O FIM
A porta da face norte do casarão estava escancarada. A água barrenta fluía com facilidade e rapidez. Quase tão rápido quanto subira, ganhando terreno com velocidade constante, a água agora retornava por onde viera. A manhã clara e fresca em nada lembrava a noite calamitosa da véspera, cujos índices pluviométricos registraram um recorde difícil de ser batido. A enchente em si não era novidade naquela região, tendo sido verificado em pelo menos quatro ocasiões na última década, mas não naquela proporção. Os que acompanharam pelo noticiário, e sendo mais crentes nas Escrituras, juraram de pé de junto que Noé existia de fato e fora o responsável. Enfim, sendo verdade ou não, agora era a hora do rescaldo, de contabilizar os prejuízos, de reconstruir a paisagem humana seriamente danificada. O nível da água baixa e logo passa da primeira prateleira. Em seguida o sofá imprestável retorna ao solo. A escada encharcada está visível de novo. E um corpo inerte pousa suavemente nas tábuas envelhecidas do piso superior deste casarão, que em tempos idos costumava receber turistas aos montes, em busca de lanches rápidos e artesanato local no caminho para a cidade. Em questão de poucas horas o rio terá voltado ao seu tamanho normal, contido em seu leito esculpido ao longo de eras e estações esquecidas, em tempos onde nenhum ser humano jamais havia colocado seus pés para refrescar a pele na água corrente após longas caminhadas, pois o rio era jovem e os humanos nem existiam ainda. Mas isso foi há muito tempo, e a paisagem mudara inúmeras vezes, só o Sol estava lá por testemunha. No lado de fora da propriedade um lamaçal era tudo o que existia, e também um automóvel seriamente avariado na lataria, e de cor indefinida ; somente após uma lavagem muito caprichada é que se poderia saber sua verdadeira cor. O conteúdo do carro também estava imprestável, encharcado, sujo e inoperante, perda total sem dúvida nenhuma. Dado ao estado de abandono da propriedade, antes do pequeno dilúvio, a tendência a permanecer do jeito que estava era muito
grande, a lama secaria por certo e a parte desabada do casarão ficaria como um souvenir, um instantâneo do momento.
AINDA NÃO É O FIM
Os olhos foram abertos com cautela. Ainda pareciam colados, os cílios entrelaçados, a imagem bastante turva, tudo desfocado e incerto, com contornos indistintos. Um peso exagerado nestas pálpebras cerradas por longo tempo, não se pode saber por quanto. Era quase preciso pegar dois dedos para auxiliar no movimento que é tão natural e automático. Contudo os dedos também estavam parados, contraídos, tensionados, crispados, bem como os braços e as pernas. Os sons começaram a tomar forma lentamente, em parte por que o mundo ao redor estava esquecido e silencioso e em parte porque a água encharcara até os tímpanos. E enfim o movimento da respiração e do batimento cardíaco. Tudo estava tão calmo agora e em silêncio. Havia consciência neste momento? Difícil responder. Após longos minutos, muito longos, tão longos que romperam a barreira das convenções estabelecidas pelos laboratórios ao redor do mundo, minutos que poderiam ter sido horas; enfim aquele esquecido trabalhador, que confessara suas fraquezas e expusera seus medos para ninguém em especial, despertara deste torpor, deste transe, daquele pesadelo onde terminaria sepultado em água. O destino traz em seus bolsos cheios alguns truques e desvios, como abrir portas onde não se sabe que existam, e concede uma segunda chance para aqueles que ainda precisam aprender muitas lições. Após relaxar e recuperar seus movimentos ele permaneceu imóvel, apenas sentindo sua respiração acalmada e seu coração no ritmo que melhor lhe convinha. Estava preocupado e apreensivo? Não mais. Tinha bastante tempo para pensar numa saída agora.

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