzes que vai aumentando de velocidade até que toda a porta fique acesa como em brasa. Subitamente ela se abre e uma luz intensa faz com que os olhos de Oto se fechem imediatamente. Pouco depois ele se acostuma com a claridade súbita e vê algo como um lago imenso, e ao longe nuvens muito baixas que rodopiam ao redor de uma estrutura gigantesca. Tudo é muito inusitado neste ambiente incomum. Um desejo enorme se apossa do pobre Oto quando o canto melodioso retorna a seus ouvidos e agora ele tem certeza que o som vem daquela construção no meio do lago. Mas como chegar até lá? Ele se aproxima da margem do lago esperando encontrar algum barco ou bote que seja. Um caminho translúcido se destaca no meio da água e Oto como que puxado por uma força maior que sua hesitação apoia um pé e depois outro e nisso o caminho se ergue afastando as águas. O pobre Oto segue firme, quase correndo, o canto sedutor aumenta sua frequência cardíaca e seu desejo de chegar naquele lugar desconhecido envolto por uma luz cálida emitida por nuvens que rodopiam como dervixes em transe.
    No caminho até o edifício, no meio do lago, formas desconhecidas se mexem dentro da água, sombras escuras nadam próximo a superfície. Aquela sensação de conforto e calma começa a ficar perturbada pois à medida que Oto se afasta da margem do lago, o céu ou a abóboda muda de cor, ganhando tons mais escuros e parecendo mais baixo do que no princípio. As águas sobem e cobrem o caminho suspenso até o edifício, atrás de Oto o lago antes tão calmo começa e se encrespar e ficar revolto, uma convulsão surgindo do nada. As formas que nadam pouco abaixo da superfície agora estão maiores e em grande número, turbilhonando mais e mais a água. Oto já havia passado da metade do caminho até a construção e sente-se cada vez mais pressionado pelo espetáculo às suas costas. Começa a correr quando rugidos ameaçadores agridem seus ouvidos e ele já não têm coragem de olhar para trás. Ele só sente uma vibração muito forte próxima de sua cabeça e sua respiração já está muito acelerada quando ele finalmente alcança o edifício no meio do lago. Mal toca o solo e uma pesada porta de granito logo se abre e ele se joga para dentro do desconhecido. Em segundos (ou o que parecia ser um tempo bem curto) ele observa o interior daquela construção tão imponente. Um grande salão com piso de mármore e ao centro duas colunas que sustentam um arco com símbolos desconhecidos esculpidos. Parecem letras de um alfabeto estranho. Nas paredes deste salão muitas imagens com figuras bizarras entremeadas com as mesmas letras do arco. De repente surge entre os arcos um globo incandescente que gira em grande velocidade puxando Oto para junto deste. Oto está muito aflito com estes acontecimentos, e se sente completamente só e desamparado neste mundo estranho, onde até então não havia visto nenhum ser humano. Vai se aproximando do globo iluminado, não consegue recuar pois seu corpo não lhe obedece mais e um ruído crescente preenche aquele salão. Apesar da aparência de fogo do globo giratório Oto não sente calor, só apreensão pela situação fora de controle. Por fim ele é engolido pela esfera e ao abrir seus olhos novamente se vê no centro de outro salão menor que o anterior, mas percebe várias pessoas ao seu redor, como se estivesse num anfiteatro e ele no centro do espetáculo.
     Figuras com ar severo e olhos inquisitórios o observam em profundo silêncio. Oto gira ao redor de seu corpo para olhar aqueles rostos, mas nenhuma palavra sai de seus lábios, apenas os olhares frios e hostis que parecem atravessá-lo. Um temor crescente vai amolecendo suas pernas e pesando seus braços, e um tremor impede que seu corpo obedeça a seu comando. Aquele momento pareceu infinito para ele, sentindo-se nu e desamparado no meio de uma tempestade iminente. Tudo parece tão real e assustador e ele se pergunta o que está acontecendo e porque está acontecendo, por que ele sempre tão ordeiro e inofensivo está naquela situação? O que terá feito de errado? Parece um julgamento. “Meu deus, será que eu morri e aqui é o lugar onde dizem que as almas são julgadas, onde seus feitos são medidos e pesados para saber se podem ir para o céu ou não? ” Ele pensa reconhecer alguns rostos dentre aqueles que o observam com olhares gélidos. “Aquele ali me faz lembrar um diretor de uma siderúrgica que eu prestei serviço, aquele outro mais acima parece o advogado de uma metalúrgica que eu ajudei a reverter uma situação de grande risco, aquele de olhar faiscante na última fileira é idêntico ao gerente daquele frigorífico cujas instalações estavam muito precárias, eu ajudei a consertar e ele só me pagou dois meses depois do combinado. Por que eles estão me olhando assim de modo tão acusatório? Eu só fiz o bem para eles! ”
        Neste momento a voz que o havia atraído para dentro da escada do buraco é ouvida no salão, o mesmo som suave e atraente. Por um instante Oto se sentiu seguro e fortalecido e aquelas pessoas ao redor arrefeceram o olhar frio e feroz. A luz do salão mudou repentinamente e todos pareciam se curvar em reverência. Uma atmosfera solene se apossou daquele aposento antes tão lúgubre. A luz antes escura e soturna havia aumentado de intensidade e brilho, revelando paredes ricamente enfeitadas com imagens muito diferentes de tudo que Oto havia visto até então em sua vida. Ele olhou para o teto que girava parecendo a abóboda celeste, mas as estrelas estavam dispostas de forma muito diferente da configuração que temos no hemisfério sul. Constelações diferentes de todas as conhecidas estavam estampadas naquele teto giratório. Oto não conseguia se virar para ver quem era responsável por toda aquela mudança que havia acontecido subitamente. Tinha a impressão que deveria ser uma figura feminina, a julgar pela voz encantadora que o havia atraído, além do perfume que impregnava o salão. Este perfume o havia deixado mais tranquilo, mas ele não sabia dizer porquê. A curiosidade agora era tamanha que ele, fazendo um grande esforço, estava se descongelando lentamente, mexeu primeiro um braço depois outro, mexeu um pé e a outra perna, mexeu a cabeça para baixo e para o lado. Daí então ele se virou para ter uma surpresa inesperada e uma visão que o paralisou tão profundamente quanto estava antes.
_   Myrna !!!?!????!!!
   Uma presença estonteante e aterradora ao mesmo tempo dominava o anfiteatro, onde as figuras se prostravam em reverência, numa mistura de temor e devoção entrelaçadas, uma presença que emitia uma luz fulgurante e um aroma inebriante à semelhança de uma divindade. Aquele rosto moreno estava de volta ao seu campo visual, só que de uma forma completamente diferente, aquela linda menina que se sentava na carteira ao lado da sua era só uma leve lembrança desta deidade que parecia surgida de mundos submersos pelo tempo. O pensamento e a razão de Oto estavam na mais total das confusões, o temor que crescia dentro dele nos momentos precedentes havia sido substituído pela visão incomensurável, que lhe ofuscava o raciocínio.
-Como você conseguiu desaparecer na última vez que nos encontramos?
   A pergunta foi feita diretamente para Oto que ficara mais destacado do que antes, iluminado diretamente por um facho de luz dourada, o que aumentou mais um pouco o seu desconforto, visto que ele era um homem bastante discreto que não gostava de destaque. A plateia aguçou mais a curiosidade pois sua Deusa parecia conhecer muito bem o convidado. A quantidade de rostos parecia ter se multiplicado e o salão aumentara de tamanho, de um anfiteatro para uma arena.
- Milhares de anos se passaram desde que você sumiu como uma nuvem de fumaça, e naquela ocasião você nos abandonou e nos ignorou, recusou meu pedido. Todos ficaram desiludidos, arrasados, perdidos e por fim foram destruídos. O abismo engoliu tudo. A mim foi permitido retornar e tomar esta manifestação como veículo. Me chamam de Rashkarmatara e este é o meu domínio. Você seguiu minha voz e minha voz foi uma isca, como uma sereia na antiga Grécia. Meu rosto é o mapa que o trouxe até as portas de meu reino, e sua dívida o deixará para sempre dentro destes limites. Você não poderá me negar novamente.
       Oto não sabe o que pensar, muito menos o que dizer. A confusão tornara-se um pavor de proporções inimagináveis. Como era possível que milhares de anos tivessem se passado se ele, que agora se lembrara aos poucos do sonho intranquilo que tivera na noite passada, estivera em sua presença na noite anterior. Nada fazia o menor sentido e ele não conseguia raciocinar como estava acostumado. Aquele rosto que passara a desejar com tanta intensidade agora estava ali na sua frente só que infinitamente mais belo e muito mais assustador também, com aquelas frases tão diretas quanto cruéis. Que dívida era esta, que recusa era esta que ele não sabia e não compreendia?
    -Oto eu já esperei demais por você. Você terá de decidir agora: você virá comigo ou ficará por eras sem conta neste palácio estéril?
     Colocado assim desta forma Oto está imprensado contra uma parede. Mais que uma parede, ele está sendo obrigado a decidir sobre algo que não sabe do que se trata, mas percebe a gravidade da situação, e o “eras sem conta neste palácio estéril” acendeu uma luz intensa na sua cabeça. Uma grande angústia se apoderou dele e ele percebeu que poderia estar morrendo. Só que o rosto de Myrna ou Rashkarmatara era um alívio muito grande, por ser de uma beleza indescritível, um bálsamo, um antídoto, um bote salva-vidas. A outra alternativa, a de ficar com ela, por mais absurdo que parecesse, já que como seria possível uma divindade estar interessada num sujeito tão simplório? Naquele momento era a sua salvação. E ele disse SIM mais uma vez em sua vida. O rosto tão belo de Rashkarmatara , tão severo até então, finalmente se abriu num sorriso encantador, se é que fosse possível ser mais encantador. Ela lançou um olhar meigo e disse:
         -Você fez a escolha certa desta vez. Pode ir embora!
      As paredes, a plateia, a abóboda, tudo enfim começou a se desfazer em pequenos pontos de luz que foram se tornando brancos e formaram uma névoa em forma de túnel, que girava numa velocidade absurda e vertiginosa...
      São 23:42 hs quando Oto abre os olhos com grande espanto. Então percebe uma almofada cobrindo seu rosto, atrapalhando sua respiração. Seu pulso está descontrolado e seu corpo está dolorido, pois estava deitado no sofá de sua sala numa posição bastante incômoda. Seu laptop estava no chão e sua xícara de café ainda estava quente. Menos de dez minutos de sono haviam transcorrido desde então e sua sala continuava igual ao que era antes, os mesmos móveis, a mesma arrumação sem criatividade, apenas funcional. Um alívio sem tamanho envolveu todo seu corpo quando ele percebeu que sua vida real e concreta estava de volta. Um silêncio imenso servia de moldura para aquele momento de despertar do sonho mais absurdo que jamais tivera.
      O impacto daquele sonho logo retornou e Oto foi tomado por uma melancolia tão grande quanto o alívio de seu retorno ao chão e à rotina. Prostrado no sofá as lembranças daqueles momentos tão intensos preenchem sua mente e a beleza sublime e surreal daquele rosto, sem que ele percebesse naquele instante, havia deixado uma marca indelével em seu espírito. Oto havia tocado o seu vazio, havia entrado em contato com o resto que faltava em sua existência. Mas isto é uma elaboração feita por alguém de fora, é claro. O que ele passou a sentir daí então foi como uma sede que nunca passa, como uma ilha ao longe que nunca se alcança, um sentimento muito vago que ele não conseguia captar. Ele havia escutado o canto da sereia, o rumo errado que naufragava os navios nos tempos antigos. Por incontáveis noites ele dormiu na esperança de encontrar novamente aquela divindade, mas em vão. Até que ele percebeu que precisava sair pelo mundo procurando. Mas isto é uma outra história.




                                                                           Ivan Henrique Roberto    16 de fevereiro de 2009