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CINCO METROS ACIMA DO LEITO DO RIO
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Se traçássemos uma linha de altimetria
entre a sala agora esburacada deste casarão abandonado e o leito original do
Rio dos Troncos, teríamos como certo que cerca de 10 metros seriam suficientes
para que, numa situação anormal, as águas chegassem, sinuosas e sorrateiras. A
propriedade onde estava edificado este casarão situava-se na bacia do rio. Com
tanta água à sua disposição o rio só crescia e corria, cada vez mais rápido,
cada vez mais forte. Árvores robustas e maduras em idade já se deslocavam, num rafting
sem emoção, apenas uma corrida cega à mercê da enxurrada. Toneladas de terra, pedra e sedimentos
arrancados das margens, que se devidamente processadas e tratadas seriam
suficientes para a construção de um bairro inteiro, porém, neste momento não é
esse o objetivo. Este é o momento de destruição. Ou de renovação, depende do
ângulo que se olha.
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A defesa civil da cidade mais próxima já
se mobilizava, pois certamente o estrago seria colossal. Com a ponte caída e o
rio transbordado, a ajuda teria enormes dificuldades para chegar. A chuva
intensa era mais um ingrediente deste bolo amargo a ser servido ao poder
público e seus contribuintes.
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Com todas as dificuldades já relatadas
até agora, o trânsito na estrada havia cessado. Se nem os locais habitados eram
objeto de atenção, imagine um local abandonado? Para todos os efeitos tudo que
estivesse a menos de 15 metros de altura a partir do leito original do rio
parecia condenado.
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ABRIGO
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A dor intensa do momento após o
trauma havia cedido um pouco, mas não passara. A imobilidade era a única
certeza que nosso trabalhador azarado tinha no momento. A fome fora esquecida
por motivo de força maior, bem maior, diga-se de passagem. Mais do que se
sentir sozinho ele sente e percebe a verdadeira solidão. Com todo o seu aparato
de comunicação há apenas cerca de 20 metros de distância, dentro do carro,
distância que numa situação de normalidade seria percorrida em poucos segundos,
o isolamento em que este contundido homem se encontra é uma grande ironia em
face da sociedade onde o anonimato e a privacidade são bens cada vez mais
raros.
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O teto da construção ainda resiste.
Alguns filetes de água escorrem pelas paredes. Os trovões não param de
ribombar, com seu barulho ensurdecedor. Com tanto ruído ao redor o som surdo
que avança em direção ao casarão fica em segundo plano. A dor e os trovões
impedem de ouvir muita coisa.
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DEZ METROS
ACIMA DO LEITO DO RIO
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A escalada do rio em direção ao topo não
encontrava obstáculos. A celeridade do avanço havia diminuído um pouco em
relação ao início avassalador, mas mesmo assim o volume envolvido era tão
grande que a própria inércia tinha velocidade. Aos poucos, quase
imperceptivelmente, a chuva começava a diminuir, como a se cansar de sua queda
tão rápida, a brincadeira perdendo a graça do início. Já quase não havia terra seca
num raio de vários quilômetros, já quase não havia construção que tivesse
resistido em pé diante de um poder maior.
Uma placa semidestruída, que indicava em anos recentes um local de
comércio de licores e vinhos, boiava agora por cima de um monte de galhos e
material de demolição na garupa de uma massa d'água que avançava sem controle,
porém agora numa velocidade menor.
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ABRIGO
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“ Tenho a impressão que a chuva está
diminuindo. Ou minha razão já está sendo afetada, pela fome, pela dor, pelo
azar”. “Por que não fiquei para pernoite? Bem que o colega avisou. Ahh, agora
já era. ” Desconsolado, esfomeado e com uma dor intensa, sentado num chão
imundo, o ansioso trabalhador tenta reunir alguma força e algum raciocínio que
o faça buscar uma saída. “Minha perna dói demais, mas eu tenho que me arrastar
até o carro, senão jamais saberão que eu estou aqui. ”
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O
suor frio escorre pela sua testa, pelas suas mãos, pelas suas costas. Mesmo se
arrastando a dor na perna é imensa. Ele é obrigado a parar pois não resiste ao
esforço. “Ahhh. Acho que não dá…” E começa um choro convulsivo, um choro de
desamparo, como há muito não fazia. Talvez desde criança, quando acordava
sozinho no quarto, todo molhado no meio de um pesadelo. Um pesadelo recorrente,
com ondas gigantes que avançam para o banco de areia onde ele está, no meio do
oceano, e mais nada ao redor e ao longe.
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“
O que será que eu fiz de errado? ” Tremendo de frio e de medo o raciocínio se esgarça.
O som dos trovões quase acabara, a chuva de fato diminuíra. “Então, que som é
este? Que barulho é este? Parece um enxame gigantesco. ” Dentro de seu carro o
celular mostrava várias ligações perdidas. A madrugada avança e várias equipes
de socorro já estavam trabalhando na recuperação da ponte, ou no que seria
possível fazer emergencialmente. Os esforços ficaram concentrados neste ponto
específico desta região agreste. Num raio de 5 quilômetros, tendo o casarão
abandonado como epicentro, nada parecia chamar a atenção, apenas o barulho das
águas que avançavam.
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