domingo, 8 de outubro de 2017

Um dia inesquecível (parte 2)

                                                                             Uma linha traçada desde o zênite até esta cabeça de homem em pé no meio-fio não serviria para nada, a não ser para, de alguma forma, traduzir o estado de desalento e impotência deste homem e levá-la de volta para lugar nenhum, pois mesmo que houvesse alguém ou algo para receber esta mensagem, de nada adiantaria, pois, nada nem ninguém poderia acudi-lo quando o estrondo da explosão foi ouvido pelos dois homens, assim como por milhares de pessoas que moravam num raio de três quilômetros.
      Um grande estrondo ressoava pelo ar, logo centenas de pássaros revoavam atordoados, os cachorros ganiam desesperados e se encolhiam procurando abrigo. O som da explosão foi sumindo e em seguida e por um breve instante pareceu ter havido um silêncio inédito naquela cidade que não silenciava nem durante a noite. Um momento em suspensão como um lapso de tempo. Mas logo voltou aquele ruído de fundo que nunca pára, aquele emaranhado de sons, alguns próximos, outros mais distantes. Os moradores das casas vizinhas começaram a aparecer, querendo entender o que havia acontecido, já aos celulares para saber dos vizinhos e moradores próximos o que estava acontecendo. Hipóteses começaram a brotar; uns dizendo que era um ataque terrorista, outro dizia que tinha ouvido um avião voando baixo, um terceiro achou que era um meteoro vindo do espaço sideral, uma senhora já rezava fervorosamente dizendo no intervalo das frases da oração que era castigo divino pelos pecados inumeráveis daquela vizinhança, não obstante serem pessoas comuns vivendo dentro das normas sociais aceitas. Um bêbado trôpego enrolando a língua dizia que havia passado da conta porque aquele último trago tinha dado um estrondo no seu ouvido.
     Com as mãos na cabeça e olhar perdido Edgar pensava nas consequências daquele evento, e no que teria de dizer para explicar porque não havia impedido que uma estação tão moderna e segura tivesse dado aquela pane. Pedrinho ao seu lado já um pouco mais refeito se prontificou a acompanhá-lo até a estação, num impulso para minorar uma situação que ele sabia ter implicação direta, e sem nem se dar conta que poderiam se deparar com um inferno de chamas.
- Vamos senhor, vamos ver o que está acontecendo.
- Sim, vamos. Ligarei para a brigada de incêndio, ligarei para os bombeiros, ligarei para o meu diretor, preciso fazer alguma coisa!
        Três quadras adiante já se podiam ver os rolos de fumaça escura subindo para as nuvens, assim como já se ouviam as sirenes dos primeiros carros de bombeiro que chegavam. Com bastante rapidez já começaram a isolar a área e agir para contornar o problema. Muitos curiosos já se aglomeravam no local e helicópteros sobrevoavam para dar notícias em primeira mão para as rádios locais. Logo os primeiros semáforos começavam a apagar e piscar intermitentes, e a primeira colisão aconteceu. Num efeito dominó tão preciso quanto terrível os semáforos foram se apagando, e os motoristas, que muito se assemelham a um rebanho descontrolado que precisam de um pastor que o conduza, logo perceberam a confusão que se instalava. Buzinas dos mais diversos sons e formatos já eram ouvidas próximas e à distância e mais e mais colisões aconteciam.
       A estação acidentada servia de central de comando para as demais subestações da rede, era considerada como sendo muito avançada tecnologicamente, tão avançada que quase prescindia da presença de seres humanos para operá-la, era motivo de orgulho da empresa de energia e até motivo de visitação turística para o bairro antes tão tranquilo. Mas nem tudo pode ser previsto pelos engenheiros e analistas e a mensagem truncada que havia chegado ao laptop de Edgar era o resultado dessa imprevisibilidade. Agora ela ardia em chamas e os primeiros carros de bombeiros que chegaram não conseguiam dar conta de tamanha tarefa. A brigada de incêndio foi localizada, o quartel dos bombeiros foi avisado. Porém a reação em cadeia havia começado, o trânsito em questão de minutos já saíra de controle e as novas viaturas dos bombeiros já tinham muita dificuldade para avançar. A energia ia sendo desligada à medida que as subestações iam sendo bloqueadas após o acidente com a central. Menos de quinze minutos se passaram após a explosão e já metade da cidade estava com os semáforos desligados. Eram 12:30Hs quando a explosão aconteceu, a esta altura centenas de elevadores já estavam parados nos edifícios com milhares de pessoas em seu interior.
        A sociedade humana moderna é um espanto de avanços tecnológicos, artifícios engenhosos que deixam muitos de queixo caído e enchem de orgulho os otimistas que creem cegamente no progresso material da humanidade, e muitas vezes parece que ao subirem demais largaram a escada para trás. Tantas pessoas presas nos elevadores modernos a esta altura devem estar pensando: O que foi que aconteceu? Porque está demorando tanto? Eu tenho compromissos inadiáveis e não posso faltar, eu tenho uma entrevista em meia-hora, eu tenho que ir ao dentista, eu tenho medo de ficar apertado, eu tenho medo de ficar junta com todas estas pessoas, porque está demorando tanto?
        As linhas telefônicas de atendimento de emergência da distribuidora de energia já estavam congestionadas, mas ainda não se sabia ao certo o que havia acontecido. Os escritórios movidos a computadores começavam a parar, os supermercados conectados em rede começavam a parar, ainda era dia muito claro, mas a informação nos caminhos virtuais começava a escassear sem a energia para carregá-la nas costas e chegar aos seus destinatários, todos ávidos e dependentes da informação e da tecnologia mais avançada para disciplinar suas vidas. Muitos braços começavam a ser cruzados, sem ter o que fazer, e com isso crescia a ansiedade. Muitos rostos já estavam debruçados nas janelas olhando a balbúrdia dos carros.
       Nas ruas reinava uma confusão total, nenhum semáforo estava funcionando, atravessar um cruzamento era questão de sorte ou de fazer valer a lei do mais forte. Os pedestres, coitados, dificilmente conseguiam chegar na outra calçada, o caos em comunhão com a discórdia fatalmente lega a gentileza e a civilidade a um segundo plano, salve-se quem puder é a norma de comportamento, num ponto onde séculos de cultura, a busca do refinamento e da educação e as regras de boa convivência são apagadas em pouquíssimo tempo.
       De volta ao local da explosão, Edgar tentava um contato com seu diretor, que a esta altura já havia saído para almoçar. Seu celular estava fora de área, suas tentativas foram em vão, ninguém estava disponível para auxiliá-lo nesta confusão. “Maldita casca de banana” pensou, “teria chegado a tempo; quem foi o desgraçado que a jogou na rua? Agora tô eu aqui na pior, e o que eu vou dizer? Daqui a pouco a imprensa chega e logo vai querer saber a causa da explosão, e todos sabem que no final sobra no lado mais fraco da corda”. Todavia a imprensa não conseguia chegar preto, ninguém conseguia chegar perto, só os helicópteros no alto davam notas esparsas a partir de seu ponto de vista. Como as coisas costumam acontecer em cadeia, os hidrantes próximos apresentavam defeitos, com pouca vazão de água, canos furados por falta de manutenção decente, desvios de água, entre os principais problemas, sem contar que até uma Kombi velha já havia sido achado na tubulação de água, quem dirá a quantidade de coisas menores que ficam entulhadas nos canos? Os bombeiros que já estavam no local logo perceberam que a batalha era inglória e as outras equipes não chegavam.
      Duas horas já haviam escorrido pelo ralo daquele dia que já estava infernal. As escolas começavam a interromper as aulas, as lojas prudentemente desciam e fechavam suas portas, os ônibus nem conseguiam trafegar, mas já estavam lotados, e nem era hora do rush ainda. Muitos motoristas largavam seus carros e saíam andando, até uma Maseratti de 500 CV, tão potente e tão veloz, parada num cruzamento, estática, mostrando suas belas formas de design italiano poderia ser ultrapassada por um ciclista em sua modesta companheira de 2 rodas movida a tração humana. Ambulâncias com sirenes no máximo de volume e a muito custo conseguiam abrir caminho. Poucas delas conseguiram chegar aos hospitais e clínicas, os obituários dos jornais no dia seguinte tiveram suas colunas aumentadas.
       Os rumores circulavam, se espalhavam, criando vida própria de acordo com o interlocutor: dizia-se que era um ataque terrorista, ou que um bando armado havia tomado de assalto um shopping de luxo, mantendo dezenas de reféns, ou mesmo que um vazamento radioativo havia se espalhado após o tombamento de um enorme caminhão-tanque, já com muitas vítimas fatais num raio de 2 Km do acidente. A tensão subia em espiral, o medo já se espalhava e contagiava os cidadãos já tão sobrecarregados com os problemas cotidianos. Muitos que tinham ouvido a explosão reforçavam a ideia de um ataque terrorista, mesmo que nunca tenha havido nenhum registro deste tipo na história recente desta cidade, nem na história mais recuada.
        A unidade de gerenciamento de crise da prefeitura havia sido avisada do que de fato havia acontecido, e procurava divulgar mensagens na tentativa de orientar, articular uma saída, estabelecer um pouco de ordem no que parecia ser, a esta altura, um quadro de calamidade pública, só que mais da metade da cidade já estava sem energia e os comunicados por televisão não poderiam ser divulgados. Por rádio somente nos automóveis, caminhões, vans, táxis, etc., é que poderiam ter um alcance maior, porém ninguém conseguia se locomover. A articulação estava bastante dificultada, só os celulares ainda tinham algum poder de comunicação rápida.
       Quatro horas da tarde o fornecimento de água já estava ficando comprometido, pois as bombas, na grande maioria elétricas estavam impavidamente paradas, as que funcionavam a diesel gastavam rapidamente seu combustível. Nesta altura do dia começaram os primeiros saques, muitas lojas que teimavam em ficar abertas ficaram desguarnecidas e o policiamento lutava desesperadamente para conseguir controlar o incontrolável, então vários bandos se aproveitavam da situação, como cães selvagens que cercam a presa aturdida pela espiral frenética de confusão e desordem. Daí para o confronto foi um pulo, pois várias brigadas das forças de segurança já haviam conseguido se deslocar. Na zona de comércio mais popular por volta das 16:30 hs. o som de garrafas quebradas, vidros quebrados, gritos, correria, já era a tônica. Carros saqueados, lojas saqueadas, ambulantes atacados, pessoas roubadas; a pilhagem já começava a correr solta, o tênue equilíbrio da vida em sociedade estava por um fio, com uma facilidade muito além do aceitável este equilíbrio muitas vezes é rompido. Balas de borracha, gás de pimenta, gás lacrimogênio entupiam o ar e uma praça de guerra se apossou de uma praça onde artigos para consumo, presentes, mimos, brinquedos, eram vendidos e compradas pacificamente , levando alegria e satisfação para tantas pessoas.

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