domingo, 1 de outubro de 2017

Oto (3ª parte)

Quando se levantou num susto, Oto deixara cair um dos relatórios que estavam cobrindo sua cabeça, abafando-o. Eram 00:45 h já na madrugada e seu peito parecia uma turbina dentro de uma indústria. Levou alguns segundos para se recompor e se lembrar que estivera sonhando. Um sonho lindo à princípio que se transformara num pesadelo assustador. Oto apruma-se no sofá e pensa tantas coisas ao mesmo tempo, como uma vertigem. Como o abismo que estivera prestes a cair segundos atrás. Ainda respira com dificuldade, mas pouco a pouco coloca seus pensamentos em ordem. E a palavra mágica voltou na memória: “ Eu disse um NÃO muito firme e o foi o que me salvou. Quando foi que eu disse um não deste tamanho? Acho que nunca”. Ele estava um tanto surpreso consigo próprio, o súbito despertar parece ter pego Oto num momento em que sua guarda estava totalmente baixa, ele estava indefeso para os rótulos que se prendem às pessoas e naquele momento, mesmo que uma fração infinitesimal do tempo, ele experimentou a possibilidade de ser completamente diferente do que vinha sendo por tantos anos. A madrugada abriga em seu cerne esta estranha propriedade ambivalente, de clarear a mente elucidando questões complexas e arraigadas no mais profundo íntimo, e ao mesmo tempo desmascarar as amarras sutis ainda que perversas, que tolhem os movimentos das muitas pessoas incompletas, cujo brilho fica mais e mais baço e terminam por abrir mão de seus sonhos e seus desejos, por medo, vergonha ou o quer que seja.
     Esta fração minúscula de vida logo passou e Oto já se levanta, esfrega os olhos e custa a acreditar que tal pensamento tenha ousado cruzar seu cérebro tão organizado. Ainda com o coração acelerado e intranquilo ele se depara com a grande quantidade de relatórios, pedidos e anotações que preenchem sua rotina. O sono volta a requerer sua atenção, mas ele estava um pouco assustado com a experiência e com as lembranças muito vívidas, ali como se defronte de seus olhos. Aquele rosto moreno e atraente deixara-o desorientado. A Lua muito clara parece encará-lo, pedindo uma resposta. Mas que resposta? A madrugada é um território que Oto não têm muita afinidade, o território dos boêmios, sonhadores e românticos, o oposto de sua figura pública tão ordeira e convencional, quase insípida diriam alguns. Oto liga seu sistema de som bem baixinho para não incomodar os vizinhos e tenta arrumar companhia na forma de música. Sua cafeteira elétrica está de novo em ação. Seu senso de dever e sua retidão falaram mais alto e ele já está recomposto, com energia revigorada para enfrentar mais algumas horas de trabalho árduo ainda que gratificante, segundo seu ponto de vista. Bom, é a vida, dinheiro não brota de um cartão magnético simplesmente.
     Quatro horas da manhã e quase três horas de trabalho ininterrupto são testemunha da grande quantidade de relatórios, gráficos e soluções elegantes para problemas enervantes que Oto têm a oferecer à seus clientes. O cansaço finalmente interrompe esta sequência frenética e Oto praticamente desmaia, e desta vez dorme por horas à fio. Acorda às 11:30 h de uma sexta-feira normal, toma um banho restaurador e um café da manhã farto e saboroso, como há muito não fazia. Ouviu seu rádio por um bom tempo e decidiu voltar ao trabalho, havia avançado muito nas suas pendências, mas ainda faltava bastante. Rotina, não mais que rotina.
             Já estava escurecendo e a cidade já se preparava para uma agradável noite de sexta-feira, milhares de ligações simultâneas arrumavam os passeios, programas, festas, noitadas, diversão saudável ou não. O telefone de Oto como sempre estava mudo, quase inútil nestas horas, e ele seguia firme como um nadador olímpico que draga uma piscina com suas braçadas firmes e largas. A memória de seu laptop ia ganhando mais e mais arquivos e gráficos, relatórios e recomendações, e Oto estava muito contente consigo, seu trabalho fluía e seu orgulho crescia.
    Dez horas e Oto firme, com seus dedos velozes no teclado. Onze horas e Oto boceja um pouco, a máquina range um pouquinho, precisa de óleo? Lá vai a cafeteira de novo esguichar o bom e quente líquido, que fez fama e fortuna de muitos neste Brasil. Um copo, dois copos, onze e meia da noite Oto acha que têm a força. “Para melhorar a iluminação do galpão duas carreiras de lâmpadas econômicas correndo paralelas podem proporcionar um aumento de até 30% na visibilidade, permitindo um incremento na produtividade dos trabalhadores envolvidos diretamente no manuseio........O Everest é uma homenagem aos colonizadores ingleses, o verdadeiro nome da montanha mais alta do mundo é Chomolugma, é injusto que deem este nome estrangeiro.........É impressão minha ou eu estou sendo perseguido por um dragão de escamas vermelhas e púrpura?.....Ahnnn? Oto sacode a cabeça e pensa: “De novo? Meu pensamento já está escorregando de novo”. Ele fica apreensivo ao se lembrar da noite anterior e do sonho aterrador que vivenciara. De um salto se levanta da mesa e percebe que o ar está mais difícil, sua narina direita se fechara um pouco, sua língua está um pouco ressecada. “Água, água pura, um grande gole vou tomar. Que sede! Só percebi agora! Tanto trabalho que eu até esqueço de beber água, esqueço de comer e de marcar consulta no médico. Esse nariz está me atrapalhando”. Oto teima em continuar após matar a sede e respirar fundo, assoando o nariz com força para ver se respira melhor daí em diante. Já seus dedos voltam para seu teclado bastante gasto com tantos toques frenéticos, falta pouco trabalho agora e ele pensa em terminar ainda esta noite e se possível deixar o fim de semana para um merecido descanso. Poucas frases restam para completar o último trabalho do dia. Ou da noite? Oto nem sabe ao certo que horas são. Pequenos pontos luminosos dançam e se sacodem nos cantos de seus olhos, talvez pelo cansaço, muito pelo esforço, pela dedicação de querer sempre cumprir os prazos que se auto impõe. Oto têm princípios sérios e sólidos, mas tudo custa um preço, seja pela ausência, pela falta de uma vida social, pelo descuido com a saúde, pelo adiamento constante de antigos projetos, planos e sonhos quase apagados da memória. Aquele rosto moreno não abandonava mais seu pensamento.
      Só mais uma frase e mais um cliente satisfeito, que com sorte lhe pagará com somente uma semana de atraso. Sua cabeça bamboleia e Oto sucumbe à uma agradável sensação de desligamento da realidade. A última frase não é finalizada. Oto agora estirado no sofá deixa cair seu laptop no chão, mas nem percebe, nem liga, nem escuta. A viagem começa............

      Dentro de uma densa camada de neblina que pulsa como se tivesse vida palpável, emitindo clarões de uma luz fraca e laranja entremeada com fagulhas vermelhas, o chão se move como se fosse uma esteira rolante levando Oto para algum lugar desconhecido. Ele não teme nada, apenas sente aquela sensação agradável de desligamento da realidade, que vai se tornando mais forte à medida em que ele se dirige para um grande maciço de pedra escura e disforme. Logo começa a atravessar um túnel pequeno e afunilado, seu corpo inclinado como uma lança. No outro lado da parede uma claridade cresce, mas não ofusca seus olhos, uma claridade multicolorida que dança como chamas de um fogo frio. É de uma beleza estonteante e traz uma curiosidade seguida de uma sensação de conforto, que logo chega, cerca Oto e o banha de uma luz suave. Uma recepção cordial e aconchegante que carrega junto uma sensação de leveza e repouso. A neblina densa ficara do outro lado do muro de pedra escura. Oto acomoda seus olhos ao novo ambiente, um vale deserto com pedras dispostas num desenho geométrico. Com surpresa ele começa a perceber o padrão na disposição daquelas pedras, algumas muito claras, outras de um tom cinza grafite. Nenhuma vegetação aparente somente pedras num chão macio. Este ambiente apesar de agradável é um tanto estranho, nada natural. As pedras dispostas desta maneira lembram um santuário e ele lembra-se de Stonehenge. Aproxima-se de uma das pedras e quando toca em sua superfície um som agudo penetra-lhe os ouvidos. No centro da formação rochosa as pedras maiores começam a se mover e um buraco no chão aparece. A curiosidade superou o medo, Oto se aproxima e vê uma escada que se perde no escuro. Um som como um canto melodioso se faz ouvir, um som que puxa irresistivelmente o curioso Oto para dentro daquele buraco.
      Os degraus são macios e quando pisados emitem luzes de variados matizes, a parede brilha como se estivesse cravejada de cristais e brilhantes, o som melodioso cresce e aguça a curiosidade de Oto. A escada parece interminável ainda que suave e agradável. As amarras que prendem Oto às convenções foram retiradas e ele parece flutuar, experimentando uma sensação de liberdade desconhecida até então. Ao final da escada ele se depara com uma porta sem tranca nem fechaduras aparentes, daí ele se vira para olhar para trás e uma escuridão absoluta tomou conta do caminho. Volta-se para a porta fechada e agora ela emite uma sequência de luzes que vai aumentando de velocidade até que toda a porta fique acesa como em brasa. Subitamente ela se abre e uma luz intensa faz com que os olhos de Oto se fechem imediatamente. Pouco depois ele se acostuma com a claridade súbita e vê algo como um lago imenso, e ao longe nuvens muito baixas que rodopiam ao redor de uma estrutura gigantesca. Tudo é muito inusitado neste ambiente incomum. Um desejo enorme se apossa do pobre Oto quando o canto melodioso retorna a seus ouvidos e agora ele tem certeza que o som vem daquela construção no meio do lago. Mas como chegar até lá? Ele se aproxima da margem do lago esperando encontrar algum barco ou bote que seja. Um caminho translúcido se destaca no meio da água e Oto como que puxado por uma força maior que sua hesitação apoia um pé e depois outro e nisso o caminho se ergue afastando as águas. O pobre Oto segue firme, quase correndo, o canto sedutor aumenta sua frequência cardíaca e seu desejo de chegar naquele lugar desconhecido envolto por uma luz cálida emitida por nuvens que rodopiam como dervixes em transe.
    No caminho até o edifício, no meio do lago, formas desconhecidas se mexem dentro da água, sombras escuras nadam próximo a superfície. Aquela sensação de conforto e calma começa a ficar perturbada pois à medida que Oto se afasta da margem do lago, o céu ou a abóboda muda de cor, ganhando tons mais escuros e parecendo mais baixo do que no princípio. As águas sobem e cobrem o caminho suspenso até o edifício, atrás de Oto o lago antes tão calmo começa e se encrespar e ficar revolto, uma convulsão surgindo do nada. As formas que nadam pouco abaixo da superfície agora estão maiores e em grande número, turbilhonando mais e mais a água. Oto já havia passado da metade do caminho até a construção e sente-se cada vez mais pressionado pelo espetáculo às suas costas. Começa a correr quando rugidos ameaçadores agridem seus ouvidos e ele já não têm coragem de olhar para trás. Ele só sente uma vibração muito forte próxima de sua cabeça e sua respiração já está muito acelerada quando ele finalmente alcança o edifício no meio do lago. Mal toca o solo e uma pesada porta de granito logo se abre e ele se joga para dentro do desconhecido. Em segundos (ou o que parecia ser um tempo bem curto) ele observa o interior daquela construção tão imponente. Um grande salão com piso de mármore e ao centro duas colunas que sustentam um arco com símbolos desconhecidos esculpidos. Parecem letras de um alfabeto estranho. Nas paredes deste salão muitas imagens com figuras bizarras entremeadas com as mesmas letras do arco. De repente surge entre os arcos um globo incandescente que gira em grande velocidade puxando Oto para junto deste. Oto está muito aflito com estes acontecimentos, e se sente completamente só e desamparado neste mundo estranho, onde até então não havia visto nenhum ser humano. Vai se aproximando do globo iluminado, não consegue recuar pois seu corpo não lhe obedece mais e um ruído crescente preenche aquele salão. Apesar da aparência de fogo do globo giratório Oto não sente calor, só apreensão pela situação fora de controle. Por fim ele é engolido pela esfera e ao abrir seus olhos novamente se vê no centro de outro salão menor que o anterior, mas percebe várias pessoas ao seu redor, como se estivesse num anfiteatro e ele no centro do espetáculo.
     Figuras com ar severo e olhos inquisitórios o observam em profundo silêncio. Oto gira ao redor de seu corpo para olhar aqueles rostos, mas nenhuma palavra sai de seus lábios, apenas os olhares frios e hostis que parecem atravessá-lo. Um temor crescente vai amolecendo suas pernas e pesando seus braços, e um tremor impede que seu corpo obedeça a seu comando. Aquele momento pareceu infinito para ele, sentindo-se nu e desamparado no meio de uma tempestade iminente. Tudo parece tão real e assustador e ele se pergunta o que está acontecendo e porque está acontecendo, por que ele sempre tão ordeiro e inofensivo está naquela situação? O que terá feito de errado? Parece um julgamento. “Meu deus, será que eu morri e aqui é o lugar onde dizem que as almas são julgadas, onde seus feitos são medidos e pesados para saber se podem ir para o céu ou não? ” Ele pensa reconhecer alguns rostos dentre aqueles que o observam com olhares gélidos. “Aquele ali me faz lembrar um diretor de uma siderúrgica que eu prestei serviço, aquele outro mais acima parece o advogado de uma metalúrgica que eu ajudei a reverter uma situação de grande risco, aquele de olhar faiscante na última fileira é idêntico ao gerente daquele frigorífico cujas instalações estavam muito precárias, eu ajudei a consertar e ele só me pagou dois meses depois do combinado. Por que eles estão me olhando assim de modo tão acusatório? Eu só fiz o bem para eles! ”
        Neste momento a voz que o havia atraído para dentro da escada do buraco é ouvida no salão, o mesmo som suave e atraente. Por um instante Oto se sentiu seguro e fortalecido e aquelas pessoas ao redor arrefeceram o olhar frio e feroz. A luz do salão mudou repentinamente e todos pareciam se curvar em reverência. Uma atmosfera solene se apossou daquele aposento antes tão lúgubre. A luz antes escura e soturna havia aumentado de intensidade e brilho, revelando paredes ricamente enfeitadas com imagens muito diferentes de tudo que Oto havia visto até então em sua vida. Ele olhou para o teto que girava parecendo a abóboda celeste, mas as estrelas estavam dispostas de forma muito diferente da configuração que temos no hemisfério sul. Constelações diferentes de todas as conhecidas estavam estampadas naquele teto giratório. Oto não conseguia se virar para ver quem era responsável por toda aquela mudança que havia acontecido subitamente. Tinha a impressão que deveria ser uma figura feminina, a julgar pela voz encantadora que o havia atraído, além do perfume que impregnava o salão. Este perfume o havia deixado mais tranquilo, mas ele não sabia dizer porquê. A curiosidade agora era tamanha que ele, fazendo um grande esforço, estava se descongelando lentamente, mexeu primeiro um braço depois outro, mexeu um pé e a outra perna, mexeu a cabeça para baixo e para o lado. Daí então ele se virou para ter uma surpresa inesperada e uma visão que o paralisou tão profundamente quanto estava antes.
_   Myrna !!!?!????!!!
   Uma presença estonteante e aterradora ao mesmo tempo dominava o anfiteatro, onde as figuras se prostravam em reverência, numa mistura de temor e devoção entrelaçadas, uma presença que emitia uma luz fulgurante e um aroma inebriante à semelhança de uma divindade. Aquele rosto moreno estava de volta ao seu campo visual, só que de uma forma completamente diferente, aquela linda menina que se sentava na carteira ao lado da sua era só uma leve lembrança desta deidade que parecia surgida de mundos submersos pelo tempo. O pensamento e a razão de Oto estavam na mais total das confusões, o temor que crescia dentro dele nos momentos precedentes havia sido substituído pela visão incomensurável, que lhe ofuscava o raciocínio.
-Como você conseguiu desaparecer na última vez que nos encontramos?
   A pergunta foi feita diretamente para Oto que ficara mais destacado do que antes, iluminado diretamente por um facho de luz dourada, o que aumentou mais um pouco o seu desconforto, visto que ele era um homem bastante discreto que não gostava de destaque. A plateia aguçou mais a curiosidade pois sua Deusa parecia conhecer muito bem o convidado. A quantidade de rostos parecia ter se multiplicado e o salão aumentara de tamanho, de um anfiteatro para uma arena.
- Milhares de anos se passaram desde que você sumiu como uma nuvem de fumaça, e naquela ocasião você nos abandonou e nos ignorou, recusou meu pedido. Todos ficaram desiludidos, arrasados, perdidos e por fim foram destruídos. O abismo engoliu tudo. A mim foi permitido retornar e tomar esta manifestação como veículo. Me chamam de Rashkarmatara e este é o meu domínio. Você seguiu minha voz e minha voz foi uma isca, como uma sereia na antiga Grécia. Meu rosto é o mapa que o trouxe até as portas de meu reino, e sua dívida o deixará para sempre dentro destes limites. Você não poderá me negar novamente.
       Oto não sabe o que pensar, muito menos o que dizer. A confusão tornara-se um pavor de proporções inimagináveis. Como era possível que milhares de anos tivessem se passado se ele, que agora se lembrara aos poucos do sonho intranquilo que tivera na noite passada, estivera em sua presença na noite anterior. Nada fazia o menor sentido e ele não conseguia raciocinar como estava acostumado. Aquele rosto que passara a desejar com tanta intensidade agora estava ali na sua frente só que infinitamente mais belo e muito mais assustador também, com aquelas frases tão diretas quanto cruéis. Que dívida era esta, que recusa era esta que ele não sabia e não compreendia?
    -Oto eu já esperei demais por você. Você terá de decidir agora: você virá comigo ou ficará por eras sem conta neste palácio estéril?
     Colocado assim desta forma Oto está imprensado contra uma parede. Mais que uma parede, ele está sendo obrigado a decidir sobre algo que não sabe do que se trata, mas percebe a gravidade da situação, e o “eras sem conta neste palácio estéril” acendeu uma luz intensa na sua cabeça. Uma grande angústia se apoderou dele e ele percebeu que poderia estar morrendo. Só que o rosto de Myrna ou Rashkarmatara era um alívio muito grande, por ser de uma beleza indescritível, um bálsamo, um antídoto, um bote salva-vidas. A outra alternativa, a de ficar com ela, por mais absurdo que parecesse, já que como seria possível uma divindade estar interessada num sujeito tão simplório? Naquele momento era a sua salvação. E ele disse SIM mais uma vez em sua vida. O rosto tão belo de Rashkarmatara , tão severo até então, finalmente se abriu num sorriso encantador, se é que fosse possível ser mais encantador. Ela lançou um olhar meigo e disse:
         -Você fez a escolha certa desta vez. Pode ir embora!
      As paredes, a plateia, a abóboda, tudo enfim começou a se desfazer em pequenos pontos de luz que foram se tornando brancos e formaram uma névoa em forma de túnel, que girava numa velocidade absurda e vertiginosa...
      São 23:42 hs quando Oto abre os olhos com grande espanto. Então percebe uma almofada cobrindo seu rosto, atrapalhando sua respiração. Seu pulso está descontrolado e seu corpo está dolorido, pois estava deitado no sofá de sua sala numa posição bastante incômoda. Seu laptop estava no chão e sua xícara de café ainda estava quente. Menos de dez minutos de sono haviam transcorrido desde então e sua sala continuava igual ao que era antes, os mesmos móveis, a mesma arrumação sem criatividade, apenas funcional. Um alívio sem tamanho envolveu todo seu corpo quando ele percebeu que sua vida real e concreta estava de volta. Um silêncio imenso servia de moldura para aquele momento de despertar do sonho mais absurdo que jamais tivera.
      O impacto daquele sonho logo retornou e Oto foi tomado por uma melancolia tão grande quanto o alívio de seu retorno ao chão e à rotina. Prostrado no sofá as lembranças daqueles momentos tão intensos preenchem sua mente e a beleza sublime e surreal daquele rosto, sem que ele percebesse naquele instante, havia deixado uma marca indelével em seu espírito. Oto havia tocado o seu vazio, havia entrado em contato com o resto que faltava em sua existência. Mas isto é uma elaboração feita por alguém de fora, é claro. O que ele passou a sentir daí então foi como uma sede que nunca passa, como uma ilha ao longe que nunca se alcança, um sentimento muito vago que ele não conseguia captar. Ele havia escutado o canto da sereia, o rumo errado que naufragava os navios nos tempos antigos. Por incontáveis noites ele dormiu na esperança de encontrar novamente aquela divindade, mas em vão. Até que ele percebeu que precisava sair pelo mundo procurando. Mas isto é uma outra história.




                                                                           Ivan Henrique Roberto    16 de fevereiro de 2009

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