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SEGUNDO
METRO ACIMA DO LEITO
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O segundo metro veio quase em seguida.
Árvores recém brotadas e ainda não firmes o bastante foram arrebatadas pela
marcha frenética. Alguns casebres miseráveis ao longo do caminho, abandonados
também, outros como simples abrigos para caçadores clandestinos, e cujos
alicerces não eram lá essas coisas, nenhum deles ofereceu a mínima resistência.
Pedaços de parede, tijolos soltos, telhas quebradas, cadeiras velhas, pedaços
de pau foram juntar-se ao turbilhão de objetos que avançavam sem limite e sem
vergonha
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ABRIGO
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Um cansado trabalhador desaba numa
cadeira coberta de poeira ao se dar conta que seu abrigo não contém uma simples
migalha de qualquer coisa que possa ser mastigada e deglutida. O cansaço começa a cobrar seu preço,
transformando a surpresa inicial com a descoberta deste refúgio em um leve
desespero, alimentado pela fome que veio para ficar como companhia indesejada.
O que antes era uma escuridão física, pela ausência de uma simples lâmpada
incandescente que seja, mesmo uma pequena de uns quinze watts, pouco a pouco se
transmuta numa escuridão psicológica. Ah o conforto! Tudo à distância de um
simples apertar ou estalar de dedos, uma rede extensa criada e mantida pelo
esforço anônimo de milhões de outros trabalhadores para garantir o bem-estar de
seus concidadãos. Quando esta rede se rompe os dedos ficam inertes e
impotentes. Só resta cruzá-los em um perplexo gesto de superstição.
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A chuva não dava trégua, nem cedia um
mililitro que fosse. Os raios riscavam o céu noturno, numa dança iluminada e
aleatória, parecia a natureza em festa a zombar dos humildes mortais encolhidos
em suas casas, ensopados nas ruas, encurralados debaixo de pontes e
marquises. Os raios continuavam a
fornecer a pouca luz naquele ambiente desolado que servia de abrigo.
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“ Acho que eu tenho ainda um pacote de
biscoitos no porta-luvas do carro”, pensou o trabalhador de boa memória, apesar
da fome. “O repouso eu já arrumei, aquelas toalhas bastam como coberta, mas e a
fome? Vai ser duro de aguentar passar a noite desse jeito”. Apesar do
desconforto que um estômago vazio oferece àqueles que sempre tem à disposição
alguma coisinha para mastigar, nosso resignado trabalhador resolve esperar um
pouco, talvez na vã esperança que a chuva pare de repente. “Que horas devem
ser? Deixei tudo no carro, meu relógio, meu celular, meu notebook, tô
completamente perdido, estou ilhado literalmente, acho que ninguém vem aqui há
tempos”
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Vários minutos são consumidos nestas
deliberações e hesitações. Quando o desconforto alcança o ponto em que obriga
nosso herói a se mexer, ele quase num salto resolve ir até o carro vasculhar o
porta-luvas em busca do biscoito perdido.
Depois de quatro passos o assoalho cede abruptamente, resultado do
abandono e uma infiltração de água que havia solapado a madeira. Ele enfia o pé
no buraco súbito, com todo seu peso. O
estalo nem chegou a ser ouvido pois no mesmo instante um trovão rugiu forte e
poderoso, enchendo o ar com seu som assustador. A dor não demorou a vir. Uma
torção muito forte, talvez uma fratura, causou esta dor lancinante que se
apossa do corpo e alma deste pobre, cansado e faminto trabalhador, que só
queria dormir sentindo o cheiro familiar de seu travesseiro.
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A dor foi tão intensa que ele perdeu os
sentidos. Em poucos minutos, já refeito do desmaio, o descontrole já quer
invadir seu raciocínio. Ele percebe a gravidade da situação.
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