A
cerimônia
Ivan Henrique Roberto
_agosto/setembro
2014
O relógio desperta pontualmente às sete
horas da manhã, com uma música pré-fabricada feita sob medida para não provocar
sobressaltos no sujeito profundamente abraçado em seus travesseiros. Cinco
minutos mais tarde, sem um pingo de clemência, o mesmo despertador dá por
encerrado o período de repouso deste mesmo sujeito vestido em pijamas
discretos. É hora de levantar, é mais um dia de trabalho, e o trabalho enobrece
o homem como dizem, embora há quem discorde.
Meia hora mais tarde e já desperto,
Oliveira traja-se de forma neutra para exercer suas funções na Companhia de
Seguros Praetorius. A mesma rotina dos últimos oito anos, mesmo nas férias e
feriados. Esta rotina é um ponto de apoio seguro e um fio condutor que pauta a
vida deste indivíduo controlado,
previsível, metódico e cético, principalmente cético. A sua religião é a
normalidade. Ele não acredita em milagres nem no sobrenatural, só acredita no
que vê e sente com seus sentidos limitados. Uma imersão na pia de São Tomé foi
seu batismo, e sua primeira comunhão foi no catecismo de René Descartes. O céu
é de onde vem a chuva e a estrada dos aviões, helicópteros e pássaros, tão
somente. E nuvens, que passam e ele não vê, pois não acha graça. Eis o homem.
Mas ele nunca fez mal a ninguém, é um sujeito educado, correto, honesto e
eficiente em seu trabalho, paga seus impostos em dia e pouquíssimas multas de
trânsito maculam seu histórico. Às vezes até ri e faz alguma brincadeira, mas
nunca lhe ofereçam um drinque. Ele odeia álcool. E odeia qualquer coisa que o
aparte de sua consciência e que impeçam seu contato com o presente
Não que seja do interesse de alguém,
talvez sim em função desta história, mas nunca como fofoca ou motivo para
denegrir sua imagem, o que se sabe é que, quando criança, uma certa ocasião num
réveillon, tendo chegado muito cedo na praia, ele resolveu caminhar um pouco
sozinho, sem seus pais ou sua irmã, só para observar o movimento naquele dia
tão festivo, com fogos já espocando e prédios iluminados e enfeitados à espera
do ano novo. Na orla, como é costume nesta cidade onde a tolerância religiosa é
a regra, muitos grupos que praticam cultos afro-brasileiros fazem seus rituais
mais cedo, antes que a multidão seja tamanha que não sobre mais espaço para
expressar sua fé. O menino então, ainda deslumbrado por todas aquelas luzes e
sons, foi atraído por um estranho espetáculo feito por um grupo de pessoas
vestidas de branco e cheias de adereços, e homens que tocavam tambores e outros
instrumentos de percussão. O som em primeiro lugar foi a isca, foi o imã que
puxou a atenção do menino. Um som profundo, ritmado, colorido, em tons que
combinavam com o branco das vestes e com os demais adereços de braços, pernas e
cabeças daquelas pessoas que ele nunca havia visto, e nem sabia da existência.
Ao chegar mais próximo ele distinguiu cantos em uma língua desconhecida, e
percebeu que parte das pessoas dançavam e giravam, algumas sacudiam a cabeça. Durante
algum tempo ele ficou parado, somente olhando intrigado e curioso, pois
curiosas são as crianças de um modo geral. Em determinado momento algumas das
pessoas abriram caminho e uma mulher negra, já idosa, começou a se contorcer e
revirar os olhos. Grunhindo sons ininteligíveis ela se atirou ao chão e se
debatia de forma incontrolável. Aquela visão foi um choque para o menino. As
demais pessoas continuavam procedendo da mesma forma que estavam até então, os
mesmos cânticos, a mesma dança, só o som dos tambores aumentara de intensidade.
A negra idosa começou a dar saltos com um vigor impensado para alguém desta
idade. Ela fazia movimentos acrobáticos e se atirava ao chão sem parecer sentir
qualquer dor ou desconforto. E então começou a falar alguma coisa que o menino
não conseguia entender, entremeado com gargalhadas pavorosas, no entender de
uma criança. O chão parecia ceder aos pés do garoto. Ele não tinha ideia do
tempo decorrido neste espetáculo, e os sons ritmados e intensos da percussão
junto à cantoria e a multidão que dançava e gritava ao redor da idosa
transtornada começaram a mudar a curiosidade e o fascínio do garoto para um
temor crescente.
De repente aquela figura de avó de
momentos atrás se transformara em um ser assustador, que se voltara e encarava
fixamente o menino assustado. Os olhos traziam um brilho estranho, e ela
ao olhar para o garoto parecia não olhar
para nada, ao mesmo tempo. Começou a chamá-lo com uma voz horrível, sorrindo e
em seguida gargalhando a todo volume. Em seguida o olhar mudava de novo e agora
parecia um olhar suave e caloroso de uma avó de verdade, o que ela parecia ser
de fato. No instante seguinte voltava o ser pavoroso que cuspia e gritava,
agora sem dar atenção ao pobre garoto assustado. As pessoas ao redor fechavam
um círculo em torno da mulher, que agora parecia chorar e balbuciava como uma
criança. Uma mão forte agarrara o braço do menino. Ele quase pulou no susto.
Era seu pai que já o procurava, preocupado.
“Ei, você quer me matar de susto ?! Como é
que some assim sem me avisar? E ainda mais no meio desses macumbeiros !!!”
Depois disto a festa da passagem de ano perdera a graça para o pobre menino. Na
volta para casa, em silêncio no carro do pai, ele ficou matutando o que
significava a palavra “macumbeiros”, que seu pai havia dito com notável sentido
de coisa ruim e pecaminosa. No entanto não tivera coragem de perguntar ao pai
ou a mãe o que era aquilo tudo que havia visto, e guardou para si aquele
momento e aquela figura assustadora que o olhara fixamente.
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2 comentários:
É isso aí, meu caro Ivan. Continue dando vazão a essa sua veia literária nos contando boas histórias. Estarei aguardo os próximos capítulos. Grande abraço.
Meu caro amigo Sávio, obrigado. Isto é só o começo. Espero que acompanhe e, principalmente, goste. Comentários serão muito benvindos. Tenho material para uns dois meses de postagens. Enquanto isso sigo escrevendo. Estou escrevendo um conto meio futurista, meio pessimista, num mundo distópico (agora usam muito este termo) prestes a entrar em guerra. Grande abraço.
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