Uma linha traçada desde o zênite até esta cabeça de homem em
pé no meio-fio não serviria para nada, a não ser para, de alguma forma,
traduzir o estado de desalento e impotência deste homem e levá-la de volta para
lugar nenhum, pois mesmo que houvesse alguém ou algo para receber esta
mensagem, de nada adiantaria, pois, nada nem ninguém poderia acudi-lo quando o
estrondo da explosão foi ouvido pelos dois homens, assim como por milhares de
pessoas que moravam num raio de três quilômetros.
Um grande
estrondo ressoava pelo ar, logo centenas de pássaros revoavam atordoados, os
cachorros ganiam desesperados e se encolhiam procurando abrigo. O som da
explosão foi sumindo e em seguida e por um breve instante pareceu ter havido um
silêncio inédito naquela cidade que não silenciava nem durante a noite. Um
momento em suspensão como um lapso de tempo. Mas logo voltou aquele ruído de
fundo que nunca pára, aquele emaranhado de sons, alguns próximos, outros mais
distantes. Os moradores das casas vizinhas começaram a aparecer, querendo
entender o que havia acontecido, já aos celulares para saber dos vizinhos e
moradores próximos o que estava acontecendo. Hipóteses começaram a brotar; uns
dizendo que era um ataque terrorista, outro dizia que tinha ouvido um avião
voando baixo, um terceiro achou que era um meteoro vindo do espaço sideral, uma
senhora já rezava fervorosamente dizendo no intervalo das frases da oração que
era castigo divino pelos pecados inumeráveis daquela vizinhança, não obstante
serem pessoas comuns vivendo dentro das normas sociais aceitas. Um bêbado
trôpego enrolando a língua dizia que havia passado da conta porque aquele
último trago tinha dado um estrondo no seu ouvido.
Com as mãos na
cabeça e olhar perdido Edgar pensava nas consequências daquele evento, e no que
teria de dizer para explicar porque não havia impedido que uma estação tão
moderna e segura tivesse dado aquela pane. Pedrinho ao seu lado já um pouco
mais refeito se prontificou a acompanhá-lo até a estação, num impulso para
minorar uma situação que ele sabia ter implicação direta, e sem nem se dar
conta que poderiam se deparar com um inferno de chamas.
- Vamos senhor, vamos ver o que está acontecendo.
- Sim, vamos. Ligarei para a brigada de incêndio, ligarei
para os bombeiros, ligarei para o meu diretor, preciso fazer alguma coisa!
Três quadras
adiante já se podiam ver os rolos de fumaça escura subindo para as nuvens,
assim como já se ouviam as sirenes dos primeiros carros de bombeiro que
chegavam. Com bastante rapidez já começaram a isolar a área e agir para
contornar o problema. Muitos curiosos já se aglomeravam no local e helicópteros
sobrevoavam para dar notícias em primeira mão para as rádios locais. Logo os
primeiros semáforos começavam a apagar e piscar intermitentes, e a primeira
colisão aconteceu. Num efeito dominó tão preciso quanto terrível os semáforos
foram se apagando, e os motoristas, que muito se assemelham a um rebanho
descontrolado que precisam de um pastor que o conduza, logo perceberam a
confusão que se instalava. Buzinas dos mais diversos sons e formatos já eram
ouvidas próximas e à distância e mais e mais colisões aconteciam.
A estação acidentada servia de central
de comando para as demais subestações da rede, era considerada como sendo muito
avançada tecnologicamente, tão avançada que quase prescindia da presença de
seres humanos para operá-la, era motivo de orgulho da empresa de energia e até
motivo de visitação turística para o bairro antes tão tranquilo. Mas nem tudo
pode ser previsto pelos engenheiros e analistas e a mensagem truncada que havia
chegado ao laptop de Edgar era o resultado dessa imprevisibilidade. Agora ela
ardia em chamas e os primeiros carros de bombeiros que chegaram não conseguiam
dar conta de tamanha tarefa. A brigada de incêndio foi localizada, o quartel
dos bombeiros foi avisado. Porém a reação em cadeia havia começado, o trânsito em
questão de minutos já saíra de controle e as novas viaturas dos bombeiros já
tinham muita dificuldade para avançar. A energia ia sendo desligada à medida
que as subestações iam sendo bloqueadas após o acidente com a central. Menos de
quinze minutos se passaram após a explosão e já metade da cidade estava com os
semáforos desligados. Eram 12:30Hs quando a explosão aconteceu, a esta altura
centenas de elevadores já estavam parados nos edifícios com milhares de pessoas
em seu interior.
A sociedade humana moderna é um espanto
de avanços tecnológicos, artifícios engenhosos que deixam muitos de queixo
caído e enchem de orgulho os otimistas que creem cegamente no progresso
material da humanidade, e muitas vezes parece que ao subirem demais largaram a
escada para trás. Tantas pessoas presas nos elevadores modernos a esta altura
devem estar pensando: O que foi que aconteceu? Porque está demorando tanto? Eu
tenho compromissos inadiáveis e não posso faltar, eu tenho uma entrevista em
meia-hora, eu tenho que ir ao dentista, eu tenho medo de ficar apertado, eu
tenho medo de ficar junta com todas estas pessoas, porque está demorando tanto?
As linhas telefônicas de atendimento de
emergência da distribuidora de energia já estavam congestionadas, mas ainda não
se sabia ao certo o que havia acontecido. Os escritórios movidos a computadores
começavam a parar, os supermercados conectados em rede começavam a parar, ainda
era dia muito claro, mas a informação nos caminhos virtuais começava a
escassear sem a energia para carregá-la nas costas e chegar aos seus
destinatários, todos ávidos e dependentes da informação e da tecnologia mais
avançada para disciplinar suas vidas. Muitos braços começavam a ser cruzados,
sem ter o que fazer, e com isso crescia a ansiedade. Muitos rostos já estavam
debruçados nas janelas olhando a balbúrdia dos carros.
Nas ruas reinava uma confusão total,
nenhum semáforo estava funcionando, atravessar um cruzamento era questão de
sorte ou de fazer valer a lei do mais forte. Os pedestres, coitados,
dificilmente conseguiam chegar na outra calçada, o caos em comunhão com a
discórdia fatalmente lega a gentileza e a civilidade a um segundo plano,
salve-se quem puder é a norma de comportamento, num ponto onde séculos de
cultura, a busca do refinamento e da educação e as regras de boa convivência
são apagadas em pouquíssimo tempo.
De volta ao local da explosão, Edgar
tentava um contato com seu diretor, que a esta altura já havia saído para
almoçar. Seu celular estava fora de área, suas tentativas foram em vão, ninguém
estava disponível para auxiliá-lo nesta confusão. “Maldita casca de banana”
pensou, “teria chegado a tempo; quem foi o desgraçado que a jogou na rua? Agora
tô eu aqui na pior, e o que eu vou dizer? Daqui a pouco a imprensa chega e logo
vai querer saber a causa da explosão, e todos sabem que no final sobra no lado
mais fraco da corda”. Todavia a imprensa não conseguia chegar preto, ninguém
conseguia chegar perto, só os helicópteros no alto davam notas esparsas a
partir de seu ponto de vista. Como as coisas costumam acontecer em cadeia, os
hidrantes próximos apresentavam defeitos, com pouca vazão de água, canos
furados por falta de manutenção decente, desvios de água, entre os principais
problemas, sem contar que até uma Kombi velha já havia sido achado na tubulação
de água, quem dirá a quantidade de coisas menores que ficam entulhadas nos
canos? Os bombeiros que já estavam no local logo perceberam que a batalha era
inglória e as outras equipes não chegavam.
Duas horas já haviam escorrido pelo ralo daquele
dia que já estava infernal. As escolas começavam a interromper as aulas, as
lojas prudentemente desciam e fechavam suas portas, os ônibus nem conseguiam trafegar,
mas já estavam lotados, e nem era hora do rush ainda. Muitos motoristas
largavam seus carros e saíam andando, até uma Maseratti de 500 CV, tão potente
e tão veloz, parada num cruzamento, estática, mostrando suas belas formas de
design italiano poderia ser ultrapassada por um ciclista em sua modesta
companheira de 2 rodas movida a tração humana. Ambulâncias com sirenes no
máximo de volume e a muito custo conseguiam abrir caminho. Poucas delas
conseguiram chegar aos hospitais e clínicas, os obituários dos jornais no dia
seguinte tiveram suas colunas aumentadas.
Os rumores circulavam, se espalhavam,
criando vida própria de acordo com o interlocutor: dizia-se que era um ataque
terrorista, ou que um bando armado havia tomado de assalto um shopping de luxo,
mantendo dezenas de reféns, ou mesmo que um vazamento radioativo havia se
espalhado após o tombamento de um enorme caminhão-tanque, já com muitas vítimas
fatais num raio de 2 Km do acidente. A tensão subia em espiral, o medo já se
espalhava e contagiava os cidadãos já tão sobrecarregados com os problemas
cotidianos. Muitos que tinham ouvido a explosão reforçavam a ideia de um ataque
terrorista, mesmo que nunca tenha havido nenhum registro deste tipo na história
recente desta cidade, nem na história mais recuada.
A unidade de gerenciamento de crise da
prefeitura havia sido avisada do que de fato havia acontecido, e procurava
divulgar mensagens na tentativa de orientar, articular uma saída, estabelecer
um pouco de ordem no que parecia ser, a esta altura, um quadro de calamidade
pública, só que mais da metade da cidade já estava sem energia e os comunicados
por televisão não poderiam ser divulgados. Por rádio somente nos automóveis,
caminhões, vans, táxis, etc., é que poderiam ter um alcance maior, porém
ninguém conseguia se locomover. A articulação estava bastante dificultada, só
os celulares ainda tinham algum poder de comunicação rápida.
Quatro horas da tarde o fornecimento de
água já estava ficando comprometido, pois as bombas, na grande maioria
elétricas estavam impavidamente paradas, as que funcionavam a diesel gastavam
rapidamente seu combustível. Nesta altura do dia começaram os primeiros saques,
muitas lojas que teimavam em ficar abertas ficaram desguarnecidas e o
policiamento lutava desesperadamente para conseguir controlar o incontrolável,
então vários bandos se aproveitavam da situação, como cães selvagens que cercam
a presa aturdida pela espiral frenética de confusão e desordem. Daí para o
confronto foi um pulo, pois várias brigadas das forças de segurança já haviam
conseguido se deslocar. Na zona de comércio mais popular por volta das 16:30
hs. o som de garrafas quebradas, vidros quebrados, gritos, correria, já era a
tônica. Carros saqueados, lojas saqueadas, ambulantes atacados, pessoas
roubadas; a pilhagem já começava a correr solta, o tênue equilíbrio da vida em
sociedade estava por um fio, com uma facilidade muito além do aceitável este
equilíbrio muitas vezes é rompido. Balas de borracha, gás de pimenta, gás
lacrimogênio entupiam o ar e uma praça de guerra se apossou de uma praça onde
artigos para consumo, presentes, mimos, brinquedos, eram vendidos e compradas
pacificamente , levando alegria e satisfação para tantas pessoas.

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