–
O
Executivo municipal meio tardiamente começou a se mover, mas a situação já se
mostrava fora de controle. A articulação requerida para fazer frente à esta
demanda gigantesca estava prejudicada pela demora, pela dificuldade de
comunicação e pela dificuldade de locomoção. Centenas de ligações por celular
já estavam sendo feitas, e dezenas de celulares dos mais altos escalões da
prefeitura já estavam descarregados, sem bateria e sem possibilidade de serem
recarregados. Muitas pessoas a esta altura até ficariam felizes de tomar um
pequeno choque elétrico se encostassem numa tomada exposta, mas nada de
energia. Quem por precaução mantinha um estoque de velas em casa muito que bem,
estava garantido, porque com a maioria dos supermercados, mercados de bairro e
padarias fechados se a situação se prolongasse pela noite adentro teríamos uma
pequeníssima amostra da Idade das Trevas em plena Era da Informação, nossa era
atual com todo o aparato tecnológico que enchia de orgulho toda uma geração de pessoas
nascidas na bonança mantida por controle remoto.
Dentro dos prédios com seus elevadores
parados, as pessoas foram arrombando as portas automáticas e abrindo à força as
portas dos andares e as saídas de emergência para libertar o número
incalculável de pessoas presas, muitas
desmaiadas, muitas em estado de choque, descompostas, descabeladas, suadas,
muitas brigas acontecidas pelo contato muito próximo entre os cidadãos polidos,
educados e contidos até que a contrariedade vencesse a polidez e a educação,
forçados é claro pela situação extrema a que foram levados. Um dia
inesquecível, um dia para ficar na história.
De volta ao marco zero, no estopim da
confusão, Edgar tão desconcertado, que já nem se importava mais com nada, vendo
o redemoinho ao seu redor. Depois de muito esforço, muito empurra-empurra,
muita sirene os carros de bombeiros conseguiram chegar no local da explosão e
do incêndio. Com este reforço muito bem-vindo o ataque às chamas agora começava
a surtir efeito, e a situação finalmente começava a mudar. Um ânimo renovado
dominava o ar. Até Edgar foi contagiado pelo entusiasmo que pairava agora ao
redor. De repente ele lembrou de alguém que poderia reverter aquela situação: O
Dr. Christallos Peidonides, seu professor na extensão universitária, um
engenheiro-físico-enxadrista, entre outros atributos, grego de nascimento e
viajante internacional, cujo conhecimento certamente traria uma solução rápida
para interromper aquele efeito dominó de desligamento da energia. Edgar
verificou seu celular que ainda tinha carga suficiente e ligou para o Dr.
Peidonides.
- Alô
Dr. Peidonides?
-
Prronto, quem serrr?
- É o
Edgar da Cia. de eletricidade, lembra de mim? É uma urgência!!!
-Sim,
sim, lembrrei, o que está a acontecerr?
-Em
resumo, houve uma explosão na central de distribuição de energia, toda a rede
foi afetada, e que me lembre o senhor têm soluções rápidas para situações de
crise como esta.
- Nom
me digas! Sim, sim, por Téos, porrisso esta confusón que se escuta da janela?
-Sim,
preciso de sua ajuda.
-Cerrto,
diga-me, a estaçón foi parra burraco?
-Sim,
está ardendo em chamas.
-Entón
eu vou parra estaçón mais perrto de mim, e alterro programa e deixo estaçón
como neo centralis de enérgon. Você poderria ir junto?
- Não
creio que consiga chegar, porque o trânsito está uma calamidade.
- Nom
serrr prroblemum, posso fazerrr sozinho, só avise segurrança que estoi a
camino,si?
–
-Sim, é claro professor, muito obrigado pela sua
ajuda.
O prof. Peidonides largou seu bouzouki,
onde aprendia uma velha melodia grega e foi imediatamente para uma das estações
secundárias, que funcionava em rede. Dirigiu-se para a sala de controle, acessou
o servidor, introduziu seu programa de contenção e gerenciamento para situações
de crise e em poucos minutos a estação era religada. Num efeito dominó reverso
as outras estações foram sendo religadas e a energia aos poucos ressuscitou
naquela cidade imersa num colapso. O relógio marcava 18:18 h. À medida que a
energia voltava e as lâmpadas acendiam ouviam-se gritos, assovios, palmas, uma
sensação de alívio, pessoas choravam, outras se abraçavam, estava afastada a
entrada naquela zona de trevas que traz no íntimo de cada um o medo ancestral
do escuro com toda a insegurança e espectros imaginários embutidos nas células
dos seres humanos. Apenas o perímetro em torno da estação acidentada continuou
sem eletricidade. A cidade começou a voltar à sua normalidade, de milhões de
pessoas apressadas, de milhões de veículos lutando por espaço no asfalto, de
milhões em negócios feitos e desfeitos, de um sem número de encontros e
desencontros de pessoas a procura de algo ou alguém, a rotina tão conhecida e
tão confortadora.
Edgar respirava compassadamente traçando
um roteiro do que deveria ser dito para explicar o que havia acontecido e de
seus infortúnios, e das sugestões que faria para evitar que algo semelhante
acontecesse novamente, de como era estúpido e perigoso deixar tanta
responsabilidade nas mãos de somente duas pessoas. Perto dali um ajudante de
pedreiro sonhador e assustado decidiu calar para sempre sobre seu ato impensado
e algo mecânico de testar a pontaria com cascas de frutas. Apesar de ser ajudante
de pedreiro ele era esperto e inteligente o suficiente para perceber a sequência
de fatos e a consequência destes fatos, e viu que poderia ser acusado de ter
sido o causador daquela confusão monumental e dos prejuízos incalculáveis
decorrentes daquele dia infernal. Ficou tão agastado que, num reflexo sutil e
não percebido de pronto, jamais comeu outra banana em sua vida, assim como
ficou bastante tempo sem olhar para o céu em contemplação.
A noite chegara límpida, estrelada,
inspirando calma; sem saber o que havia acontecido durante o dia, toda a
balbúrdia, toda a consequência de uma rotina quando sai dos trilhos, a noite
não precisa saber destas coisas. Uma cidade exausta foi dormir para acordar no
dia seguinte e contabilizar seus prejuízos materiais e morais. Edgar chegou
cedo a seu departamento pronto para assimilar todos os golpes que sabia que
iria receber. Já um batalhão de repórteres se apossava do hall de entrada e da
sala de imprensa e um diretor com cara de pouquíssimos amigos fuzilara-o com o
olhar, o mesmo diretor que não fora localizado no dia anterior, pois saíra para
almoçar com uma atraente lobista de uma empresa alemã de equipamentos elétricos
e desligara seus celulares para não ser incomodado.
O Dr. Cristallos Peidonides candidamente
havia enviado para a Secretaria de Fazenda, com cópia para o gabinete do
Prefeito, uma correspondência relatando como havia conseguido estancar o
problema, usando de seus vastos conhecimentos e de sua presteza em atender ao
pedido de seu atento aluno, e a título de gratificação pelo serviço prestado
cobrava a módica quantia de Um milhão de euros, uma ninharia perto dos
prejuízos ocorridos, finalizava ele em sua correspondência com alguns erros de
português, fato este bastante desculpável pelo fato de sua origem, sua
poliglossia e por ser o Português uma língua difícil.
Ivan Henrique Roberto maio/2008

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