segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Tirem-os de lá até sexta-feira

Tirem-os de lá até sexta-feira
       (Baseado livremente na música “Get them out by Friday”, do grupo Genesis, álbum Foxtrot de 1972)







-   Tirem-nos de lá até sexta-feira, se não, não pagarei vocês! Já dei a ordem para que sejam removidos, espero ter sido bem claro. O projeto já está correndo e o tempo não vai ficar esperando passar a preguiça de vocês. Espero que todo mundo tenha recebido suas instruções e tenha entendido. Não quero e não suporto moleza! Este projeto é revolucionário, é uma maravilha, o mundo inteiro vai ficar de queixo caído!!! Tirem-nos de lá até sexta-feira, ou então não vão receber um mísero puto, e não adianta ficar reclamando depois, nem ir na justiça, a justiça a gente controla.
     Assim costumava falar com seus subordinados o Sr. John Peeble, a cabeça por trás da Styx Enterprises, empresa incorporadora e sede do conglomerado, sempre ávida por novos terrenos, novos espaços, novas oportunidades de negócios. “O mundo é uma selva, e só os animais mais espertos e fortes sobrevivem” era o lema do Sr. John, frase que pontuava sempre os seus discursos, quase um slogan permanente associado com a imagem de seu rosto flácido e pálido, com olhos azuis perfurantes encharcados de uma volúpia e uma avidez pecaminosa. Um homem de sucesso entre seus pares, condecorado com o título de empresário do ano por três edições consecutivas. Seu lema, em princípio aplicado ao mundo dos negócios, acabou por ser usado em cada aspecto de sua vida. A Styx Enterprises, mais do que sua empresa, era a sua própria extensão, sua razão de ser nesta encarnação.
     Seu mais recente empreendimento era um projeto novo, um novo conceito de moradia voltado aos novos tempos que surgiriam, com a aplicação de recentes descobertas feitas pela pesquisa genética aplicada, conduzida pelo Instituto Peeble Styx, cercada de grande sigilo e muita expectativa. O segredo por trás da pesquisa fez surgir diversas especulações. A curiosidade era estimulada pelo Sr. John, com dissimulações, negativas, falsos boatos postos para circular por meio de seus contatos na imprensa. Dizia-se que uma nova espécie estava surgindo, ou que a manipulação genética criaria seres superdotados a serviço da Styx Enterprise, guiados pela vontade soberana de seu mentor, cuja ambição não conhecia limites. Ele não dizia sim, muito menos não, deixava fermentando este “bolo”, e quanto mais boatos mais as ações de sua empresa ficavam valorizadas.
      A base onde ficaria assentado este novo empreendimento imobiliário ficava no pequeno subúrbio de Harlow, muitos quilômetros longe do centro, um lugar até então meio esquecido pela onda da especulação imobiliária que jogara os preços dos terrenos nas alturas. Harlow não chamava a atenção, era um lugar de pessoas simples, discretas, pouco abonadas, em sua maioria inquilinos e poucos proprietários. Grande parte dos blocos residenciais tinha aquecimento central e um pequeno jardim coletivo, motivo de orgulho dos moradores, que se esmeravam para cuidar, e até criaram um campeonato de jardinagem, cujo resultado era ansiosamente aguardado ao final de cada ano e divulgado numa grande festa.
     A Styx Enterprise há muito vinha comprando propriedades nos arredores de Harlow. O instinto aguçado de John Peeble dizia-lhe que a bola da vez seria aquela região, justamente por ser tão esquecida. Ninguém dava muita atenção aquele subúrbio sem graça, então a Styx Enterprise pulou na frente e quando os demais jogadores daquele mercado se deram conta, John Peeble já era o dono do pedaço. Dentre seus inúmeros colaboradores, ou seus asseclas, se considerarmos o ponto de vista dos adversários, o mais destacado era Mark Hall.
    Mark havia adquirido um tique nervoso que o fazia piscar com frequência, logo passaram a chamar-lhe (pelas costas, é claro) de Pisca-Pisca. Com uma personalidade magnética ao contrário, se sentia atraído e anulado quase sempre, quando em presença de alguém mais firme. Mimeticamente passava a utilizar gestos, frases, jeito de vestir, opiniões das pessoas que admirava. Um simulacro de indivíduo, bastante útil como instrumento a serviço de interesses no mínimo escusos, ou como pau mandado, quando a ação a ser executada era banal, insossa ou suja. Em síntese, Mark Hall sujava suas mãos para que as mãos de Peeble ficassem imaculadas.  Existem muitos como ele. A evolução das espécies deve ter alguma explicação para a existência deste tipo de indivíduo.
      Mark Hall já estava pronto e de pé numa segunda-feira nublada, fria, com nuvens baixas prontas a desabar sobre os ombros dos infelizes obrigados à labuta diária, para alcançar o pão de cada dia, que neste dia parecia chegar encharcado nas mãos comuns dos trabalhadores anônimos. Mark olhava pela sua janela ensaiando as frases copiadas de seu patrão e mentor, naquela missão especial conforme lhe dissera Mr. Peeble.
        “Mark, meu fiel cão de guarda, quero que você vá até Harlow e comunique aos moradores que eles precisam arrumar já um lugar para se mudarem. Esta semana eu finalizei a compra de praticamente todos os “cortiços” daquele pedaço inútil, e portanto, meu projeto precisa acelerar. Diga aos que quiseram ficar, que continuarão inquilinos, só que MEUS inquilinos, e que se quiserem participar como voluntários do meu projeto, deverão assinar um termo de cessão de direitos, coisa simples. Eu tenho uma minuta para você mostrar, caso alguém pergunte do que se trata. Diga-lhes que é de interesse da humanidade.
        Sim senhor Pebble, mas você poderia me adiantar alguma coisa desse seu projeto, para que eu possa explicar melhor? Sabe, todos estão muito curiosos, há muitos rumores circulando...
        Que tipo de rumores?
        Bem, ah sabe... estão dizendo que o senhor pretende criar uma nova espécie, sei lá... não entendo bem estas coisas de genética. Tem gente assustada, mas com medo de perguntar, e então pediram que eu tentasse descobrir alguma coisa...
        Ah, ah,ah,ah meu caro Mark! Você é um bom colaborador, mas este assunto não é da sua competência. Cuide de fazer sua parte, o resto você saberá depois, na hora certa. A revolução está a caminho!!.
        Mark sabia que seria inútil conseguir qualquer coisa dali. Levantou-se e foi cumprir sua tarefa.

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      A mesma segunda-feira cinzenta nascera para a Senhora Barrow. As mesmas nuvens pesadas, tão comuns naquela região, que servem para dar bom dia aos trabalhadores modestos de Harlow. O sono intranquilo a deixara apreensiva. Ela dava muita atenção a seus avisos. Chamem de premonição ou qualquer outro termo, mas ela vinha tendo sonhos repetidos onde ela e seus vizinhos eram lançados no ar por torvelinhos de vento, e ao descer para o chão todos iam diminuindo de tamanho. Acordava assustada e chamava por Mary, sua filha solteira, a única e que morava com ela, esta enfermeira aposentada, que à custa de muito sacrifício e abnegação conseguira criar Mary sozinha.
      Toda manhã Mary andava pelas quadras calmas de Harlow, até o terminal de ônibus que a leva para o trabalho. Como moram há bastante tempo, assim como quase todos os vizinhos, não há perigo nas ruas. Uma rotina com pouquíssimas alterações, uma comunidade pacata e, diria até, bastante conservadora, que começou a notar a presença cada vez mais constante de alguns homens desconhecidos. De início só ficavam andando pelas ruas, e logo começaram a abordar alguns moradores, principalmente a turma que se reunia no pub local. Depois de muitas cervejas as línguas ficam mais relaxadas, e os estranhos começaram a demonstrar um interesse especial por aquele pedaço afastado de subúrbio.
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         Bom dia, posso pagar uma rodada de Guiness ?
        Por quê? Respondeu Joe Ordinary ao forasteiro que não parava de piscar.
        Deixe me apresentar: meu nome é Mark Hall e eu represento a empresa de um cavalheiro, que recentemente adquiriu este prédio e quase todas as casas ao longo da avenida. Estou fazendo um trabalho de aproximação e convencimento aos moradores deste bairro. A Styx Enterprises está interessada nesta região. Há um projeto grandioso em andamento, e eu fui incumbido de trazer as novidades para os moradores. Digamos que eu seja o porta-voz do Sr. Peeble, meu chefe.
        Que projeto é este, quem são vocês, que história é essa de comprarem todas as casas?!
        Olha, os detalhes do projeto só o Sr. Peeble sabe, infelizmente ele é muito centralizador. Antes de vir para cá eu tentei descobrir alguma coisa, pois achei que seria melhor, para poder responder perguntas como a sua, mas ele não disse nada, só falou que era um projeto revolucionário, que o mundo ficaria espantado. Eu vim com a missão de dizer-lhes que, quem quiser pode continuar sendo inquilino, faremos novos contratos de locação, e junto com os novos contratos há uma cláusula de consentimento que será melhor explicada depois.
        Consentimento para que? Olhe, não estou gostando nada dessa conversa...
        Fique calmo, tudo se resolve. A Styx Enterprises é uma empresa idônea, não vamos prejudicar ninguém, te dou minha palavra!
        Ora bolas, eu nem lhe conheço, como vou saber se sua palavra vale alguma coisa?
        Tudo bem, por hora é só o que eu posso dizer. É só um contato preliminar. Voltarei com mais detalhes na próxima semana. Só lhe peço um favor: espalhe entre seus vizinhos o que acabei de contar.
   Joe Ordinary ficou muito ressabiado com aquele encontro e começou a contar para os vizinhos a estranha conversa que havia tido. Logo um clima de inquietude e muitas dúvidas cresceu dentro dos quarteirões de Harlow. Um dos vizinhos foi checar no cartório se de fato as casas haviam sido vendidas. Quando ficou constatado que não só as casas da avenida principal, mas 90% das casas haviam mudado de dono houve aumento da sensação de insegurança. Pouquíssimos moradores eram proprietários. Como num passe de mágica, quase que da noite para o dia, a maioria dos moradores de Harlow havia mudado de senhorio. Ninguém havia sido consultado.

     Na semana seguinte, não somente Mark Hall havia retornado, como se fazia acompanhar por um carro com alto-falantes que transmitia as novidades: “Senhores moradores de Harlow, como já é do conhecimento de vocês a Empresa Styx se tornou proprietária de toda esta região. Iniciaremos em breve um grandioso projeto imobiliário, acompanhado de um ambicioso projeto de pesquisa genética a ser aplicada neste bairro. Solicitamos aos atuais moradores, que, caso haja interesse em participar como voluntário neste projeto, garantimos a continuidade de seus contratos de locação antigos. Aos demais moradores que não tiverem interesse em participar informamos que já arrumamos um lugar melhor para onde vocês possam ir, já que este projeto é de interesse da humanidade. ”  

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