quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Tirem-os de lá até sexta-feira (final)

          Os sinais de mudança no cenário político já estavam bem claros, quando uma nova legislação foi aos poucos sendo implantada, e um crescente endurecimento das instituições foi ficando mais visível. Grande parte da opinião pública já não tinha mais opinião nenhuma, encharcados e abarrotados pela bonança duradoura. O sono cheio de sonhos de conforto e abundância embriagou com o ópio do bem-estar material a geração que admitiu de bom grado transferir sua independência de pensamento e opinião para aqueles que lhes garantissem a vida livre dos percalços da escassez.
      A conta chegara agora na figura do novo Messias, que nos meandros escuros da cooptação, adulação, cumplicidade ou mera extorsão, conseguira atingir seu objetivo por meios legais. Naquela manhã a propriedade da carga genética da humanidade estava de posse de um novo dono. E tudo dentro dos conformes e dos ditames da Lei.
      Em poucos anos a mudança drástica no jogo político varreu da sociedade qualquer vontade de mudança ou contestação. Pouco a pouco a vontade majoritária do pensamento econômico-tecnológico-catastrofista se impôs aos países, que se aglomeravam em blocos cada vez maiores, e cada vez mais unidos e homogêneos. A questão toda foi tornada oficial quando o próprio Ministro da Saúde, por intermédio do diretor do Controle Genético, como porta-voz, anunciou:

  “ -É meu dever anunciar a todos os cidadãos sobre as novas regras que a legislação sobre o controle e aproveitamento dos recursos espaciais e biológicos impõe. Desta data em diante, conforme a vontade de nosso excelso legislador, todos os habitantes deverão se submeter ao engenhoso método de nano reengenharia corporal. Desde o anúncio feito pela prestigiosa Styx Enterprises, poucos anos antes, que o sucesso da medida se mostra cada vez mais evidente. Foram observados casos residuais de efeitos colaterais indesejados, o que acarretou o reassentamento da ínfima população atingida. Mas a estatística comprova a aceitação da maioria absoluta da população, medida através dos institutos oficiais de pesquisa. A diminuição do percentual estabelecido entre 40% e 70% do tamanho dos seres humanos nesta nova era implicou em redução considerável dos recursos naturais. Onde antes cabiam 10 pessoas, hoje cabem de 20 a 30 pessoas, que consomem roupas menores, carros menores, menos comida, entre outros fatores positivos. A extensão da aplicação das medidas depende da boa vontade e dever cívico de cada cidadão. Há um prazo estabelecido para que todo o conjunto da população esteja convertido no novo modelo de Homem. Dissidências serão tratadas com rigor. Contestações são ilegais. Esta é a vontade de nosso grande inspirador e nosso grande modelo, Sr. John Peeble. Seja feita sua vontade”. 

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        “ -Aqui estamos na New Town Harlow, quase não dá para reconhecer os antigos quarteirões desta que outrora foi uma comunidade modesta e tranquila. Este pequeno distrito se tornou mundialmente conhecido por ter sido o projeto piloto do maior acontecimento científico da civilização humana. As novas construções erguidas para servir de moradia, totalmente adaptadas às novas dimensões do gênero humano, e construídas a um custo 60% inferior aos antigos métodos construtivos, são o cartão de visitas mais vistoso da Organização Styx”, assim começava a mais nova peça publicitária divulgada na Rede Estatal de Teletransmissão. Como o controle acionário da rede estava de posse da Styx, durante vários intervalos da programação as vantagens e benefícios do projeto eram divulgados para a plateia cativa, quase como um mantra audiovisual, com suas belas imagens e sons envolventes,
            Poucos conseguiam ficar indiferentes ao apelo, pois a complacência havia se tornado uma atitude corrente naquela sociedade saciada e com pouquíssimo apetite para a contestação. Aliás, a contestação, além de ilegal, não era vista com bons olhos pelos semelhantes. Afinal, por quê abrir mão de todo o conforto e realizações importantes que foram conseguidas num breve espaço de tempo?
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      A Sra. Barrow estava em sua minúscula sala, diminuindo a medida de suas roupas, reaproveitando suas estimadas peças de vestuário. Seus rendimentos escassos ainda não haviam permitido trocar toda a sua mobília. Algumas peças ainda no tamanho antigo atravancavam seu espaço. Uma pequena escada para alcançar a cama velha fora sua última aquisição. Cada vez mais solitária ela tinha muitas dificuldades em aceitar a nova situação, mas guardava em silêncio profundo sua amargura. Ao espetar o dedo ela subitamente recordou-se daquele sonho estranho que tivera havia alguns anos, onde um turbilhão de vento arrastava a todos, e à medida que voltavam ao chão, todos iam diminuindo de tamanho. Sua campainha toca, e ela reconhece o rosto insípido do coletor de aluguéis no monitor.
        Boa tarde Sra. Barrow, sinto informar-lhe que desde a última vez que conversamos, nós chegamos à conclusão que precisaremos aumentar o aluguel de novo, só um pouquinho. Obrigado e passe bem.
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  “Oh não, não posso crer nisto! Oh Mary, e pensar que nós aceitamos tudo isto! “. Seu lamento ecoou pelas paredes de sua moradia, como se pudesse ser ouvido pela filha, cujo paradeiro ela não tivera mais notícia, desde que Mary passou a integrar o contingente residual das pessoas sujeitas aos efeitos colaterais do experimento, e desaparecera dos registros oficiais. Sua tristeza e suas preocupações não atraíam a atenção dos vizinhos, tão ocupados em aproveitar as novidades tecnológicas, e que passaram a desconfiar que sua filha havia se tornado algum monstro renegado e contagioso, quando na manhã daquele agosto sombrio e já longínquo havia sido retirada de casa de forma pouco amistosa pelos fiscais da Secretaria para Ordenação das Novas Diretrizes Habitacionais, amarrada e amordaçada. A partir daí a então a pacata senhora fora instada a desistir de sua procura, quando sutilmente fora advertida de que poderia ter sua pensão suspensa por tempo indeterminado, caso insistisse em saber do paradeiro de pessoa suspeita de portar anomalia impeditiva da adaptação ao novo paradigma social. Desde então a solidão e a saudade passaram a fazer parte da sua rotina.
    O isolamento é um mecanismo eficiente para evitar a disseminação de ideias, sentimentos, pensamentos impuros, atividade suspeitas, atitudes que não podem ser aceitas de acordo com o novo código moral da nova era onde o tamanho importa, desde que seja o tamanho oficial. O isolamento é a norma nesta sociedade, e o isolamento foi o que restou a Sra. Barrow.

              Mark Hall descia as escadas com certa dificuldade, a perna esquerda doía um pouco. A idade começava a pesar em sua estrutura. Encerrara mais um dia monótono na empresa que escolhera dedicar a vida. Os anos foram escoando e ele um dia se dera conta de que seu esforço e sua devoção de nada ajudariam no progresso que traçara. Ele desconfiava que mais do que diminuir o tamanho das pessoas, as hoje notórias pesquisas genéticas também serviram para prolongar a vida do seu patrão tão querido e estimado. De fato, ele parecia tão firme e resoluto quanto há 20 anos, quando Mark entrou por estas portas pela primeira vez. Quanto anos ele teria? Ninguém sabia, e ninguém tivera a coragem de perguntar. Os olhos azuis flamejantes cheios de cobiça e volúpia continuavam cada vez com mais volúpia e cobiça, e ele parecia ter crescido ao invés de reduzido de tamanho.
   Mark pouco havia visto seu querido e amado patrão nestes últimos anos, em que a realidade se tornara mais fantástica do que a ficção. A maturidade havia chegado, e com ela a morte das ilusões. Ser o presidente da Styx Enterprise saíra da sua lista de desejos. Ser o preferido do chefe também, bem como muitos outros itens que ficaram para trás, da mesma forma que todas as pessoas as quais ele ludibriara em nome de sua dedicação e empenho. Cada noite ao deitar ele repetia para si: “ Só cumpri o meu dever”, a complacência se unindo à negação para justificar tudo. Ele não se lembrava mais dos sonhos, nas infindáveis noites em que o sono, irmão da morte, chegava na exaustão daquele corpo cansado e gasto e destruía em migalhas, um pouco a cada dia que passava, sua mera existência.

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   A Styx Enterprises reluzia à noite em seu edifício iluminado, destacado no conjunto de construções mais baixas e opacas na área central da cidade. As linhas austeras do prédio contrastavam com a exuberância das luzes noturnas, num simbolismo evidente e didático, que fazia com que o povo jamais esquecesse de quem havia trazido o futuro e a salvação.  No alto, no topo, mirando o horizonte, sem obstáculos, sem contestação, sem dúvidas, Mr. John Peebles, agora Sir John Peeble contemplava a obra de sua vida, na extensão de seus domínios.
     Sem interlocutores, apenas subordinados, ele produzia monólogos que ecoavam pelas paredes de seu escritório-moradia. Sua palavra passara a ter a força de lei, quase um dogma. Quem haveria de se contrapor ao maior exemplo de sucesso que a humanidade conhecera?  Os livros de história sutilmente eram retirados do mercado, os livros didáticos reescritos. Onde a memória se escondera?  Apesar de toda a velocidade de mudanças que a sociedade moderna já se habituara, nada pudera se comparar com esta vertigem, este turbilhão, quase uma obsessão pela mudança, que culminara na apropriação do patrimônio genético da população nas mãos de um único homem e sua vontade, a ponto de tudo se tornar normal, e tudo ser permitido, desde que não se toque no cerne da questão: o conforto e a comodidade como valor máximo e inquebrantável da civilização.
    Lá estava ele, com um copo na mão brindando a si mesmo. Bebeu um gole, olhou para baixo, voltou a olhar para frente. Não precisava de ninguém. Onde aprendera isto? Ou quando percebera que não precisava de ninguém? Só dos subordinados. Alguém que lhe trouxesse sua refeição ou seu copo cheio. Alguém que só atendesse ao comando. Estava satisfeito. Estava saciado? Ninguém poderia dizer. O isolamento aos indesejados, como norma da sociedade que erigira, lhe cabia como uma pele perfeita, sem máculas, sem o dissabor da repugnância que causava aos seus próximos, em sua juventude, com sua pele pálida e seus olhos azuis ofuscantes. Decidiu a partir daí criar um mundo em que seria o senhor, e não precisaria mais sentir os olhares de censura e asco.
      Enfim conseguira, e nesta noite ele celebra apenas consigo. Olha a Lua ao longe e pensa o quanto ela valeria. E sonha, ainda que acordado, com o universo todo, como se fosse possível. Pensa, mesmo que não saiba, sobre o reino de todas as possibilidades. Limites. A embriaguez do sucesso lhe turva o raciocínio, a insanidade logo ao lado. Ele não tem espelho, só o infinito a sua frente.
      A noite está bela, as nuvens deslizam suaves, um vento calmo as empurra como um trenó. A noite chega e vai embora, e não quer saber dos sonhos mesquinhos ou delirantes, a noite a todos envolve e será assim até o fim.

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       No dia seguinte, depois de um sono dos justos, ou dos que não tem remorsos, depois de um belo desjejum servido em bandejas de prata e louça fina, Sir John chama seu outrora fiel cão de guarda, seu prestativo funcionário, agora envelhecido e diminuto, para mais uma missão.
        Mark, meu obstinado colaborador, tenho um serviço perfeito para você, para reviver aqueles velhos tempos de expansão e conquista, que você tanto gostava. Eu descobri que ainda há algumas propriedades que não me pertencem. Algumas estão desabitadas. E vi que era hora de mandar meu querido “pisca-pisca” para trabalhar um pouco mais. He,he,he,he.
       Em outros tempos Mark ainda teria sorrido, mas hoje ele somente curva seu corpo em sinal de obediência e sai para cumprir mais uma ordem. Antes que ele fechasse a porta Sir John lhe dá um conselho valioso.
        Mark marque minhas palavras: Com terras na sua mão você será feliz sobre a Terra... ou então invista na sua igreja para alcançar o seu Céu.



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