sábado, 24 de agosto de 2019

O ato de esperar (6ª parte)


  Ele se arrastara com enormes dificuldades por causa da dor em seu pé contundido até um sofá velho. Num plano mais elevado do que o sofá havia uma série de  prateleiras na parede atrás. Mais do que isso só o teto sem nenhum ponto de apoio.
Já era de madrugada e as equipes de emergência trabalhavam em ritmo acelerado para mitigar o impacto. Seria preciso no mínimo um mês para reconstruir a ponte, e enquanto isso um desvio de doze quilômetros já estava traçado para permitir o acesso a este trecho. Com sorte, uma equipe de resgate chegaria neste local somente em dois ou três dias. A boa sorte porém parecia estar ausente nestas redondezas.
  A simultaneidade dos acontecimentos é uma prova da multiplicidade de opções que a natureza oferece como alternativas para se safar de situações complicadas. Por quê então ser partícipe justamente do acontecimento mais desastroso? Estar no lugar errado e na hora errada, deixar o livre arbítrio tão livre que o arbítrio comanda e impõe a escolha errada. Ficar ou partir? Esquerda ou direita? Parar ou continuar?  Certo ou errado ? Destino ou escolha? São questões irrespondíveis. O “se” não existe,  o que existe são as muitas trilhas à frente, mas só há uma escolha neste plano concreto de opções excludentes.  E então o que está a esperar é a porta emperrada e sem chaves. É a água subindo rumo ao teto.
   
  E a água encharca o sofá.
   
   
  Já semiconsciente, o que prevalece é o instinto de sobrevivência. Com o olhar já habituado à escuridão ele sublima a dor e se estica. Agarra a primeira prateleira com força surgida sabe-se lá de onde e puxa o corpo, que se acomoda como um saco de areia. O volume de água é impressionante, e apesar do ritmo mas lento do deslocamento, logo o sofá é arrastado pela torrente. O desenrolar dos acontecimentos torna-se até monótono, com este leito de rio viajante que não encontra adversário e nada que o impeça de seguir. Um ambiente úmido e frio como cenário. Então, qual o problema? Ah sim, temos um ser humano desesperado lutando pela sua vida. Mas, alguém sabe disso? Alguém percebeu isso? Alguém filmou isso? Se não, não importa. Isto não está acontecendo. A simultaneidade de acontecimentos faz com que a atenção seja direcionada para o heroico esforço de  colocar a ponte em condições de trânsito e o restabelecimento do acesso para a zona urbana já tão castigada pelo pequeno dilúvio.
  Uma alvorada pálida já se insinua pelas nuvens enxutas depois de tanto esforço. A luz incipiente de mais um dia clareia uma região vestida de calamidade. Não se tinha certeza dos contornos da terra firme. O rio subira tanto que se metamorfoseara num lago barrento, que se encorpara com os demais córregos.
   
  O       TETO
   
  De volta ao casarão restavam três prateleiras até o teto. Já se antecipando ao inevitável, este maltratado ser de pé torcido se agarra ainda com mais força do que na primeira vez na viga lateral e passa para a prateleira de cima. Com isso ele procura respirar com um pouco mais de folga, e se possível, pensar nas possibilidades de salvação. O teto é sólido e aguentou bem ao tranco de toneladas de água entornadas direto do céu. Vários utensílios de cozinha foram achados logo no início do refúgio, mas nenhuma ferramenta mais pesada, como um martelo ou marreta que quebrasse um pedaço de parede.
  E a água sobe um pouco mais. Já alcançou a primeira prateleira. Tudo dentro do previsto. Um aquário sem peixes neste momento é no que havia se transformado aquela casarão, que outrora em dias de feriado prolongado e férias vivera dias de muito movimento, com o estacionamento cheio de carros cheios de consumidores. Também serviam lanches rápidos e bebidas. E algum artesanato local. A morte inesperada de um dos sócios inviabilizou o negócio, e o imóvel estava fechado há alguns anos por conta do inventário. Coisas de família cujos membros não se entendem.
  Alguém que já tenha passado por experiência semelhante poderia explicar o que se passaria na mente deste sujeito acuado, neste instante em que a água alcança a segunda prateleira. Eu, confesso, nunca passei por situação semelhante, nem quero.  O que se conta é que, com os sentidos mais aguçados pelo estresse, ele já se arrastara para a terceira prateleira. E em seguida, até parecendo se divertir um pouco com isso, pulou para a penúltima prateleira. Começa a gargalhar de repente, algo sem sentido. Não há inibição nenhuma em jogo. E poderia haver alguma?
  “Hahahaha venha água imunda! Você não me alcança! Eu escapei até hoje, eu não sou tão fácil assim, hahaha, eu já provei que não sou! Eles se enganaram comigo, eu sou uma planta carnívora, ehehehehehe, atraio e depois devoro, hahahahahahahah”
  “ Eu não me arrependo, não me arrependo de tudo que fiz. Eu posso gritar em voz alta agora, ninguém vai ouvir, nem me recriminar, hahaha. Eu deveria ter feito muito mais!!!”
  Uma euforia histérica sem testemunhas e sem julgamentos. Eis o véu espesso que estava rasgado e atirado no turbilhão barrento. Eis a água subindo e atingindo a segunda prateleira, novamente um monstro disforme que arreganha uma boca pronta para devorar uma consciência pesada , hóspede de um corpo ordinário.
  “ Vai embora, vai embora, você não ouviu isso!Eu não disse isso, eu não quis dizer nada disso, eu,eu, eu.... Eu quero sair daqui!!! Me deixa em paz!!! Eu não quero morrer agora!!!”
  Um desespero lancinante sem apoio e sem ajuda. Eis o véu já rasgado que não pode mais impedir o frio da alma.
   
  A ÚLTIMA PRATELEIRA
   
 Ainda restava uma última prateleira. O último passo antes do teto. Antes do fim?
  Não havia ninguém por perto, como já foi exaustivamente explicado antes. Mas se houvesse algum observador, de perto ou de longe, veria um rosto tão desfigurado por uma combinação de emoções tão intensas, que por um lado sentiria uma repulsa imensa por aquele olhar esbugalhado e desesperado, e por outro lado ficaria solidário com a situação desesperadora, de um ser espremido entre um teto duro e frio e uma água suja, fria e absoluta.
 Sem opção e de forma automática, ele se arrasta para a última prateleira. E lá fica inerte, agora sem energia nenhuma, como que anestesiado. Esperando, esperando, esperando. Não se pode medir o tempo numa situação destas, creio que não possa. O tempo não é linear como se acredita. Apenas mais uma ilusão, dentre as tantas que existem ao redor. O silêncio é total, apesar do murmúrio da água. O pé já não se sente. A dor passou, só há um silêncio como uma capa.
  Por mais incrível que possa parecer, uma paz cálida se apoderou deste corpo arrasado pelo medo. A libertação após expelir tantos fantasmas e demônios enjaulados por anos em sua mente esquiva, serviu como um antídoto deste veneno que o corroía por tanto tempo. Uma catarse. Uma purgação. Sentia-se leve como um menino olhando o céu estrelado, com a Via Láctea em arco sobre sua cabeça. Continuou a esperar. Que mais ele podia fazer ?
Então a água chegara de fininho aos seus pés. Eu creio que ele caíra em si e aceitou o inevitável. Com a perna pendida para baixo o toque da água em princípio não fora tão ruim assim. Não estava gelada. Sou tentado a dizer que parecia mais uma carícia, um afago.
  “Será que a morte chega com um afago?” Quem pensou isso, ele ou eu?
 Houve uma certa demora para que  alcançasse seu joelho. Imperceptivelmente o ritmo do avanço diminuía. A água se cansara?
  Uma imagem difusa começou a fazer contornos em seus olhos cerrados. A praia com rochas e um vento forte que levantava muita areia. O cheiro longínquo, muito tênue. Uma lembrança recuada no tempo. O Sol estava ofuscado por muitas nuvens e o vento forte e constante trazia um frio inesperado naquele pedaço de litoral afastado. Os brinquedos estavam jogados na areia macia, e o castelinho de areia ainda aguentava firme o ataque dos elementos. De repente ele  procura por seu pai. Olha ao redor e está sozinho. Estivera distraído na árdua tarefa de construtor de superfície instável, buscando água com seu baldinho para engrossar a areia, junto aos palitos de sorvete usados como sustentação de seu castelo tão poderoso. “Onde está meu pai ?” E um coraçãozinho aflito de criança dispara ao se perceber sozinho numa terra estranha.
  As nuvens que se juntam em comboios escurecem cada vez mais o céu. Só muito distante deste local onde pai e filho haviam fincado sua bandeira é que algumas pessoas marcavam presença. A formação rochosa fora escolhida com cuidado, por ser pouco frequentada,  onde a arrebentação era mais forte, e mais perigosa. Aquela oportunidade de passeio com seu pai era há muito aguardada, e muito rara de acontecer. Ele raramente aparecia e a pobre criança não sabia o porquê.
 Quanto tempo decorreu desde o momento em que se viu sozinho? Não se sabe. Só se sabe do medo imenso que tingia com cores escuras o mundo ao redor do menino sozinho na praia. “Onde está meu pai?” já chorando ele pensava. E tremia, talvez de frio, por certo de medo, ou também pela decepção.
  Tempos depois seu pai reapareceu. Com olhar sério e repreensivo ao ver o filho encharcado de lágrimas. “Por que você está chorando deste jeito?” disse rispidamente. “Pare de chorar, não vê que eu estou aqui?” A volta do pai, mesmo deste jeito suave como um ouriço, trouxe a calma de volta ao menino. Um pouco afastada dos dois ele percebeu então uma mulher . Ela estava parada observando  o reencontro dos dois. Seu pai dirigiu o olhar para ela , que se afastou lentamente. Aquela não era sua mãe, mas ele percebeu que seu pai tinha alguma ligação com a desconhecida  da praia .
  “Eu vou sair mais um pouco, mas já vou voltar, não precisa chorar de novo, feito um bebê faminto! Depois nós vamos embora por que vêm chuva” E o menino vê o pai mais uma vez se afastando. Quase no final da praia ele percebe o entrelaço das mãos de seu pai com a misteriosa mulher.
   
  E então a água chegou na sua cintura.
   
  Por que se lembrara disto? O que esta lembrança já quase apagada queria dizer?  É bem possível que estivesse em busca de justificativa e perdão. A consciência estava vazia, e este vazio já  não impunha pressão alguma sobre ele. Entornara por completo a taça de líquido corrosivo que por anos castigava lentamente suas entranhas, seu íntimo, sua personalidade. O que restava agora?
  Este é um território difícil. O que fazer diante do inevitável?  Só resta a perplexidade? Desfocar o olhar para não ver o destino tão próximo, neste caso já chegando em seu peito?  Mesmo com a pressão da água num abraço mais do que apertado, a paz cálida não o abandonava.
  Ele deixou a cabeça cair para frente, já não aguentando a pressão no pescoço. Se não tinha saída, por que ficar ainda mais desconfortável? Seu corpo deu uma leve escorregada e a cabeça mergulhou por inteiro na água suja.  O choque foi imediato e ele viu uma luz à sua frente.
  A manhã seguia seu rumo e o Sol já mostrava seu rosto fulgurante como se quisesse dizer que continuava como senhor absoluto de tudo, e que logo, logo secaria aquela balbúrdia feita sem seu consentimento. Colunas de diáfano vapor se elevavam em direção aos céus para dar continuidade ao ciclo iniciado bilhões de anos atrás quando bactérias insignificantes estabeleceram o poder de fixar na superfície do planeta esta substância tão essencial à vida tal qual conhecemos.
 Neste instante uma porta  até então desapercebida na face norte do casarão, e que se mantivera firme, não aguentou e abriu. Em consequência, grande parte do volume de água contido agora tinha como escapar. O rio se cansara da aventura e começa o regresso ao leito original.
  O brilho de uma manhã invadindo aquela mistura de água e pensamentos difusos permitiu a confusão neste homem vazio, no momento de seu batismo involuntário. A luz que acabava de ver não era de sua redenção, nem de sua partida para regiões mais sutis, tampouco a salvação no corpo de um ser divino e imaculado a lhe arrebatar, no momento mais crítico de sua existência. Era tão somente o reflexo do Sol num espelho do lado oposto, despercebido no meio da escuridão de até agora pouco.
  O mergulho é um momento de comunhão, o corpo se solta em busca do desconhecido, pode ser o fim de tudo, pode ser o espaço vazio e o chão intransponível. Após o mergulho ele, já resignado com seu destino, se deixou ficar flutuando, livre e aliviado neste retorno ao útero, neste invólucro líquido que o abraçava no fim do caminho.
   
   
   

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