terça-feira, 3 de abril de 2018

O ato de esperar (4ª parte)


                    CINCO METROS ACIMA DO LEITO DO RIO
                     
                           Se traçássemos uma linha de altimetria entre a sala agora esburacada deste casarão abandonado e o leito original do Rio dos Troncos, teríamos como certo que cerca de 10 metros seriam suficientes para que, numa situação anormal, as águas chegassem, sinuosas e sorrateiras. A propriedade onde estava edificado este casarão situava-se na bacia do rio. Com tanta água à sua disposição o rio só crescia e corria, cada vez mais rápido, cada vez mais forte. Árvores robustas e maduras em idade já se deslocavam, num rafting sem emoção, apenas uma corrida cega à mercê da enxurrada.  Toneladas de terra, pedra e sedimentos arrancados das margens, que se devidamente processadas e tratadas seriam suficientes para a construção de um bairro inteiro, porém, neste momento não é esse o objetivo. Este é o momento de destruição. Ou de renovação, depende do ângulo que se olha.
                           A defesa civil da cidade mais próxima já se mobilizava, pois certamente o estrago seria colossal. Com a ponte caída e o rio transbordado, a ajuda teria enormes dificuldades para chegar. A chuva intensa era mais um ingrediente deste bolo amargo a ser servido ao poder público e seus contribuintes.
                          Com todas as dificuldades já relatadas até agora, o trânsito na estrada havia cessado. Se nem os locais habitados eram objeto de atenção, imagine um local abandonado? Para todos os efeitos tudo que estivesse a menos de 15 metros de altura a partir do leito original do rio parecia condenado.
                     
                     
                                                                                   ABRIGO
                     
                          
                              A dor intensa do momento após o trauma havia cedido um pouco, mas não passara. A imobilidade era a única certeza que nosso trabalhador azarado tinha no momento. A fome fora esquecida por motivo de força maior, bem maior, diga-se de passagem. Mais do que se sentir sozinho ele sente e percebe a verdadeira solidão. Com todo o seu aparato de comunicação há apenas cerca de 20 metros de distância, dentro do carro, distância que numa situação de normalidade seria percorrida em poucos segundos, o isolamento em que este contundido homem se encontra é uma grande ironia em face da sociedade onde o anonimato e a privacidade são bens cada vez mais raros.
                           O teto da construção ainda resiste. Alguns filetes de água escorrem pelas paredes. Os trovões não param de ribombar, com seu barulho ensurdecedor. Com tanto ruído ao redor o som surdo que avança em direção ao casarão fica em segundo plano. A dor e os trovões impedem de ouvir muita coisa.
                     
                     
                                                         DEZ METROS ACIMA DO LEITO DO RIO
                     
                           A escalada do rio em direção ao topo não encontrava obstáculos. A celeridade do avanço havia diminuído um pouco em relação ao início avassalador, mas mesmo assim o volume envolvido era tão grande que a própria inércia tinha velocidade. Aos poucos, quase imperceptivelmente, a chuva começava a diminuir, como a se cansar de sua queda tão rápida, a brincadeira perdendo a graça do início. Já quase não havia terra seca num raio de vários quilômetros, já quase não havia construção que tivesse resistido em pé diante de um poder maior.  Uma placa semidestruída, que indicava em anos recentes um local de comércio de licores e vinhos, boiava agora por cima de um monte de galhos e material de demolição na garupa de uma massa d'água que avançava sem controle, porém agora numa velocidade menor.
                     
                     
                                                                                  ABRIGO
                     
                            “ Tenho a impressão que a chuva está diminuindo. Ou minha razão já está sendo afetada, pela fome, pela dor, pelo azar”. “Por que não fiquei para pernoite? Bem que o colega avisou. Ahh, agora já era. ” Desconsolado, esfomeado e com uma dor intensa, sentado num chão imundo, o ansioso trabalhador tenta reunir alguma força e algum raciocínio que o faça buscar uma saída. “Minha perna dói demais, mas eu tenho que me arrastar até o carro, senão jamais saberão que eu estou aqui. ”
                       O suor frio escorre pela sua testa, pelas suas mãos, pelas suas costas. Mesmo se arrastando a dor na perna é imensa. Ele é obrigado a parar pois não resiste ao esforço. “Ahhh. Acho que não dá…” E começa um choro convulsivo, um choro de desamparo, como há muito não fazia. Talvez desde criança, quando acordava sozinho no quarto, todo molhado no meio de um pesadelo. Um pesadelo recorrente, com ondas gigantes que avançam para o banco de areia onde ele está, no meio do oceano, e mais nada ao redor e ao longe.
                        “ O que será que eu fiz de errado? ” Tremendo de frio e de medo o raciocínio se esgarça. O som dos trovões quase acabara, a chuva de fato diminuíra. “Então, que som é este? Que barulho é este? Parece um enxame gigantesco. ” Dentro de seu carro o celular mostrava várias ligações perdidas. A madrugada avança e várias equipes de socorro já estavam trabalhando na recuperação da ponte, ou no que seria possível fazer emergencialmente. Os esforços ficaram concentrados neste ponto específico desta região agreste. Num raio de 5 quilômetros, tendo o casarão abandonado como epicentro, nada parecia chamar a atenção, apenas o barulho das águas que avançavam.
                     

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