domingo, 8 de outubro de 2017

Um dia inesquecível (parte 3)

–                          O Executivo municipal meio tardiamente começou a se mover, mas a situação já se mostrava fora de controle. A articulação requerida para fazer frente à esta demanda gigantesca estava prejudicada pela demora, pela dificuldade de comunicação e pela dificuldade de locomoção. Centenas de ligações por celular já estavam sendo feitas, e dezenas de celulares dos mais altos escalões da prefeitura já estavam descarregados, sem bateria e sem possibilidade de serem recarregados. Muitas pessoas a esta altura até ficariam felizes de tomar um pequeno choque elétrico se encostassem numa tomada exposta, mas nada de energia. Quem por precaução mantinha um estoque de velas em casa muito que bem, estava garantido, porque com a maioria dos supermercados, mercados de bairro e padarias fechados se a situação se prolongasse pela noite adentro teríamos uma pequeníssima amostra da Idade das Trevas em plena Era da Informação, nossa era atual com todo o aparato tecnológico que enchia de orgulho toda uma geração de pessoas nascidas na bonança mantida por controle remoto.
      Dentro dos prédios com seus elevadores parados, as pessoas foram arrombando as portas automáticas e abrindo à força as portas dos andares e as saídas de emergência para libertar o número incalculável  de pessoas presas, muitas desmaiadas, muitas em estado de choque, descompostas, descabeladas, suadas, muitas brigas acontecidas pelo contato muito próximo entre os cidadãos polidos, educados e contidos até que a contrariedade vencesse a polidez e a educação, forçados é claro pela situação extrema a que foram levados. Um dia inesquecível, um dia para ficar na história.
        De volta ao marco zero, no estopim da confusão, Edgar tão desconcertado, que já nem se importava mais com nada, vendo o redemoinho ao seu redor. Depois de muito esforço, muito empurra-empurra, muita sirene os carros de bombeiros conseguiram chegar no local da explosão e do incêndio. Com este reforço muito bem-vindo o ataque às chamas agora começava a surtir efeito, e a situação finalmente começava a mudar. Um ânimo renovado dominava o ar. Até Edgar foi contagiado pelo entusiasmo que pairava agora ao redor. De repente ele lembrou de alguém que poderia reverter aquela situação: O Dr. Christallos Peidonides, seu professor na extensão universitária, um engenheiro-físico-enxadrista, entre outros atributos, grego de nascimento e viajante internacional, cujo conhecimento certamente traria uma solução rápida para interromper aquele efeito dominó de desligamento da energia. Edgar verificou seu celular que ainda tinha carga suficiente e ligou para o Dr. Peidonides.
- Alô Dr. Peidonides?
- Prronto, quem serrr?
- É o Edgar da Cia. de eletricidade, lembra de mim? É uma urgência!!!
-Sim, sim, lembrrei, o que está a acontecerr?
-Em resumo, houve uma explosão na central de distribuição de energia, toda a rede foi afetada, e que me lembre o senhor têm soluções rápidas para situações de crise como esta.
- Nom me digas! Sim, sim, por Téos, porrisso esta confusón que se escuta da janela?
-Sim, preciso de sua ajuda.
-Cerrto, diga-me, a estaçón foi parra burraco?
-Sim, está ardendo em chamas.
-Entón eu vou parra estaçón mais perrto de mim, e alterro programa e deixo estaçón como neo centralis de enérgon. Você poderria ir junto?
- Não creio que consiga chegar, porque o trânsito está uma calamidade.
- Nom serrr prroblemum, posso fazerrr sozinho, só avise segurrança que estoi a camino,si?
–                     -Sim, é claro professor, muito obrigado pela sua ajuda.
    O prof. Peidonides largou seu bouzouki, onde aprendia uma velha melodia grega e foi imediatamente para uma das estações secundárias, que funcionava em rede. Dirigiu-se para a sala de controle, acessou o servidor, introduziu seu programa de contenção e gerenciamento para situações de crise e em poucos minutos a estação era religada. Num efeito dominó reverso as outras estações foram sendo religadas e a energia aos poucos ressuscitou naquela cidade imersa num colapso. O relógio marcava 18:18 h. À medida que a energia voltava e as lâmpadas acendiam ouviam-se gritos, assovios, palmas, uma sensação de alívio, pessoas choravam, outras se abraçavam, estava afastada a entrada naquela zona de trevas que traz no íntimo de cada um o medo ancestral do escuro com toda a insegurança e espectros imaginários embutidos nas células dos seres humanos. Apenas o perímetro em torno da estação acidentada continuou sem eletricidade. A cidade começou a voltar à sua normalidade, de milhões de pessoas apressadas, de milhões de veículos lutando por espaço no asfalto, de milhões em negócios feitos e desfeitos, de um sem número de encontros e desencontros de pessoas a procura de algo ou alguém, a rotina tão conhecida e tão confortadora.
      Edgar respirava compassadamente traçando um roteiro do que deveria ser dito para explicar o que havia acontecido e de seus infortúnios, e das sugestões que faria para evitar que algo semelhante acontecesse novamente, de como era estúpido e perigoso deixar tanta responsabilidade nas mãos de somente duas pessoas. Perto dali um ajudante de pedreiro sonhador e assustado decidiu calar para sempre sobre seu ato impensado e algo mecânico de testar a pontaria com cascas de frutas. Apesar de ser ajudante de pedreiro ele era esperto e inteligente o suficiente para perceber a sequência de fatos e a consequência destes fatos, e viu que poderia ser acusado de ter sido o causador daquela confusão monumental e dos prejuízos incalculáveis decorrentes daquele dia infernal. Ficou tão agastado que, num reflexo sutil e não percebido de pronto, jamais comeu outra banana em sua vida, assim como ficou bastante tempo sem olhar para o céu em contemplação.
      A noite chegara límpida, estrelada, inspirando calma; sem saber o que havia acontecido durante o dia, toda a balbúrdia, toda a consequência de uma rotina quando sai dos trilhos, a noite não precisa saber destas coisas. Uma cidade exausta foi dormir para acordar no dia seguinte e contabilizar seus prejuízos materiais e morais. Edgar chegou cedo a seu departamento pronto para assimilar todos os golpes que sabia que iria receber. Já um batalhão de repórteres se apossava do hall de entrada e da sala de imprensa e um diretor com cara de pouquíssimos amigos fuzilara-o com o olhar, o mesmo diretor que não fora localizado no dia anterior, pois saíra para almoçar com uma atraente lobista de uma empresa alemã de equipamentos elétricos e desligara seus celulares para não ser incomodado.
       O Dr. Cristallos Peidonides candidamente havia enviado para a Secretaria de Fazenda, com cópia para o gabinete do Prefeito, uma correspondência relatando como havia conseguido estancar o problema, usando de seus vastos conhecimentos e de sua presteza em atender ao pedido de seu atento aluno, e a título de gratificação pelo serviço prestado cobrava a módica quantia de Um milhão de euros, uma ninharia perto dos prejuízos ocorridos, finalizava ele em sua correspondência com alguns erros de português, fato este bastante desculpável pelo fato de sua origem, sua poliglossia e por ser o Português uma língua difícil.
     

                                                                                 Ivan Henrique Roberto   maio/2008

Um dia inesquecível (parte 2)

                                                                             Uma linha traçada desde o zênite até esta cabeça de homem em pé no meio-fio não serviria para nada, a não ser para, de alguma forma, traduzir o estado de desalento e impotência deste homem e levá-la de volta para lugar nenhum, pois mesmo que houvesse alguém ou algo para receber esta mensagem, de nada adiantaria, pois, nada nem ninguém poderia acudi-lo quando o estrondo da explosão foi ouvido pelos dois homens, assim como por milhares de pessoas que moravam num raio de três quilômetros.
      Um grande estrondo ressoava pelo ar, logo centenas de pássaros revoavam atordoados, os cachorros ganiam desesperados e se encolhiam procurando abrigo. O som da explosão foi sumindo e em seguida e por um breve instante pareceu ter havido um silêncio inédito naquela cidade que não silenciava nem durante a noite. Um momento em suspensão como um lapso de tempo. Mas logo voltou aquele ruído de fundo que nunca pára, aquele emaranhado de sons, alguns próximos, outros mais distantes. Os moradores das casas vizinhas começaram a aparecer, querendo entender o que havia acontecido, já aos celulares para saber dos vizinhos e moradores próximos o que estava acontecendo. Hipóteses começaram a brotar; uns dizendo que era um ataque terrorista, outro dizia que tinha ouvido um avião voando baixo, um terceiro achou que era um meteoro vindo do espaço sideral, uma senhora já rezava fervorosamente dizendo no intervalo das frases da oração que era castigo divino pelos pecados inumeráveis daquela vizinhança, não obstante serem pessoas comuns vivendo dentro das normas sociais aceitas. Um bêbado trôpego enrolando a língua dizia que havia passado da conta porque aquele último trago tinha dado um estrondo no seu ouvido.
     Com as mãos na cabeça e olhar perdido Edgar pensava nas consequências daquele evento, e no que teria de dizer para explicar porque não havia impedido que uma estação tão moderna e segura tivesse dado aquela pane. Pedrinho ao seu lado já um pouco mais refeito se prontificou a acompanhá-lo até a estação, num impulso para minorar uma situação que ele sabia ter implicação direta, e sem nem se dar conta que poderiam se deparar com um inferno de chamas.
- Vamos senhor, vamos ver o que está acontecendo.
- Sim, vamos. Ligarei para a brigada de incêndio, ligarei para os bombeiros, ligarei para o meu diretor, preciso fazer alguma coisa!
        Três quadras adiante já se podiam ver os rolos de fumaça escura subindo para as nuvens, assim como já se ouviam as sirenes dos primeiros carros de bombeiro que chegavam. Com bastante rapidez já começaram a isolar a área e agir para contornar o problema. Muitos curiosos já se aglomeravam no local e helicópteros sobrevoavam para dar notícias em primeira mão para as rádios locais. Logo os primeiros semáforos começavam a apagar e piscar intermitentes, e a primeira colisão aconteceu. Num efeito dominó tão preciso quanto terrível os semáforos foram se apagando, e os motoristas, que muito se assemelham a um rebanho descontrolado que precisam de um pastor que o conduza, logo perceberam a confusão que se instalava. Buzinas dos mais diversos sons e formatos já eram ouvidas próximas e à distância e mais e mais colisões aconteciam.
       A estação acidentada servia de central de comando para as demais subestações da rede, era considerada como sendo muito avançada tecnologicamente, tão avançada que quase prescindia da presença de seres humanos para operá-la, era motivo de orgulho da empresa de energia e até motivo de visitação turística para o bairro antes tão tranquilo. Mas nem tudo pode ser previsto pelos engenheiros e analistas e a mensagem truncada que havia chegado ao laptop de Edgar era o resultado dessa imprevisibilidade. Agora ela ardia em chamas e os primeiros carros de bombeiros que chegaram não conseguiam dar conta de tamanha tarefa. A brigada de incêndio foi localizada, o quartel dos bombeiros foi avisado. Porém a reação em cadeia havia começado, o trânsito em questão de minutos já saíra de controle e as novas viaturas dos bombeiros já tinham muita dificuldade para avançar. A energia ia sendo desligada à medida que as subestações iam sendo bloqueadas após o acidente com a central. Menos de quinze minutos se passaram após a explosão e já metade da cidade estava com os semáforos desligados. Eram 12:30Hs quando a explosão aconteceu, a esta altura centenas de elevadores já estavam parados nos edifícios com milhares de pessoas em seu interior.
        A sociedade humana moderna é um espanto de avanços tecnológicos, artifícios engenhosos que deixam muitos de queixo caído e enchem de orgulho os otimistas que creem cegamente no progresso material da humanidade, e muitas vezes parece que ao subirem demais largaram a escada para trás. Tantas pessoas presas nos elevadores modernos a esta altura devem estar pensando: O que foi que aconteceu? Porque está demorando tanto? Eu tenho compromissos inadiáveis e não posso faltar, eu tenho uma entrevista em meia-hora, eu tenho que ir ao dentista, eu tenho medo de ficar apertado, eu tenho medo de ficar junta com todas estas pessoas, porque está demorando tanto?
        As linhas telefônicas de atendimento de emergência da distribuidora de energia já estavam congestionadas, mas ainda não se sabia ao certo o que havia acontecido. Os escritórios movidos a computadores começavam a parar, os supermercados conectados em rede começavam a parar, ainda era dia muito claro, mas a informação nos caminhos virtuais começava a escassear sem a energia para carregá-la nas costas e chegar aos seus destinatários, todos ávidos e dependentes da informação e da tecnologia mais avançada para disciplinar suas vidas. Muitos braços começavam a ser cruzados, sem ter o que fazer, e com isso crescia a ansiedade. Muitos rostos já estavam debruçados nas janelas olhando a balbúrdia dos carros.
       Nas ruas reinava uma confusão total, nenhum semáforo estava funcionando, atravessar um cruzamento era questão de sorte ou de fazer valer a lei do mais forte. Os pedestres, coitados, dificilmente conseguiam chegar na outra calçada, o caos em comunhão com a discórdia fatalmente lega a gentileza e a civilidade a um segundo plano, salve-se quem puder é a norma de comportamento, num ponto onde séculos de cultura, a busca do refinamento e da educação e as regras de boa convivência são apagadas em pouquíssimo tempo.
       De volta ao local da explosão, Edgar tentava um contato com seu diretor, que a esta altura já havia saído para almoçar. Seu celular estava fora de área, suas tentativas foram em vão, ninguém estava disponível para auxiliá-lo nesta confusão. “Maldita casca de banana” pensou, “teria chegado a tempo; quem foi o desgraçado que a jogou na rua? Agora tô eu aqui na pior, e o que eu vou dizer? Daqui a pouco a imprensa chega e logo vai querer saber a causa da explosão, e todos sabem que no final sobra no lado mais fraco da corda”. Todavia a imprensa não conseguia chegar preto, ninguém conseguia chegar perto, só os helicópteros no alto davam notas esparsas a partir de seu ponto de vista. Como as coisas costumam acontecer em cadeia, os hidrantes próximos apresentavam defeitos, com pouca vazão de água, canos furados por falta de manutenção decente, desvios de água, entre os principais problemas, sem contar que até uma Kombi velha já havia sido achado na tubulação de água, quem dirá a quantidade de coisas menores que ficam entulhadas nos canos? Os bombeiros que já estavam no local logo perceberam que a batalha era inglória e as outras equipes não chegavam.
      Duas horas já haviam escorrido pelo ralo daquele dia que já estava infernal. As escolas começavam a interromper as aulas, as lojas prudentemente desciam e fechavam suas portas, os ônibus nem conseguiam trafegar, mas já estavam lotados, e nem era hora do rush ainda. Muitos motoristas largavam seus carros e saíam andando, até uma Maseratti de 500 CV, tão potente e tão veloz, parada num cruzamento, estática, mostrando suas belas formas de design italiano poderia ser ultrapassada por um ciclista em sua modesta companheira de 2 rodas movida a tração humana. Ambulâncias com sirenes no máximo de volume e a muito custo conseguiam abrir caminho. Poucas delas conseguiram chegar aos hospitais e clínicas, os obituários dos jornais no dia seguinte tiveram suas colunas aumentadas.
       Os rumores circulavam, se espalhavam, criando vida própria de acordo com o interlocutor: dizia-se que era um ataque terrorista, ou que um bando armado havia tomado de assalto um shopping de luxo, mantendo dezenas de reféns, ou mesmo que um vazamento radioativo havia se espalhado após o tombamento de um enorme caminhão-tanque, já com muitas vítimas fatais num raio de 2 Km do acidente. A tensão subia em espiral, o medo já se espalhava e contagiava os cidadãos já tão sobrecarregados com os problemas cotidianos. Muitos que tinham ouvido a explosão reforçavam a ideia de um ataque terrorista, mesmo que nunca tenha havido nenhum registro deste tipo na história recente desta cidade, nem na história mais recuada.
        A unidade de gerenciamento de crise da prefeitura havia sido avisada do que de fato havia acontecido, e procurava divulgar mensagens na tentativa de orientar, articular uma saída, estabelecer um pouco de ordem no que parecia ser, a esta altura, um quadro de calamidade pública, só que mais da metade da cidade já estava sem energia e os comunicados por televisão não poderiam ser divulgados. Por rádio somente nos automóveis, caminhões, vans, táxis, etc., é que poderiam ter um alcance maior, porém ninguém conseguia se locomover. A articulação estava bastante dificultada, só os celulares ainda tinham algum poder de comunicação rápida.
       Quatro horas da tarde o fornecimento de água já estava ficando comprometido, pois as bombas, na grande maioria elétricas estavam impavidamente paradas, as que funcionavam a diesel gastavam rapidamente seu combustível. Nesta altura do dia começaram os primeiros saques, muitas lojas que teimavam em ficar abertas ficaram desguarnecidas e o policiamento lutava desesperadamente para conseguir controlar o incontrolável, então vários bandos se aproveitavam da situação, como cães selvagens que cercam a presa aturdida pela espiral frenética de confusão e desordem. Daí para o confronto foi um pulo, pois várias brigadas das forças de segurança já haviam conseguido se deslocar. Na zona de comércio mais popular por volta das 16:30 hs. o som de garrafas quebradas, vidros quebrados, gritos, correria, já era a tônica. Carros saqueados, lojas saqueadas, ambulantes atacados, pessoas roubadas; a pilhagem já começava a correr solta, o tênue equilíbrio da vida em sociedade estava por um fio, com uma facilidade muito além do aceitável este equilíbrio muitas vezes é rompido. Balas de borracha, gás de pimenta, gás lacrimogênio entupiam o ar e uma praça de guerra se apossou de uma praça onde artigos para consumo, presentes, mimos, brinquedos, eram vendidos e compradas pacificamente , levando alegria e satisfação para tantas pessoas.

Um dia inesquecível (parte 1)

                                            Um dia inesquecível  
                                         maio/2008

          “Nosso campo de visão é muito pequeno, nosso tamanho é tal que só vemos uma minúscula fração de uma grande teia, dentro de uma teia muito maior, que alguns só de pensar nela perderam sua sanidade, e outros, só de tentar se cansaram logo, desistiram e foram tomar café. Quando olho para o céu traço uma reta entre minha cabeça e o zênite, e penso se esta reta teria fim ou se tocaria o solo de alguma estrela ou planeta distante. Acho que no máximo rasparia em algum satélite em órbita, ou menos ainda, esbarraria num avião muito alto em sua rota, insuficiente para derrubá-lo, não, Deus me livre de pensar numa maldade desta! Neste momento acho melhor para de pensar em tanta besteira, que não sou pago para isto, e comer minha banana saborosa. ”
        “Acho que vou jogar a casca lá no chão da rua, ninguém está vendo mesmo”. Tal discutível ato de falta de civilidade, para não dizer de falta de higiene teve lugar nesta rua tranquila onde uma casa estava em reforma, e na laje do segundo andar Pedrinho Júpiter, auxiliar de pedreiro e astrônomo nas horas vagas, assentava a massa da construção. Esta era uma combinação pouco comum, uma pessoa ser ao mesmo tempo auxiliar de pedreiro e astrônomo, mas Pedrinho Júpiter sempre gostou de olhar o céu, o céu o fascinava. Não que ele fosse astrônomo de verdade, daqueles que estudaram física a sério e fizeram estágio no Monte Palomar ou no Havaí, ele só gostava de ler sobre o assunto e ver programas na televisão que mostravam belas imagens dos planetas e das luas, das estrelas, das galáxias. De tanto olhar o céu, mesmo nos horários de trabalho, é que Pedrinho ganhou o “sobrenome” Júpiter.
        A casca de banana foi se instalar na calçada, próxima do meio-fio. Ao mesmo tempo um homem havia dobrado a esquina, e vinha andando próximo dos muros e portões das casas, com bastante pressa, quase correndo. Na casa vizinha à casa em reforma uma pedra solta fez com que desviasse em direção ao meio-fio. O homem desviou da pedra, mas como estava andando muito rápido não teve tempo de desviar da casca de banana e vupt! Pisou em cheio e escorregou feio. Caiu estatelado, de queixo no chão, largando sua pasta que bateu com força também e espalhou seu conteúdo: diversos papéis voaram pela rua vazia, alguns até caíram num bueiro colado ao meio-fio.
O homem desmaiou ao bater com o queixo no chão, mas naquela rua vazia e sem trânsito naquela hora ninguém presenciou esta cena.
      Bem, uma pessoa viu a cena. Pedrinho Júpiter viu a consequência de seu ato. No momento ficou pasmo e ao mesmo tempo envergonhado quando viu o homem caído no chão. Passados alguns minutos, ao se dar conta de que ninguém aparecia para socorrer o homem, resolveu descer para ajudar pois sabia que também ninguém o havia visto jogar a casca. Chegou próximo ao sujeito que começava a acordar, com o queixo raspado e sangrando de leve. - Olá amigo, que tombo feio hein? Você está bem?
       -Sssimm acho que estou... estou só um pouco tonto…onde está minha pasta?
       -Aqui está sua pasta.
        O homem recobrava sua consciência e sua memória, e quase deu um salto...
      -Meu Deus, onde está o papel com a senha??? Gritou desesperado, mexendo nos papéis que havia juntado, nem sentia a dor no queixo quase quebrado.-Eu preciso da senha! Olhou no relógio e ficou mais pálido ainda.
      -Quanto tempo eu fiquei caído aqui?
      -Cerca de cinco Minutos, disse-lhe Pedrinho já assustado.
      -Ai caramba, não vai dar tempo, vai ser o caos total! Total! Total!
        A cerca de dois minutos dali existia uma estação de energia, que servia como uma chave de segurança para o sistema de distribuição, e que atendia à cidade e as cidades menores ao redor. O homem acidentado estava se dirigindo para ela, ele era o operador mestre do sistema e carregava consigo a pasta com as senhas de segurança, pois havia recebido um aviso em seu laptop que uma falha muito incomum havia ocorrido e ele precisava chegar a tempo para tentar corrigir. O pneu de seu carro havia estourado duas ruas antes desta, ao passar sobre um parafuso que caíra de um caminhão. A esta altura já bastante nervoso largou o carro onde estava e saiu quase correndo pela rua.
    A estação era quase automática, poucos funcionários trabalhavam no local e só Edgar (este era o nome do homem) no momento tinha acesso irrestrito ao sistema e às senhas. Outro colega seu, com o outro código de acesso estava de férias.
      Pedrinho começou a ficar realmente preocupado, apesar de ser auxiliar de pedreiro ele sabia bem o significado da palavra caos, e sabia também que o tal do caos tinha alguma coisa haver com ele, pois sem aquela casca de banana Edgar teria chegado na tal estação. Teria chegado mesmo?
-Senhor, a que caos o senhor está querendo dizer?
-Estou dizendo que agora é tarde e eu não vou conseguir acessar o sistema e conseguir impedir a explosão.
“Explosão”. Agora Pedrinho gelou por dentro, a mal conseguiu balbuciar...
-Ex..Ex....plosão, tipo explosão com muito barulho, destruição, fogo?
-Sim, mas não que vá atingir as casas próximas, só que a energia vai ser cortada e eu não sei por quanto tempo vamos ficar sem energia, nós eu quero dizer todo mundo, toda esta cidade, com seus milhões de habitantes, elevadores, hospitais, semáforos, geladeiras, computadores, lojas, indústrias, ........
-Mas, e os geradores?
-Os geradores só garantem por algum tempo, e eu estou falando de muito tempo sem energia, entende? 
     Pedrinho se aprumou um pouco e falou: - Venha, que eu o ajudo a chegar lá, talvez dê tempo?
- Mas sem o papel com a senha principal não adianta!
           Pedrinho olhou para dentro do bueiro nesta hora e viu um papel pardo, só que todo molhado e sujo.
-É um papel pardo?
-Sim, ele está aí?
-É, mas...acho que já era...
        Edgar já de pé olhou para dentro do bueiro e constatou o óbvio:
-Fudeu!!!!!

domingo, 1 de outubro de 2017

Oto (3ª parte)

Quando se levantou num susto, Oto deixara cair um dos relatórios que estavam cobrindo sua cabeça, abafando-o. Eram 00:45 h já na madrugada e seu peito parecia uma turbina dentro de uma indústria. Levou alguns segundos para se recompor e se lembrar que estivera sonhando. Um sonho lindo à princípio que se transformara num pesadelo assustador. Oto apruma-se no sofá e pensa tantas coisas ao mesmo tempo, como uma vertigem. Como o abismo que estivera prestes a cair segundos atrás. Ainda respira com dificuldade, mas pouco a pouco coloca seus pensamentos em ordem. E a palavra mágica voltou na memória: “ Eu disse um NÃO muito firme e o foi o que me salvou. Quando foi que eu disse um não deste tamanho? Acho que nunca”. Ele estava um tanto surpreso consigo próprio, o súbito despertar parece ter pego Oto num momento em que sua guarda estava totalmente baixa, ele estava indefeso para os rótulos que se prendem às pessoas e naquele momento, mesmo que uma fração infinitesimal do tempo, ele experimentou a possibilidade de ser completamente diferente do que vinha sendo por tantos anos. A madrugada abriga em seu cerne esta estranha propriedade ambivalente, de clarear a mente elucidando questões complexas e arraigadas no mais profundo íntimo, e ao mesmo tempo desmascarar as amarras sutis ainda que perversas, que tolhem os movimentos das muitas pessoas incompletas, cujo brilho fica mais e mais baço e terminam por abrir mão de seus sonhos e seus desejos, por medo, vergonha ou o quer que seja.
     Esta fração minúscula de vida logo passou e Oto já se levanta, esfrega os olhos e custa a acreditar que tal pensamento tenha ousado cruzar seu cérebro tão organizado. Ainda com o coração acelerado e intranquilo ele se depara com a grande quantidade de relatórios, pedidos e anotações que preenchem sua rotina. O sono volta a requerer sua atenção, mas ele estava um pouco assustado com a experiência e com as lembranças muito vívidas, ali como se defronte de seus olhos. Aquele rosto moreno e atraente deixara-o desorientado. A Lua muito clara parece encará-lo, pedindo uma resposta. Mas que resposta? A madrugada é um território que Oto não têm muita afinidade, o território dos boêmios, sonhadores e românticos, o oposto de sua figura pública tão ordeira e convencional, quase insípida diriam alguns. Oto liga seu sistema de som bem baixinho para não incomodar os vizinhos e tenta arrumar companhia na forma de música. Sua cafeteira elétrica está de novo em ação. Seu senso de dever e sua retidão falaram mais alto e ele já está recomposto, com energia revigorada para enfrentar mais algumas horas de trabalho árduo ainda que gratificante, segundo seu ponto de vista. Bom, é a vida, dinheiro não brota de um cartão magnético simplesmente.
     Quatro horas da manhã e quase três horas de trabalho ininterrupto são testemunha da grande quantidade de relatórios, gráficos e soluções elegantes para problemas enervantes que Oto têm a oferecer à seus clientes. O cansaço finalmente interrompe esta sequência frenética e Oto praticamente desmaia, e desta vez dorme por horas à fio. Acorda às 11:30 h de uma sexta-feira normal, toma um banho restaurador e um café da manhã farto e saboroso, como há muito não fazia. Ouviu seu rádio por um bom tempo e decidiu voltar ao trabalho, havia avançado muito nas suas pendências, mas ainda faltava bastante. Rotina, não mais que rotina.
–             Já estava escurecendo e a cidade já se preparava para uma agradável noite de sexta-feira, milhares de ligações simultâneas arrumavam os passeios, programas, festas, noitadas, diversão saudável ou não. O telefone de Oto como sempre estava mudo, quase inútil nestas horas, e ele seguia firme como um nadador olímpico que draga uma piscina com suas braçadas firmes e largas. A memória de seu laptop ia ganhando mais e mais arquivos e gráficos, relatórios e recomendações, e Oto estava muito contente consigo, seu trabalho fluía e seu orgulho crescia.
    Dez horas e Oto firme, com seus dedos velozes no teclado. Onze horas e Oto boceja um pouco, a máquina range um pouquinho, precisa de óleo? Lá vai a cafeteira de novo esguichar o bom e quente líquido, que fez fama e fortuna de muitos neste Brasil. Um copo, dois copos, onze e meia da noite Oto acha que têm a força. “Para melhorar a iluminação do galpão duas carreiras de lâmpadas econômicas correndo paralelas podem proporcionar um aumento de até 30% na visibilidade, permitindo um incremento na produtividade dos trabalhadores envolvidos diretamente no manuseio........O Everest é uma homenagem aos colonizadores ingleses, o verdadeiro nome da montanha mais alta do mundo é Chomolugma, é injusto que deem este nome estrangeiro.........É impressão minha ou eu estou sendo perseguido por um dragão de escamas vermelhas e púrpura?.....Ahnnn? Oto sacode a cabeça e pensa: “De novo? Meu pensamento já está escorregando de novo”. Ele fica apreensivo ao se lembrar da noite anterior e do sonho aterrador que vivenciara. De um salto se levanta da mesa e percebe que o ar está mais difícil, sua narina direita se fechara um pouco, sua língua está um pouco ressecada. “Água, água pura, um grande gole vou tomar. Que sede! Só percebi agora! Tanto trabalho que eu até esqueço de beber água, esqueço de comer e de marcar consulta no médico. Esse nariz está me atrapalhando”. Oto teima em continuar após matar a sede e respirar fundo, assoando o nariz com força para ver se respira melhor daí em diante. Já seus dedos voltam para seu teclado bastante gasto com tantos toques frenéticos, falta pouco trabalho agora e ele pensa em terminar ainda esta noite e se possível deixar o fim de semana para um merecido descanso. Poucas frases restam para completar o último trabalho do dia. Ou da noite? Oto nem sabe ao certo que horas são. Pequenos pontos luminosos dançam e se sacodem nos cantos de seus olhos, talvez pelo cansaço, muito pelo esforço, pela dedicação de querer sempre cumprir os prazos que se auto impõe. Oto têm princípios sérios e sólidos, mas tudo custa um preço, seja pela ausência, pela falta de uma vida social, pelo descuido com a saúde, pelo adiamento constante de antigos projetos, planos e sonhos quase apagados da memória. Aquele rosto moreno não abandonava mais seu pensamento.
      Só mais uma frase e mais um cliente satisfeito, que com sorte lhe pagará com somente uma semana de atraso. Sua cabeça bamboleia e Oto sucumbe à uma agradável sensação de desligamento da realidade. A última frase não é finalizada. Oto agora estirado no sofá deixa cair seu laptop no chão, mas nem percebe, nem liga, nem escuta. A viagem começa............

      Dentro de uma densa camada de neblina que pulsa como se tivesse vida palpável, emitindo clarões de uma luz fraca e laranja entremeada com fagulhas vermelhas, o chão se move como se fosse uma esteira rolante levando Oto para algum lugar desconhecido. Ele não teme nada, apenas sente aquela sensação agradável de desligamento da realidade, que vai se tornando mais forte à medida em que ele se dirige para um grande maciço de pedra escura e disforme. Logo começa a atravessar um túnel pequeno e afunilado, seu corpo inclinado como uma lança. No outro lado da parede uma claridade cresce, mas não ofusca seus olhos, uma claridade multicolorida que dança como chamas de um fogo frio. É de uma beleza estonteante e traz uma curiosidade seguida de uma sensação de conforto, que logo chega, cerca Oto e o banha de uma luz suave. Uma recepção cordial e aconchegante que carrega junto uma sensação de leveza e repouso. A neblina densa ficara do outro lado do muro de pedra escura. Oto acomoda seus olhos ao novo ambiente, um vale deserto com pedras dispostas num desenho geométrico. Com surpresa ele começa a perceber o padrão na disposição daquelas pedras, algumas muito claras, outras de um tom cinza grafite. Nenhuma vegetação aparente somente pedras num chão macio. Este ambiente apesar de agradável é um tanto estranho, nada natural. As pedras dispostas desta maneira lembram um santuário e ele lembra-se de Stonehenge. Aproxima-se de uma das pedras e quando toca em sua superfície um som agudo penetra-lhe os ouvidos. No centro da formação rochosa as pedras maiores começam a se mover e um buraco no chão aparece. A curiosidade superou o medo, Oto se aproxima e vê uma escada que se perde no escuro. Um som como um canto melodioso se faz ouvir, um som que puxa irresistivelmente o curioso Oto para dentro daquele buraco.
      Os degraus são macios e quando pisados emitem luzes de variados matizes, a parede brilha como se estivesse cravejada de cristais e brilhantes, o som melodioso cresce e aguça a curiosidade de Oto. A escada parece interminável ainda que suave e agradável. As amarras que prendem Oto às convenções foram retiradas e ele parece flutuar, experimentando uma sensação de liberdade desconhecida até então. Ao final da escada ele se depara com uma porta sem tranca nem fechaduras aparentes, daí ele se vira para olhar para trás e uma escuridão absoluta tomou conta do caminho. Volta-se para a porta fechada e agora ela emite uma sequência de luzes que vai aumentando de velocidade até que toda a porta fique acesa como em brasa. Subitamente ela se abre e uma luz intensa faz com que os olhos de Oto se fechem imediatamente. Pouco depois ele se acostuma com a claridade súbita e vê algo como um lago imenso, e ao longe nuvens muito baixas que rodopiam ao redor de uma estrutura gigantesca. Tudo é muito inusitado neste ambiente incomum. Um desejo enorme se apossa do pobre Oto quando o canto melodioso retorna a seus ouvidos e agora ele tem certeza que o som vem daquela construção no meio do lago. Mas como chegar até lá? Ele se aproxima da margem do lago esperando encontrar algum barco ou bote que seja. Um caminho translúcido se destaca no meio da água e Oto como que puxado por uma força maior que sua hesitação apoia um pé e depois outro e nisso o caminho se ergue afastando as águas. O pobre Oto segue firme, quase correndo, o canto sedutor aumenta sua frequência cardíaca e seu desejo de chegar naquele lugar desconhecido envolto por uma luz cálida emitida por nuvens que rodopiam como dervixes em transe.
    No caminho até o edifício, no meio do lago, formas desconhecidas se mexem dentro da água, sombras escuras nadam próximo a superfície. Aquela sensação de conforto e calma começa a ficar perturbada pois à medida que Oto se afasta da margem do lago, o céu ou a abóboda muda de cor, ganhando tons mais escuros e parecendo mais baixo do que no princípio. As águas sobem e cobrem o caminho suspenso até o edifício, atrás de Oto o lago antes tão calmo começa e se encrespar e ficar revolto, uma convulsão surgindo do nada. As formas que nadam pouco abaixo da superfície agora estão maiores e em grande número, turbilhonando mais e mais a água. Oto já havia passado da metade do caminho até a construção e sente-se cada vez mais pressionado pelo espetáculo às suas costas. Começa a correr quando rugidos ameaçadores agridem seus ouvidos e ele já não têm coragem de olhar para trás. Ele só sente uma vibração muito forte próxima de sua cabeça e sua respiração já está muito acelerada quando ele finalmente alcança o edifício no meio do lago. Mal toca o solo e uma pesada porta de granito logo se abre e ele se joga para dentro do desconhecido. Em segundos (ou o que parecia ser um tempo bem curto) ele observa o interior daquela construção tão imponente. Um grande salão com piso de mármore e ao centro duas colunas que sustentam um arco com símbolos desconhecidos esculpidos. Parecem letras de um alfabeto estranho. Nas paredes deste salão muitas imagens com figuras bizarras entremeadas com as mesmas letras do arco. De repente surge entre os arcos um globo incandescente que gira em grande velocidade puxando Oto para junto deste. Oto está muito aflito com estes acontecimentos, e se sente completamente só e desamparado neste mundo estranho, onde até então não havia visto nenhum ser humano. Vai se aproximando do globo iluminado, não consegue recuar pois seu corpo não lhe obedece mais e um ruído crescente preenche aquele salão. Apesar da aparência de fogo do globo giratório Oto não sente calor, só apreensão pela situação fora de controle. Por fim ele é engolido pela esfera e ao abrir seus olhos novamente se vê no centro de outro salão menor que o anterior, mas percebe várias pessoas ao seu redor, como se estivesse num anfiteatro e ele no centro do espetáculo.
     Figuras com ar severo e olhos inquisitórios o observam em profundo silêncio. Oto gira ao redor de seu corpo para olhar aqueles rostos, mas nenhuma palavra sai de seus lábios, apenas os olhares frios e hostis que parecem atravessá-lo. Um temor crescente vai amolecendo suas pernas e pesando seus braços, e um tremor impede que seu corpo obedeça a seu comando. Aquele momento pareceu infinito para ele, sentindo-se nu e desamparado no meio de uma tempestade iminente. Tudo parece tão real e assustador e ele se pergunta o que está acontecendo e porque está acontecendo, por que ele sempre tão ordeiro e inofensivo está naquela situação? O que terá feito de errado? Parece um julgamento. “Meu deus, será que eu morri e aqui é o lugar onde dizem que as almas são julgadas, onde seus feitos são medidos e pesados para saber se podem ir para o céu ou não? ” Ele pensa reconhecer alguns rostos dentre aqueles que o observam com olhares gélidos. “Aquele ali me faz lembrar um diretor de uma siderúrgica que eu prestei serviço, aquele outro mais acima parece o advogado de uma metalúrgica que eu ajudei a reverter uma situação de grande risco, aquele de olhar faiscante na última fileira é idêntico ao gerente daquele frigorífico cujas instalações estavam muito precárias, eu ajudei a consertar e ele só me pagou dois meses depois do combinado. Por que eles estão me olhando assim de modo tão acusatório? Eu só fiz o bem para eles! ”
        Neste momento a voz que o havia atraído para dentro da escada do buraco é ouvida no salão, o mesmo som suave e atraente. Por um instante Oto se sentiu seguro e fortalecido e aquelas pessoas ao redor arrefeceram o olhar frio e feroz. A luz do salão mudou repentinamente e todos pareciam se curvar em reverência. Uma atmosfera solene se apossou daquele aposento antes tão lúgubre. A luz antes escura e soturna havia aumentado de intensidade e brilho, revelando paredes ricamente enfeitadas com imagens muito diferentes de tudo que Oto havia visto até então em sua vida. Ele olhou para o teto que girava parecendo a abóboda celeste, mas as estrelas estavam dispostas de forma muito diferente da configuração que temos no hemisfério sul. Constelações diferentes de todas as conhecidas estavam estampadas naquele teto giratório. Oto não conseguia se virar para ver quem era responsável por toda aquela mudança que havia acontecido subitamente. Tinha a impressão que deveria ser uma figura feminina, a julgar pela voz encantadora que o havia atraído, além do perfume que impregnava o salão. Este perfume o havia deixado mais tranquilo, mas ele não sabia dizer porquê. A curiosidade agora era tamanha que ele, fazendo um grande esforço, estava se descongelando lentamente, mexeu primeiro um braço depois outro, mexeu um pé e a outra perna, mexeu a cabeça para baixo e para o lado. Daí então ele se virou para ter uma surpresa inesperada e uma visão que o paralisou tão profundamente quanto estava antes.
_   Myrna !!!?!????!!!
   Uma presença estonteante e aterradora ao mesmo tempo dominava o anfiteatro, onde as figuras se prostravam em reverência, numa mistura de temor e devoção entrelaçadas, uma presença que emitia uma luz fulgurante e um aroma inebriante à semelhança de uma divindade. Aquele rosto moreno estava de volta ao seu campo visual, só que de uma forma completamente diferente, aquela linda menina que se sentava na carteira ao lado da sua era só uma leve lembrança desta deidade que parecia surgida de mundos submersos pelo tempo. O pensamento e a razão de Oto estavam na mais total das confusões, o temor que crescia dentro dele nos momentos precedentes havia sido substituído pela visão incomensurável, que lhe ofuscava o raciocínio.
-Como você conseguiu desaparecer na última vez que nos encontramos?
   A pergunta foi feita diretamente para Oto que ficara mais destacado do que antes, iluminado diretamente por um facho de luz dourada, o que aumentou mais um pouco o seu desconforto, visto que ele era um homem bastante discreto que não gostava de destaque. A plateia aguçou mais a curiosidade pois sua Deusa parecia conhecer muito bem o convidado. A quantidade de rostos parecia ter se multiplicado e o salão aumentara de tamanho, de um anfiteatro para uma arena.
- Milhares de anos se passaram desde que você sumiu como uma nuvem de fumaça, e naquela ocasião você nos abandonou e nos ignorou, recusou meu pedido. Todos ficaram desiludidos, arrasados, perdidos e por fim foram destruídos. O abismo engoliu tudo. A mim foi permitido retornar e tomar esta manifestação como veículo. Me chamam de Rashkarmatara e este é o meu domínio. Você seguiu minha voz e minha voz foi uma isca, como uma sereia na antiga Grécia. Meu rosto é o mapa que o trouxe até as portas de meu reino, e sua dívida o deixará para sempre dentro destes limites. Você não poderá me negar novamente.
       Oto não sabe o que pensar, muito menos o que dizer. A confusão tornara-se um pavor de proporções inimagináveis. Como era possível que milhares de anos tivessem se passado se ele, que agora se lembrara aos poucos do sonho intranquilo que tivera na noite passada, estivera em sua presença na noite anterior. Nada fazia o menor sentido e ele não conseguia raciocinar como estava acostumado. Aquele rosto que passara a desejar com tanta intensidade agora estava ali na sua frente só que infinitamente mais belo e muito mais assustador também, com aquelas frases tão diretas quanto cruéis. Que dívida era esta, que recusa era esta que ele não sabia e não compreendia?
    -Oto eu já esperei demais por você. Você terá de decidir agora: você virá comigo ou ficará por eras sem conta neste palácio estéril?
     Colocado assim desta forma Oto está imprensado contra uma parede. Mais que uma parede, ele está sendo obrigado a decidir sobre algo que não sabe do que se trata, mas percebe a gravidade da situação, e o “eras sem conta neste palácio estéril” acendeu uma luz intensa na sua cabeça. Uma grande angústia se apoderou dele e ele percebeu que poderia estar morrendo. Só que o rosto de Myrna ou Rashkarmatara era um alívio muito grande, por ser de uma beleza indescritível, um bálsamo, um antídoto, um bote salva-vidas. A outra alternativa, a de ficar com ela, por mais absurdo que parecesse, já que como seria possível uma divindade estar interessada num sujeito tão simplório? Naquele momento era a sua salvação. E ele disse SIM mais uma vez em sua vida. O rosto tão belo de Rashkarmatara , tão severo até então, finalmente se abriu num sorriso encantador, se é que fosse possível ser mais encantador. Ela lançou um olhar meigo e disse:
–         -Você fez a escolha certa desta vez. Pode ir embora!
      As paredes, a plateia, a abóboda, tudo enfim começou a se desfazer em pequenos pontos de luz que foram se tornando brancos e formaram uma névoa em forma de túnel, que girava numa velocidade absurda e vertiginosa...
      São 23:42 hs quando Oto abre os olhos com grande espanto. Então percebe uma almofada cobrindo seu rosto, atrapalhando sua respiração. Seu pulso está descontrolado e seu corpo está dolorido, pois estava deitado no sofá de sua sala numa posição bastante incômoda. Seu laptop estava no chão e sua xícara de café ainda estava quente. Menos de dez minutos de sono haviam transcorrido desde então e sua sala continuava igual ao que era antes, os mesmos móveis, a mesma arrumação sem criatividade, apenas funcional. Um alívio sem tamanho envolveu todo seu corpo quando ele percebeu que sua vida real e concreta estava de volta. Um silêncio imenso servia de moldura para aquele momento de despertar do sonho mais absurdo que jamais tivera.
      O impacto daquele sonho logo retornou e Oto foi tomado por uma melancolia tão grande quanto o alívio de seu retorno ao chão e à rotina. Prostrado no sofá as lembranças daqueles momentos tão intensos preenchem sua mente e a beleza sublime e surreal daquele rosto, sem que ele percebesse naquele instante, havia deixado uma marca indelével em seu espírito. Oto havia tocado o seu vazio, havia entrado em contato com o resto que faltava em sua existência. Mas isto é uma elaboração feita por alguém de fora, é claro. O que ele passou a sentir daí então foi como uma sede que nunca passa, como uma ilha ao longe que nunca se alcança, um sentimento muito vago que ele não conseguia captar. Ele havia escutado o canto da sereia, o rumo errado que naufragava os navios nos tempos antigos. Por incontáveis noites ele dormiu na esperança de encontrar novamente aquela divindade, mas em vão. Até que ele percebeu que precisava sair pelo mundo procurando. Mas isto é uma outra história.




                                                                           Ivan Henrique Roberto    16 de fevereiro de 2009

sábado, 30 de setembro de 2017

Oto (2ª parte)

  

                                                        Meia noite chega e o silêncio aumenta neste bairro agora tranquilo. O cansaço também chega junto ao novo dia que avança, mas Oto têm um grande acúmulo de serviços pendentes. Senta-se de novo com o Laptop de última geração para continuar suas tarefas. Toma mais uma xícara de café, mas o sono doma-lhe a vontade. Oto começa a cabecear mas cerra os olhos e quer seguir em frente, pois havia prometido entregar esta nova tarefa em três dias, pois todos têm pressa e todos acham que o seu problema é o mais importante, e quando procuram Oto chegam com uma cara nervosa e cheios de amabilidades, pois apesar de sua timidez sua fama de eficiência está se espalhando e sabem que ele é confiável. E ele nunca diz não.
      O café não faz mais efeito e o pensamento de Oto começa a ficar confuso. ¨”Para acomodar a nova caldeira faz-se necessário criar um espaço aberto para dissipação do calor, por onde a circulação dos funcionários terá que ser restrita…O carro está precisando de novos limpadores de para-brisa e, .... minha mãe faz aniversário no dia 16 ou no dia 17? ¨, Hein?! Oto sacode a cabeça e pensa: “ Nossa, eu estava pensando na caldeira da indústria metalúrgica e de repente pensei no carro e depois lembrei da minha mãe, onde estou com a cabeça? ”. O sono é invencível, Hipnos era o Deus grego responsável pelo sono dos mortais daí o termo Hipnótico para coisas que deixam você com o pensamento turvo e descontrolado, indefeso e sem raciocínio. Oto não sabe quem foi Hipnos e precisa seguir em frente: “ A norma regulamentadora do funcionamento de caldeira prevê, entre outras coisas…. Eu estava na aula de química quando aquela menina morena de pernas compridas me pediu a borracha emprestada…. Puxa vida, a conta de luz venceu anteontem e eu não paguei! ”
     Não têm jeito, o sono é invencível e Oto, nesta altura da madrugada, já havia entrado no túnel escuro que conecta a vigília com o plano superior da existência, a zona limítrofe cujas leis terrenas não têm efeito e os desejos correm soltos, sem amarras, sem âncoras, sem relógios. Está de volta ao colégio só que as paredes são de cristal, a sala de aula está no topo de um monte e o mestre traja roupas estranhas. Olha ao redor e seus colegas estão absortos tentando fundir ouro e prata. Ouve uma voz melodiosa e quando se vira ele vê a menina morena de pernas longas que há poucos minutos havia pedido a borracha emprestada. Seu nome é Myrna e seus olhos são como um redemoinho, chispando fagulhas de um brilho incomum. Uma visão paradisíaca lhe entope os sentimentos. Nunca antes havia tido coragem de se aproximar dela, maldita timidez, e jamais se dera conta de toda a sua beleza. “Olá Oto por que você tem faltado às aulas todos estes anos, eu estava esperando pelos seus conselhos? ” Oto não esperava por um momento como este e não conseguia articular uma resposta para uma pergunta tão surpreendente.
–         Mas eu não faltei muitas aulas na minha vida?
–         Todos sentimos sua falta e tudo está parado esperando que você nos traga a solução.
–         Solução de quê?
–         Ora você sabe que nós precisamos sair daqui...
–         Daqui aonde?
Myrna sorri achando que Oto está brincando...
–         Oto deixe de brincadeira pois estamos esperando sua resposta!
   Oto deve estar com uma expressão tão apalermada que até Myrna percebe algo errado. A menina fecha seu sorriso cordial e iluminado e segue: - Então você não tem ideia do que está acontecendo? Nós estamos presos neste mundo e pouco tempo nos resta. Durante muito tempo você sumiu, se esquivou e sempre nos disse um NÃO tão exato simbolizado pela sua ausência que todos estamos tão assustados e pessimistas. As pontes de saída estão destruídas e só você consegue reconstruí-las. As paredes ao norte da escola já sumiram e o escuro avança, e só de pensar no que virá depois me deixa muito triste. O belo rosto da menina perdera o brilho radioso que mostrara há pouco e sua expressão era de uma tristeza imensa e comovedora. Aos poucos Oto adentrara por inteiro neste novo ambiente que era ao mesmo tempo familiar, porém intensamente assustador. Refletia sobre as palavras ditas com tanta emoção por Myrna e ficara muito intrigado com o fato do NÃO, bem destacado por ela.
  ”Eu não entendo, eu nunca nego nada quando me pedem, ainda mais aqui, este lugar que eu tanto gostei. Não lembro de ter estado ausente muito tempo, parece que deixei a escola ontem, ou pode ter sido anteontem. Espera, eu tenho 35 anos, não estou mais na escola! Aonde estou de fato? ”  Oto está completamente confuso e sente sua respiração acelerada. Ouve um ruído longínquo e rouco, um som ameaçador. Olha ao redor e percebe os demais colegas cabisbaixos, olha o mestre de roupas estranhas com o olhar vazio de desalento, e quando se volta para Myrna ela já não é aquela bela figura morena de olhos faiscantes. Na verdade, é uma figura horrível de se ver: Sua face é um quadro tenebroso, de olhos vazios que emanam o vácuo que se aproxima da parede norte da escola. Seus olhos mostram a beira do abismo, seu nariz rouba todo o ar de Oto, suas mãos lembram duas garras prontas a apertar e dilacerar a carne macia de um ser humano. E quando volta a falar um arrepio percorre a coluna vertebral de Oto.
  - Venha comigo, eu estive esperando este tempo todo, não me abandone agora!
      Uma voz como que surgida do fundo do abismo mais escuro substituía aquela voz tão doce de momentos atrás. Oto sente seu coração tão rápido e sua respiração tão ofegante e vê aquela imagem assustadora se aproximar. Sua própria voz parecia sumir dentro da garganta e o ruído crescia e se aproximava. Olhou mais uma vez ao redor e todos os colegas agora se voltavam para ele, com figuras tão horrendas e tristes quanto Myrna.  Avançavam por todos os lados cercando-o. O céu parecia descer rapidamente sobre sua cabeça. Seu corpo tremia tanto que ele não sabia se conseguiria aguentar por mais tempo. Quando Myrna chegou com as mãos de Fúria perto de sua garganta, pronta para rasgá-la de um lado a outro Oto deu um grito imenso.
–         NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÕOOOOOOOOO.

Oto (1ª parte)



                                                          Oto     
                                            Janeiro/fevereiro 2009

      Oto respira como se precisasse deixar entrar em seu peito um punhado do paraíso prometido aos homens de boa vontade. O ar que desceu pela sua laringe não estava melhor do que em qualquer ponto daquele bairro sempre agitado, mas naquele momento, dado o seu desconforto, um sopro de ar por ínfimo que fosse pareceria a salvação. Um momento de perplexidade tomou seus olhos e suas mãos, desceu pela garganta, empurrou sua pulsação para níveis nunca antes atingido. Mas por que isto? Ele estava como sempre estivera pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, a mão direita calculando as dívidas, a mão esquerda planejando a solução para pequenos problemas domésticos, o pé direito se apoiando numa escada fincada em solo móvel e o pé esquerdo doía pela pancada dada num raro momento de destempero. Oto era como todos, um pequeno grão dentro de um celeiro imenso, mais uma semente do grande plano por trás de tudo.
        Por muitas manhãs seguidas ele acordava sem sentir que havia descansado, seu sono cada vez mais intranquilo povoado por sonhos nebulosos que ele não conseguia lembrar por completo. Levantava-se e corria para o banheiro para tentar melhorar o aspecto, tarefa que ficava mais difícil com o acúmulo dos anos pesando na pele do rosto. Ele apenas seguia em frente, pois segundo a maioria avassaladora das opiniões era assim que deveria ser, pois a sociedade moderna é assim mesmo, cheia de compromissos, cheia de atividades, ninguém tem o direito de ficar parado com apenas um lado sendo exercido, esta é a era multifuncional onde todos têm de estar girando seus 360 graus a todo momento. Afinal de contas se existem 10 níveis de inteligência, por que não tê-los todos ao mesmo tempo? É simples assim.
      “Quero mais ar, preciso de mais ar” ele pensa. O sufocamento existe mesmo, ou é uma impressão?  Ou será que é seu nariz que está entupido e ele nem percebeu? Muitos detalhes mínimos passam despercebidos na enxurrada de sensações, sons, imagens, pensamentos, ordens, desejos que circundam a existência diária dos habitantes desta era de tempo dividido e superposto. Por cerca de um mês Oto pensara estar com uma alergia persistente nas narinas, sugava o ar com cada vez mais força e não parecia ser suficiente. Recorreu a um descongestionante, mas não obteve resultado, anotou o telefone de um médico recomendado e sempre deixava para depois a ligação para marcação da consulta. Sempre surgia algum assunto mais urgente, sempre de outros e não do seu interesse e sua saúde poderia esperar para depois.
       Oto não havia percebido que perdera o controle sobre sua vida. Muito solícito e afável pouco a pouco rompera a fina casca que separa o espaço essencial onde a individualidade procura refúgio e deve manter seu território, o santuário sagrado sem acesso aos outros e de onde emana a energia que revigora e regenera a alma individual. Como ele chegara neste estado de coisas não saberia dizer, nem saberia dizer com precisão tampouco quando foi a última vez que estivera sozinho, em companhia apenas de seus pensamentos.
       Uma consultoria urgente foi solicitada, e por ser tão urgente foi praticamente ordenada, pois alguém relapso e preguiçoso havia cometido algum erro grosseiro e Oto estava lá para consertar. Devido à urgência e como a roda dos negócios não pode parar nunca, apenas dois dias de prazo foram estipulados para solução do problema, muito embora muito sensatamente fossem necessárias pelo menos duas semanas para a correção. Oto foi chamado e por ser sempre muito solícito aceitou o prazo insano que lhe foi dado, não obstante o fato de que já estava acumulando 3 outras tarefas urgentes, com prazos tão curtos quanto a paciência dos contratantes. Sua formação tecnicista de alguma forma lhe assegurava que tudo era possível, que tudo poderia ser equacionado, que todo o peso poderia ser distribuído numa superfície, e acima de tudo, que ele sempre deveria ser capaz de dar resposta para os pedidos, e que ele nunca poderia dizer não.
      O acúmulo de tarefas roubava-lhe o tempo de viver sua vida, ele pesquisara muito sobre o desgaste de materiais tão diversos, mas nunca percebera que o seu material estava muito desgastado. Suava com facilidade à medida que se cansava com facilidade, e o ar estava ficando mais ralo e curto. Terça-feira de manhã já debruçado sobre o teclado de seu laptop não tinha certeza se era terça ou segunda, ou mesmo domingo, os dias estavam ficando todos iguais. A xícara de café já esfriara. O queijo azedara e a pera escurecera na fruteira, as refeições eram um incômodo para ele, só faziam perder seu tempo tão precioso, com tantas tarefas se acumulando em sua gaveta.
A qualidade de seu raciocínio revelava o seu cansaço avolumado, muitas vezes ao ler uma simples linha de algum dos relatórios que o encaravam ele não conseguia mais terminar na mesma concentração que iniciara. “Opa, preciso de uma xícara de café”, sacudia a cabeça e recomeçava.
      Oto decidira fazer seus serviços em casa, saudando as novas tecnologias de comunicação colocadas à disposição dos pobres mortais, que desta forma se tornavam convencidos de que tomavam controle absoluto sobre suas vidas, já que tudo estava tão a mão, tudo tão fácil, automático e colorido. Dois celulares já não estavam satisfazendo suas necessidades de mandar e receber recados, dois laptops já estavam quase cheios de arquivos, planilhas, fotos e mensagens que se auto apagavam porque era impossível que ele lesse tudo que chegasse, talvez com um dia com 48 horas. Mas como ele estava decidido a trabalhar em casa pesou os prós e contras, achou que ficaria isolado para poder exercer com maestria suas habilidades, enchia a geladeira no início de cada semana e desligava a televisão. Como a novidade é sempre estimulante, nas primeiras semanas tudo parecia se encaixar.
    A noite segue firme e o prazo da tarefa urgente vai escorrendo pelo ar. Um terço do trabalho já foi realizado, com Oto a todo vapor se esforçando mais do que pode para dar conta dos pedidos que    chovem em sua caixa postal. Alguma linha de produção que emperrara toma toda sua atenção neste momento, uma indústria com um grande contrato precisava aumentar em muito sua capacidade produtiva e um nó havia surgido para atravancar o bom andamento das previsões. Então pensaram em Oto, muito aplicado, muito dedicado, para resolver este impasse. Muitos milhões em jogo e isso ficou particularmente claro para ele, quando lhe foi apresentado o problema. Alguns clientes muito nervosos e muito pressionados repassaram-lhe todo o nervosismo e toda a pressão, por um valor aquém do seria cobrado pelo mercado. Mas Oto aceitava pois não costumava dizer não. No momento da apresentação do problema seu nariz havia se fechado levemente porém ele não se importara, pensou nas impurezas retidas no ar condicionado, na poeira em suspensão e nas fibras do carpete como causa de sua alergia, e nunca poderia cogitar que toda a tensão suspensa no ar, toda a urgência dos negócios, todo o dinheiro que servia de justificativa para aquele ambiente insuportável quem sabe, talvez, poderiam ser a causa de sua inquietude refletida no nariz que teimava em dispor  de menos ar do que ele precisava.
    Ao término da reunião Oto por uns breves momentos ficara a sós, mas não poderia admitir que tal tarefa era pesada demais para ser resolvida em tão pouco tempo. Bastava fechar seus olhos para se lembrar dos rostos sérios, tensos e hostis dos homens de negócios que o haviam contratado, por um preço baixo pelos valores de mercado, para livrar seus pescoços dos caninos ávidos dos acionistas. Todos já haviam se retirado, mais leves e confiantes. Oto para no banheiro e abre a torneira. Lava suas mãos que respingam gotas por causa do tremor, mas que tremor é este?  Oto pensa que seu braço estivera um pouco dormente após tantos minutos numa cadeira ouvindo o medo e a tensão estampados nos astutos homens de negócios preocupados com o possível fracasso. “Por isso minha mão treme, é claro” Por isso o nariz fecha, por isso a mão treme, por isso que ele não sabe que hoje é quinta-feira mas poderia ser sexta. Por isso também é que ele chega na rua e não se situa, não sabe onde está. “Nossa, nunca me aconteceu isto antes. Eu ando por estas ruas há tanto tempo, como posso ter esquecido de onde estou? ” Sacode os ombros e sorri brevemente. “Opa, já passou. Meu carro está a duas quadras daqui”.
    Volta para casa por volta das 20:30 hs. Já delineando as linhas gerais do que pretendia fazer para resolver a grande encrenca em que se metera. Seus neurônios já estavam muito absorvidos e voltados para o desatar do nó que se instalara naquela indústria tão temerosa de não cumprir os prazos acordados. Com o corpo inundado de adrenalina a fome se escondera e o banho fora tão rápido quanto possível para não interromper o raciocínio. Muito trabalho o espera.
     Sua cafeteira elétrica havia se tornado uma grande companheira e uma grande bengala, pois Oto dependia em grande parte do café que tomava avidamente, acreditando que o pó divino sempre lhe traria forças que lhe empurrava para a solução dos variados problemas, tarefas e encrencas em que se metia, pois não sabia dizer não e acreditava que nunca poderia dizer não. Então se atirou em seu trabalho, desenhando linhas, esquemas e soluções para desafogar o fluxo da linha de produção.      Agora são 23:00 hs e após tanto esforço Oto sente um grande alívio por ter avançado muito na solução do problema tão sério e com tanto capital envolvido. Sorri para si mesmo e se auto congratula.
    Oto vive sozinho num apartamento pequeno e adequado para ele, um rapaz recluso por conta de tanto trabalho assumido. Há muito havia passado dos trinta anos e se refugiara no trabalho, em parte por ser tão responsável, em parte por ser eficiente, em parte pela timidez excessiva, que o impedia de dizer não muitas e muitas vezes e ofuscava seu real valor, recebendo menos do que merecia. Como tinha muito serviço seus ganhos eram suficientes para seu estilo de vida quase monástico. Raramente entrava em contato com sua família, seus dois irmãos e seu pai moravam num sítio no interior. Sua mãe era falecida. Sua timidez excessiva contribuía para sua reclusão, namorara muito pouco e tinha um círculo limitado de amizades. Era um exemplar da moderna fauna urbana que engrossa as estatísticas da solidão nas grandes metrópoles.

    Uma bela noite mostra seus ares e brilhos do lado de fora com bares, restaurantes, boates e motéis cheios de gente feliz ou ocultando a infelicidade com sorrisos dúbios, litros de álcool e sabe-se lá o que mais para garantir tanta euforia. Oto está cansado e com o nariz entupido, corre para a janela para deixá-la totalmente aberta querendo com isso deixar entrar o ar que não lhe chega em quantidade suficiente. Volta para seu teclado e se depara com muitos gráficos coloridos, tabelas elaboradas e um relatório extenso, que ele pensa que poderá trazer de volta o sorriso e o alívio àqueles homens tão tensos e temerosos. Apesar de sua timidez ele pensa consigo próprio “Vejam só, eu resolvi em um dia uma grande encrenca, me sinto orgulhoso disto mas sei que no máximo vão me agradecer de modo frio e vão demorar uma semana para me pagarem. Sei que deveria ter pedido mais dinheiro pelo meu esforço, mas não consigo. O que está errado comigo? Eu me olho no espelho e ensaio uma grande entrada, me vejo colocando os pés em cima da mesa falando duro e exigindo o triplo do que me oferecem, mas na hora H meus lábios tremem e meu nariz fecha”. Num momento toda a euforia passa e a melancolia se apossa do Oto sozinho num minúsculo apartamento.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Gosto mais de música do que de mim (2ª parte)

  Ufa!  Depois desta Saramaguização, e com a garganta seca de emoção e sede resolvi dar uma pequena parada para tomar uma água de coco. No meu caso, por volta desta hora da manhã e após a sequência musical apresentada, é muito natural que eu apresente um estado alterado de consciência.
O gosto da água em contato com a língua se converte na nota fá sustenido. A cor da cobertura da barraca de água de coco soa como o acorde de Dó sustenido menor . O rosto duro do vendedor me lembra um naipe de contrabaixos tocando na região grave. Não espero que alguém entenda o que eu estou falando. Este momento não pertence ao mundo real. Fico alguns minutos fazendo longos círculos para poder pousar com suavidade em solo pedregoso.
     De volta ao carro retorno lentamente para a posição de decolagem. Um quarto de tanque evaporou nesta brincadeira. Recomeço de forma bem tranquila, quase em silêncio com “Hermitage” de Pat Metheny.  Logo depois “Focus II”, do Focus, tão gentil quanto um mousse de chocolate.  “Kathy's Song” de Paul Simon é uma sequência coerente, e depois “Guinevere”, de Crosby, Stills and Nash; “Ten year's gone”, do Led Zeppelin. “Tomorrow”, de Paul McCartney. “No backstage pass” do Caravan, “Fat old sun” do Pink Floyd, “The Lamia” do Genesis, “Riders on the storm” do Doors, “She's leaving home”, dos Beatles;”1974” do Terço, “Impressioni di Setembre” da Premiata Forneria Marconi, deixando uma pitada de sabor italiano nesta salada. Todas músicas tranquilas  Ah! E é claro “Autobahn” do Kraftwerk, os robôs teutônicos, parafraseando minha viagem.
   Quanto tempo poderia durar esta viagem? Quanta música poderia caber num só dia? Ou qual extensão do planeta poderia ser forrada com todas as partituras já escritas? Quanto dinheiro já foi gasto nesta indústria? Quanto prazer e quanta dor estão inseridos, misturados, derramados, depurados, injetados, devotados, enclausurados, declarados, ocultos, confessados, expelidos e expiados em entes incorpóreos, que só existem quando lhe damos ouvidos? Não pergunto para saber. Na verdade nem quero. Só quero seguir até o fim da vida dando ouvidos. E tendo ouvidos.
  “Achille's last stand”, uma apoteose de guitarras, a preferida de James Patrick Page. “Oh the sweet refrain, Soothes the soul, calms the pain; Oh Albion remains, sleeping now to rise again”. Minha temperatura sobe de novo. Ao ouvir bem de perto surge o fascínio de perceber a sutil arquitetura das várias camadas de guitarra sobrepostas. Um músico assume o papel de ourives, por vezes de garimpeiro, arquiteto,  em outros momentos é um tecelão de sons e não de linhas de tecido. Como Michael Oldfield em “Ommadawn” e em “Tubular Bells”, sozinho num estúdio, fazendo cantar os fantasmas dos druidas célticos. Ou Hermeto Paschoal, um mago moderno, figura branca e bizarra, quase etéreo vertido em pianos e chaleiras. Ele deve ser quase 100% só música. Miles Davis, Michel Legrand, Chic Corea, Duke Ellington, Bernard Herrmann, Nino Rota, Bernstein, Charles Mingus, Piazzola, George Martin,  Ravi Shankar, Fela Kuti, Vaughn-Willians, Fauré, Carl Orff, Camargo Guarnieri, Ernesto Nazareth, Muddy Waters, Django Rheinhardt, Les Paul, John Mayall, Prokofiev, Egberto Gismonti, Marvin Gaye, James Brown, Sam Cooke, Duane Allman, Peter Gabriel também são 100% música.

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   Apesar do Sol caminhar célere mas sereno, e por conta disto as horas avançarem, não sinto fome. Uma incomum saciedade me acompanha neste dia. A cidade sem fim ficou para trás, mas a mente em estado alterado se mantém. Sinto os dedos gelados, não sei se por causa do ar condicionado ou do êxtase.
       A paisagem já mudou bastante, agora com várias propriedades rurais que se sucedem. Uma visão bucólica  em contraponto à feição urbana de grande parte das estradas que penetram profundamente no corpo imenso das megalópolis. “Música urbana”,” Babylon by bus” e a meiga ironia de “Nothing but flowers” do Talking Heads, onde David Byrne canta de forma invertida a nostalgia de um observador saudoso da paisagem urbana num mundo dominado pela natureza revirginada. O  mundo não pode escapar das megacidades. Alguns dizem que elas são a solução para o sociedade moderna e futura. Quem sou eu para negar esta afirmação, eu que nasci na metrópole, mesmo que tenha sido em sua periferia ?.
    A tarde chega e é o momento calmo antes da tempestade, antes das resoluções do dia, dos fechamentos de negócios. O Sol já se inclina cortejando o Oeste, olhando já de esguelha para o mundo que corre desesperado. Hora de aumentar o volume para espantar o sono que se insinua. Estou bem longe de casa, já é hora de retornar. “Red House”, de Jimi Hendrix, versão “Hendrix in the West”. Creio que a melhor, se não uma das melhores performances de guitarra já materializadas neste mundo ingrato. Onde está Hendrix hoje? Quem foi Hendrix?, podem perguntar estas infindáveis legiões nascidas na Era da Informação, que plugam guitarras de brinquedo em vídeo games. Ele o mago, a ponte entre o ruído e a música, entre o caos e a harmonia, abruptamente retirado de nosso convívio. Onde andará  Jimi Hendrix?
     “Jumpin' Jack Flash, it's a gas, gas, gas”, outro riff imortal do pirata-da-perna-de-pau Keith Richards. Um sobrevivente. Esta geração aos poucos vai partindo, pois nosso tempo de vôo é muito curto. Richard Wright, Lou Reed, George Harrison, Jon Lord, Syd Barret, John Entwistle, Raul Seixas, Joey Ramone, Marvin Gaye, Miles Davis e James Brown velam por nós.  Então, como um réquiem para estes mortos ilustres, eu vou de “Baba O'Riley”, The Who. Outro riff poderoso. “Don't cry, don't raise your eyes, it's only teenage wasteland”; “Não chore mais” enxertada na ponte. Gil, Towshend e Marley de comum acordo. Não chore mais, pois a terra devastada da adolescência não pode virar a terra estéril da maturidade. A terra abençoada da adolescência é a matriz de nossa alegria perpétua, a colheita feliz na maturidade. Quem, como eu, cresceu nutrido e embebido em tão  saborosa fonte não tem motivos para se lamentar, só para celebrar.
   Na  faixa da direita, atrás de um ônibus de excursão, começou a tocar “Jokerman” de Bob Dylan, seguida de “The times they are a-changin”. É verdade, os tempos estão sempre a mudar. E como mudaram! “Changes” de David Bowie, veio corroborar esta afirmativa. Ele o camaleão, sempre trocando peles e estilos. Pedras que rolam não criam limo, não é verdade? Caetano também, velho mas novo ao mesmo tempo. Toquei “O estrangeiro”, “Língua” , “Eu sou neguinha” e “ O quereres”, obra-prima. “Ah bruta flor do querer, ah bruta flor! “Seu olhar” do Gil, vou ouvir até morrer: “eu quisera ter tantos anos-luz quantos fosse precisar, prá cruzar o túnel do tempo e do seu olhar”.
    Acelero. Os contornos da cidade já se avolumam no horizonte. O ar mais denso, o ruído crescente, o volume de tráfego, os carros novos, os carros mal conservados, os ônibus já cheios, saída de escola, final de turno de trabalho, pessoas cruzando as passarelas. As nuvens dançam e deslizam no céu ainda azul, mas que vai enegrecendo, repelindo o Sol que se afasta mais e mais. O crepúsculo logo chega, é a hora da reflexão, das sombras longas, do medo atávico da noite.
   Eu gosto demais de “Deacon blues”, do Steely Dan. Me dá um nó na garganta quando Donald Fagem canta : “I cried when I wrote this song, sue me if I play too long. This brother is free, I be where I want to be” e o refrão “ I learn to work the saxophone, and I play just what I fell; drink scotch whisky all night long and die behind the wheels: they got a name for the winners in the world, I want a name when I lose. They call Alabama the crimson tide. Call me Deacon blues”. Fagen e Becker, uma das melhores duplas na música. Mas me enche de melancolia também. Desligo o som por uns instantes. O dia se foi, a noite chega
    Chegou a hora , chegou quem estava faltando: Frank Vincent Zappa, uma escola inteira de música. “Black Napkins” e seu lancinante solo de guitarra. “The black page”, uma estrutura inusitada e vertiginosa construída sobre um solo de bateria. Coisa para gente grande tocar. Quase uma outra dimensão. “Zombie Whoof”, com suas idas e vindas, uma pulsação quase hipnótica e muito carnívora. “Don't mess with the zombie whoof”, canta o coro feminino quase no final. Mais um pouco e eu me transformaria no monstro. Depois “Don't eat the yellow snow”, “Illinois enema bandit”, “City of tiny lights”, “Montana”, “We're turning again”, “Uncle remus”, “Andy””Cosmic debris”, “Sofa”, “Wild love”, “Be bop tango”, “Evil prince”, “Caroline hardcore ecstasy”, “The torture never stops”, “The idiot bastard son”, “Jesus thinks you're a jerk”, “Peaches in regalia” e muito, muito mais. Zappa foi único, um sistema solar dentro de si mesmo, criador de música para sonhadores em ambiente hostil.

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       Meu objetivo foi alcançado. Este dia foi singular. Uma viagem musical, uma viagem dentro de uma viagem. Uma homenagem. Meu tanque abaixo de um quarto me faz voltar ao mundo real, as luzes dos freios piscam incessantemente, as setas como vaga-lumes nesta floresta  móvel. Um dia comum para a larga maioria dos motoristas que comigo dividem o asfalto. Tal qual o refluxo de uma grande maré os automóveis e seus ocupantes voltam para suas garagens e casas. Amanhã tudo de novo, a vida segue seu roteiro.
     Estaciono meu carro e fico por longos minutos em silêncio. O silêncio, este estado de perfeita harmonia, o desafio permanente dos compositores, tão precioso quanto raro. Quem precisa de música nestes instantes?

                                                         
                                                                            Ivan Henrique Roberto
                                                                                abril de 2014