Tirem-os de lá até sexta-feira
(Baseado livremente na música “Get them
out by Friday”, do grupo Genesis, álbum Foxtrot de 1972)
- Tirem-nos de lá até
sexta-feira, se não, não pagarei vocês! Já dei a ordem para que sejam
removidos, espero ter sido bem claro. O projeto já está correndo e o tempo não
vai ficar esperando passar a preguiça de vocês. Espero que todo mundo tenha
recebido suas instruções e tenha entendido. Não quero e não suporto moleza!
Este projeto é revolucionário, é uma maravilha, o mundo inteiro vai ficar de
queixo caído!!! Tirem-nos de lá até sexta-feira, ou então não vão receber um
mísero puto, e não adianta ficar reclamando depois, nem ir na justiça, a justiça
a gente controla.
Assim costumava falar com seus
subordinados o Sr. John Peeble, a cabeça por trás da Styx Enterprises, empresa
incorporadora e sede do conglomerado, sempre ávida por novos terrenos, novos
espaços, novas oportunidades de negócios. “O mundo é uma selva, e só os animais
mais espertos e fortes sobrevivem” era o lema do Sr. John, frase que pontuava
sempre os seus discursos, quase um slogan permanente associado com a imagem de
seu rosto flácido e pálido, com olhos azuis perfurantes encharcados de uma
volúpia e uma avidez pecaminosa. Um homem de sucesso entre seus pares,
condecorado com o título de empresário do ano por três edições consecutivas.
Seu lema, em princípio aplicado ao mundo dos negócios, acabou por ser usado em
cada aspecto de sua vida. A Styx Enterprises, mais do que sua empresa, era a
sua própria extensão, sua razão de ser nesta encarnação.
Seu mais recente empreendimento era um
projeto novo, um novo conceito de moradia voltado aos novos tempos que
surgiriam, com a aplicação de recentes descobertas feitas pela pesquisa
genética aplicada, conduzida pelo Instituto Peeble Styx, cercada de grande
sigilo e muita expectativa. O segredo por trás da pesquisa fez surgir diversas
especulações. A curiosidade era estimulada pelo Sr. John, com dissimulações,
negativas, falsos boatos postos para circular por meio de seus contatos na
imprensa. Dizia-se que uma nova espécie estava surgindo, ou que a manipulação
genética criaria seres superdotados a serviço da Styx Enterprise, guiados pela
vontade soberana de seu mentor, cuja ambição não conhecia limites. Ele não
dizia sim, muito menos não, deixava fermentando este “bolo”, e quanto mais
boatos mais as ações de sua empresa ficavam valorizadas.
A base onde ficaria assentado este novo
empreendimento imobiliário ficava no pequeno subúrbio de Harlow, muitos quilômetros
longe do centro, um lugar até então meio esquecido pela onda da especulação
imobiliária que jogara os preços dos terrenos nas alturas. Harlow não chamava a
atenção, era um lugar de pessoas simples, discretas, pouco abonadas, em sua
maioria inquilinos e poucos proprietários. Grande parte dos blocos residenciais
tinha aquecimento central e um pequeno jardim coletivo, motivo de orgulho dos
moradores, que se esmeravam para cuidar, e até criaram um campeonato de
jardinagem, cujo resultado era ansiosamente aguardado ao final de cada ano e
divulgado numa grande festa.
A Styx Enterprise há muito vinha comprando
propriedades nos arredores de Harlow. O instinto aguçado de John Peeble
dizia-lhe que a bola da vez seria aquela região, justamente por ser tão
esquecida. Ninguém dava muita atenção aquele subúrbio sem graça, então a Styx
Enterprise pulou na frente e quando os demais jogadores daquele mercado se
deram conta, John Peeble já era o dono do pedaço. Dentre seus inúmeros colaboradores,
ou seus asseclas, se considerarmos o ponto de vista dos adversários, o mais
destacado era Mark Hall.
Mark havia adquirido um tique nervoso que o
fazia piscar com frequência, logo passaram a chamar-lhe (pelas costas, é claro)
de Pisca-Pisca. Com uma personalidade magnética ao contrário, se sentia atraído
e anulado quase sempre, quando em presença de alguém mais firme. Mimeticamente
passava a utilizar gestos, frases, jeito de vestir, opiniões das pessoas que
admirava. Um simulacro de indivíduo, bastante útil como instrumento a serviço
de interesses no mínimo escusos, ou como pau mandado, quando a ação a ser
executada era banal, insossa ou suja. Em síntese, Mark Hall sujava suas mãos
para que as mãos de Peeble ficassem imaculadas.
Existem muitos como ele. A evolução das espécies deve ter alguma
explicação para a existência deste tipo de indivíduo.
Mark Hall já estava pronto e de pé numa
segunda-feira nublada, fria, com nuvens baixas prontas a desabar sobre os
ombros dos infelizes obrigados à labuta diária, para alcançar o pão de cada
dia, que neste dia parecia chegar encharcado nas mãos comuns dos trabalhadores
anônimos. Mark olhava pela sua janela ensaiando as frases copiadas de seu
patrão e mentor, naquela missão especial conforme lhe dissera Mr. Peeble.
–
“Mark, meu fiel cão de guarda, quero que você vá
até Harlow e comunique aos moradores que eles precisam arrumar já um lugar para
se mudarem. Esta semana eu finalizei a compra de praticamente todos os
“cortiços” daquele pedaço inútil, e portanto, meu projeto precisa acelerar.
Diga aos que quiseram ficar, que continuarão inquilinos, só que MEUS
inquilinos, e que se quiserem participar como voluntários do meu projeto,
deverão assinar um termo de cessão de direitos, coisa simples. Eu tenho uma
minuta para você mostrar, caso alguém pergunte do que se trata. Diga-lhes que é
de interesse da humanidade.
–
Sim senhor Pebble, mas você poderia me adiantar
alguma coisa desse seu projeto, para que eu possa explicar melhor? Sabe, todos
estão muito curiosos, há muitos rumores circulando...
–
Que tipo de rumores?
–
Bem, ah sabe... estão dizendo que o senhor
pretende criar uma nova espécie, sei lá... não entendo bem estas coisas de genética.
Tem gente assustada, mas com medo de perguntar, e então pediram que eu tentasse
descobrir alguma coisa...
–
Ah, ah,ah,ah meu caro Mark! Você é um bom
colaborador, mas este assunto não é da sua competência. Cuide de fazer sua
parte, o resto você saberá depois, na hora certa. A revolução está a caminho!!.
Mark sabia que seria inútil conseguir
qualquer coisa dali. Levantou-se e foi cumprir sua tarefa.
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A mesma segunda-feira cinzenta nascera
para a Senhora Barrow. As mesmas nuvens pesadas, tão comuns naquela região, que
servem para dar bom dia aos trabalhadores modestos de Harlow. O sono
intranquilo a deixara apreensiva. Ela dava muita atenção a seus avisos. Chamem
de premonição ou qualquer outro termo, mas ela vinha tendo sonhos repetidos
onde ela e seus vizinhos eram lançados no ar por torvelinhos de vento, e ao
descer para o chão todos iam diminuindo de tamanho. Acordava assustada e
chamava por Mary, sua filha solteira, a única e que morava com ela, esta
enfermeira aposentada, que à custa de muito sacrifício e abnegação conseguira
criar Mary sozinha.
Toda manhã Mary andava pelas quadras
calmas de Harlow, até o terminal de ônibus que a leva para o trabalho. Como
moram há bastante tempo, assim como quase todos os vizinhos, não há perigo nas
ruas. Uma rotina com pouquíssimas alterações, uma comunidade pacata e, diria
até, bastante conservadora, que começou a notar a presença cada vez mais
constante de alguns homens desconhecidos. De início só ficavam andando pelas
ruas, e logo começaram a abordar alguns moradores, principalmente a turma que
se reunia no pub local. Depois de muitas cervejas as línguas ficam mais
relaxadas, e os estranhos começaram a demonstrar um interesse especial por
aquele pedaço afastado de subúrbio.
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–
Bom dia,
posso pagar uma rodada de Guiness ?
–
Por quê? Respondeu Joe Ordinary ao forasteiro
que não parava de piscar.
–
Deixe me apresentar: meu nome é Mark Hall e eu
represento a empresa de um cavalheiro, que recentemente adquiriu este prédio e
quase todas as casas ao longo da avenida. Estou fazendo um trabalho de
aproximação e convencimento aos moradores deste bairro. A Styx Enterprises está
interessada nesta região. Há um projeto grandioso em andamento, e eu fui
incumbido de trazer as novidades para os moradores. Digamos que eu seja o
porta-voz do Sr. Peeble, meu chefe.
–
Que projeto é este, quem são vocês, que história
é essa de comprarem todas as casas?!
–
Olha, os detalhes do projeto só o Sr. Peeble
sabe, infelizmente ele é muito centralizador. Antes de vir para cá eu tentei
descobrir alguma coisa, pois achei que seria melhor, para poder responder
perguntas como a sua, mas ele não disse nada, só falou que era um projeto
revolucionário, que o mundo ficaria espantado. Eu vim com a missão de
dizer-lhes que, quem quiser pode continuar sendo inquilino, faremos novos
contratos de locação, e junto com os novos contratos há uma cláusula de
consentimento que será melhor explicada depois.
–
Consentimento para que? Olhe, não estou gostando
nada dessa conversa...
–
Fique calmo, tudo se resolve. A Styx Enterprises
é uma empresa idônea, não vamos prejudicar ninguém, te dou minha palavra!
–
Ora bolas, eu nem lhe conheço, como vou saber se
sua palavra vale alguma coisa?
–
Tudo bem, por hora é só o que eu posso dizer. É
só um contato preliminar. Voltarei com mais detalhes na próxima semana. Só lhe
peço um favor: espalhe entre seus vizinhos o que acabei de contar.
Joe Ordinary ficou muito ressabiado com
aquele encontro e começou a contar para os vizinhos a estranha conversa que
havia tido. Logo um clima de inquietude e muitas dúvidas cresceu dentro dos
quarteirões de Harlow. Um dos vizinhos foi checar no cartório se de fato as
casas haviam sido vendidas. Quando ficou constatado que não só as casas da
avenida principal, mas 90% das casas haviam mudado de dono houve aumento da
sensação de insegurança. Pouquíssimos moradores eram proprietários. Como num
passe de mágica, quase que da noite para o dia, a maioria dos moradores de
Harlow havia mudado de senhorio. Ninguém havia sido consultado.
Na semana seguinte, não somente Mark Hall
havia retornado, como se fazia acompanhar por um carro com alto-falantes que
transmitia as novidades: “Senhores moradores de Harlow, como já é do
conhecimento de vocês a Empresa Styx se tornou proprietária de toda esta
região. Iniciaremos em breve um grandioso projeto imobiliário, acompanhado de
um ambicioso projeto de pesquisa genética a ser aplicada neste bairro.
Solicitamos aos atuais moradores, que, caso haja interesse em participar como
voluntário neste projeto, garantimos a continuidade de seus contratos de
locação antigos. Aos demais moradores que não tiverem interesse em participar
informamos que já arrumamos um lugar melhor para onde vocês possam ir, já que
este projeto é de interesse da humanidade. ”

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