segunda-feira, 2 de abril de 2018

O ato de esperar (3ª parte)


                                                         SEGUNDO METRO ACIMA DO LEITO
                     
                         O segundo metro veio quase em seguida. Árvores recém brotadas e ainda não firmes o bastante foram arrebatadas pela marcha frenética. Alguns casebres miseráveis ao longo do caminho, abandonados também, outros como simples abrigos para caçadores clandestinos, e cujos alicerces não eram lá essas coisas, nenhum deles ofereceu a mínima resistência. Pedaços de parede, tijolos soltos, telhas quebradas, cadeiras velhas, pedaços de pau foram juntar-se ao turbilhão de objetos que avançavam sem limite e sem vergonha
                     
                                                                      ABRIGO
                     
                            Um cansado trabalhador desaba numa cadeira coberta de poeira ao se dar conta que seu abrigo não contém uma simples migalha de qualquer coisa que possa ser mastigada e deglutida.  O cansaço começa a cobrar seu preço, transformando a surpresa inicial com a descoberta deste refúgio em um leve desespero, alimentado pela fome que veio para ficar como companhia indesejada. O que antes era uma escuridão física, pela ausência de uma simples lâmpada incandescente que seja, mesmo uma pequena de uns quinze watts, pouco a pouco se transmuta numa escuridão psicológica. Ah o conforto! Tudo à distância de um simples apertar ou estalar de dedos, uma rede extensa criada e mantida pelo esforço anônimo de milhões de outros trabalhadores para garantir o bem-estar de seus concidadãos. Quando esta rede se rompe os dedos ficam inertes e impotentes. Só resta cruzá-los em um perplexo gesto de superstição.
                            A chuva não dava trégua, nem cedia um mililitro que fosse. Os raios riscavam o céu noturno, numa dança iluminada e aleatória, parecia a natureza em festa a zombar dos humildes mortais encolhidos em suas casas, ensopados nas ruas, encurralados debaixo de pontes e marquises.  Os raios continuavam a fornecer a pouca luz naquele ambiente desolado que servia de abrigo.
                         “ Acho que eu tenho ainda um pacote de biscoitos no porta-luvas do carro”, pensou o trabalhador de boa memória, apesar da fome. “O repouso eu já arrumei, aquelas toalhas bastam como coberta, mas e a fome? Vai ser duro de aguentar passar a noite desse jeito”. Apesar do desconforto que um estômago vazio oferece àqueles que sempre tem à disposição alguma coisinha para mastigar, nosso resignado trabalhador resolve esperar um pouco, talvez na vã esperança que a chuva pare de repente. “Que horas devem ser? Deixei tudo no carro, meu relógio, meu celular, meu notebook, tô completamente perdido, estou ilhado literalmente, acho que ninguém vem aqui há tempos”               
                          Vários minutos são consumidos nestas deliberações e hesitações. Quando o desconforto alcança o ponto em que obriga nosso herói a se mexer, ele quase num salto resolve ir até o carro vasculhar o porta-luvas em busca do biscoito perdido.  Depois de quatro passos o assoalho cede abruptamente, resultado do abandono e uma infiltração de água que havia solapado a madeira. Ele enfia o pé no buraco súbito, com todo seu peso.  O estalo nem chegou a ser ouvido pois no mesmo instante um trovão rugiu forte e poderoso, enchendo o ar com seu som assustador. A dor não demorou a vir. Uma torção muito forte, talvez uma fratura, causou esta dor lancinante que se apossa do corpo e alma deste pobre, cansado e faminto trabalhador, que só queria dormir sentindo o cheiro familiar de seu travesseiro.
                          A dor foi tão intensa que ele perdeu os sentidos. Em poucos minutos, já refeito do desmaio, o descontrole já quer invadir seu raciocínio. Ele percebe a gravidade da situação.
                     

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