segunda-feira, 12 de abril de 2021

O ato de esperar (7ª parte)

   O             FIM

                        A porta da face norte do casarão estava escancarada. A água barrenta fluía com facilidade e rapidez. Quase tão rápido quanto subira, ganhando terreno com velocidade constante, a água agora retornava por onde viera. A manhã  clara e fresca em nada lembrava a noite calamitosa da véspera, cujos índices pluviométricos registraram um recorde difícil de ser batido. A enchente em si não era novidade naquela região, tendo sido verificado em pelo menos quatro ocasiões na última década, mas não naquela proporção. Os que acompanharam pelo noticiário, e sendo mais crentes nas Escrituras, juraram de pé de junto que Noé existia de fato e fora o responsável. Enfim, sendo verdade ou não, agora era a hora do rescaldo, de contabilizar os prejuízos, de reconstruir a paisagem humana seriamente danificada.          O nível da água baixa e logo passa da primeira prateleira. Em seguida o sofá imprestável retorna ao solo. A escada encharcada está visível de novo. E um corpo inerte pousa suavemente nas tábuas envelhecidas do piso superior deste casarão, que em tempos idos costumava receber turistas aos montes, em busca de lanches rápidos e artesanato local no caminho para a cidade. Em questão de poucas horas o rio terá voltado ao seu tamanho normal, contido em seu leito esculpido ao longo de eras e estações esquecidas, em tempos onde nenhum ser humano jamais havia colocado seus pés para refrescar a pele na água corrente após longas caminhadas, pois o rio era jovem e os humanos nem existiam ainda. Mas isso foi há muito tempo, e a paisagem mudara inúmeras vezes, só o Sol estava lá por testemunha.         No lado de fora da propriedade um lamaçal era tudo o que existia, e também um automóvel seriamente avariado na lataria, e de cor indefinida ; somente após uma lavagem muito caprichada é que se poderia saber sua verdadeira cor. O conteúdo do carro também estava imprestável, encharcado, sujo e inoperante, perda total sem dúvida nenhuma. Dado ao estado de abandono da propriedade, antes do pequeno dilúvio, a tendência a permanecer do jeito que estava era muito 

grande, a lama secaria por certo e a parte desabada do casarão ficaria como um souvenir, um instantâneo do momento. 

                             AINDA NÃO É O FIM

        Os olhos foram abertos com cautela. Ainda pareciam colados, os cílios entrelaçados, a imagem bastante turva, tudo desfocado e incerto, com contornos indistintos. Um peso exagerado nestas pálpebras cerradas por longo tempo, não se pode saber por quanto. Era quase preciso pegar dois dedos para auxiliar no movimento que é tão natural e automático. Contudo os dedos também estavam parados, contraídos, tensionados, crispados, bem como os braços e as pernas. Os sons começaram a tomar forma lentamente, em parte por que o mundo ao redor estava esquecido e silencioso e em parte porque a água encharcara até os tímpanos. E enfim o movimento da respiração e do batimento cardíaco. Tudo estava tão calmo agora e em silêncio. Havia consciência neste momento? Difícil responder.     Após longos minutos, muito longos, tão longos que romperam a barreira das convenções estabelecidas pelos laboratórios ao redor do mundo, minutos que poderiam ter sido horas; enfim aquele esquecido trabalhador, que confessara suas fraquezas e expusera seus medos para ninguém em especial, despertara deste torpor, deste transe, daquele pesadelo onde terminaria sepultado em água. O destino traz em seus bolsos cheios alguns truques e desvios, como abrir portas onde não se sabe que existam, e concede uma segunda chance para aqueles que ainda precisam aprender muitas lições.      Após relaxar e recuperar seus movimentos ele permaneceu imóvel, apenas sentindo sua respiração acalmada e seu coração no ritmo que melhor lhe convinha. Estava preocupado e apreensivo? Não mais. Tinha bastante tempo para pensar numa saída agora. 

domingo, 11 de abril de 2021

 

Observando

 

 

Triste destino o nosso

Viver em rota de colisão entre um futuro correto e um passado corroído

Triste realidade a nossa, sempre viver no presente

 Recebendo golpes que pesam como pragas do Egito.

 

Como castigo recebemos cinco sentidos e uma inteligência

Como herança um senso de justiça e de moral

e a capacidade de julgar e ver que a vitória cega e é tênue, vaga, amorfa e pode ser comprada.

 

O presente é um presente que pesa nas mãos

Perturba os sentidos e renega a inteligência

Longa vida aos ignorantes, surdos e cegos.

 

Estou observando os fatos que se sucedem em cadeia

Tão lógico quanto sórdido, tão fétido quanto apreensivo

Tornando esperança em ceticismo,

Envelhecendo e apodrecendo os entes da floresta antes que maturem.

 

(Mas, seria um interlúdio?)

 

E ganhamos a estupenda (des) graça de viver sempre no presente?

 

Entre um silêncio e um grito de horror

Entre um lamento e uma gargalhada histérica

Vamos catando migalhas e surpreendendo sorrisos esparsos

Vivendo um dia após o outro (Por que não viver seis grandes dias e desaparecer um?)

Hora após hora de dias seccionados

 

Vou lendo, lendo, até ter indigestão.

Vou vendo, vendo, até ter de fechar os olhos para enxergar

Vou ouvindo, ouvindo e não gosto, fecho a cara para poder resguardar um pouco de suavidade

e gentileza para meus irmãos e irmãs

 

(So the story goes...the show must go on)

 

Campos minados nas nossas vizinhanças, campos minados

Mãos fechadas, ofensivas, palavras de negação, nunca um sim.

O não é a senha dessas prisões sem grades aparentes

Nunca vire as costas, pois logo se armam ataques desonestos

Ao sorrir tenha cuidado! Podem confundi-lo com a presa.

Darwinismo social-admitem da forma mais cínica possível

 

Essa é a sabedoria popular que passa de geração a geração, muitas vezes à força.

Essa é a lei do universo, resignam-se todos.... Ou quase todos.

 

Ondas que batem sempre com força nas pedras

Os mariscos já se acostumaram com a força das marés

E os peixes maiores, que vivem fugindo dos peixes ainda maiores e em buscas de peixes menores

Talvez o sertão tenha sempre sido o mar, a selva e o deserto migrando sempre para a cidade

E a civilização, uma mentira, uma ilusão

Mercadejada por espertos e ávidos homens de negócios,

Que casaram o oportunismo com a conivência dos ditos inocentes,

que se lambuzam com pequenas mentiras para amenizar a rotina.

 

Será a história uma lamentável piada?

Uma desculpa para dar apoio às leis da divisão?

Cada macaco no seu galho? Por que nos galhos mais fracos?

Os macacos mais espertos já desceram da árvore há muito tempo

Cortaram-na e venderam a madeira por um preço acima do valor de mercado.

Embarcaram num avião e foram para Las Vegas

Rindo muito e vivendo despreocupados.

 

 

 

Ivan Henrique Roberto

26 de outubro de 1987

 

Além

 

Além

 

Nada do que eu falo é novidade

Os assuntos estão a um palmo de distância

Vários deles são evitados

Outros são lacrados e expurgados

Cobertos com ínfimos disfarces

Como elefantes escondidos na planície calva

 

Os tabus permanecem, pois são importantes para a ordem social

Acho que tudo deve ocorrer de modo que os arranjos não traiam os maestros

E as vigas não caiam na cabeça dos engenheiros

 

“Mantenham a qualquer custo todas as farsas.

Devemos divertir o público e fazer de conta que nada de errado houve ou haverá”

 

As leis cuidam do bem-estar dos exploradores

E a eterna escravidão dos produtores

A ilusão subversiva dos sonhadores age nos alicerces da sociedade

Martelando devagar, em pontos vulneráveis,

Num trabalho paciente e comovente

Consumindo horas intermináveis de sonhos quase esquecidos

Deixando de lado todas as dores, que são mitigadas em nome de um objetivo maior

e mais nobre

 

Pensar no futuro traz um inconveniente: O de não ter certeza no prazer palpável,

Apenas a imaginação de que daremos aos próximos o melhor que não nos deixaram ter,

E o conforto de ser dono de uma consciência livre e autônoma,

A qual de certa forma florescerá, antes que a aridez abundante e o medo irracional destruam

aquelas sementes.

 

Alguns desesperados e outros tantos visionários e iluminados

talvez saibam ver os sinais de mudança,

Pinçados aqui e ali, em algum sorriso ou algum gesto repudiado hoje

Estaremos atrelados a uma Nova Filosofia

Imersos por completo na grande fonte de Cultura

Pensando e fazendo Amor

 

 

Ivan Henrique Roberto

2 de outubro de 1985

sábado, 24 de agosto de 2019

O ato de esperar (6ª parte)


  Ele se arrastara com enormes dificuldades por causa da dor em seu pé contundido até um sofá velho. Num plano mais elevado do que o sofá havia uma série de  prateleiras na parede atrás. Mais do que isso só o teto sem nenhum ponto de apoio.
Já era de madrugada e as equipes de emergência trabalhavam em ritmo acelerado para mitigar o impacto. Seria preciso no mínimo um mês para reconstruir a ponte, e enquanto isso um desvio de doze quilômetros já estava traçado para permitir o acesso a este trecho. Com sorte, uma equipe de resgate chegaria neste local somente em dois ou três dias. A boa sorte porém parecia estar ausente nestas redondezas.
  A simultaneidade dos acontecimentos é uma prova da multiplicidade de opções que a natureza oferece como alternativas para se safar de situações complicadas. Por quê então ser partícipe justamente do acontecimento mais desastroso? Estar no lugar errado e na hora errada, deixar o livre arbítrio tão livre que o arbítrio comanda e impõe a escolha errada. Ficar ou partir? Esquerda ou direita? Parar ou continuar?  Certo ou errado ? Destino ou escolha? São questões irrespondíveis. O “se” não existe,  o que existe são as muitas trilhas à frente, mas só há uma escolha neste plano concreto de opções excludentes.  E então o que está a esperar é a porta emperrada e sem chaves. É a água subindo rumo ao teto.
–   
  E a água encharca o sofá.
–   
–   
  Já semiconsciente, o que prevalece é o instinto de sobrevivência. Com o olhar já habituado à escuridão ele sublima a dor e se estica. Agarra a primeira prateleira com força surgida sabe-se lá de onde e puxa o corpo, que se acomoda como um saco de areia. O volume de água é impressionante, e apesar do ritmo mas lento do deslocamento, logo o sofá é arrastado pela torrente. O desenrolar dos acontecimentos torna-se até monótono, com este leito de rio viajante que não encontra adversário e nada que o impeça de seguir. Um ambiente úmido e frio como cenário. Então, qual o problema? Ah sim, temos um ser humano desesperado lutando pela sua vida. Mas, alguém sabe disso? Alguém percebeu isso? Alguém filmou isso? Se não, não importa. Isto não está acontecendo. A simultaneidade de acontecimentos faz com que a atenção seja direcionada para o heroico esforço de  colocar a ponte em condições de trânsito e o restabelecimento do acesso para a zona urbana já tão castigada pelo pequeno dilúvio.
  Uma alvorada pálida já se insinua pelas nuvens enxutas depois de tanto esforço. A luz incipiente de mais um dia clareia uma região vestida de calamidade. Não se tinha certeza dos contornos da terra firme. O rio subira tanto que se metamorfoseara num lago barrento, que se encorpara com os demais córregos.
–   
–  O       TETO
–   
  De volta ao casarão restavam três prateleiras até o teto. Já se antecipando ao inevitável, este maltratado ser de pé torcido se agarra ainda com mais força do que na primeira vez na viga lateral e passa para a prateleira de cima. Com isso ele procura respirar com um pouco mais de folga, e se possível, pensar nas possibilidades de salvação. O teto é sólido e aguentou bem ao tranco de toneladas de água entornadas direto do céu. Vários utensílios de cozinha foram achados logo no início do refúgio, mas nenhuma ferramenta mais pesada, como um martelo ou marreta que quebrasse um pedaço de parede.
  E a água sobe um pouco mais. Já alcançou a primeira prateleira. Tudo dentro do previsto. Um aquário sem peixes neste momento é no que havia se transformado aquela casarão, que outrora em dias de feriado prolongado e férias vivera dias de muito movimento, com o estacionamento cheio de carros cheios de consumidores. Também serviam lanches rápidos e bebidas. E algum artesanato local. A morte inesperada de um dos sócios inviabilizou o negócio, e o imóvel estava fechado há alguns anos por conta do inventário. Coisas de família cujos membros não se entendem.
  Alguém que já tenha passado por experiência semelhante poderia explicar o que se passaria na mente deste sujeito acuado, neste instante em que a água alcança a segunda prateleira. Eu, confesso, nunca passei por situação semelhante, nem quero.  O que se conta é que, com os sentidos mais aguçados pelo estresse, ele já se arrastara para a terceira prateleira. E em seguida, até parecendo se divertir um pouco com isso, pulou para a penúltima prateleira. Começa a gargalhar de repente, algo sem sentido. Não há inibição nenhuma em jogo. E poderia haver alguma?
  “Hahahaha venha água imunda! Você não me alcança! Eu escapei até hoje, eu não sou tão fácil assim, hahaha, eu já provei que não sou! Eles se enganaram comigo, eu sou uma planta carnívora, ehehehehehe, atraio e depois devoro, hahahahahahahah”
  “ Eu não me arrependo, não me arrependo de tudo que fiz. Eu posso gritar em voz alta agora, ninguém vai ouvir, nem me recriminar, hahaha. Eu deveria ter feito muito mais!!!”
  Uma euforia histérica sem testemunhas e sem julgamentos. Eis o véu espesso que estava rasgado e atirado no turbilhão barrento. Eis a água subindo e atingindo a segunda prateleira, novamente um monstro disforme que arreganha uma boca pronta para devorar uma consciência pesada , hóspede de um corpo ordinário.
  “ Vai embora, vai embora, você não ouviu isso!Eu não disse isso, eu não quis dizer nada disso, eu,eu, eu.... Eu quero sair daqui!!! Me deixa em paz!!! Eu não quero morrer agora!!!”
  Um desespero lancinante sem apoio e sem ajuda. Eis o véu já rasgado que não pode mais impedir o frio da alma.
–   
–  A ÚLTIMA PRATELEIRA
–   
 Ainda restava uma última prateleira. O último passo antes do teto. Antes do fim?
  Não havia ninguém por perto, como já foi exaustivamente explicado antes. Mas se houvesse algum observador, de perto ou de longe, veria um rosto tão desfigurado por uma combinação de emoções tão intensas, que por um lado sentiria uma repulsa imensa por aquele olhar esbugalhado e desesperado, e por outro lado ficaria solidário com a situação desesperadora, de um ser espremido entre um teto duro e frio e uma água suja, fria e absoluta.
 Sem opção e de forma automática, ele se arrasta para a última prateleira. E lá fica inerte, agora sem energia nenhuma, como que anestesiado. Esperando, esperando, esperando. Não se pode medir o tempo numa situação destas, creio que não possa. O tempo não é linear como se acredita. Apenas mais uma ilusão, dentre as tantas que existem ao redor. O silêncio é total, apesar do murmúrio da água. O pé já não se sente. A dor passou, só há um silêncio como uma capa.
  Por mais incrível que possa parecer, uma paz cálida se apoderou deste corpo arrasado pelo medo. A libertação após expelir tantos fantasmas e demônios enjaulados por anos em sua mente esquiva, serviu como um antídoto deste veneno que o corroía por tanto tempo. Uma catarse. Uma purgação. Sentia-se leve como um menino olhando o céu estrelado, com a Via Láctea em arco sobre sua cabeça. Continuou a esperar. Que mais ele podia fazer ?
Então a água chegara de fininho aos seus pés. Eu creio que ele caíra em si e aceitou o inevitável. Com a perna pendida para baixo o toque da água em princípio não fora tão ruim assim. Não estava gelada. Sou tentado a dizer que parecia mais uma carícia, um afago.
  “Será que a morte chega com um afago?” Quem pensou isso, ele ou eu?
 Houve uma certa demora para que  alcançasse seu joelho. Imperceptivelmente o ritmo do avanço diminuía. A água se cansara?
  Uma imagem difusa começou a fazer contornos em seus olhos cerrados. A praia com rochas e um vento forte que levantava muita areia. O cheiro longínquo, muito tênue. Uma lembrança recuada no tempo. O Sol estava ofuscado por muitas nuvens e o vento forte e constante trazia um frio inesperado naquele pedaço de litoral afastado. Os brinquedos estavam jogados na areia macia, e o castelinho de areia ainda aguentava firme o ataque dos elementos. De repente ele  procura por seu pai. Olha ao redor e está sozinho. Estivera distraído na árdua tarefa de construtor de superfície instável, buscando água com seu baldinho para engrossar a areia, junto aos palitos de sorvete usados como sustentação de seu castelo tão poderoso. “Onde está meu pai ?” E um coraçãozinho aflito de criança dispara ao se perceber sozinho numa terra estranha.
  As nuvens que se juntam em comboios escurecem cada vez mais o céu. Só muito distante deste local onde pai e filho haviam fincado sua bandeira é que algumas pessoas marcavam presença. A formação rochosa fora escolhida com cuidado, por ser pouco frequentada,  onde a arrebentação era mais forte, e mais perigosa. Aquela oportunidade de passeio com seu pai era há muito aguardada, e muito rara de acontecer. Ele raramente aparecia e a pobre criança não sabia o porquê.
 Quanto tempo decorreu desde o momento em que se viu sozinho? Não se sabe. Só se sabe do medo imenso que tingia com cores escuras o mundo ao redor do menino sozinho na praia. “Onde está meu pai?” já chorando ele pensava. E tremia, talvez de frio, por certo de medo, ou também pela decepção.
  Tempos depois seu pai reapareceu. Com olhar sério e repreensivo ao ver o filho encharcado de lágrimas. “Por que você está chorando deste jeito?” disse rispidamente. “Pare de chorar, não vê que eu estou aqui?” A volta do pai, mesmo deste jeito suave como um ouriço, trouxe a calma de volta ao menino. Um pouco afastada dos dois ele percebeu então uma mulher . Ela estava parada observando  o reencontro dos dois. Seu pai dirigiu o olhar para ela , que se afastou lentamente. Aquela não era sua mãe, mas ele percebeu que seu pai tinha alguma ligação com a desconhecida  da praia .
  “Eu vou sair mais um pouco, mas já vou voltar, não precisa chorar de novo, feito um bebê faminto! Depois nós vamos embora por que vêm chuva” E o menino vê o pai mais uma vez se afastando. Quase no final da praia ele percebe o entrelaço das mãos de seu pai com a misteriosa mulher.
–   
  E então a água chegou na sua cintura.
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  Por que se lembrara disto? O que esta lembrança já quase apagada queria dizer?  É bem possível que estivesse em busca de justificativa e perdão. A consciência estava vazia, e este vazio já  não impunha pressão alguma sobre ele. Entornara por completo a taça de líquido corrosivo que por anos castigava lentamente suas entranhas, seu íntimo, sua personalidade. O que restava agora?
  Este é um território difícil. O que fazer diante do inevitável?  Só resta a perplexidade? Desfocar o olhar para não ver o destino tão próximo, neste caso já chegando em seu peito?  Mesmo com a pressão da água num abraço mais do que apertado, a paz cálida não o abandonava.
  Ele deixou a cabeça cair para frente, já não aguentando a pressão no pescoço. Se não tinha saída, por que ficar ainda mais desconfortável? Seu corpo deu uma leve escorregada e a cabeça mergulhou por inteiro na água suja.  O choque foi imediato e ele viu uma luz à sua frente.
  A manhã seguia seu rumo e o Sol já mostrava seu rosto fulgurante como se quisesse dizer que continuava como senhor absoluto de tudo, e que logo, logo secaria aquela balbúrdia feita sem seu consentimento. Colunas de diáfano vapor se elevavam em direção aos céus para dar continuidade ao ciclo iniciado bilhões de anos atrás quando bactérias insignificantes estabeleceram o poder de fixar na superfície do planeta esta substância tão essencial à vida tal qual conhecemos.
 Neste instante uma porta  até então desapercebida na face norte do casarão, e que se mantivera firme, não aguentou e abriu. Em consequência, grande parte do volume de água contido agora tinha como escapar. O rio se cansara da aventura e começa o regresso ao leito original.
  O brilho de uma manhã invadindo aquela mistura de água e pensamentos difusos permitiu a confusão neste homem vazio, no momento de seu batismo involuntário. A luz que acabava de ver não era de sua redenção, nem de sua partida para regiões mais sutis, tampouco a salvação no corpo de um ser divino e imaculado a lhe arrebatar, no momento mais crítico de sua existência. Era tão somente o reflexo do Sol num espelho do lado oposto, despercebido no meio da escuridão de até agora pouco.
  O mergulho é um momento de comunhão, o corpo se solta em busca do desconhecido, pode ser o fim de tudo, pode ser o espaço vazio e o chão intransponível. Após o mergulho ele, já resignado com seu destino, se deixou ficar flutuando, livre e aliviado neste retorno ao útero, neste invólucro líquido que o abraçava no fim do caminho.
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quinta-feira, 22 de agosto de 2019

In mare labor mundis

In mare Labormundis 
Era uma vez, a muito, muito tempo, um rapaz de 19 anos. Este rapaz, por não ter uma origem nobre ou abastada, ao chegar nesta idade foi enviado para uma praia que era a porta de entrada do grande mar chamado Labormundis,  também conhecido como “ Mar do mundo do trabalho”. Ele mergulhou, um pouco receoso e um tanto assustado, pois este mar é imenso e a única fonte de sustento de todos aqueles que, como ele não tiveram origem nobre ou abastada.
   Logo no príncipio de sua travessia, mal tendo ultrapassado sua primeira onda, ele percebeu que a tarefa seria difícil e teve vontade de desistir, porém, por não ter origem nobre ou abastada, desistir não seria mais possível. Então ele seguiu em frente.
    As primeiras ondas quebraram fortes sob sua cabeça e ele sentiu um desânimo imenso. Todavia desistir estava fora de questão. Pouco a pouco ele percebeu outros nadadores como ele, todos na mesma situação, e sentiu-se um pouco mais forte, pois viu que não estava  mais sozinho neste mar imenso, cujo chão se afastava de seus pés. Ao tomar ciência de que as ondas jamais deixaram de chegar, ele aos poucos foi aprendendo como mergulhar antes que elas quebrassem sobre sua cabeça. E a travessia prosseguiu.
O mar não parecia ter fim. Após algum tempo ele virou-se e não mais conseguia enxergar a praia de onde havia partido. Nesta altura sua musculatura ganhara resistência, pois cada vez mais observava que os outros nadadores, muitos mas não todos, pareciam gostar de sua proximidade, e isso o impulsionava mar adentro.
Até o dia em que se aproximou de uma nadadora diferente. Ela não o havia notado, e quando notou  nem fez questão de estar perto. De repente o tempo escureceu e as nuvens escuras serviram de motivo para uma aproximação  maior com a nadadora diferente. Sabe-se lá o porquê, só sei dizer que em algum momento, eles decidiram nadar juntos pela vida à fora. Aí a travessia ficou diferente, pois tinham um ao outro para renovar o fôlego e revigorar a musculatura.
Desta forma este nadador, que por não ter origem nobre ou abastada, seguiu nadando. E o tempo passava, passava.  Depois de muitas ondas e algumas calmarias alguma coisa parece tomar forma no horizonte. “É o outro lado deste mar imenso”, ele pensou. Ainda estava um pouco longe e era preciso manter a perseverança e a paciência. Quando se pensava que as ondas acabariam, elas ressurgiam com formas e intensidades diferentes, porém não deixavam de quebrar sobre as cabeças.
O nadador começou a sentir um pouco de cansaço, mas viu que faltava pouco, pois a terra do outro lado deste mar imenso começava a ficar mais nítida no horizonte. Novos nadadores sempre apareciam, e ele já aprendera bastante como interagir com estes nadadores, era cada vez mais fácil sorrir e sentir afeição e compaixão por eles. Bem, nem todos!
Por fim eis que a praia do início se aproxima. Só que não é mais a mesma praia. Ou será ele que está cansado e não consegue mais perceber?
Num estirão final, com fôlego renovado e com braçadas poderosas as ondas começam a ficar mais calmas. A areia já toca seus pés e num pulo ele sai da arrebentação. Já pode sentar-se na
areia morna, respirar com tranquilidade, enquanto espera pela nadadora, que por ter saído depois ainda precisa dar algumas braçadas a  mais antes de sentir a areia firme sob os pés.
    Agora ele pode esperar pelo longo pôr do Sol, e sentir a luz que escurece lentamente, até que a Noite chegue e o leve para um outro lugar melhor. (Se possível junto com a nadadora) 

Ivan Henrique Roberto
07/12/2016

Três


 Três


A tese, a antítese e a síntese.

As três dimensões físicas
como que refletidas em perfeita analogia com o debate de ideias.

Três, o número divino.

     Três, da Trindade.

         Três, os ideais da Revolução Francesa,
de inspiração maçônica: liberdade, igualdade e fraternidade.
 Robespierre, Danton e Marat

 O pai, o filho e o espírito santo.
Ou o pai, a mãe e seu  filho, duas sementes e uma flor
 Osíris, Ísis e Hórus.
Krishna, Vishnu & Shiva


Três os lados de um triângulo, o melhor da geometria.
O um é absoluto, mas solitário.
O dois é ele mesmo e seu oposto, sua antítese, seu antagonista.
O três é a união de todos, a soma do uno e seu par.

O três ao se dobrar,
 e se virar para si mesmo,
 vira um círculo,
o símbolo do infinito.

Três os poderes na democracia: executivo, legislativo e judiciário.


Três, as parcas, aquelas que tecem o fio do destino dos seres humanos.
Clotho, Lachesis e Atropos

Três os reis magos, seguindo a trilha da estrela paralisada no céu
Melchior, Baltazar e Gaspar




Maytreia, o senhor das três mayas

Atmâ, Buddhi e Manas


A tríade sonora, a cama onde se deita a música
Melodia, Harmonia e Ritmo, cabeça, tronco e membros da música.




Paz têm três letras,
Sol tem três letras,
Luz têm três letras

Mas dor também têm,
e o Mal, que nem se fale.




Ivan Henrique Roberto
Janeiro 2014





Sonho numa quarta-feira à tarde


Sonho numa quarta-feira à tarde

Antes de mais nada, foi um sonho.
Quarta à tarde, nada para fazer.
Pensamentos voláteis, imagens fugidias,
O desligamento e a passagem para o outro mundo.

Dentro do sonho, uma tempestade.
Nuvens pesadas, cinzas, quase trevas.
Outras pessoas, queridas pessoas, só não lembro quais.
E a urgência de chegar ao abrigo, poucos passos ao longe, porém perto

Alguém grita: “Não chegaremos! ”
Os outros voltam e se encolhem embaixo de uma marquise precária.
Eu fico, hesito, me angustio, estou ao relento.
Os outros olham com apreensão, prevendo o desfecho.

De súbito um raio desce e me atinge,
Um momento infinitesimal entre o medo e o fato consumado.
Para minha surpresa um instante de paz infinita,
E uma música soou clara e bela.

Logo despertei, porque era quarta-feira à tarde
E não estou pronto para partir, ainda.


                       Ivan Henrique Roberto
                            4 de abril de 2018