O stress nosso de cada dia
Ivan Henrique Roberto 26/12/2009-10/01/2010
Um dia normal
nos dias de hoje
O fluxo do trânsito parou novamente,
numa repetição constante e tão corriqueira que já entra como um fato normal nos
cálculos do dia, mal dá para perceber que há poucos anos não era assim, antes
dos automóveis terem se tornados escritórios ambulantes, ou salão de beleza
temporário, a maquiagem vai sendo feita ou retocada a cada parada e as reuniões
vão sendo conduzidas por celular, entre uma troca de marcha e outra. Desta vez
está demorando um pouco mais, logo uma sirene estridente vai pedindo passagem e
os automóveis quase imóveis vão se esgueirando, muito a contragosto, para dar passagem.
“Mais um acidente, mais um afoito que deve ter batido na traseira do distraído
a sua frente, esse desgraçado vai embaçar mais ainda esse trânsito. Como chamar
isto de trânsito, trânsito lembra movimento, cadê movimento? Todos parados
suando, xingando, lamentando não ter saído mais cedo. Mais cedo como? Só se
deixarmos de dormir! ”.
O ponteiro de temperatura no canto do
painel do carro avançava para o ponto vermelho à direita. “Não lembro se
completei a água do radiador, tem tempos que não vejo o nível de óleo também.
Que saco! Não tenho tempo para estes detalhes. Pronto! agora acendeu a luz da
reserva, não sei se vou conseguir chegar em tempo...” 08:15 hs de uma manhã já
abafada, já entupida, 3 grandes acidentes antes do sol raiar eram um desafio,
mais um desafio para a massa perplexa de cidadãos sem outra alternativa a não
ser acordar, respirar fundo e se lançar em direção de mais um dia corrido,
concorrido, sofrido, em busca do pão de cada dia, e também da carne, do leite,
do champanhe, da prestação do apartamento, da escola particular da filha, do
sonho demonstrado e disponível em 36, 48, 60 parcelas mensais e iguais.
Liguei o rádio, más notícias me fazem
companhia todos os dias, as más notícias chamam e prendem a atenção, mais um
concorrente para dividir nossa atenção. O céu está tomado por helicópteros que
tentam dirigir o trânsito do alto, tarefa difícil pois todas as vias estão
congestionadas, rios cheios de escolhos, galhos, pedras e água turva, artérias
cheias de gordura que entopem o espaço de circulação da vida. Uma cidade é um
organismo, é um corpo que sofre cada vez mais. Desliguei o rádio, estou cansado
de más notícias. Olhei ao lado e o motorista da van gritava sozinho, suado e ofegante,
e era apenas segunda-feira. Quem dirá na sexta-feira!
Uma hora depois consegui chegar ao
destino, quinze minutos atrasado. O prédio comercial cheio de regras de
ingresso me tomou mais 8 minutos. O elevador ultramoderno me deu bom dia, com
um a voz suave e cortês, automática e asséptica. Um ano atrás havia uma
ascensorista simpática, mas cujo salário, ainda que mísero, serviu de
justificativa para a implantação de um sistema de elevadores muito modernos,
climatizados, com luz programada para causar bem-estar nos ocupantes. Com o
financiamento obtido, o custo da compra seria diluído em pouco tempo, e assim a
equação entre o preço do equipamento e o emprego da pobre moça logo teve uma
solução lógica. Tecnologia a serviço de todos. Não soube mais da ascensorista.
Décimo quinto andar. Recepção da Strauss,
Rechtmann & Associates. A recepcionista com maquiagem ultra carregada e ultrachique
me fala de forma bem clara que eu estou atrasado e minha reunião foi
postergada, e que eu esperasse no sofá de couro negro com faixas finas de cinza
grafite, bastante confortável sem dúvida, mas impregnado de tensão e angústia.
“O que eu vim fazer aqui? Estes carniceiros vão querer mais do que 40% do valor
do projeto só a título de comissão pela intermediação, trago um projeto todo
pronto, eles não têm que fazer mais nada e ficam alegando que sem sua “expertise”
eu não vou conseguir financiamento para tocar o projeto. Bando de safados, e
ainda me dão um chá-de-cadeira. Vinte minutos neste sofá é demais, mas não é só
comigo, é com todo mundo”.
–
Senhor, pode entrar, já estão lhe aguardando.
“ As mesmas caras de sempre, o
mesmo modelito nos ternos moderninhos de grife, os
mesmos jargões para parecer importantes, já
estão combinados no discurso. Tenho a impressão de estar entrando num covil, o
pior é depender destes desgraçados para tocar meu sonho adiante”.
Diálogo
tenso num dia normal nos dias de hoje
–
Bom
dia Sr. Rezende, queira ter a gentileza de sentar. Estivemos avaliando
detalhadamente seu projeto, tivemos até mesmo uma reunião exclusiva para
debater os pontos fracos e fortes, as possibilidades e a viabilidade econômica,
mas infelizmente não enxergamos um grande futuro nele. Sua ideia de criar
núcleos permanentes de agricultura autossustentável, com técnicas mais baratas
de plantio e manutenção do solo e auto-gestão pelas famílias de lavradores da
região é realmente muito bonita e afinada com a atualidade, mas veja bem, há um
outro projeto mais atraente economicamente e que visa a mesma região, só que
com que uso mais intensivo de mecanização e uma nova geração de defensivos
agrícolas mais potentes, e que pretende realocar os pequenos proprietários para
uma nova fronteira agrícola. Este projeto se mostrou mais atraente do ponto de
vista financeiro, entende? E o Sr. sabe que o resultado financeiro positivo é
de grande importância segundo a política de negócios de nossa empresa.
“ Parece que eu estava adivinhando
que a imagem de modernidade que esses idiotas fazem questão de divulgar era da boca pra fora”
–
Mas, espere um momento, segundo a sua
propaganda, e a ideia que vocês se esforçam para divulgar, vocês dariam
prioridade para projetos de cunho mais social. O uso de mecanização e produtos
químicos agressivos é de cunho social, sem contar a expulsão das famílias?
–
Não, veja bem, o que estou dizendo é que todo
projeto passa por uma avaliação mais técnica, e neste caso seu projeto ficou
aquém do que esperávamos...
–
Sei, mas vocês chegaram a avaliar o potencial de
desenvolvimento que aquelas famílias poderiam alcançar? Eles estão naquele
local há dezenas de anos, é a casa deles, é o que eles sabem fazer. Um
aprendizado que passa de pai para filho, de mãe para filha há gerações!
–
Bom, veja bem Sr. Rezende, sim nós somos uma
empresa que se pauta pela responsabilidade social, mas não podemos descuidar do
resultado. Nossos apoiadores não nos deixam esquecer disto todo o tempo.
–
Desculpe a franqueza, mas não posso deixar de
sentir um forte cheiro de hipocrisia quando se fala de responsabilidade social
onde o cheiro do dinheiro entorpece e cega de uma forma tão avassaladora!
–
Sr. Rezende, calma! Estamos tendo somente uma
conversa informal, ainda não dei minha palavra final. Tudo acaba entrando na
avaliação que fazemos, mesmo a reação de nossos parceiros, ou futuros
parceiros...
–
Imagino que esteja sendo filmado e gravado. Uma
coisa eu ainda não descobri: quem está por trás desta empresa. O nome é bem alemão,
não é?
–
Sim, de fato. Os fundadores são alemães, mas a
globalização chegou de vez, não? Muitos de nossos financiadores são da Europa
Oriental, muitos são do Oriente Médio, alguns americanos, enfim, gente do mundo
inteiro.
–
Entendo, todos muito compreensivos eu imagino,
todos preocupados com os problemas sociais eu diria. Não é verdade?
–
Sim, sem dúvida, só que estamos falando de um
fundo internacional com bilhões de dólares investidos. Não dá para ser ingênuo
e achar que um dólar ou euro não tenha que virar dez ou quinze, segundo a ideia
e a vontade que move os interesses dos mantenedores. Desculpe, mas o senhor
está se mostrando um pouco fora da realidade.
–
Realidade, de qual realidade estamos falando?
Não desta, deste edifício ultramoderno, ligado por fibra ótica, controlado por
computador, com recepcionistas vestidas como se fossem para uma festa de gala...meu
projeto trata de pessoas de carne e osso, que precisam de um alento, de um estímulo,
de ajuda para fazerem o que sabem fazer de melhor, ou talvez a única coisa que
saibam fazer, pessoas simples, mas com potencial. Famílias que não se
desagregarão se, com pouco dinheiro veja bem! Muito pouco dinheiro se comparado
com tantos projetos mirabolantes, hotéis de sete estrelas para desocupados e
inúteis, resorts para ladrões internacionais, parasitas de todas as espécies
com uma forma humana no exterior e sem nada que valha a pena por dentro.
Famílias que serão felizes com uma migalha do que se pretende gastar com todo
este lixo decrépito, famílias que produzirão alimento e que têm amor pela
terra....
–
Calma Sr. Rezende, vamos fazer uma pequena
pausa, vamos tomar um cafezinho, hein? Venha, vou lhe mostrar o resto de nossas
instalações.
“Já conheço essa técnica de
assoprar a mordida, talvez coloquem alguma coisa no café para turvar nosso
raciocínio. Esses f..da.p.. são terríveis!! O que eu vim fazer aqui? Fui
desviar da burocracia estatal pra cair na boca destes crocodilos elegantes e
perfumados”
O
analista de projetos novos da empresa Strauss, Rechtmann & Associates, o
Sr. Marcel já havia trabalhado em 3 outros escritórios no exterior: em Viena,
Kuala Lumpur e Madri, e agora exercia suas habilidades em São Paulo. Com o
perfil talhado para aquela função conseguia se manter frio, porém afável,
servindo bem como anteparo para as demonstrações de raiva, frustrações e
desprezo com que frequentemente se deparava. Tinha, é claro, um olho fixo na
sede da empresa em Londres, e um prazer especial em dizer não a qualquer
projeto que lembrasse economia, simplicidade, racionalidade. Tinha uma queda
por opulência, ostentação, desperdício. Um desprezo pelas mudanças sutis que o
mundo quer experimentar e precisa é o que ele sente no seu íntimo. Mas não
revela.
–
Veja Sr, Rezende esta é a nossa sala do
“quebra-quebra”, onde discutimos intensamente, não raras vezes, quase saímos no
braço, cada qual querendo fazer valer sua opinião. Aqui é a arena final onde os
projetos são aprovados ou não. Seu projeto ocupou toda a manhã de sexta-feira
passada. Eu, sinceramente, tentei fazer valer minha opinião favorável, mas fui
voto vencido. O resto da equipe já estava um pouco apressada, pois poderiam
perder o vôo para uma ilha privada na baía de Angra dos Reis patrocinado pela Empresa
que propunha o outro projeto. Dizem que a ilha é maravilhosa! Infelizmente
ainda não conheço. Lamento, mas seu projeto não vingou. Não desta vez, quem
sabe. Haverá uma nova avaliação dentro de 6,7 meses.
–
Então deixe ver se entendi: A comissão responsável
pela aprovação dos projetos já estava comprada antes de tudo começar...
–
Não, não !! Não entenda mal, é comum as empresas
oferecerem pequenos mimos, alguns agradinhos quando percebem que há alguma
dúvida, alguma resistência ou porque talvez seus projetos não tenham sido bem
compreendidos. Podemos chamar de Lobby, e isto não é ilegal, o sr. deve saber,
é uma atividade como outra qualquer, muito comum no Congresso.
–
Já entendi tudo, já deveria ter percebido desde
o começo. Eu luto sozinho, não tenho verba para marketing pessoal, não tenho
amigos influentes, não conheço nenhum deputado, ninguém da imprensa, nada. Só
tenho algumas boas ideias, boas intenções, intenções nobres demais para este
ambiente....O jogo é mais pesado do que eu supunha. Acho que sou mais ingênuo
do que deveria. Perdi muito do meu tempo e muita da minha energia procurando
vocês, e foi tudo em vão.
–
Não diga que foi em vão, eu acabei de dizer que
teremos nova avaliação dentro de 6 meses, eu farei tudo o que estiver ao meu
alcance para que seu pedido seja aprovado, eu realmente acho que seu projeto é
o que o mundo precisa hoje em dia, com toda esta questão de sustentabilidade
entupindo nossos ouvidos, quer dizer, com toda esta questão que está tão em
moda, e é tão crucial.
“Este sujeito não me engana, e
além disso ele se trai. Por trás deste sorriso amável as palavras traem sua
real intenção”
–
Sr. Marcel chega! Vamos ser sinceros na medida
do possível! Diga claramente que não há interesse e eu desisto disto hoje, aqui
e agora. Eu prezo a franqueza, é um valor inestimável para mim, seja claro e
diga-me a verdade!
–
Bem, veja... não é desta forma, da forma como o
sr. está colocando...
–
Não, na verdade é muito pior! Você é um hipócrita,
um falso e muito esquivo!
–
Agora o Sr. Está me ofendendo...
–
Desde quando a verdade é ofensa?
–
Vou pedir que o Sr. se retire, esta entrevista
está encerrada!
O Sr. Rezende se levanta e sai, como um
vento árido que soprasse sobre um deserto de pedras pontiagudas. A raiva mal
contida em seu peito o impelia a deixar para trás aquele ambiente carregado.
Nem esperou o elevador, desceu quase correndo pelas escadas escondidas daquele
edifício insípido, em parte para liberar a imensa tensão que acumulara, e em
parte para colocar a respiração e o pensamento em ordem. Ao chegar no térreo e
sair do edifício, já na calçada sentiu um cansaço tão grande, não pelo esforço
da descida, mas sim pela grande desilusão, ou talvez por ter se percebido tão
tolo e ingênuo.
Mal-estar
É uma segunda-feira quente e as
calçadas estão apinhadas de gente apressada, que mal olham para os lados,
preocupados com as contas, pensando nas respostas para as questões mais
importantes do dia, desejando um filé bem passado, mas sabendo que terão que
comer uma coxinha engordurada, em parte por causa do tempo curto, em outra
parte por causa do bolso curto, e na televisão uma simpática nutricionista
avisa que é preciso melhorar a qualidade de sua alimentação. Os ônibus já estão
mais vazios nesta altura do dia e, muito alto no céu, raspando as nuvens, o
rastro de avião indica a direção norte de seu destino. Talvez se dirija para
Londres, talvez para Frankfurt. O Sr. Rezende nem percebeu o rastro de fumaça
do avião no céu, com o coração tão opresso e um pensamento tão negro como a
fuligem da descarga do ônibus que passa mais vazio em direção à Vila Olímpia.
“Hipócritas sujos, eles nem andam pelas
calçadas para ver o rosto destas pessoas suadas e aflitas, nunca andaram
embaixo do Minhocão ou na Praça da República para perceber o que realmente
significa responsabilidade social, nunca se perderam no meio do nada para
sentir os olhares furiosos contra os bem vestidos de cabelos engomados. Nos
lobbies de hotéis 5 estrelas, nos restaurantes de 5 garfos de ouro, nos clubes
exclusivos eles nem mesmo enxergam os atendentes, os serviçais e vêm com essa
conversa fiada pra cima de mim. Nossos apoiadores é o c*....Deve ter um monte
de traficantes de armas, especuladores inescrupulosos, ladrões de colarinho branco
engomados por trás destes apoiadores. Negociadores da morte sem remorsos são o
que eles são.”
O Sr. Rezende seguiu lentamente pela
calçada banhada de sol, sem direção e quase sem expressão no rosto vincado pela
desilusão. De quantos golpes um coração precisa para que fique duro e calejado?
Ou de quais lados eles precisam vir, para que se esteja preparado para
assimilar? É um fato notável que, mesmo após séculos de exemplos abundantes da
natureza podre e pobre do ser humano, ainda existam pessoas que se surpreendam
com suas atitudes. Porque suas atitudes não deixam mesmo de ser surpreendentes.
E mesmo a nobreza de sentimentos ainda é uma atitude surpreendente, que quando
manifestada pode até mesmo virar notícia no telejornal do horário nobre.
“O que eu posso fazer agora? Mandar uma
carta para algum jornal? Ah, isso não! Eles devem gastar uma fortuna com
publicidade em todos os grandes jornais, e é claro que nenhum jornal vai querer
publicar uma carta que diga que um de seus grandes anunciantes é na verdade uma
empresa de fachada, com um discurso de preocupação socioambiental falso, só
para parecer moderna e afinada com os novos tempos. Não me conformo com a
resposta que tive! Mas que idiota que eu fui, quanta ingenuidade!! Eles devem
estar gargalhando nas minhas costas, com tudo que foi filmado e gravado. Eles
devem fazer sessões privê, regadas a álcool, pó e muita mulher, só para
ridicularizar os otários como eu que acreditam nas suas intenções”
O Sr. Rezende caminha indignado, agora em
direção a seu carro, o qual havia deixado 5 quarteirões distante do edifício
comercial por falta de vagas para estacionamento, e por não concordar com a
exorbitância dos R$80,00 de estacionamento que a modernidade, a elegância, o
arrojo das linhas projetadas pelo renomado arquiteto Homero Holzgesicht
deixavam à vontade aos administradores do edifício para cobrar dos
frequentadores da luxuosa construção. Próximo de seu carro e ainda inconformado
com a reunião, sua cabeça está tão acelerada e com uma pressão crescente nas
têmporas, o coração também muito acelerado, algo preocupante apesar de sua boa
saúde. Uma turvação incômoda vai se apossando de seus olhos, o dia claro se
afastara de sua vista. Mal consegue colocar a chave e entrar em seu automóvel.
“Meu Deus, o que é isso? Não estou enxergando nada! Será que estou tendo um
AVC? Meu vizinho do 6º andar teve e os sintomas foram iguais..Algo me dizia ao
acordar que hoje não deveria ter saído de casa, aquela maldita reunião me
deixou tão nervoso que posso ter acionado algum processo malévolo para o meu
organismo”
O pavor tomou conta do Sr. Rezende, que
suava descontrolado e tremia as mãos.
Delírio
Não podemos dizer com certeza por
quanto tempo o Sr. Rezende ficou imerso numa escuridão insidiosa, congelado num
vácuo de tempo e fortemente atado por membros invisíveis que lhe tolhiam os
movimentos e apertavam sua garganta. Com toda a aflição que podemos facilmente
adivinhar, e que lhe servia de companhia neste lapso que nem os físicos mais
proeminentes conseguiriam explicar, o Sr. Rezende jamais havia se sentido mais
sozinho neste mundo vasto e injusto. “Será que eu vou morrer sozinho dentro
deste carro, ninguém vai perceber nem mesmo dentro de três dias? Não é justo
comigo, tanta gente ruim neste mundo e eu só penso em ajudar quem não tem voz
nem meios para melhorar! ”
Procurar um senso de equilíbrio e uma
isenção total nos desígnios do mundo é uma tarefa árdua e muitas vezes inútil,
pois quase toda a trama e a teia na qual estamos envolvidos só pode ser vista à
distância, e quase sempre depois de muito tempo, quando toda a trama e a teia
já terão mudado, por isto vivemos sempre no presente e enxergamos tão pouco. O
presente não chega a um mísero segundo de um grau contido na grande
circunferência de nossa vida planetária, mas só no presente temos a segurança
necessária de achar que estamos existindo. Nesta fração roubada do fluxo
natural da passagem do tempo, segundo as leis da física, a vida em suspensão do
Sr. Rezende, permeada pelo pavor e pela insegurança, escapava de seu
entendimento e confrontava seu exaltado senso de justiça. Nada parecia fazer
sentido, como a escuridão total e o silêncio absoluto numa segunda-feira de uma
grande metrópole. Porém não havia sinal de túneis de luz, nem espirais
iluminadas que pedissem pela presença de um homem agoniado e injustiçado. Nem
anjos com cânticos celestiais e trombetas altissonantes, muito menos uma lagoa
de fogo ardente num abismo sem fim, ou o gelo eterno do Érebus. Tudo parecia no
fundo um sonho ruim numa tarde abafada.
Até que alguém tocou no vidro da janela
de seu carro: Um rosto já bastante enrugado, porém ainda curioso e com um
brilho que teimava em se manter sempre vivo naqueles olhos castanhos e meigos,
ternos e aguçados. Dona Amanda fazia sua caminhada matinal, um pouco atrasada
hoje pois ficara acordada até mais tarde lendo, e despertara fora de seu
horário habitual. Esta doce senhora viúva havia percebido aquele rapaz com o
rosto bastante transtornado andando devagar sob o Sol que acalenta a todos, e
leu facilmente os sinais de socorro involuntários que aquela alma intranquila
enviava a quem tivesse a sensibilidade de ver. Dona Amanda passou a segui-lo.
Dentro do carro o Sr. Rezende ficou imóvel e lívido, e imóvel e lívido acabou
ficando invisível aos passantes, todos apressados para dar conta de seus
afazeres.
Dona Amanda consegue enxergar muito
longe, apesar da vista gasta pelo tempo e pelo uso. Não é a sua vista física
que conta, mas sua percepção e sua sensibilidade, e um saber acumulado pela
longa vida de olhos e ouvidos abertos e mente limpa e curiosa. O som das
pancadinhas desferidas pelos dedos finos e frágeis no vidro do carro precisou
atravessar uma espessa barreira de silêncio e escuridão, um som que deu um
longo volteio pelas regiões desabitadas onde o medo e o desamparo assaltam os
seres humanos fragilizados pelos desgostos, pelos transtornos, pelas decepções,
pela infinidade de Nãos que chegam em seus ouvidos. O som daquelas pancadinhas
foi como um relâmpago destroçando os véus escuros que amarravam o pobre Sr.
Rezende. O som quase inaudível daquelas pancadinhas pareceu uma música
celestial que ocupasse todo o céu setentrional, e acordou de vez o Sr. Rezende
de seu imobilismo letárgico.
Um bálsamo
–
O Sr. está se sentindo bem? Me perdoe se me
intrometo, não que eu seja bisbilhoteira, mas eu percebi que o Sr. não estava
com um aspecto bom, então passei a lhe acompanhar.
–
Ah, siim, quer dizer... mais ou menos... estou
um pouco atordoado, pensei que estivesse tendo um derrame ou coisa parecida...
minha vista ficou escura e eu não ouvia mais nada.
–
Olhe só, a cor já está voltando em seu rosto, é
um bom sinal!
–
Já estou respirando melhor e meu coração está
mais calmo também...me diga senhora, qual seu nome?
–
Meu nome é Amanda e eu moro perto daqui. Costumo
caminhar de manhã por estas ruas, só que hoje eu demorei a me levantar.
–
Puxa, ainda bem que a senhora se atrasou! Achei
que ninguém iria notar e comecei a temer, parecia que a morte tinha me
encontrado, de repente ficou tudo um breu, e um silêncio absoluto, mal consegui
entrar no meu carro.
–
Ah não, a morte não estava com a hora marcada
para te encontrar, não hoje com este belo Sol cintilando tudo. Você ainda é
muito jovem, tem idade para ser meu filho.
–
É verdade, olhando com mais calma a senhora
parece um anjo. Será que a senhora na verdade é um anjo que veio me esperar na
entrada, ou na saída, sei lá? Quando morremos nós entramos ou saímos? Ora, isso
é pergunta que se faça? Desculpe, ainda estou um pouco confuso, nem lembro
direito o que estava fazendo antes deste episódio.
–
Então vamos fazer o seguinte: primeiro, qual o
seu nome? Você perguntou o meu agora eu lhe devolvo a pergunta.
–
Meu nome é Armando Rezende. Mas me chamam de Sr. Rezende.
–
Então Sr. Rezende, estranho chamá-lo assim sendo
muito mais jovem que eu! O Sr. está muito ocupado? Poderíamos conversar um pouco?
–
Claro, sem dúvida, eu tenho tempo de sobra,
acabei de lembrar do que estava fazendo. Saí de uma reunião muito tensa e muito
frustrante, acho que foi por isso que fiquei neste estado. Mas a srª chegou e
me trouxe um grande alívio, como um forte bálsamo que tirasse minha aflição.
Tenho todo o tempo e quero sentir mais esta energia agradável e positiva que a
Srª trouxe. Vou perguntar mais uma vez: A Srª é um anjo?
–
Ora, quem sabe? Quem já viu um anjo antes e
sabia que era um anjo?
–
Ah ahaha. Esta é uma boa pergunta. Vamos para
outro lugar, quero ficar o mais longe possível daquele antro de safados.
–
Se o sr. não se importa podemos ir para minha
casa. É uma casa simples mas tem um pequeno jardim, e eu faço um café bem forte
para recuperar suas energias, está bem?
–
Sim, por mim está tudo bem.
Avaliação
Estranhos acontecimentos e
estranhos encontros costumam surgir do meio do nada. São os enigmas que dão
sabor à quase sempre insípida vida neste abismo de lágrimas. Emoldurados por um
Sol brilhante e puro, os quadros que se descortinam a todo momento vão
revelando de grão em grão as verdadeiras intenções do que está por trás de tudo
o que acontece. Só não sei se já aconteceu ou se vai acontecer, a noção de
tempo é um pouco confusa às vezes. Pois bem, duas pessoas comuns, mas de idades
diferentes vão caminhando com calma e em paz em direção a uma casa pequena,
porém acolhedora. Nunca haviam se visto antes, mas a interação entre os dois
foi imediata.
-
Entre Sr. Rezende, seja bem-vindo nesta casa. Uma casa simples, mas
recheada de carinho e construída com muito amor e dedicação há muitos, muitos
anos por mim e por meu marido. Hoje vivo sozinha nela e espero terminar meus
dias nela.
- É Dona
Amanda, é só cruzar sua soleira para sentir este elo profundo. Hoje está sendo
um dia muito especial para mim, eu estava a ponto de explodir desde cedo, desde
que saí de casa e já fiquei espremido entre tantos veículos cheios de gente
nervosa, gente tensa como uma mola esticada ao extremo de seu ponto de tensão. E
depois tive uma grande decepção ao perceber que minhas intenções e meu esforço
em querer melhorar a vida de muitas pessoas, conforme o projeto que vinha
contando no caminho para a senhora, não tem valor neste mundo de falsas
aparências e busca desenfreada por lucros estratosféricos. Senti um medo imenso
de ter sido uma vida inútil, naquele momento dentro do carro eu me vi tão só e
tão ridículo.
- Meu filho eu entendo o que você
sentiu. Quantas vezes nesta minha longa vida eu não passei por momentos semelhantes?
Quantas vezes não me senti esmagada por pressões tão intensas, por questões tão
urgentes, por escolhas difíceis, mas que passavam despercebidas das pessoas ao
redor. Quantas vezes não tive que chorar para dentro, não tive de manter um
sorriso num rosto que queria desabar em lágrimas, não tive de calar por
absoluta falta de apoio de onde mais se esperava? Quantas peles eu tive que
deixar para trás para criar uma nova que me fosse mais apropriada, e que se
afinasse mais com o novo ser que surgia a cada nova dificuldade suplantada? São
muitas mudanças, mas que acabam por afirmar cada vez mais aquele princípio,
aquela qualidade primeira e única da qual nunca nos afastamos, pois que são
nossa essência. Mais do que ver a sua aflição eu vi uma pessoa digna pois isto
eu aprendi a ver. Meus olhos já viram muito e eu pouco me engano hoje em dia. E
só assim desta maneira eu permiti que o senhor entrasse em minha casa. Não sei
se o senhor acredita, mas eu acredito, e diria até que posso ver linhas de
energia positivas que se atraem e entrelaçam, e assim criam forças para
sustentar e amortecer tantos golpes que são desferidos e que poderiam destruir
com mais facilidade a tantas pessoas mais frágeis e ainda puras. Vivemos num mundo cruel, num presente
difícil só que sou otimista e gosto de sorrir sempre. Deixei muita coisa para
trás, entre elas muitas amarguras dissolvidas por lágrimas de um sal cáustico,
pois quis que estas lágrimas levassem de uma vez por todas as lembranças
tristes. Hoje olho só para frente e olho para o alto, o pescoço erguido e
minhas pernas sempre em movimento, já frágeis pela idade é claro, mas com muita
alegria e disposição de ver as coisas novas que surgem. Já não tenho mais medo
da morte, ela é uma porta para uma nova realidade. Sei que meu marido me espera
e me dará as boas-vindas. Quer mais café?
- Dona Amanda a senhora num só dia
me fez sentir tanta alegria que me deu uma nova inspiração para continuar
insistindo em meus sonhos. Sinto até um pouco de vergonha de ter pensado com
tanto pessimismo, eu que tenho menos da metade de sua idade.
- Sabe qual o segredo? É que aos
poucos eu fui deixando de perceber o lado escuro do envelhecimento, mesmo
ignorei e acendi um farol muito forte para iluminar este lado escuro. Simples, não?
O Sr. Rezende apenas sorriu, por fora e
por dentro, gostosamente. Muitos outros assuntos foram conversados, quase todos
amenos, alguns mais pessoais, outros frívolos, durante aquelas poucas horas em
que o destino uniu aquelas duas almas tão análogas. Uma nova amizade nasceu,
sob as bênçãos de uma densa e luminosa camada de energia pura e límpida, que
não poderia ser vista, só por olhos bem treinados. Mas há quem não acredito
nisto.
Tudo volta ao normal sempre
Era uma terça-feira um pouco nublada e já bem cedo o Sr. Rezende deu a
partida em seu carro, dirigiu poucas quadras quando percebeu que o ponteiro do
termômetro de seu carro quase gritava de tão vermelho. A fumaça que começou a
jorrar do capô logo o lembrou que havia esquecido de completar a água do
radiador. Ele parou o carro, encostou, desceu, olhou a fumaça e pensou: “Ah,
deixa pra lá. Vou andando. ” O vento fresco começara a soprar afastando as
nuvens ameaçadoras e o Sol já aparecia. Absoluto.

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